ZUMBIA: Assinatura Imortal

Em 2020 Zumbia era um parque aquático que pareceu surgir do nada, em plena situação de crise mundial, quando todos os olhos estavam voltados para o Coronavírus.

Rogério Amaral de Vasconcellos –


Introdução

Se você ouvir uma mesma história, contada da mesma forma, por muito tempo, terá certeza que é falsa.

A História.

Ela não é singular, não responde por uma única fonte, nem é veiculada igual, com os mesmos personagens e situações. As variações cumprem a essência do feito e do fato, pois nunca uma obra se reduz a uma única coisa, derivando em infindáveis interpretações, tão verdadeiras e falsas quanto necessárias.

A semente da especulação determina isso.

Ela funda suas raízes torcidas em terreno movediço, constituindo uma disciplina na fronteira entre a certeza e a dúvida.

Tudo depende de várias óticas, em especial a dos vencidos e vencedores.

Para piorar, o tempo se encarrega de deturpar tudo, de embaralhar os dados, onde conhecimento e ilusão digladiam, lado a lado, contra um inimigo comum: o esquecimento. Quando ele entra, a ciência sai pela tangente, prometendo voltar, mas nunca ao ponto original, origem das controvérsias. A tangente é sábia. Ela evita conflito. Por isso não se extinguirá jamais.

Para dar certa ilusão de uniformidade a humanidade criou os livros em suas inúmeras variações, cuja amostra você está lendo agora.

Nem peço perdão aos estudiosos, pois a culpa encampa justamente em nós, os relatores. Somos os responsáveis por, senão narrar “os fatos”, compilar os dados que outros narraram, daí resulta o que vou contar abaixo, embora com poucas palavras, só para atiçar sua vontade em descobrir outras versões.

É, graças a ela, que estou aqui para introduzir o assunto que norteia minha vida. Uma que se desdobra em outras vidas

I

- Há 40 anos -

Em 2020 Zumbia era um parque aquático que pareceu surgir do nada, em plena situação de crise mundial, quando todos os olhos estavam voltados para o Coronavírus.

Nada estranho nisso, afora a pandemia, se não fosse sua localização, a norte de Cabrobó, Microrregião de Petrolina, bem depois das valas esquecidas e ativadas do rio de concreto da transposição do Velho Chico, no interior de Pernambuco.

Um parque no semiárido onde o complemento “aquático” era tabu para os incrédulos, heresia para os crentes (que se benziam quando alguém vinha cuspir o inevitável mantra euclidiano “o sertão virou mar”) e quase um conto do vigário para a maioria.

Haja vista o lugar, que tem no nome ── Cabrobó ── de herança idiomática indígena, algo que relaciona às poucas árvores retorcidas e decrépitas tomadas por urubus, esperando o banquete tontear para dilapidar-lhes a carne, os despojos.

── Êta animal agourento! ── viviam me dizendo, apontando os carniceiros planando, como se eles não fossem responsáveis por minimizar a quantidade de antraz, cólera e toxinas botulínicas nas carcaças que devoravam.

Quando estou de bom humor eu apenas rio. O urubu que eles enxergam diverge da enorme logo do parque, onde ele traja sunga, segura um coquetel de tiquira com dois chapeuzinhos de palma (a base de mandioca com folhas de tangerina) e chupa um picolé de pequi, esparramado em rede de tucum com fibras de carnaúba ao pôr do sol.

É assim que me vingo daqueles que enxergam no deserto a última opção na edificação de qualquer coisa. Afinal, os desertos foram às primeiras regiões sobre os quais os maiores impérios, as majestosas civilizações hidráulicas (como Egito, Palestina e Mesopotâmia), foram erguidas!

Talvez o problema esteja no nome: se é deserto, não é lógico por um jardim nele.

O contraste entre o lugar onde nada deveria viver e o parque aquático paradisíaco mostra que Zumbia tem vocação para muito mais do que é anunciado nos folhetos turísticos.

II

- Há 30 anos -

A razão de ser deste lado do Atlântico, no Brasil, ecoava o que se passava no lar de meus ancestrais. Nos genes de milhões de brasileiros a dupla hélice de nossas bases nitrogenadas vibrava respondendo ao batuque de tambores africanos.

Querendo ou não, mesmos brancos, azuis, amarelos, vermelhos, somos todos mestiços e a África está entranhada na formação da raça humana na alvorada do mundo. Qualquer tipo de supremacista será erradicado por falta de membros. Ou vicejará, tomado por hipócritas.

Muitos ainda pensam no império que Zumbia se tornou, onde eu vivo uma existência transitória material na chamada “assinatura imortal” quando os indivíduos perdem a identidade e são digitalizados, podendo viver como hologramas e avatares, “acoplados” a qualquer servidor.

Por enquanto, aqui no passado, quando ainda envergo um ser carnal, Zumbia não nasceu. Deve sua pretensa origem graças a “um gato” que desviou a água do São Francisco em algum ponto antes da Estação de Bombeamento II, em Terra Nova ou do próprio Jaguaribe...

As águas captadas pelo parque aquático primordial (e a cidade projetada criada ao longo daquela década de existência experimental) não vinham nem de qualquer lençol freático. Ao menos nenhum naquele tempo. Se muitos afirmam que águas passadas não movem moinho, teriam de rever a frase no contexto do lago exumado, em Cabrobó, criado por uma colisão de um meteoro há doze milhões de anos e que “desapareceu” no século XII. Mas essa história eu não vou contar “nesta reencarnação”.

Voltando a outra margem do Atlântico, acreditem, há uma passagem tempo dimensional entre o interior nordestino do Brasil e os montes Ruwenzori, na África Central. Algo milenar que conectava dois continentes como se estivessem separados por uma porta e não por oito mil quilômetros.

Do desertificado e árido sertão pernambucano às opulentas e diversificadas elevações africanas (conhecidas graças a Ptolomeu por Selenes oros) das Montanhas da Lua. Patrimônio da humanidade com quase mil quilômetros de extensão, na fronteira dos parques florestais que ligavam Uganda e Congo.

Foi a partir de Ruwenzori, em um de seus picos intermediários, que tudo começou.

III

- Há 20 anos -

Zumbia dispunha de sistema paralelo de esgotamento sanitário, efeito colateral da transposição do Chico.

Além de se tornar polo turístico o parque expandia sua crescente gama de serviços, obrigando a contratação de funcionários e gerando milhares de empregos indiretos. Por isso, ao realizar a expansão em 2024, quando a única pandemia no mundo era de pessoas buscando calma e tranquilidade, Zumbia lançou as fundações planejadas para se tornar uma cidade futurista, mas integrada ao bioma nordestino.

Além do parque aquático, uma vila agrícola, um centro político-administrativo, um núcleo esportivo e de entretenimento, um parque científico-tecnológico de excelência mundial (onde um apêndice abrigava o centro educacional unificado) e a Ordem dos Templos (espaço ecumênico para todas as crenças, inclusive as emergentes). Na parte externa, nove cidades dormitórios satélites desenhavam os contornos da cidade que crescia a olhos vistos. Na orla de tudo isso, do outro lado da estrada e os canais, ficava o cinturão verde. O contato com o aeroporto de Viajantes e as balsas era feito por acesso subterrâneo.

Essas áreas verdes, que chamávamos de ilhas, contrastavam com os umbuzeiros pelados que se viam ao largo.

Meu plano funcionava, mas precisei ignorar a mídia que me chamava de vigarista, visionário, louco, messias de uma seita, até mesmo bolsonarista.

Será que caberia aqui um sinal da cruz?

A mídia realmente comete as maiores barbaridades com rótulos. Muitos políticos e militares fazem a festa sob os holofotes da estupidez, assim como baratas buscando as frestas para procriarem.

Por isso eu tinha fortes concorrentes para dividir o espaço nos noticiários.

Depois do lugar da transposição litigiosa ganhar as manchetes por se tornar também o polígono da maconha, conquistei meus fiéis seguidores. Eles se encarregaram de me viralizar... Outra expressão que, depois da Covid-19, ninguém dizia impunemente.

Era a vez de um maluco (eu) encasquetar transformar o sertão em piscinão. Trazer a água do açude mais próximo, distantes quilômetros de Zumbia (ou 500 km, se contar até a costa do Atlântico, a leste), prometendo água salgada ── e ondas ── para os turistas surfarem e fazerem farofa na areia de Nova Ondina.

“Como deixa a entender”, diz a Rádio Cabrobó, “é só uma das esquisitices de Diego Pamplona, notório, ano passado, por lançar o movimento Kalango, vidas sertanejas importam”.

Só para constar, Diego Norato Pamplona Gerundes corresponde ao meu registro civil. Mas passei a assumir o nome Omolu D’rac Etebe, orientado por meu guia espiritual para esta missão.

IV

- Há 60 anos -

Como explicar que um gorila nkuringo de Kampala, de dorso prateado, chipado pelo controle de zoonoses no parque da Unesco de Bwindi ── área com 320 km2 de floresta tropical, na fronteira do Congo ── , surgiu revirando o lixo de Alto do Cancão, próximo à prefeitura, quando Zumbia nem existia?

Foi por esse motivo, acelerado por um sonho, assombrado por “visões do futuro” ou outra realidade, que fiquei sobressaltado ao ler a notícia na Ponte Aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro. Essa novidade “chip” eu descobri bem depois ao ter acesso ao laudo secreto da autópsia dez anos depois. Não era uma tecnologia difundida, muito menos a extração de dados que se fez deles, que acabou acarretando a morte do animal.

De alguma forma eu soube onde foi desovado e recuperei a ossada do primata. Empreguei quase todos os meus recursos para rastrear sua origem, visitando duas vezes a África e ir até o fundo do mistério. Este me levou ao lago exumado, aqui em Cabrobó. O que, literalmente, abriu as portas para a transposição das águas pelo portal dimensional...

Nkuringo, em Uganda, além de dar nome à família a qual pertencia o gorila, significava “monte redondo”. Aliás, redondo como o “lago exumado”, encontrado no sertão, que os pesquisadores afirmavam ter desaparecido como porção de água aparente há mais de mil anos.

Mas não é isso que eu quero dizer.

A tecnologia do chip e tudo o mais que vi nas fotos e nas ossadas, não indicavam o parque Bwindi como procedência. Não o Bwindi que visitei. Tratava-se de algo mais sofisticado e futurista. Ou seja, devia vir de uma África distante, mas não àquela onde estive.

Do tamanho de um grão de milho, porém cilíndrico, se não fosse o microchip no dorso entre as escápulas e a área raspada na nuca com QR Code tratado para brilhar no escuro que conferia nome e atualizava tudo sobre o espécime (seguindo a tendência de anilhamento digital subcutâneo iniciada em Maputo, capital moçambicana), poder-se-ia pensar que Sjiri ── ​​ o nome do costa-prateada ── ​​ poderia ter fugido de algum criadouro clandestino na distante Sucuri do Matto Alto, a mais próxima povoação com primatas no cerrado alagoano.  

V

- Há 50 anos -

No meio da década de 2010 eu já vislumbrava a verdade. Uma parte insignificante dela.

Glaucia, no Centro de Controle de Zoonoses de Petrolina, foi, de forma insuspeita, incidentalmente, introduzida em minha busca pela verdade. Uma década depois do incidente com o primata, a amazonense recebeu a amostra de tecido capsular com o transponder extraído do gorila. A cápsula, vulgar, em biovidro, usava a mesma tecnologia dos marca-passos.

Removendo com uma pinça apropriada sob a lamínula, foi possível liberá-lo da substância viscosa de Parylene, um polímero que tinha a função de encapsulamento externo, evitando a migração do transponder após a implantação da qual não suspeitava.

Depois a bióloga checou a transmissão de dados por WiFi e notou que o último registro de Sjiri indicava check-up funcional, atualizado na caderneta de vacinação dele.

Nesse momento, além do dever funcional de encontrar respostas às questões básicas de saúde, o que deveria ser uma análise simples, dando rastreabilidade a fim de definir a origem do animal, esbarrou em uma observação notável. Eu estive lá e por isso não duvidei.

Uma das vacinas, além de imunização contra o Ebola, com data de aplicação feita há doze anos, era justamente um patógeno que indicava prescrição contra a chamada Covid-B6...

Fui pesquisar.

Em 2015 o Sars-CoV-2 circulava latente, ainda sem o agente infeccioso humano que chacinaria o mundo como 2019-nCov, já contabilizava muitas vítimas no surto de 2002, se alastrando por doze países.

Até ser detido.

VI

- Há 45 anos -

Prova de que, como todo mundo, falhei como homem, foi me tornar um velho amargurado. E drogado.

Concluí que o gorila seria um mistério insolúvel, até que, na orla daquele que passei a chamar de Lago das Almas, sob o céu implacável do sertão, quase cinco anos depois de Gláucia me deixar, um índio relatou algo curioso. Algo que me tirou do vício onde me afundava cada vez mais, passando a viver em uma choupana, na ilha da Assunção, em uma das curvas do São Francisco.

Quando pude me livrar dos efeitos alucinógenos da changa, aquela erva com “blend” extraído de folhas da jurema, descobri que a verdade veio até mim por conta própria. Talvez nem toda droga tenha se dissipado quando concluí isso...

Já me sentindo quase um truká, sendo adotado pelo povo da aldeia como um “andante”, percebi o muito que a cultura negra “de raiz” tinha similaridade com os costumes dali. Eles também nomeavam entidades ancestrais, as quais chamavam de Encantados.

Comendo com a mão enfiada numa cuia cheia de arroz, xiquexique assado e um pedaço de jacaré no bucho, com o suco de quixaba ainda escorrendo pelo pescoço, sujando minha barba branca de azul, segui o insistente índio na boleia de um velho caminhão.

Depois de três horas e muitos cochilos, cheguei a uma depressão enorme e perfeitamente circular na caatinga, o terreno rachado com vários umbuzeiros raquíticos na orla e uma bizarra formação rochosa no centro, como duas corcovas dissimétricas.

Não parecia haver local mais desolado ── ​​ e seco ── ​​ na face da terra. Nada verde, nem mesmo um calango-do-sertão ou cacto em flor, para mudar a cor da paisagem ocre, em especial a área da depressão. Um vento sem origem e fim formava vários vórtices de poeira que sumiam e assoviavam entre as rachaduras.

A pedra torta (mas extraordinariamente lisa) parecia um porco com a cabeça decepada, havendo uma fenda entre as duas partes, para onde arrastei minhas sandálias até o índio me mostrar algo.

── Só milho, Omolu! ── o índio falou, exibindo as gengivas, incentivando minha aproximação emperrada pelas juntas comprometidas.

Os trukás tinham aquela curiosa expressão que usavam em vez de dizer tudo bem. Só milho personaliza a satisfação. E tinha razão de ser!

Aos pés dele, se projetando da fenda da rocha, conferi aquilo que apontava: envolvido por uma rede puída, um ramo de cafeeiro, lobélias e meio cacho de matokes, nada esturricados pelo sol.

Incontestável.

Ao índio toda aquela explosão das cerejas vermelhas do café, o azul profundo das flores e o verde das bananas que ele nunca vira na vida despertaram a curiosidade, algo que eu espalhei aos quatro ventos que recompensaria por informações.

Para mim, além do gorila, que deve ter se servido da passagem, reconheci naquele lugar uma ligação com a zona de charneca afro-alpina de Ruwenzori, de onde procediam todas aquelas coisas.

Mas um lugar que não provém desta dimensão ou tempo.

Agora eu tinha como construir Zumbia e o sonho se tornaria realidade…

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Rogério Amaral de Vasconcellosatuou como tutor em oficina literária, editor, pesquisador literário, criador e coordenador do Grupo SLEV de escrita coletiva, com cerca de 30 livros publicados. ​​ Em 2018 ganhou o 2° lugar no Concurso da Academia Friburguense de Letras. Em 2020 foi finalista no Concurso da Universidade de Salamanca e do Prêmio ABIPTI de Literatura.


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5 thoughts on “ZUMBIA: Assinatura Imortal

  • 04/04/2021 em 12:03
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    Acabei de ler o conto. Muito atual. Ele tem uma mensagem especial que nos faz refletir sobre o nosso mundo de possibilidades.

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  • 04/04/2021 em 12:10
    Permalink

    Grande verborragia do seu texto, mestre…
    Abraço.

    Resposta
  • 04/04/2021 em 12:12
    Permalink

    Ótimo humor reflexivo, Rogério, parabéns! Realmente estamos em meio a esses conflitos psicológicos. Isso tudo é uma grande ilusão. Zumbia é uma grande ilusão.

    Resposta
  • 04/04/2021 em 19:00
    Permalink

    Este conto faz parte de um série? Parece que ficou faltando uma continuação. Mas eu gostei do texto. Abraços e saudação para a nova Scarium.

    Resposta
    • 04/04/2021 em 21:55
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      Talvez sob um enfoque diferente, Júlio. A história foi feita para apresentar um novo universo.

      Resposta

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