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Um Pequeno Resgate da História da Ficção Científica Brasileira

“No final da década de 90 houve um movimento muito intenso em direção à nova mídia que surgia: a Internet, ou mais precisamente, a parte gráfica da rede chamada de ‘World Wide Web’, fazendo surgir os chamados ‘webzines'”

Marco Bourguignon

Obs: Este texto foi atualizado em 04/04/2021, mas os links antigos permaneceram como fonte de informação e referência histórica. Muito destes links já estão desativados, caso desejem acessá-los indico uma busca na internet, pois muitos grupos e sites foram atualizados e estão atuantes até hoje, como o caso do CLFC.

[F]oi com o paulista Jeronymo Monteiro (1908-1970) que a “ficção científica brasileira” passou a existir como universo literário à parte da literatura, criando regras e métodos próprios, além de formar um público específico. Em 1947, Monteiro publicou, “Três Meses no Século 81” e, em 1948, “A Cidade Perdida“. Antes disso, até o final da década de 30, não existia no Brasil um movimento literário em prol da ficção científica, envolvendo escritores e leitores. Antes havia surgido alguns textos casuais de autores da literatura, como: Gastão Cruls, Menotti del Picchia, Érico Veríssimo, Adazira Bittencourt e Monteiro Lobato. Mas ainda não havia uma tradição literária em ficção científica. Eram apenas ambientados em universos remotos habitados por seres fantásticos além, é claro, de ambientes utópicos e de aventuras.

Jeronymo Monteiro travava uma batalha em várias frentes da literatura popular: seriados para rádios, novelas policiais e histórias infantis. Em 1964, fundou a “Sociedade Brasileira de Ficção Científica” e nos últimos anos de sua vida foi editor do “Magazine de Ficção Científica” (edição brasileira da conceituada revista estadunidense “The Magazine of Fantasy and Science Fiction“). Seu primeiro sucesso foi “Aventura de Dick Peter“, uma série de livros baseados em um dos seus seriados de rádio, eram histórias sobre um detetive novaiorquino. A partir de 1947, Monteiro publicou uma série de romances de FC, editou uma antologia: “O Conto Fantástico”, Civilização Brasileira, 1959 e manteve por muito tempo uma coluna crítica sobre Ficção Científica no jornal “A Tribuna“, de Santos (SP).

Berílio Neves (1901-1974) também foi um dos percursores da Ficção Científica na década de 30. Neves escreveu historietas futuristas de grande sucesso de público e crítica. Foram mais de quarenta contos. Seu primeiro livro foi “No país das fadas” (1930). Seus contos foram reunidos em dois volumes: “A Costela de Adão“(1932) e “Século XXI“(1934).

No início da década de 60, houve um surto brasileiro de literatura de ficção científica. Essa fase áurea foi provocada pelo entusiasmo de um grupo de autores e editores que, como Jeronymo Monteiro, tinham consciência de um grande mercado literário de revistas baratas nos EUA (os “pulp magazines”) e que, aos poucos, foram abrindo lugar para revistas mais sofisticadas.

No Brasil, os editores Gumercindo Rocha Dórea, na Editora GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart, lançaram três antologias de Ficção Científica que reuniram nomes consagrados da literatura nacional ao lado de novos autores. Um marco importante para a literatura de ficção científica. Depois dessas antologias seguiram-se vários romances e coletâneas de contos. Podemos citar autores como: André Carneiro, Rubens Teixeira Scavone, Dinah Silveira de Queiroz, Nilson Martello, Levy Menezes, Guido Wilmar Sassi. Esses autores passaram a ser conhecidos como “geração GRD” e demonstravam consciência de pertencerem a um movimento de qualidade literária.

André Carneiro foi o autor do primeiro livro de reflexão crítica sobre a ficção científica: “Introdução ao Estudo da Science Fiction” (São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1968, 142 p.). Carneiro escreveu um balanço sobre o gênero, desde a sua origem até as obras dos autores dos anos 60. Abordando não só a literatura como o cinema. Mostrou também a importância do mercado editorial das revistas estadunidenses.

Carneiro não foi o primeiro a fazer ensaios e artigos críticos sobre a ficção científica no Brasil. Fausto Cunha publicou na imprensa artigos e ensaios sobre a ficção científica, que não foram reunidos em livros, englobando três décadas. Em “A Luta Literária” (Rio de Janeiro, Lidador, 1964, 212 p.), escreveu sobre Jorge Luis Borges, H.G. Wells, Karel Capek e H. P. Lovecraft.

Jorge Luiz Calife surgiu com um dos primeiros trabalhos de “Ficção Científica Hard“, a trilogia “Padrões de Contato“. Até então, havia na literatura de ficção científica uma mistura de elementos fantásticos. Calife trabalhou nos aspectos e encantamentos dos jargões científicos, traduzindo-os para o gênero no cenário brasileiro.

Na década de 80, duas novidades agitaram a produção da Ficção Científica brasileira; o aparecimento do “CLFC”‘ (Clube de Leitores de Ficção Científica), fundado por Roberto César do Nascimento (R.C. Nascimento, 1985), em São Paulo, e de diversos grupos de fãs, denominado “fandom”, nos moldes estadunidenses e europeus. Esse movimento de fãs foi o pilar para enraizar a presença do gênero em suas diversas manifestações no cenário brasileiro, editando revistas, livros e fanzines, além de criarem prêmios e concursos (Nova, Argos, entre outros).

Com o surgimento da Revista Isaac Asimov Magazine, temos uma nova geração contemporânea, que entra pelos anos 90, chamada de “Geração IAM”. Podemos citar o escritor Bráulio Tavares como um dos mais significativos desta geração, apesar de ter começado a escrever muito antes desta publicação.

No final da década de 90 houve um movimento muito intenso em direção à nova mídia que surgia: a Internet, ou mais precisamente, a parte gráfica da rede chamada de “World Wide Web”, fazendo surgir os chamados “webzines”, como:

FC Brasil” em  – “www.elogica.com.br/users/carloss/”,
FC On Line” – “www.fconline.net/”,
Matrix” – “www.ficcao.matrix.com.br”/,
Frota On Line” – “www.geocities.com/SoHo/Cafe/6558/”,
Banana Atômica” – “www.geocities.com/Area51/Corridor/5694”
“Odisséia”  – “www.angelfire.com/sc/odisseia/”

Muitos dos fanzines tradicionais e revistas migraram para a nova mídia, como exemplo o premiado “Magalom“, mas que foram aos poucos desaparecendo e deixando de serem atualizados (o “Megalom” permaneceu apenas como “fanzine“). Como muitas inovações nesse novo meio, não ultrapassaram o “boom” da Internet.

Já no início do novo século, com o surgimento dos “blogs”, os zines na Internet ganharam um novo impulso, mas a grande maioria apenas para abrigar obras de autores e poucos tentando abranger a Ficção Científica no geral.

As listas de discussões, os famosos “e-groups”, também ganharam um impulso importante para reunirem leitores e autores, facilitando os encontros, e diminuindo as distâncias geográficas.  As listas tornaram-se importantes canais de comunicação para os clubes e diversos projetos literários, como:

CLFC – http://br.groups.yahoo.com/group/lista-do-clfc/

Esta é uma lista patrocinada pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Aqui se discute a ficção fantástica em geral.

Oficina de Escritores – http://br.groups.yahoo.com/group/listaoficina/

O objetivo desta lista é  aprimorar a habilidade de escrever contos de Fantasia, Ficção Científica, Mistério e Terror, através do intercâmbio de contos e críticas. 

Slev – http://br.groups.yahoo.com/group/slev3/

Mantido por Rogério Amaral de Vasconcellos tem o objetivo de criarem a arte fantástica baseado no universo de Histórias Alternativas.

Intempol – http://br.groups.yahoo.com/group/intempol2/

Lista de ficção científica baseada em viagens temporais.

Simetria – http://groups.yahoo.com/group/Simetria/

Lista mantida pela Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico. Discute-se Ficção Científica e Fantástico, além de Projetos, Ideias e atividades da Simetria

Projetos como Intempol (gerenciado por Octávio Aragão) e Slev (gerenciado por Rogério Amaral de Vasconcellos) traz uma nova luz à Ficção Científica Brasileira.

A Intempol  se iniciou com uma antologia editada pela “Ano Luz” em 2000 e cresceu gerindo HQs, RPGs e diversos outros contos sobre viagens temporais. Não podemos negar a grande contribuição que o projeto trouxe a Ficção Científica contemporânea. “Uma patrulha do tempo com grandes doses do jeito brasileiro, caça os viajantes do tempo que tentam alterar a história, mas nem sempre as coisas saem como planejado…

A Slev foi iniciada na Oficina de Escritores e depois tornou-se independente, criando um site e uma lista própria para abrigar todo o projeto (www.slev.cbj.net). A Slev também geriu uma antologia, “Idade da Decadência: Inferno em Khallah” pela “Editora Mitsukai” em 2001.  Em sua versão 3 está trabalhando num projeto de “História Alternativa”.  A Slev funciona como um jogo de RPG Literário, onde cada autor constrói seus contos baseados em um universo já pré-determinado e seguem regras rígidas para a sua  elaboração.  Os contos são julgados pelos participantes e classificados. Ganha o autor que mais pontuar.

Bibliografia consultada:

CAUSO, Roberto de Sousa. Berílio Neves e a Mulher Obsoleta, in: Papêra Uirandê Especial 8, novembro e dezembro de 2002.

MEDEIROS, Ruby Felisbino. Índice de contos de ficção científica e fantástico. Porto Alegre, Laboratório-Escola de Ficção científica Robert A. Heinlein, 1999.

NASCIMENTO, R. C. A coleção argonauta. São Paulo, Scortecci, 1985.

SODRÉ, Muniz. A ficção do tempo. Petrópolis, Vozes, 1972.

TAVARES, Braulio. Fantastic, fantasy and fiction literature catalog. Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1992.

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Marco Bourguignon – editor da Scarium MegaZine e Scarium On Line

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Outros textos do autor:

:: André Carneiro

:: Dicas para publicar na Scarium

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