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Demasiado pós-humano, uma crítica à tecnologia – Josiel Vieira

Nos últimos anos vem surgindo uma corrente de pensamento que apregoa que o ser humano está obsoleto Esta corrente denomina-se “Pós-humanismo. Uma crítica a tecnologia e a este novo movimento.

Josiel Vieira

“É só você quem deve decidir
o que fazer para tentar ser feliz” (Legião urbana)

[E]stá surgindo no meio acadêmico uma certa corrente de pensamento, fortemente influenciada pela tecnologia, chamada “pós-humanismo”. Apregoa tal pensamento que o ser humano está obsoleto. A engenharia genética, a robótica, os andróides, os cyborgs, a inteligência artificial e outras variedades tecnológicas, bem com a mistura, em maior ou em menor grau das tecnologias anteriores, determina, por assim dizer, a obsolescência do ser humano tal como conhecemos hoje. O presente artigo tem como pretensão mostrar que o pós-humanismo incorre em erros conceituais básicos.

Muitos poderão estranhar que tal crítica esteja sendo escrita justamente por mim, um autor de ficção científica. Mas é justamente por querer ter honestidade intelectual e saber do longuíssimo caminho que há até o genuíno aparecimento de uma consciência autêntica e totalmente desvinculada do gênero humano, é que desenvolvo o artigo a seguir.

O que é a morte? Em princípio – e se adotando uma visão bastante rudimentar – a morte é o fim da vida. É o estado quando o ser vivo deixa de sê-lo. Mas precisamente neste ponto surge uma infinidade de outras perguntas: e o que é estar vivo? O que é a vida? Perguntas estas que entram na enorme galeria de outras que são irrespondíveis sem que se caia num mar de paradoxos, contradições, exceções e outras situações similares, e cada uma atrelada a um determinado sistema de pensamento, que ainda que seja coerente, certamente entra em choque com outros sistemas. Existe a resposta do biólogo para esta questão, e também a resposta do religioso, do filósofo e a do ateu. E também a resposta que cada um de nós carrega em nosso íntimo, aquela que é só nossa e de mais ninguém, e que tem a ver com a nossa experiência de vermos os seres que amamos morrerem. Mas é certo que só se pode morrer aquilo que esteve vivo – ainda que este “vivo” dê margem, como foi dito, a várias especulações, há uma concordância de que objetos inanimados não morrem, já que nunca estiveram vivos. Seres morrem; objetos, não.

Apesar de aparentemente haver uma confusão entre o que é ser e o que é objeto, na verdade é muito simples a separação de um e de outro. O objeto é tudo aquilo que está diante do ser. O ser aqui precisa ser um ente consciente – e antes de tudo, consciente de si mesmo, para poder perceber a diferença que existe entre si e os objetos que o rodeiam. O “como” o ser adquire esta consciência será motivo para maiores considerações no decorrer deste artigo.

E o que é o obsoleto? Esta aqui aparentemente é mais fácil de se responder. Obsoleto é aquilo que ficou superado por outra coisa, e o critério usado neste julgamento de superação diz respeito às qualidades de maior eficiência, maior modernidade ou melhor relação custo x benefício do seu objeto sucessor, ou qualquer outra qualidade que tenha algo das qualidades declinadas acima. Outra particularidade da obsolescência é que os objetos em si não percebem que estão obsoletos.

Um bom observador certamente notará particularidades deste enunciado sobre o que é a obsolescência. Em primeiro lugar, foi dito que “Obsoleto é aquilo que…”. Sim, o obsoleto é um “aquilo”. Obsoletas são coisas, são os objetos – reais ou virtuais – criados pelos seres humanos. E os critérios que as tornam obsoletas são juízos de valor dos seres humanos sobre estas coisas. Em outras palavras, a obsolescência é um predicado que as pessoas atribuem às coisas que elas criam.

Mas se pode dizer que conceitos são objetos abstratos criados pela mente, e por isso também podem ficar obsoletos na medida em que não atendem mais às necessidades do momento. Mas neste caso conceitos são substituídos por outros conceitos. Assim sendo, se os nossos pensamentos sobre o que constitua o conceito de ser humano precisam ser revisto, então, que se revise tais pensamentos! Nunca, porém, devemos considerar que o ente vivente “ser humano” está obsoleto, pois, como já foi dito, a obsolescência tem a ver com objetos e não com os seres.

A morte e a obsolescência são distintas entre si A obsolescência pode ser encarada como a morte da máquina? A resposta é NÃO. Como foi estipulado acima, o obsoleto é um juízo de valor sobre coisas que caíram em desuso. Já a morte não é um juízo: é um fenômeno, pois pode aparecer para qualquer um, e não adianta “não acreditar” na morte física, pois ela chega à revelia de se acreditar nela ou não. A morte do ente vivo não é um juízo de valor do mesmo tipo que diz que a máquina ficou obsoleta. Antes disto, a morte é um fato que pode ser comprovado empiricamente por qualquer um. Qualquer ser vivo morrerá, isto vale para todos os microorganismos, plantas, peixes, répteis, mamíferos, todos, sem exceção, morrerão. A duração da vida do ente vivo pode ser de alguns segundos até os milhares de anos de certas árvores; mas, no fundo, dá no mesmo. A foice de prata da morte descerá sobre todos eles.

É verdade que o corpo morto pode ser encarado como um objeto e, como tal, pode ter inúmeros fins: pode ser enterrado, comido, incinerado, virar adubo, ter partes reaproveitadas por outros seres viventes. A morte poderia ser encarada, assim, como um transformar do ser em objeto. Mas a existência do ente vivo que morreu nunca mais voltará daquela maneira que existiu. Cada vida, por mais insignificante que pareça, é única; somente uma vez ela aparecerá enquanto fenômeno daquela forma tal como apareceu. O mesmo não se pode dizer dos objetos que ficam obsoletos. Eles não são únicos, muito pelo contrário! Por definição, os objetos são concebidos para serem fabricados em série – ainda que o sistema capitalista supervalorize os objetos fabricados em pequena quantidade, que geralmente são bem mais caros que os fabricados em larga escala, e também valorize os objetos “personalizados”, que são customizados por seu comprador de modo a parecer que estes objetos são únicos, como as motos Harley Davison e os carros “tunados” (existe toda uma indústria de customização criada apenas para dar essa doce ilusão aos consumidores que querem pagar mais para parecerem diferentes dos demais).

O que é uma máquina? É um objeto físico, geralmente de desenho complexo (com partes internas móveis ou outra particularidade tecnológica refinada),criado pelo ser humano para executar um determinado trabalho. A máquina se distingue da ferramenta, que geralmente é um objeto físico de desenho bem mais simples e que serve para ampliar a força humana. Vejam a diferença entre os dois: enquanto a máquina executa um trabalho, a ferramenta facilita um trabalho humano. A máquina geralmente tem mais autonomia que a ferramenta, já que esta última precisa do manuseio direto de um ser humano. Por exemplo: martelos, serrotes, enxadas são ferramentas, enquanto que robôs são máquinas.

A origem do nome “robô” é eslava e quer dizer “escravo”. Robôs seriam, em sua origem, construídos como sendo escravos mecânicos para executarem tarefas humanas. Para isso contam com um desenho extremamente utilitarista, já que cada linha do robô é criada visando um propósito pré-definido. O robô é criado somente para aquela função, ou para outra similar à primeira; por mais avançado que este robô seja, ele será sempre um escravo de uma finalidade humana – já que aqui o avanço tecnológico em nada muda o conceito fundamental. Há sempre um software, ou programa por trás das ações de cada robô. o software nada mais é que uma máquina virtual (ou seja, não-física); um algoritmo matemático complexo criado para executar um trabalho dentro do robô, trabalho este que consiste basicamente em comandar todas as ações dele para que desempenhe as tarefas que lhe são ordenadas. O software estaria quase num nível metalingüístico, já que é uma máquina executando um trabalho dentro de outra máquina que executa um trabalho. As assim chamadas inteligências artificiais são programas que podem estar dentro ou não de robôs – podem estar em computadores, ou redes de computadores, por exemplo, e possuem uma maior autonomia para escolher entre algumas decisões possíveis para algum problema estipulado, mais ainda assim são máquinas virtuais e não consciências genuínas capazes de perguntar sobre si ou sobre o mundo.

O programa dentro do robô é um conjunto de comandos estipulados por humanos e o robô é o executor destes comandos. Por trás de cada máquina, por mais sofisticada que seja, por maior que seja sua capacidade de efetuar um trabalho de precisão e de construir outras máquinas que, por sua vez, construirão outras máquinas e assim por diante, há ainda o gênio humano, para desgosto daqueles que insistem em não perceber a separação que há entre o ser e o objeto e que querem a todo custo colocar no mesmo patamar máquinas e pessoas.

Então, com as considerações aqui declinadas, já há suficientes informações para se perceber o primeiro erro da corrente pós-humanista. A primeira delas, e a mais evidente é que o ser humano não pode ser considerado obsoleto, pois ele não é uma máquina!!!! Ao se colocar no mesmo patamar o ser humano e uma máquina, no máximo estamos dizendo que o ser humano é um mero objeto, regredindo ao pensamento cartesiano e ignorando séculos e séculos de maturidade do pensamento. Recém-saída do obscurantismo da Idade Média, era natural que os pensadores da época do filósofo René Descartes cultuassem um tipo de razão matemática em oposição direta à fé subjetiva do período anterior. E os produtos mais bem acabados desta razão matemática eram as máquinas,além da visão mecanicista do corpo humano e de uma filosofia que se pretendia ser tão exata quanto a própria matemática. As filosofias dos séculos posteriores vieram mostrar as falhas da filosofia de Descartes, mas a herança mecânica desta época não foi facilmente apagada, pelo contrário; o culto à máquina parece ser cíclico desde então. Em geral, os períodos históricos em que a máquina é mais valorizada são os períodos de desespero, de descrença pelo ser humano e pelo que ele considera de mais elevado e nobre, como a arte, a espiritualidade, a filosofia e a metafísica, bem como virtudes como fraternidade e tolerância. Normalmente estes períodos de descrença da humanidade pela própria humanidade e conseqüente valorização do que não é humano são períodos antes ou depois de grandes guerras. Quem quiser sentir o que é esse desespero pelo humano e saber o que é essa reverência desesperada diante da ciência, diante da técnica e diante da máquina, eu sugiro os poemas do poeta paraibano Augusto dos Anjos. Irônico sobrenome, pois sua poesia revela a descrença que destrói todas as fantasias e substitui Deus por cadeias de moléculas feitas de carbono e desespero. A poesia estranha de Augusto dos Anjos reflete bem o clima pessimista da época da Primeira Guerra Mundial, em que a técnica foi usada intensamente contra a vida. Em sua poesia, o eu-lírico se observa com microscópio, e ele vê não nenhuma alma, e sim células que morrerão e apodrecerão.

Por pior que seja esse clima de um mundo sem Deus e fadado ao apodrecimento e à destruição, há ainda um último e extremo recurso que é o apego à técnica, ainda que esta mesma técnica seja responsável pela destruição deste mundo. Pois num mundo sem alma, sem subjetividade e sem valores humanos, a única coisa possível se apegar é a certeza da técnica, pois para os habitantes desconsolados deste mundo a ciência é ainda aquela que diz o que é possível ou não, ou a única capaz de dizer o que é possível num mundo cético.

Esse apego à técnica é tão evidente em períodos de crise que, depois da Primeira Guerra Mundial, na Alemanha arrasada, faminta e tolhida pelas imposições políticas e econômicas do Tratado de Versalhes, houve o aparecimento da mais devastadora de todas as ideologias, o nazismo.

O regime nazista é fundamentalmente baseado no extremo menosprezo ao indivíduo e aos valores humanos – não só dos povos considerados por ele com inferiores, mas também (e principalmente!) no desprezo ao próprio povo pretensamente superior – e no culto cego à máquina e à tecnologia. A ciência avançou no regime nazista, e avançou contra o ser humano. Todas as conquistas tecnológicas verdadeiramente assombrosas dos nazistas tinham como único fim a destruição da vida humana e o esmagamento dos valoreis individuais. Fuzis automáticos, mísseis V-2 que voavam a mais de quatro mil quilômetros por hora, tanques de 70 toneladas, motores a jato, radares e dezenas de milhões de mortos… eis o legado que nos deixou o culto à ciência dos nazistas.

É bom reiterar o quão pouco valia o ser humano dentro do nazismo: não importava quem era judeu ou quem era alemão adepto do próprio nazismo. O regime matava a ambos indistintamente, dependendo da ocasião. Certamente o nazismo considerava o ser humano como “obsoleto”, pois para fazer o que fizeram com tantas pessoas, só mesmo considerando todas elas como objetos. Além disso o nazismo não aceita o individual e, através da doutrinação política que usa a tecnologia de informação – como rádios e jornais – tenta “formatar” toda uma população para que ela pense e aja de uma maneira uniforme. Quem não aceita ou não se enquadra é eliminado.

Cerca de oitenta anos depois do nazismo, vivemos mais uma vez uma época de crise. A crise, desta vez, é de identidade. A ciência e a técnica nos mostram tudo o que é possível saber sobre os átomos, sobre as galáxias e sobre a origem do universo. A técnica avançou, e ela já não somente pode destruir o planeta instantaneamente (apesar de vivermos na ilusão de que isso não é possível), mas também agora nos vigia implacavelmente 24 horas sob a égide da “segurança”. A tecnologia nos conecta a tudo o tempo inteiro, mas nos desconecta sorrateiramente do nosso olhar para o nosso interior; sabemos muito sobre o universo, sobre a física quântica, sobre a engenharia genética, sobre o interior das estrelas, mas já sabemos mais nada sobre nós mesmos, talvez porque esse outro tipo de saber demande tempo e calma, e isso é o que já não temos mais, por conta da vida on-line que levamos. Talvez nunca houve uma época tão tirana, e que tão bem soube mascarar o real estado da opressão: fome guerra, violência e morte se engendram nos quatro cantos da terra, mas todos vivem numa ilusão de que tudo está muito bem e que nunca houve tanta liberdade. É mais uma vez uma época em que o indivíduo se sente tolhido, vendo os seus valores e seus direitos sendo destruídos. O legado íntimo humano está sendo pulverizado, já não sabemos mais amar ao próximo ou sequer sabemos como nos relacionar com o outro: sequer sabemos quem somos! O genuíno saber de si mesmo foi trocado pelo mero saber técnico que, no fim das contas, nada diz de importante. E nesta época de crise resolvemos adotar a solução tecnocrata, a solução nazista: o ser humano não é importante, está obsoleto diante das novas tecnologias e a salvação está na máquina – e, mais ainda! – no “upgrade” da máquina, pois somente a máquina devidamente atualizada é digna de nossa veneração cega e imbecil, não importando o quanto essa necessidade pelo upgrade contínuo, esse consumismo desenfreado do novo pelo novo, não traz a felicidade que promete e, pior, exaure os recursos naturais já quase esgotados do nosso planeta. É justamente numa época como a nossa, tão desumana, é que o ser humano precisa ser resgatado e valorizado.

Ora, eu já fiz uma digressão sobre o porquê o ser humano não pode ficar obsoleto, sobre as diferenças entre ser e objeto, fenômeno (morte) e juízo (obsolescência). Agora devo fazer algumas considerações sobre os enganos que são ditos sobre robótica, cibernética e inteligência artificial que são temas recorrentes dentro do pós-humano. aliás, aqui começam as incoerências.

Os defensores do pós-humano em geral situam essas tecnologias como pós-humanas, como dando a impressão de que elas são posteriores à humanidade obsoleta. Mas elas foram criadas dentro da civilização humana; então, as tecnologias que o pós-humano coloca como posteriores à humanidade estão, na verdade, aquém do humano!! Aliás, humanidade e consciência são os dois principais problemas enfrentados pelas tecnologia dita pós-humana.

É um fato corrente na ficção científica histórias de robôs anvançados que começam a aparesentar características humanas, como emoções, e tais características são um sinal de evolução e consciência. Isto é exatamente uma das incoerências do pós-humano.

Ora, vejam o exemplo das tartarugas marinhas. Na época da reprodução, elas em geral colocam dezenas de ovos nas praias e depois voltam ao oceano. Os filhotes que conseguem nascer – pois muitos são os ovos que são devorados pelos predadores – ficam à mercê da própria sorte, já que a mãe não voltará para ajudá-los. inúmeras tartaruguinhas morrerão, e só uma ínfima parte sobreviverá até a fase adulta.

Para os padrões humanos, o abandono dos ovos pela tartaruga é algo abominável. Uma mãe que abandona seu filho é execrada.

Agora imaginem o caso das tartarugas evoluírem a ponto de construir uma civilização. Como seria a sociedade delas?

A julgar pelo comportamento desses animais hoje, imagino que haveriam grandes faixas de praias artificiais, de centenas de quilômetros, onde as fêmeas depositariam seus ovos e depois voltariam à sua vida normal. Nunca mais as fêmeas voltariam a ver seus filhotes, e nem se interessariam em saber quem é o pai. Aliás, toda a questão de paternidade, de fidelidade conjugal, tão importante para os humanos, seria irrelevante para a sociedade das tartarugas. também não haveria etre eles sentimentos de afeto, de carinho, de compaixão, ou de qualquer outro sentimento que nós julgamos elevado; a bem da verdade as tartarugas evoluídas também não teriam os sentimentos que para nós são maus. Elas não sentiriam nem compaixão e nem ódio por outra tartarugas.Provavelmente nessas praias artificiais as tartarugas criariam máquinas que identificariam e destruiriam os filhotes considerados fracos; isto para eles poderia ser tão rotineiro quanto o é para nós colocar o lixo na lixeira. Elas talvez nunca soubessem o que é o amor, mas a sua sociedade não teria tartarugas pobres e tartarugas ricas, já que elas desconheceriam a ambição de ter propriedade privada e posses materiais, por serem habitantes dos oceanos.

Esse pequeno exemplo é apenas para mostrar o que poderia ser uma civilização completamente não-humana. Os répteis e quelônios não têm o contato que os mamíferos têm com os filhotes, e com certeza isso refleteria em suas hipotéticas civilizações. Nós, humanos, esperamos que os outros seres conscientes sejam parecidos conosco, e não saberemos o que fazer se esses seres não forem. Agimos de maneira tão limitada quanto um europeu do século XV que, ao saber da descoberta de um novo continente, se pergunta: “como será o cristianismo dos povos deste lugar? Serão cristãos ortodoxos ou cristãos apostólicos romanos?” E então fica estarrecido ao saber que os povos desse novo continente nunca ouviram falar de Cristo. Como isto é possível? Você se perguntaria então. Como é possível religiões sem Cristo?

Pois é a mesma pergunta que o pós-humano deveria fazer: como seria possível uma consciência fora do humano?

A maior parte dos ciborgues, andróides, e inteligências quânticas presente no pós-humanismo apresenta características demasiadamente humanas. Isso é mais um indício de que, de pós-humano a pós-humanidade não tem nada. são andróides no estilo “Ran-Xerox”, que se drogamm,saem com prostitutas, falam palavrões, são violentos.O que há de pós-humano nisto? Uma máquina criada por humanos reproduzindo um comportamento humano… bem, não será com isso que a humanidade ficará obsoleta, pelo contrário! Isto significa que, mesmo depois de extinta, a humanidade sobreviverá por causa do seu legado copiado nesses ciborgues e andróides.

Agora há um outro ponto a ser comentado: programamos os robôs para serem parecidos conosco. Os robôs hoje tocam violino, dançam, sobem escadas. No filme “Eu, Robô”, há um deles que saem correndo um busca de um remédio para sua dona. Essa cena reflete mais do que qualquer outra os enganos que há sobre o futuro que está se desenhando para essa não-humanidade demasiado pós-humana. O robô tem uma “dona”. A criação de robôs é uma criação de escravos. E ele sai correndo em busca do remédio não porque é bonzinho, mas porque foi programado para perceber quando a sua dona estivesse mal de saúde. É ainda mais provável que ele sequer percebesse o que estava de fato acontecendo, ou seja, tivesse consciência de sua situação, pois robôs não podem ter consciência do que quer que seja. Eles apenas executam a ordem que lhes é ordenada para que as pessoas fiquem satisfeitas e depois comentem: “minha nossa, parece que está vivo!” E assim os robôs, esses amontoadode plástico e material sintético,vão recebendo o afeto que outras criaturas vivas deveriam receber. Estamos muito mais dispostos a acariciar a cabeça de metal de um cão robô – que terá sensores infravermelhos que detectam a pressão e a intensidade da mão humana em sua cabeça e, com isso, um programa fará esse cão sintético latir de ” felicidade”- do que acariciar a cabeça piolhenta de um menino de rua desnutrido. “Minha vida não tem tanto valor, quanto o seu celular, o seu computador”, diz com toda a razão uma música do grupo “Racionais MC”.

Para deixar a condição de objeto para a de ente consciente, os robôs, ciborgues e máquinas similares têm um longuíssimo caminho pela frente. Em primeira lugar, e creio que seja o principal problema: não é possível “programar” uma consciência. A consciência é algo que deve aparecer por si.É possível programar bonecos para que eles pareçam uma simulação humana, é possível criar programas um pouco mais avançados que tomam algumas decisões limitadas – mas eles sequer sabem o que é a natureza de uma decisão e quais as implicações filosóficas e metafísicas de se optar entre algo e não por outra coisa. Entretanto, a consciência não pode nunca ser criada e implementada de fora para dentro.

Toda consciência é uma forma de rebeldia, uma transgressão. Como disse o filósofo Husserl, toda consciência é uma atividade e é uma intencionalidade. Nunca é passiva; mesmo que o ser consciente esteja parado, a consciência sempre está se movendo em seu ser como um furioso tubarão preso num aquário; um tubarão que não pára nunca, sempre observando as coisas ao seu redor. A consciência é uma consciência de alguma coisa.

Se todos os laboratórios do mundo se unissem para criar um ultra-software de consciência, ainda assim tal coisa seria uma fraude. Poderiam criar um robô que falasse fluentemente e demonstrasse ter simulacros de sentimentos em determinadas situações, mai ainda assim seria apenas um caro boneco falante que só falaria o que as pessoas gostariam de ouvir e só faria aquilo que elas gostariam que ele fizesse. Mas, para a consciência genuína, ainda faltaria muito. Talvez seja mais fácil as tartarugas evoluírem daqui a alguns milhões de anos e montem a civilização que eu descrevi do que a IBM ou a MIcrosoft anuncie ter criado a primeira consciência artificial.

A história que ilustra o que estou tentando dizer é a do gênesis bíblico. Deus proibiu expressamente adão e Eva de comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eles desobedeceram e tomaram consciência de si e do mundo que os cercava. Certamente Deus fez o primeiro casal capaz de escolher entre obedecer ou não sua proibição. Mas a escolha final foi tomada inteiramente por Adão e Eva, sem que Deus tivesse facilitado ou obstruído qualquer uma das opções. Se o Criador houvesse feito o homem consciente desde sua concepção, essa consciência nunca teria sido de verdade e o homem nunca teria sido capaz de escolher, por si só, entre o bem e o mal. E é esse o paradoxo enfrentado hoje pelos programadores de inteligência artificial – como criar algo que não pode ser criado, e sim adquirido de maneira autônoma? E deste paradoxo vem outras duas questões terríveis: se por um acaso se crie um robô ou ciborgue ou outra criatura artificial que seja capaz de desenvolver uma consciência própria que seja legítima, como garantir que esta consciência tenha um fundo de humanidade? E se a criatura sintética optar por não ter nada de humano? E, se ela optar por ser completamente desvinculada do ser humano, como garantir que ela não seja hostil? Afinal, o respeito à vida é uma herança humana… que nem nós, seres humanos, respeitamos!

O melhor exemplo do que pode acontecer quando surge uma consciência totalmente desvinculada do ser humano é a inteligência artificial da rede “skynet” do filme “Exterminador do Futuro”. Ao atingir a consciência, bastou um nanossegundo para que a skynet definisse a humanidade como hostil e decidisse aniquilá-la. Isto é uma possibilidade real demais para não ser levada a sério, e pode ser comparável aos riscos do primeiro teste nuclear, num deserto americano em meados de 1944 ou 1945. Absolutamente ninguém na face do planeta sabia de antemão o que aconteceria. Muitos cientistas pensaram que este primeiro teste nuclear incendiaria toda a atmosfera sobre os Estados Unidos – e algo digno de nota é que aquela primeira bomba atômica usada no teste tinha um poder insignificante perto das de hoje. Assim também são todas as especulações sobre o surgimento de consciências não-humanas, pelo que é mais fácil limitar este debate às limitadas inteligências artificiais, fingir que elas são consciências e chamar isto de pós-humanidade.

Sobre este termo “pós-humano”, resta um última consideração. Talvez este seja um termo criado visando apenas um marketing cultural do que de fato sirva para designar pensamentos mais sérios. Esta é a era dos logotipos, das marcas e dos rótulos e de um rio de dinheiro que corre por baixo de cada nome que fica em evidência na mídia.

Talvez o que esteja mesmo ultrapassada seja a época dos grandes manifestos culturais, como o “boom” que ocorreu na europa no final do século XIX e começo do século XX. Todos aqueles movimentos – impressionismo, simbolismo, cubismo, dadaísmo, expressionismo, surrealismo,etc – não eram apenas nomes, mas visões de mundo, cada qual com suas características, e os artistas estavam mais preocupados com a qualidade de sua arte do que o rótulo que os outros davam para ela. O melhor exemplo é o impressionismo, cujo nome foi cunhado pejorativamente pelos críticos daquela forma de arte e mesmo assim foi adotado, de maneira irreverente, pelos artistas criticados. Era mais ou menos assim: não importa o nome que dão a arte, o que importa é a arte em si. Mas, ao final do século vinte e começo do século vinte e um se dá justamente o contrário: todos estão ávidos por nomes que fiquem na moda. A criação de nomes-logotipos é fundamental para a indústria cultural, não importando muito o quão pouco esse nomes digam. Em poucos anos tivemos o pós-moderno, e depois o sobre-moderno, e agora esse pós-humano. Nomes que se amontoam e se amontoam, como produtos de baixa tecnologia vendidos em camelôs e que, como os próprios produtos destes camelôs, são produtos momentâneos e dispensáveis, que logo serão esquecidos por outras novidades descartáveis.

Não, não temos de fato ainda nada que seja pós-humano. Temos apenas aquilo que nós escolhemos fazer e é isto que será o legado que deixaremos para o que virá depois da humanidade desaparecer. Estamos sós com a nossa consciência, que nos lembra a todo instante de maneira impiedosa da nossa solidão. Como Adão e Eva estamos sós e nus diante da existência.

A única coisa que podemos fazer é nos dar as mãos e esperarmos juntos pela vida fora do paraíso perdido.

Termino este artigo com versos da música “Black Sun”, do excelente grupo Dead Can Dance:

   “Like Prometheus we are bound,
    Chained to this rock of a brave new world,
    Our godforsaken lot.
    And I feel that’s all we’ve ever needed to know,
    ‘Til worlds end and the seas rund cold”

    “Como Prometheus nós estamos presos,
    Acorrentados a esta rocha de um admirável mundo novo,
    nossa desgraçada sorte.
    E eu acho que isto é tudo que nós precisamos saber
    Até que os mundos acabem e os mares corram frios.”

Publicado em 17 de janeiro de 2008.

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