A patrulha

Os companheiros ouviram barulhos estranhos e depois um gemido. Klaun ordenou aos soldados para prepararem as armas. Mas Tell retornou com as roupas manchadas de sangue.

Antonio Lorhan –


 

 

O oficial Klaun, veterano da Guerra de Taullos, foi destacado para efetuar reconhecimento de uma pequena vila colonial humana, logo após o rio, para onde a maior parte da tropa terráquea havia se retirado.

Os soldados de Klaun estavam escondidos às margens do rio. Haviam-no atravessado durante a noite. Klaun mandara Tell bater o terreno após uma pequena colina, a uns seiscentos metros rio à cima.

Tell, negro como a noite de um mundo sem lua, fora comandante da tomada de Dragin em Taullos, um velho conhecedor dos humanos.

— Tell está demorando — comentou o oficial.

— Provavelmente farejou alguma coisa. Ele é bom nisso! — completou Fran. — Lá vem ele! — murmurou.

Um vulto negro arrastava-se rápido por entre os arbustos. E, de repente, diante deles, surgiu Tell. Grande e majestoso!

— Então? — perguntou Klaun.

— Nada Senhor. Nem um sinal de tropas. Depois da colina há abrigos humanos. Parecem-me abandonados.

— Mas nenhum sinal dos terráqueos? — perguntou Fran.

— Nenhum. Mas devem estar se reunindo em algum lugar.

— Com certeza! — exclamou o oficial.

— Oh, sim! Devem estar cuidando de suas crias frágeis — Fran falou com desdém.

— Podemos alcançar os abrigos sem sermos pressentidos? — indagou o oficial.

— Sim senhor. Eles não possuem nosso faro e nem nossa visão noturna — respondeu Tell.

— Não quero esperar a noite para irmos até lá.

— Depois da colina, antes dos abrigos, há uma vegetação que os humanos usam como comida — disse Tell, apontando para a colina — nos servirá de cobertura.

Subiram e desceram a colina. Rastejaram pelo milharal que terminava num largo descampado onde o grupo deparou com sete abrigos abandonados.

— Nenhum sinal de vida — disse Fran, farejando o ar.

— Tell, dê uma olhada — pediu Klaun. Não podemos arriscar, esses humanos são muito inteligentes.

— Sim senhor — cheirou o ar e se arrastou por entre os abrigos. Parecia ter percebido algo. Entrou em um dos abrigos.

Os companheiros ouviram barulhos estranhos e depois um gemido. Klaun ordenou aos soldados para prepararem as armas. Mas Tell retornou com as roupas manchadas de sangue.

— O que houve? — perguntou Klaun.

— Tudo vazio. Encontrei um animal que os humanos domesticam; um cachorro, sangrei o bicho. Sua carne é bastante boa para nós.

Klaun mandou Fran cortar o animal e distribuir os pedaços aos soldados famintos. Há dias que não viam comida!

— Este Tell é tinhoso — murmurou Fran, cortando o animal.

Penetraram nos abrigos em forma de domos e revistaram-nos um a um. Deveriam ter sido abandonados apressadamente, a mobília parecia intocadas. Havia um ar de cidade fantasma.

Os soldados já estavam para se retirar, quando Tell sentiu um cheiro no ar.

— Humanos! Dois… Três! É dali, Oficial Klaun — disse Tell feliz com a descoberta.

Klaun fez um sinal aos soldados. Acercou-se de uma árvore. Era uma macieira, uma das espécimes trazidas pelos colonos humanos. Olhou para cima, a arma apontada para o alto. Ordenou aos soldados derrubarem-na. Despencaram junto duas humanas adultas e uma criança de colo. Klaun perguntou-lhes alguma coisa. As mulheres apenas olharam amedrontadas. Nada podiam responder, não conheciam a língua. A rapariga mais jovem, de uns doze anos, era morena, cabelos castanhos cortados rente à nuca. Tinha uma pele cheirosa que ouriçou os pêlos de Klaun. Os soldados olhavam ora para as mulheres ora para o oficial. O cheiro delas os entorpecia.

Klaun pegou a humana mais jovem pelos cabelos e disse:

— Esta é minha!

Os soldados fixaram-se na outra mulher. A criança começou a chorar. A mulher a embalançou nos braços para que se calasse. Como continuou a chorar, sentou-se no chão e puxou um seio do interior da roupa sintética, colocando o bico na boca da filha. Ela já não era jovem, seus olhos tinham marcas de velhice. Os soldados não afastavam os olhares felinos da mãe. A criança sugava o seio e não chorava mais.

— Os humanos são parecidos conosco! — exclamou Fran. — São mamíferos! E tem o sexo no mesmo lugar que nós — riu com a observação.

— Gostaria de saber o motivo para abandonarem elas? — perguntou Tell. — Os humanos não costumam fazer isso! — estranhou.

— Deixem que termine de dar leite à criança — odenou Klaun. — Depois podem ficar com ela.

— A criança pode ser só minha? — Pediu Tell.

— Tudo bem! A criança é do Tell. Fran escolha a guarda… — Klaun dava as ordens, sem largar os cabelos da jovem. A rapariga não se debatia, havia uma calma indecifrável. — Tell, aguarde até que ela termine de mamar. — Arrastou a menina para dentro de um abrigo.

À noite, os soldados satisfeitos com carne da mãe, sorriam e brincavam chupando os ossos que restavam.

Fran havia observado alguns vultos no escuro. Saiu para procurar Tell, provavelmente já havia devorado a criança. Não o encontrou. Reuniu três soldados e entraram no abrigo para chamar o oficial. Chamaram-no à porta. Não houve resposta. Fran empurrou a porta e penetrou no domo.

O corpo estava estendido no chão. A menina havia desaparecido. Klaun tinha o pescoço cortado por garras afiadas.

Tell atravessou o rio. Na outra margem entregou o bebe humano à menina. Desapareceu na escuridão depois de um miado agudo e forte.


© Antonio Lorhan 2003.

 

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