Marco Bourguignon

Convido a todos para fazer uma reflexão, a moda de terapia de grupo. Vou levantar várias perguntas e quem puder me responder, responda.

Se admitirmos que a literatura de Ficção Científica esteja moribunda no Brasil, um doente terminal, poderemos culpar a crise financeira? Ou dizer que os leitores têm preconceito contra o gênero? Nos anos 80, parecia que haveria uma volta por cima, mas o gênero se perdeu em alguns títulos e em alguns números de uma revista de renome. Ao entrar nos anos 90, ela estava fadada a desaparecer, ou restrita a apenas alguns grupos de fãs. Quem foram os vilões?

Hoje, o que vejo é uma grande contradição entre os escritores iniciantes. Escrevem FC, mas não as lêem. Na verdade, lêem muito pouco qualquer coisa, ou simplesmente, ficam restritos apenas aos autores da moda e buscam reproduzi-los em seus escritos. Influências são boas; mas cópias, não. Sem estilo próprio e sem história própria. Olha que não estou buscando algo genial, mas um pouco de entretenimento, uma história bem contada. Faço estas observações ao me deparar com os textos do último “Concurso da Scarium” que organizei. O quê está acontecendo?

A “culpa” é das editoras? Sim, as editoras têm preconceito contra o gênero. Será? Não somente. Veja a produção independente nacional. Quantos títulos são realmente bons? Neste caso, a falta de experimento e de criatividade não pode ser explicada pelo peso do “mercado”, nem da figura do “editor mercenário”. Os autores são também editores da publicação; então, cadê o obstáculo da inovação? Da criação de algo nacional? Por que vamos nos ater em copiar um estilo já consagrado lá fora para contar uma história comercial, seguindo um padrão usado à exaustão? Ora, o autor-editor é livre para a criatividade. O leitor que curte estas histórias comerciais vai querer ler os autores que já dominam a técnica e o assunto; e não um autor novo, desconhecido, que tenta enveredar por seguir modelos de outros (cópias): “A minha história é muito boa, tem elementos de ‘Star Wars’ com um pouco de ‘Star Trek’”. “Eu sigo o estilo de Asimov.” “Por que meu conto foi reprovado? Se você não percebeu, tem semelhanças com ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’. Você não entendeu nada”. “Você é um editor burro pra caramba, escrevi uma história na linha do Harry Porter”.

A “culpa” é que o Brasil não tem tradição tecnológica suficiente capaz de despertar o interesse pela FC. Ah! Sim! Para uma boa história de FC é necessário um bom conhecimento de tecnologia? Ou que o povo goste de inovações tecnológicas? Não somos um país com tradição em ciência. Será que a literatura de FC só pode ser construída em países com estas tradições? Por que não ambientar nossas histórias em países com estas tradições, mas escrever com nosso estilo e forma? Outros irão dizer que temos que ambientar no Brasil e colocar nomes brasileiros. O negócio não é o ambiente ou a tradição tecnológica, mas sim o estilo e a forma de contar a história. Outra vez vi uma discussão de que para ser um conto tem de haver um número “X” de palavras, do contrário, vira novela, e tendo um número acima de “XX”, se transformaria em romance. Acho que os pretensos escritores deveriam perceber e estudar que contos, novelas e romances têm formatos próprios na literatura brasileira. A classificação não é feita pelo número de palavras ou páginas. Isso também é mera cópia dos chefes do norte.

Então o que falta para uma boa história de ficção científica? Esta é a reflexão final que gostaria de deixar aqui. Então me digam?