Miguel Carqueija

FRANKENSTEIN CREATED WOMAN ( Frankenstein criou a mulher) – Inglaterra, 1967; Hammer Films.

A produtora inglesa Hammer ficou famosa por haver filmado, nos anos 50, 60 e 70, um grande número de obras de terror que, conforme opinião da crítica especializada, renovaram o gênero naquela época. Era ainda um terror gótico, diferente do “gore” que viria pontificar nas décadas seguintes, ou seja a violência crua e explícita com todas as barbaridades possíveis. Assim é que nos filmes da Hammer destacaram-se dois atores que viraram símbolo do cinema de horror clássico, Christopher Lee e Peter Cushing.

                   O segundo aparece neste “Frankenstein criou a mulher” onde sequer é mencionada – até onde pude reparar nos créditos – a escritora Mary Shelley, autora da novela original do personagem Dr. Victor Frankenstein.E realmente a história é outra; o cientista não dá vida a um amálgama de cadáveres por meio da eletricidade, criando o monstro sem nome que Boris Karloff e outros interpretaram nas telas; o que ele faz é conservar a alma de um sujeito executado na guilhotina, transferindo-a para o corpo de uma moça que morreu afogada, Christina (Susan Derberg) e que também é ressuscitada. O Dr. Frankenstein insiste com seu auxiliar Hertz que a alma não abandona o corpo imediatamente após a morte, e que a ressurreição será possível se a referida alma puder ser retida no corpo ou transferida para outro que esteja funcional.

                    Que um cientista possa ficar manipulando almas parece uma idéia esdrúxula. Peter Cushing, ator hierático, esforça-se bastante para dar credibilidade ao seu personagem, e realmente ele tem um bom tipo para cientista louco. O grande problema é a resolução do enredo tal como a associação de Anthony Nelson Keys, Terence Fisher e John Elder (respectivamente produtor, diretor e roteirista) forjou; pois os furos são muitos e o clima geral é forçado. Primeiramente, noto que a película é omissa no que concerne ao local e à época da ação; a presença ominosa e constante da guilhotina, sombra minaz à beira da estrada do vilarejo, sugere a França. Mas os nomes são ingleses, havendo também um Hans. O filme começa com uma execução esquisita, quase clandestina, prosseguindo anos depois, quando o filho do executado cresceu e se apaixonou pela filha de rosto desfigurado de um estalajadeiro. Quando a tragédia atinge os dois jovens o Dr. Frankenstein, como um abutre, se apossa dos corpos para as suas experiências.

                    Nada se diz sobre as mães dos dois amantes; sobre como se arranjou Hans após a execução do pai, visto ser ainda uma criança; como a garota ficou daquele jeito; de onde vinham os recursos de Frankenstein; quem eram aqueles rapazes gozadores e por que o estalajadeiro tinha tanto medo deles; como é que uma estalagem não tinha empregados, ou como dois sujeitos meio aristocráticos como Frankenstein e Hertz podiam morar numa casa espaçosa igualmente sem manter nenhum empregado; e como afinal Frankenstein se explicou com a polícia. Então, o filme se ressente da ausência de uma história lógica e não apresenta o charme das obras de terror de um Roger Corman, por exemplo. Mas, para os fãs do terror, é interessante assistir, pela interpretação exemplar de Peter Cushing, destaque total no elenco.