PREFÁCIO
Vaca Profana Encruzilhadas - livro 1
André Carneiro (*)
Teoricamente cabe à Crítica analisar uma obra de arte, penetrar em sua mensagem, destacar qualidades e defeitos. Estes, quando excessivos, cobrem o trabalho de um justo esquecimento. O crítico mais comodista procura o caminho didático de nomear a obra dentro de uma prévia classificação, teórica tentativa de estabelecer limites, facilitar comparações e justificar adjetivos. Se a grande maioria dos leitores não sabe se está lendo um romance histórico, ou psicológico, realista ou "noveau roman", geralmente sabe perfeitamente se está lendo uma "ficção científica", ou, o que é lamentável, muitos pretensiosos sabem "que não estão lendo" porque é FC. Houve um tempo, nos países cristãos liderados pelo Vaticano, que qualquer livro não contendo o aviso escrito em latim: "Nenhum obstáculo", só vendia alguns exemplares, pois era proibido comprar aqueles que não tivessem a permissão. Não se cogitava da qualidade literária, somente se havia ou não pecados ou pecadores na história. Posso transmitir o que penso desta "Vaca Profana" de Rogério Amaral de Vasconcellos, garantindo que vou comentar uma obra literária e que pulei a página onde estaria ou não aquele aviso em latim, ou qualquer outra denominação que possa influenciar condicionamentos preconceituosos, parecidos com aquela piada do meu amigo Oswald de Andrade: "Não li e não gostei".
"Vaca Profana" é um romance ilimitado, ótima denominação para as criações modernas que usam, não o tempo contado das ampulhetas, mas o tempo "esticado" de Einstein e partem do princípio evidente que, se chegamos até a Lua e Marte, chegaremos até... o ilimitado.
Este romance se parece com um roteiro cinematográfico. Daria um filme magnífico, desde que houvesse os centenas de milhões de dólares necessários para transformar suas páginas nas imagens perturbadoras e fantásticas de seu enredo. É oportuno lembrar que o primeiro empréstimo da linguagem cinematográfica usada em romance, foi Aldous Huxley quem fez, com as seqüências de ação paralela em "Contraponto".
Os autores de FC tem sempre seus olhos bem além da testa.
Corajosamente, este romance, com cenas realistas, as vezes desagradáveis, tenta penetrar na vulgaridade, na amoralidade que é um "leitmotiv" em todas as páginas.
A humanidade atingiu um adiantamento tecnológico em progressão geométrica, mas nossa genética, nos últimos trinta mil anos, não revela nenhum progresso, nenhuma mutação que tenha "melhorado" o ser humano, o "homem sábio", como o secular machismo sempre denominou a nossa espécie. O romance transcorre dentro de um hipotético universo futuro, cruel e surpreendente, com criatividade, inteligência e a "posse do instrumento", como dizia Sergio Milliet, isto é, o autor escreve bem e vive a sua epopéia com paixão e entusiasmo. Nós, leitores, o acompanhamos.
Não tentarei descrições ou sinopses complicadas. Estas considerações valem para o primeiro e para o segundo livro e não poderíamos adivinhar o que virá no terceiro anunciado. É uma obra (como todas) onde se pode apontar defeitos, mas o clima conseguido nos faz esquecê-los, a notável originalidade do autor escapando do lugar- comum do grande herói (e sua heroína) é uma grande surpresa, que talvez aborreça os que buscam um simples entretenimento.
Não há um, mas um bando de anti-heróis.
Os personagens percorrem uma saga fantástica e, ao mesmo tempo, ordinária, onde até as necessidades físicas não são escamoteadas, como acontece nos romances para paladares superficiais.
O romance de Rogério Amaral de Vasconcellos (e sua continuação) é algo novo no gênero e merece a nossa atenção.