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O Último Harry Potter

>> Resenhas

A autora faz uma análise profunda do último volume da série do bruxo mais famoso.

Simone Saueressig - 21/04/2008

Bem, acabou.

Depois de sete volumes, e um tanto atrasada com a leitura, termino a série “Harry Potter” um pouco surpresa com a falta de repercussão do final. Talvez fosse o fato de que a grande maioria dos pontos importantes das narrativa não fossem mais uma surpresa para os leitores medianos, entre os quais me incluo? Quem sabe?

Em todo o caso, me parece um tanto desagradável ter escrito uma crítica quando a série ia pela metade, e agora me calar quando ela acaba. E como a crítica especializada em literatura deste país, em sua imensa maioria, ignora a literatura chamada “infanto-juvenil” e parece já ter decidido que o sucesso de alguns livros se devem apenas à mídia, sobretudo se são de Fantasia, fica um vazio que os fãs da série preenchem em sites fechados em si mesmos. Como se os demais leitores não precisassem discutir a obra! Não é preciso ser fã incondicional de um produto cultural para discuti-lo, afinal de contas. Assim, antes de dizer qualquer coisa a mais, é preciso colocar vários pontos positivos para a obra da Rowling: mesmo que a mídia tivesse ajudado a colocar “Harry Potter” no mapa, não creio que apenas ela tivesse mantido a edição dos sete livros, todos de fôlego e, no entanto, contrariando a crença editorial que assola o país, todos lidos pela grande maioria de seus compradores, que, aliás, não o fizeram por imposição escolar, mas por moto próprio. Por isso, acredito categoricamente que a mídia não é a responsável pela continuação da série: “Harry Potter” tem mérito próprio e cada um dos livros é suficientemente bem escrito como para merecer uma leitura por si mesmo, sem auxílio algum. Que a escritora é uma trapaceira digo e reitero ainda mais depois da leitura do último volume. Mas seu texto tem vida e qualidades próprias que transcendem à qualquer problema que a autora não tenha sabido ou não tenha querido resolver de outra maneira do que aquela que está editada.

Começando do começo, “Harry Potter e as Relíquias da Morte” é o melhor dos sete livros. Não que “Harry Potter e a Pedra Filosofal” ou qualquer outro não fosse bom. Mas se nota que o desenvolvimento da narrativa modificou-se, que a autora aprendeu a usar de maneira mais adequada certas passagens e que o texto em si mesmo ganhou com o passar dos anos. Quem sabe seja o fato de que o primeiro era dedicado a leitores em torno de 11 anos e o de agora para leitores maiores? Pode ser. Cada escritor tem uma faixa etária com a qual estabelece maior cumplicidade literária, uma faixa etária para a qual tem “maior facilidade” para produzir. César Silva, autor, editor e crítico de livros de FC e Fantasia, comentou em um e-mail, que o texto de Rowling era competente e efetivamente o é. Sem querer fazer alta literatura, ela busca divertir o leitor e contar da melhor maneira possível a história de um menino em seu processo traumático de se fazer homem. O último volume se esmera em atar os cabos que ficaram devidamente soltos ao longo da história – afinal, nós nos habituamos a ler cada um dos volumes em separado, e nos referimos aos livros como “a série”, embora toda a história seja, na verdade, uma única história, com inícios e finais claramente demarcados para facilitar a edição dos volumes. Mas que não se faça ilusões o leitor preguiçoso: queimar etapas e ler apenas o último volume seria uma tolice. A completa compreensão da obra só será possível para quem acompanhou as aventuras do Menino-Que-Sobreviveu desde o início. E ao mesmo tempo em que ata vários cabos, Rowling deixa pelo menos uma porta bem aberta para uma possível continuação, e outra entreaberta, justamente no final, quando cabe ao leitor decidir se o destino do personagem seguirá sendo o proposto pela autora no último capítulo ou não.

Apesar de ser o melhor livro dos sete, “Harry Potter e as Relíquias da Morte” padece de vários problemas. Enquanto que nos livros anteriores, o início das narrativas, envolvendo a família “trouxa” do personagem fosse de um modo irônico a melhor parte dos volumes que contavam uma história de magia, onde a escritora retratava o difícil relacionamento do protagonista e seus tios e primo conseguindo realmente revelar em poucas páginas a evolução do personagem, desta vez o tema é descartado o mais rápido possível, com uma tendência à caricatura, que, aliás, permeia todo o livro – toda a série. Há momentos em que a autora parece tentar amenizar a difícil situação que cria com passagens verdadeiramente caricaturais que não contribuem para nada: não amenizam a tensão, não são engraçadas e no mais das vezes dificultam o texto, por excessivas. Isso para não comentar que com esse volume Rowling deixa bem claro, pela última vez, que não está disposta a discutir relacionamentos familiares de seus personagens. A família original de Harry, por já ter sido eliminada, está fadada ao imobilismo saudosista. A família que o acolheu é tirada de cena logo e definitivamente. E conquanto que finalmente o personagem revela ter algum coração, as emoções mais fortes que o permeiam ainda são a raiva e a frustração. A única coisa realmente benéfica em Harry é a coragem que torna alguma de suas atitudes frutos de uma determinação que tange a teimosia. O personagem continua cabeça quente, egoísta, incapaz de pedir ajuda a quem quer que seja senão em uma única passagem praticamente irrelevante para o bom andamento da narrativa. Em certa medida, concordo e muito com a avaliação do professor Severo Snape sobre ele. Continuo afirmando, e agora ainda mais, que o único professor que realmente tentou dar para Harry algo mais palpável do que desculpas para seu comportamento foi esse sujeito duro, que não se permitiu amar o menino tanto quanto os demais professores. E que no entanto enganou-se a si mesmo ao fazê-lo.

Enquanto leitora, me incomodou profundamente que o grande vilão da série se mostrasse um mau estrategista, incapaz de compreender o desafio que seu antagonista representa. Será isso que torna Voldemort um vilão, a incapacidade de mudar, de aprender com seus erros, de evoluir? Dando voltas à questão, parece ser que se ele tivesse deixado o menino em paz desde o início e tivesse se esforçado por atingir seus objetivos ignorando sua presença ou simplesmente monitorando seus esforços sem grandes interferências, teria sido mais ousado e melhor sucedido. Mas, como diria um especial da Disney sobre vilões, o que seria dos heróis sem eles, suas idéias fixas, suas ambições desmedidas e desproporcionais e seus erros absurdos? Basta lembrar que na história original dos “Três Mosqueteiros” o vilão, Cardeal Recheilieu, é tão inteligente que não se pode considerar o destino de Athos, Portos, Aramis e Darthagnan como um “final feliz”.

Caso à parte é o fato de que tudo o que a autora tinha para dizer com a série foi dito no primeiro volume. Os demais apenas levam o leitor a acompanhar o que acontece ao herói quando as crenças expostas no final de “Herry Potter e a Pedra Filosofal” são levadas às últimas conseqüências. Nem o “lado dos heróis” nem o “lado dos vilões” tem discurso algum. A justificativa primeira dos personagens que simpatizam com Harry Potter para combater o Lorde das Trevas é a própria existência do Lorde das Trevas. A justificativa do Lorde das Trevas para caçar o menino, agora adolescente, é o receio da realização de certa profecia. O mais perto de um discurso qualquer a que se chega em Harry Potter, é que Voldemort está disposto a dominar o mundo através da dominação do Ministério da Magia que, aliás, é um órgão ligado ao governo inglês e que, ao mesmo tempo, domina o mundo dos bruxos. Significativa, a mensagem política subliminar, nem tão subliminar assim, embora não realista . O embate entre os lados opostos se dá na forma mais simples de “o bem contra o mal”: ambos se digladiam porque são antagonistas e ponto final. Não existe nada que possa reuni-los sob uma mesma bandeira, nenhum objetivo comum. A única coisa na qual eles se reconhecem como seres do mesmo plano é a própria magia.

“As Relíquias da Morte” irá, certamente ao cinema – e será um espetáculo de efeitos especiais digno do preço da bilheteria. Choraremos nos momentos tristes e jogaremos pipoca na tela quando o vilão surgir acreditando em sua vitória incondicional. E a série será lida por leitores de todas as idades daqui em diante, porque tem força para manter vida própria longe da mídia. Os que preferirem um discurso óbvio e simples – e que fique claro que esta cronista não o considera por isso menos sincero: a maior qualidade de “Harry Potter” é a sinceridade de Rowling na sua crença no poder do amor – se consolarão com os sete volumes.

Já os que creditam que a fantasia é uma metáfora de realidade preferirão “Stormbringer”, de Michael Moorcock, por exemplo. Nada a ver? Tudo a ver: a fantasia e a magia os unem. Mas o discurso e as convicções pessoais dos escritores os separam irremediavelmente. Um reflete o universo de crenças femininas, sem escrever literatura feminista ou feminina. O outro o universo de crenças masculinas que, para bem ou para o mal, ainda é o modo dominante de pensar.

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