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É
sempre uma pena quando nos pomos a ler um livro de um autor que
apreciamos e descobrimos que o texto é um pouco mais do que uma
decepção, mas foi o que me aconteceu com a leitura de "Coraline"
de Neil Gaiman (Ed. Rocco, col. Jovens Leitores, 2003). Fã absoluta das
história de "Sandman", mergulhei na leitura de "Coraline"
cheia de expectativas. Infelizmente, a história revelou-se tão pobre
que me pareceu, sem a menor sombra de dúvida, que o melhor do livro é
o projeto gráfico da capa, um trabalho de excelência com ilustração
de Dave MacKean, aliás, o autor das capas belas e inquietantes das HQ
do "Homenzinho da Areia".
"Coraline"
conta a história de uma menina dos nossos tempos: vivendo em um novo
endereço – uma velha casa dividida em vários apartamentos alugados
para diferentes e estranhas pessoas – ela têm pais que trabalham em
casa mas que nunca têm tempo para ela. Marcados pela globalização e
pela comida rápida, quando é papai que cozinha a comida têm tudo para
ter um gosto estranho. Quando é mamãe, o microondas é o principal
utensílio para cozinhar. Sem irmãos, Coraline é uma criança
solitária, buscando continuamente companhia e afeto do Outro e nem
sempre encontrado.
O
que ela encontra na sala de sua casa é uma porta que originalmente dava
para o apartamento ao lado, marca de um tempo em que a própria
residência em que mora tinha outra geografia. O apartamento se encontra
vazio e o leitor logo sabe: aquela é a porta que levará Coraline a um
outro mundo, o da fantasia, prometido na contra-capa do livro. Mas que o
leitor não se engane: não há nenhum suspense em relação a este
ponto. Não existe nada que crie uma expectativa real quanto ao fato
literário de que será aquela a porta que levará a personagem a outro
mundo ou que acrescente drama de nenhum tipo. A porta do quarto do seu
filho ou de sua irmã tem mais emoção do que a porta fechada na sala
de Coraline.
Em
todo o caso, o outro mundo é um lugar estranho e assustador, habitado
pela outra mãe (assim mesmo, em letra minúscula) que criou a outra
casa, incluindo um outro pai. Lá, tudo parece o que para nós seria o
ideal familiar: pais interessados e presentes. Além disso lá está
estereótipo formal: mamãe é quem cozinha e quando o faz, trata
de perfeição. Já no quarto da menina,
os brinquedos vibram e falam à sua |
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passagem. O
outro mundo foi criado especialmente para Coraline pela outra mãe, que
ambiciona que a menina fique com ela neste mundo de fantasia. Para isto
a protagonista só precisa costurar botões negros no lugar dos olhos e
tudo estará bem. Como Coraline não concorda com o disparate – não
fica claro, mas Neil Gaiman nos faz pensar em Matrix e na discussão em
torno do que é mais importante: uma vida fictícia mas perfeita, ou uma
vida real e imperfeita – a outra mãe rouba-lhe os pais. E, assim,
Coraline embarca em um jogo perigoso que deveria de ser apavorante –
mas não consegue ser – para recuperar os pais e a realidade.
Em
certa medida, o texto lembra muito "The tief of always" de
Clive Barker, embora bem mais enxuto. Mas como "The tief of always",
o autor demora até encontrar a saída do livro, inventando mais de um
final para o mesmo, um final que amarre todas as pontas da narrativa –
mas que deixa dúvidas quanto ao autor ter conseguido isso, ou não.
Entretanto,
o pior de "Coraline" está justamente onde se esperaria ver o
melhor, em se tratando de Neil Gaiman: as figuras e os argumentos são
óbvios e o simbolismo pobre. Mesmo os monstros não assustam. Alguns
porque são tão horrendos que, mais do que medo, inspiram piedade.
Outros, porque seu "elo mental" com a personagem central da
história não convence em nada. E finalmente, há os monstros
"óbvios", aqueles que o leitor já sabe como são antes mesmo
de se deparar com eles. Se parece lógico que o autor cria um mundo
paralelo para que a quase abandonada Coraline encontre um pouco de calor
humano e afeto, a discussão sobre a importância desde mundo para a
menina, ou a ascendência dele sobre o mundo real passa longe do texto.
Talvez coubesse fazer uma ponte entre o mundo onírico – o outro mundo
– e o das drogas, mas se isso é assim, a metáfora não fica clara em
nenhum momento.
O
que por um lado levanta uma questão delicada: a de que não é tão
fácil escrever para crianças, nem que qualquer coisa serve para os
pequenos leitores. Assunto um tanto "tabu" entre o fandom
brasileiro que prefere rotular de "infantil" tudo o que
considera de menor qualidade. "Coraline" é Neil Gaiman e é
infantil. Mas não é bom.
Simone Saueressig é escritora
gaúcha de literatura fantástica
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