Quando
o homem se meteu pela primeira vez a observar as estrelas, provavelmente
na fase paleolítica final do seu desenvolvimento, era natural que visse
no universo uma porção de terra chata, rodeada pelo mar e coberta por
um céu em cúpula transparente, onde se achavam o Sol, a Lua e as
estrelas. Que o Sol e a Lua são dotados de movimento vêem-no até os
olhos mais distraídos, mas só bastante mais tarde o homem notaria que
certas "estrelas" - os planetas do sistema solar - se moviam
também nos céus, de fundo ao encontro das estrelas fixas.
Os
primeiros astrônomos de que temos conhecimento certo foram os da
Mesopotâmia, da Índia e da China, sendo eles quem começaram a
registar, sistematicamente, os fenômenos celestes, embora as estreitas
ligações entre os movimentos do Sol e da Lua e as datas indicadas para
as semeaduras e colheitas devam ter constituído o interesse primordial
para os primeiros agricultores do começo do período Neolítico (c. de
10 000 anos a.C.).
Este
interesse com relação ao firmamento fez com que os homens
desenvolvessem sistemas explicativos sobre o surgimento do cosmo, do
homem, sua relação com o firmamento e até mesmo a
possibilidade de existir vida extraterrestre em
algumas daquelas estrelas; cientistas e filósofos
antigos defenderam abertamente suas idéias
e pesquisas sobre a existência de
vida extraterrestre e a pluralidade dos
mundos habitados, foram os precursores da
astrobiologia e também da ficção científica
contemporânea, assim meu propósito neste
artigo é resgatar as reflexões destes
pensadores, estas começam na Grécia Antiga e
enceram-se no século XIX.
Foram
os gregos, a civilização que esteve na base da nossa, que tentaram
explicar os fenômenos astronômicos em termos físicos pela
primeira vez. Muitos anteciparam-se para a sua época. Sabemos,
por exemplo, que Aristarco de Samos (c. 320 -250 a.C.) antecipou em mais
de 1700 anos o sistema heliocêntrico de Copérnico, postulando que a
Terra era apenas um planeta que, tal como os outros, girava em volta do
Sol e que as estrelas estavam a distâncias enormes. Um seu contemporâneo,
da mesma cidade, Epicuro, escreveu que "talvez possam existir
outros locais possíveis de vida, para além da Terra", devendo ser
considerado justamente o precursor da moderna astrobiologia.
A
astrobiologia é com efeito o estudo científico das possibilidades de
vida no universo, seu passado, presente e futuro. Começa com a
investigação da vida na Terra, o único local até ao momento onde
sabermos que ela existe, e estende-se aos outros planetas e corpos do
sistema solar, espaço interplanetário, outros sistemas planetários,
sistemas galácticos e universo em geral. Os seus limites espaciais
envolvem tudo o que é observável, e temporalmente podemos dizer que os
seus horizontes se prolongam aos primórdios do universo, logo após o
"big bang", quando as primeiras nucleossínteses de elementos
se deram.
Mas
voltando aos gregos, foi Leucipo (século 5 ª.C), pai da
teoria atômica, que ao considerar que a existência
de um número infinito de átomos e
de combinações entre eles levaria
a um número infinitos de mundos e seres
como o nosso, que criou as bases
científicas em que se sustentaram as
teorias do cosmo e da astrobiologia de
Aristarco e Epicuro.
Entretanto
com o advento do cristianismo e da perseguição implacável a
todos os pensadores que ousassem propor qualquer teoria que não
estivesse de acordo com o dogmas da Igreja Católica, as ciências
astronômicas e hipóteses astrobiologicas ficaram estagnadas.
Durante
o renascimento, a existência de outros mundos habitados passou a ser
admitida por vários pensadores e cientistas. Entre eles se destacou o
astrônomo, matemático e filósofo italiano Giordano Bruno
(1548-1600), ferrenho defensor da teoria cosmológica de Copérnico,
em que terra girava em torno do sol (na época heréticas,
suas idéias o levaram a condenação pela inquisição e a morte na
fogueira).
Se
a ortodoxia, apoiada na metafísica ariatotélica-tomista, colocava Deus
como primeira causa, motor imóvel e perfeição absoluta, um ser
transcendente, ou seja, com existência plena e separada de suas
criaturas. Bruno, concebe Deus imanente ao Universo e idêntico
a Ele. Deus não é o criador do universo, mas seria o
próprio universo. Assim temos um universo infinito e ilimitado, como
afirmou Lucrécio (98 a - 55 ªc) no poema Da Natureza, e a
terra não é mais o centro privilegiado do Universo,
existindo inumeráveis mundos habitados:
“É
necessário, porém, que para uma forma divina inacessível
haja um simulacro infinito, no qual, como
membros infinitos se encontrem mundos inumeráveis...
onde deve existir inúmeros indivíduos... como
podem existir inúmeros mundos iguais a
este... (BRUNO)
Em
1593 o astrônomo Johannes Kepler redigiu o seu Somnium, o sonho
de uma viagem á Lua, no Somnium ele antecipa diversos fatos hoje
conhecidos como necessários a uma viagem espacial: as características
e treinamento que devem ter os homens destinados a viagem; á
disposição dos membros na fase de partida quando o
organismo sofre um choque duríssimo; os problemas derivados
da baixíssima temperatura e da dificuldade de respirar, do duro
impacto com o solo lunar, da necessidade de evitar os raios
solares, e etc.
Já
os habitantes da Lua tem dimensões enormes e natureza serpentina, tão
comuns na imaginação popular, sua descrição da Lua e de suas
crateras é fantasticamente realista para serem observadas
com os telescópios da época. É um livro realmente fascinante
que da a idéia da infinidade e da pluralidade dos mundos, que
habitavam as mentes destes primeiros mestres da ficção científica.
Cirano
de Bergerec, um dos primeiros escritores de Ficção Científica,
nascido em Paris, em 6 de Março de 1619, formidável espadachim, e
mundialmente conhecido como personagem da peça de Edmond Rostand,
escreveu varias tragédias, mas suas obras primas são, Uma Viagem à
Lua, publicada em 1650, e Uma Viagem ao Sol, publicada em 1662.
Nestes
romances as idéias mais interessantes que podemos observar são as
descrições feitas com relação ao método de se alcançar a Lua, até
então as viagens à Lua tinham sido feitas por meio de jatos de água,
por veículos atrelados a bandos de aves e com emprego de anjos ou de
demônios para o transporte, Cirano descreve como um dos métodos
apropriados o de ligar foguetes à sua nave, tratando-se realmente
de este ser o método pelo qual chegamos a Lua, em 1969.
Para
Isaac Asimov, esta foi a mais notável visão individual, da história
da Ficção Científica, uma vez que o principio do foguete depende da
Terceira Lei do Movimento, que foi enunciada por Newton muitos anos
depois da morte de Cirano.
Em
1686, Bernard de Bouvier de Fontenelle,
publicou seu “Diálogos sobre a
pluralidade dos Mundos”, onde ele popularizou
e difundiu a idéia de que as estrelas são
outros sois cercados de planetas habitados,
ele faz a seguinte afirmação no prefacio
de seu livro:
“Eu
não estarei gracejando se disser que
escolhi, dentre toda a filosofia, a
matéria mais capaz de atiçar a
curiosidade” (FONTENELLE, pág 38 e 39)
Bernard
de Bovier de Fontenelle é realmente um grande entusiasta da existência
de habitantes em outros mundo, para ele, uma vez que, mesmo em pedras
duríssimas existe vida, todos os mundos então poderiam tela:
“...
a partir deste exemplo, e mesmo a Lua não passe de um amontoado de rochas,
eu prefiro concebê-la roída por seus habitantes a imaginá-la desabitada.
Afinal tudo é vivo, tudo é animado.” (FONTENELLE, pág 105)
Mas
em geral os “alienígenas” de Fontenelle são apenas seres humanos com
pequenas variações nos órgãos dos sentidos e na organização social. Ele
mesmo deixa claro no livro que tudo o que faz e pegar característica de animais
terrestres como abelhas e bichos da seda e transportá-los para outros mundos.
“Então
lhe contei a história natural das abelhas, a respeito das quais ela não
conhecia muito mais do que o nome. Assim vedes, prossegui, que simplesmente
transporto para outros planetas coisas que se passam em nosso mundo, imaginaríamos
extravagâncias que iriam parecer bizarras e, no entanto, seriam
plenamente reais...” (FONTENELLE, pág 110)
A
partir e 1700, a idéia da pluralidade dos mundos habitados se popularizou
em conseqüência de fatores como a difusão do copernicanismo, o crescimento
das ciências naturais e a assimilação da física newtoniana. A nova física
havia criado um novo Universo de dimensões infinitas no espaço e no
tempo, que será o palco onde se desenrola o conto Micromégas de Volteire,
um dos mais populares escritores iluministas.
Neste
conto Volteire narra a viagem de um habitante da estrela de Sírio ao
planeta Saturno, e depois destes dois a Terra. No conto ele explora
com incrível antecipação para a sua época as diferenças na
estrutura corpórea e intelectual que raças alienígenas podem ter por
viverem em ambientes tão diferentes da Terra, e chega a propor o
uso de naves espaciais semelhante a cometas e da energia solar.
“O
nosso viajente conhecia ás maravilhas das leis da gravitação e todas as forças
atrativas e repulsivas. Utilizava-as tão de acordo que, ou por meio de um raio
de sol, ou graça à comodidade de um cometa, ia de planeta em planeta, ele e os
seus como um passaro voa de galho em galho.” ( VOLTAIRE, pág. 111)
Já
no livro O filósofo ignorante, Volteire afirma que:
“...Tenho
até mesmo motivos para crer que os
planetas estão povoados de seres sensíveis
e pensantes, mas uma barreira eterna nos
separa, e nenhum dos habitantes dos outros
globos se comunica conosco” (VOLTEIRE apud BARCELOS, pág.
18)
Sabemos
hoje que a primeira pessoa a ter concebido as estrelas como sendo mundos foi o
cardeal alemão Nicolau de Cusa; em 1440, ele publicou algumas noções, que
parecem notavelmente modernas, sobre o Universo. Sustentava que o espaço era
infinito, e que as estrelas eram outros sóis, e já que, era absurdo que todos
aqueles sóis fossem desperdiçados, ele presumiu que cada qual tinha sua família
de planetas em volta, e estes eram habitados.
Entretanto
foi Immanuel Kant na parte final de sua obra, História natural e teoria
geral do céu, que além de lançar sua revolucionaria teoria sobre a gênese
do sistema solar, defendendo que os sistemas planetários
teriam se formado a partir da contração
gravitacional de uma nuvem de matéria no espaço; teoria esta ainda
aceita com algumas alterações. Também formula uma hipótese sobre as
inteligências extraterrestres.
Nesta
hipótese Kant propõe que a natureza destes seres derivaria de fatores astronômicos,
como a distancia do Sol e a composição da matéria, ou em sua próprias
palavras:
“...
a qualidade dos seres racionais .. está submetida a certa
regra, segundo o qual a maior qualidade
e perfeição situa-as na proporção da
distancia de seus habitantes ao Sol.” (KANT apud
BARCELOS, pág. 18)
O
filósofo escocês David Hume, em seus Diálogos
Sobre a Religião Natural, publicado em 1779,
segue o mesmo raciocínio de Kant, ele propõe
que:
“...há
algum fundamento razoável para concluir que
s habitantes de outros planetas possuem
pensamento, inteligência, razão, ou algo similar
a estas faculdades humanas ? Quando a natureza
é tão diversificada neste pequeno globo;
podemos imaginar que ela incessantemente copia
a si própria através de um universo
tão imenso ?”. (HUME apud BARCELOS, pág. 19)
Outro
pluralista famoso foi Sir William Herschel (1738-1822), um astrônomo de
primeira linha ele catalogou agrupamentos de estrelas nebulosas, descobriram
novos satélites de Saturno e também o planeta Urano.
Mas
Herschel era propenso a especular além dos fatos, e estava convencido por um
argumento incerto de analogia de que todas as estrelas e planetas têm vida
inteligente. Nas palavras de Flammarion:
“Pareciam
mostrar o no astro solar um globo escuro como os planetas, envolvido de duas
atmosferas principais, das quais a exterior seria a fonte de luz e do calor, e a
interior teria o papel de refletir para fora esta luz e este calor e preservar o
globo solar. Este globo solar seria de espécie habitável: era a opinião dos
dois Herschel...” (FLAMMARION, 1995, pág 66)
Herschel
permaneceu convencido da existência de seus "homens solares" até sua
morte em 1822. O filho de William Herschel, John, também se tornou um astrônomo
respeitado. E um dos homnes que mais influenciou Charles Darwin, seu
livro, Discurso Preliminar sobre o Estudo da Filosofia, incendiou o jovem
Darwin, ele vislumbrou ali o escopo ilimitado da explicação científica e o rápido
progresso de cada ramo do conhecimento.
“Como
Herschel observou em uma passagem que Darwin sublinhou,“O que, então, não
podemos prever (...), o que não podemos esperar dod esforços de mentes
poderosas”, construindo sobre o “conhecimento adquirido das gerações
passadas?” O céu era o limite.” (DESMOND e MOORE, pág 109 e 110)
Pelo
ano 1835 John estava em Feldhausen, África do Sul, onde ele construiu um telescópio
para tirar proveito do ar mais claro por lá e ver porções do céu do sul não
visíveis a latitudes mais ao norte. Nesse ano o jornal New York Sun
publicou, em formato de novela com capítulos, uma suposta reimpressão dos
relatos das descobertas de John Herschel na África do Sul.
Os
artigos descreveram em detalhes a invenção de um telescópio maravilhoso, do
qual uma pessoa poderia observar a superfície da lua como se estivesse de pé
sobre ela. À medida que os capítulos se desenvolveram, este observou as
crateras da lua, cristais de ametista com 90 pés de altura, rios, vegetação e
animais, antílopes, cabras, cegonhas, pelicanos, bisões com tapadeiras de
olhos feitas de pele para proteger seus olhos do sol e castores sem cauda.
E
por fim os habitantes da Lua, eram homens e mulheres peludos e alados, lembrando
morcegos, e podiam voar. Esta foi uma das mais famosas fraudes de jornal na
história. Enganou até mesmo alguns cientistas. John Herschel, ainda na África
do Sul, finalmente ouviu falar por carta da fraude, e achou-a divertida, ainda
que segundo ele suas descobertas reais não chamassem tanta atenção.
Mas
John não era um cético, ele acreditava, como seu pai na pluralidade dos mundos
habitados, em suas próprias palavras:
“Com
que objetivo devemos supor que as estrelas tenham sido criadas e que corpos
assim magníficos tenham sido dispersos na imensidão do espaço? Isto não foi,
sem dúvida, para iluminar nossas noites, objetivo que poderia ser melhor
satisfeito por mais uma lua, que fosse a milésima parte da nossa, nem para
brilhar como um espetáculo vazio de sentido e de realidade, e nos iludir em vãs
conjecturas. Esses astros são, é verdade, úteis ao homem como pontos de referência,
aos quais pode tudo referir com exatidão; mas seria preciso ter tirado bem
pouco fruto do estudo da astronomia para poder supor que o homem seja o único
objeto dos cuidados de seu criador, e para não ver, no vasto e desconcertante
aparato que nos cerca, moradas destinadas a outras raças de seres vivos.” (HERSCHEL
apud FLAMMARION, 1995, pág 60).
Após
Herschel temos na figura de Nicolas Camille Flammarion, o maior defensor da
Pluralidade dos Mundos Habitados, nasceu aos vinte e seis dias de fevereiro de
1842, ainda aos oito anos ganhou um livro de Cosmografia do qual copiou,
especialmente os sistemas de Ptolomeu, Copérnico e Tycho-Brahe.
Aos nove anos de idade, Flammarion iniciou seus estudos de latim. Realizou seus
estudos clássicos na cidade de Langres, em uma escola católica que foi responsável
por seus sólidos conhecimentos em humanidades.
Quando
seus pais mudaram para Paris, ele passou a estudar na Associação Politécnica
de Paris em cursos gratuitos, onde aprendeu melhor as matemáticas. Aos domingos
Flammarion estudava as disciplinas que despertavam seu interesse, como a
frenologia, a fisiognomia e os sistemas de Laváter, Gall e Spurzheim.
Aos
15 anos Flammarion escreveu um livro de cerca de 500 páginas, que ele próprio
ilustrou com 150 desenhos, intitulado "Cosmogonia universal: estudo do
mundo primitivo". Este trabalho seria publicado mais tarde com o título:
"O mundo antes da aparição do homem." Com este livro em mãos,
o jovem ganhou coragem e apresentou-se no Observatório de Paris, à época
dirigido por Le Verrier, o astrônomo que houvera descoberto Netuno sem
instrumentos, apenas usando cálculo. Após ser entrevistado e avaliado foi
aceito como aluno-astrônomo.
Entre os tipos de atividades que realizou, Flammarion mediu estrelas duplas e
realizou cálculo de suas órbitas, estudou a direção das correntes aéreas,
fez estudos higrométricos do ar, analisou a rotação de corpos celestes,
confeccionou mapas de Marte e escreveu trabalhos sobre a constituição física
da Lua.
Seu
primeiro livro publicado foi "Pluralidade dos Mundos Habitados"
(1861), seguido-se "Viagem extática às regiões lunares", "Os
mundos imaginários e os mundos reais" (1865), "As maravilhas
celestes" (obra popular de divulgação da astronomia), "Estudos e
leituras sobre astronomia" (1867), "Viagens aéreas" (1867),
"Galerie Astronomique" (1867), "Contemplações científicas"
(coletânea de escritos publicados nas revistas "Siècle", "Magasin
pittoresque" e "Cosmos" - 1870), "A atmosfera" (1871),
"Astronomia Popular" (1880), "O mundo antes da criação do
homem" (1885), "Os cometas, as estrelas e os planetas" (1886),
"Astronomia para amadores" (1904) e "Raio e trovão" (1906).
Em "Pluralidade dos Mundos Habitados" trata do sistema solar, realiza
um estudo comparativo dos planetas, discute a fisiologia dos seres a fim de
abordar a questão da habitabilidade, trata de habitantes de outros mundos e da
pluralidade dos mundos ante o dogma cristão.
São muitas as revistas que receberam suas contribuições. Em Junho de 1863,
tornou-se redator científico da revista "Cosmos", contribui nas
revistas "Siècle", "Magasin Pittoresque" e funda, em 1882,
a revista "L"Astronomie". Esta última revista continua sendo
editada até os dias de hoje.
O Observatório de Juvisy foi fundado por Flammarion em 1883, onde passou a
realizar seus trabalhos nas áreas de astronomia, climatologia e meteorologia.
Ele é visto pelos astrônomos contemporâneos como um astrônomo amador que
realizou um trabalho de divulgação da astronomia. Esta qualificação
possivelmente se deve ao fato de ele não fazer parte de nenhuma academia ou
centro de pesquisa oficial, mas, certamente, não se pode qualificá-lo de
amador por não publicar seus trabalhos regularmente em periódicos científicos.
Quatro anos depois, ele tornou-se o fundador da Sociedade Astronômica da França
(Société Astronomique de France), com o objetivo de "difundir as Ciências
do Universo e fazer os amadores participarem do seu progresso", que
continua vigente até os dias de hoje. D. Pedro II, imperador do Brasil, foi
pessoalmente ao observatório de Juvisy entregar-lhe a comenda da "Ordem da
Rosa". Flammarion também fez parte por via literária e pessoalmente, do
grupo de Victor Hugo.
O primeiro contato de Flammarion com a doutrina dos espíritas se deu em uma
livraria, onde ele teve acesso a "O Livro dos Espíritos" de Allan
Kardec. Ao folhear o livro o astrônomo constatou que ele tratava, entre outros,
do assunto do livro que ele estava escrevendo: Pluralidade dos Mundos Habitados.
O que mais o intrigava é que a origem das informações esta atribuída a espíritos,
o que ele resolveu verificar.
Procurou Allan Kardec e passou a assistir as reuniões da Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas, nesta Sociedade ele obteve diversas mensagens assinadas
por Galileu, algumas das quais Kardec inseriu em "A Gênese".
Mas ele se mostra cético com relação a estas experiências.
"Eu
não demorei a observar que as nossas comunicações mediúnicas refletiam
simplesmente nossas idéias pessoais, e que Galileu por mim, e que os habitantes
de Júpiter por Sardou, são estranhos a estas produções inconscientes dos
nossos espíritos" (FLAMMARION, 1979)
As
idéias positivistas, especialmente as referentes ao conceito e papel da ciência
no conhecimento, foram adotadas por ele. O empirismo, a construção das teorias
a partir da observação dos fatos, o questionamento de qualquer sistema calcado
em postulados apriorísticos e o uso da matemática na análise dos fenômenos são
uma constante na construção do seu pensamento, em suas pesquisas astronômicas,
e se mostra desconfiado com o movimento espírita, apesar de ser um pesquisador
destes fenômenos.
"O
comitê me ofereceu suceder a Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita.
Eu recusei, dizendo que nove décimos dos seus discípulos continuariam a ver,
durante muito tempo ainda, uma religião mais que uma ciência, e que a
identidade dos "espíritos" estava longe ainda de ser provada." (FLAMMARION,
1911. p. 498)
Uma
afirmação sem duvida valida até os dias de hoje, além das obras citadas
referentes a suas pesquisas astronômicas, Flammarion escreveu pelo menos quatro
livros que podemos classificar como ficção científica, ainda que carregados
de influência espírita, são eles:
1.
"Urânia", escrito em forma de diálogos intercalados por informações
e idéias do movimento espírita e da astronomia, que vaga entre os dados da
pesquisa e a imaginação.
2.
"O fim do mundo" Trata-se de uma ficção ambientada no vigésimo
quinto século sobre o fim do sistema solar.
3.
"Narrações do infinito " O autor o considera como seu sexto livro, e
o define como um "romance astronômico" escrito em forma de diálogo
entre um vivo e um morto.
4.
"Estela" é narrativa que tem por centro o amor de Rafael e Estela.
Traz em seu bojo as informações da Astronomia, o debate com o materialismo e
os temas espiritualistas.
Na
sua obra mais conhecida “A Pluralidade dos Mundos Habitados”, Flammarion
defende a existências de seres extraterrestres nos diversos planetas espalhados
no cosmo, mas julga que mesmo que a composição atômica dos mundos sejam
iguais, as diferentes formas destas se combinarem dará origem a seres que mal
podemos imaginar, nas palavras e Flammarion:
“I – As forças diversas que estiveram em ação na origem das coisas deram
nascimento, nos mundos, a uma grande diversidade de sesres, seja nos
reinos inorgânicos, seja nos reinos orgânicos;
II – Os seres animados foram, desde o começo, constituídos segundo formas e
organismos em correlação com o estado fisiológico de cada uma das esferas
habitadas;
III – Os homens dos outros mundos diferem de nós, tanto em sua organização
íntima quanto em seu tipo físico exterior.” (FLAMMARION, 1995, pág
231)
Camille
Flammarion faleceu em 04 de junho de 1925, a Pluralidade dos Mundos Habitados
como disciplina ao mesmo tempo filosófica, cientifica e religiosa, encerrasse
com Flammarion, para tornar-se literatura (ficção cientifica), e mais tarde a
moderna astrobiologia. Literatura e ciência, entretanto, não abordaremos estas
neste trabalho.
Referências
Bibliográfica:
ASIMOV,
ISAAC. O Início e o Fim. São Paulo: Círculo do Livro, 1977.
BARCELOS,
Eduardo Dorneles. Telegramas para Marte: A busca científica de vida e
inteligência extraterrestre..Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BARCELOS,
Eduardo Dorneles. Vida Extraterrestre. São Paulo: Editora Abril,
2003. ( Coleção Para Saber Mais ).
BRUNO,
Giordano. Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos. Trad. Helda Barraco e
Nestor Deola. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
DESMOND,
Adrian. MOORE James. DARWIN: A vida de um evolucionista atormentado.
Trad. Cynthia Azevedo. São Paulo: Geração Editorial, 2001.
FONTENELLE,
Bernard de Bouvier de. Diálogos sobre A Pluralidade dos Mundos. Trad.
Denise Bottmann. Campinas: Editora da Unicamp, 1993.
FLAMMARION,
Camille. A Pluralidade dos Mundos Habitados.Trad. Norberto de Paula Lima.
São Paulo: Ícone, 1995.
______.
O homem antes da história: ancianidade da raça humana, Revista Espírita,
São Paulo, EDICEL, ano X, vol. 12, p. 359-362, dez. 1867. [Traduzido para o
português por Júlio Abreu Filho]
______.
O Espiritismo e a ciência, Revista Espírita, São Paulo, EDICEL, ano
XII, vol. 5, p. 135-139, mai. 1869. [Traduzido para o português por Júlio
Abreu Filho]
______
Mémoires biographiques et philosophiques d"un astronome. s.n.,
1911.
______
Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec. in: KARDEC, Allan.
Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1978.
______
Urânia. Rio de Janeiro: FEB, 1979.
______
Estela. Rio de Janeiro: FEB, 1994.
______
Narrações do infinito. Rio de Janeiro: FEB, 1993.
______
O fim do mundo. Rio de Janeiro: FEB, 1995.
ROSSI,
Paolo. A Ciência e a Filosofia dos Modernos. Trad. Álvaro Lorencini. São
Paulo: Editora UNESP, 1992.
VOLTAIRE.
Contos. Trad. Roberto Domenico Proença. São Paulo: Nova Cultural, 2002.
Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo e cientista social (mestrando), pela UNESP de Marília.
edgarfilosofo@uol.com.br
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