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Há
exatamente uma década, em 11 de agosto de 1994, falecia o ator inglês
Peter Cushing, um dos ícones do cinema de horror. Uma das
características mais curiosas de sua carreira foi ter atuado em vários
filmes do gênero sem quase nunca ter sido o vilão principal. Este
papel coube na maioria das vezes ao seu amigo e parceiro Christopher
Lee. Ao "cavalheiro do horror" ficou a terefa de combater
monstros, lobisomens, alienígenas e principalmente vampiros. Tudo à
sua maneira, é claro, pois ele não era o tipo galã que provocava
suspiros na platéia: apesar de lutar contra o mal, era um intelectual
emocionalmente reprimido, excêntrico, circunspecto e, acima de tudo,
britânico.
Nascido
em 26 de maio de 1913 na cidadezinha de Kenley, Inglaterra, Cushing
estudou teatro nas melhores escolas, atuou como assistente de direção
durante alguns anos até sua estréia em 1935 na peça The Middle
Watch. Já à época era um fã dos filmes de horror americanos da
Universal Pictures, e então atravessou o Atlântico e foi tentar a
sorte em Hollywood. Sua experiência não foi das mais bem sucedidas,
atuando em papéis coadjuvantes em algumas comédias da dupla O Gordo
e o Magro.
Sua
estréia no cinema aconteceu em 1941 no filme The Man in the Iron
Mask. No mesmo ano, estreou em Hollywood na produção de Vigil
in the Night. Mas rolava a Segunda Guerra Mundial e ele acabou
recrutado para atuar numa série de curta-metragens pró-aliados como
parte do esforço de guerra.
Pelo
fim dos anos 40 Cushing voltou aos palcos londrinos, mas foi no filme de
Sir Lawrence Olivier que ele se destacou como um dos personagens de Hamlet,
de Shakespeare. A seguir atuou em algumas produções inglesas sempre
com papéis cada vez mais complexos. Até que em 1954 foi aclamado por
sua atuação como o atormentado Winston Smith, na adaptação da TV
inglesa do romance 1984 de George Orwell.
Glória
na Hammer
Por
essa época estava nascendo na Inglaterra uma nova escola de cinema de
horror, a Hammer Films. Apesar de produções modestas, remodelou o
gênero bastante desgastado com as produções da Universal dos anos 30
e 40. Entre suas principais virtudes e inovações, havia a ênfase na
fotografia excessivamente colorida, quase berrante, a música tocada ao
som de órgãos e outros instrumentos pouco usuais, recontando velhos
clássicos de uma maneira mais violenta, sensual e com um clima gótico
muito eficiente. Mas foi, sobretudo, com atores carismáticos que a
Hammer fez história. Houve um grupo deles, mesmo os coadjuvantes, mas
os dois astros foram o vilão Christopher Lee e o cavalheiro Peter
Cushing. Parceiros de atuação e antagonistas nas histórias, um
completava o outro, com charme, talento e alguma dose de ironia, de não
levar totalmente a sério os papéis que desempenhavam. A eles merece
igual destaque o diretor Terence Fisher, o grande artesão e estilista
da maneira Hammer de contar uma história de horror.
E
foram vários os sucessos da produtora, a começar com A Maldição
de Frankenstein (1957), O Vampiro da Noite (1958), O Cão
dos Baskervilles (1959), A Múmia (1959), A Górgona
(1964), Ela (1965) – este último estrelado pela suprema bondgirl
Ursula Andrews, como uma estranha e poderosa mulher de uma ilha
esquecida, baseada num romance do criador de Tarzan, Edgar Rice
Burroughs – e outros verdadeiros clássicos do cinema de horror.
Assim,
coube a Cushing interpretar o Barão Victor Frankenstein, o caçador de
vampiros Van Helsing, um arqueólogo idealista às voltas com a
maldição da múmia e até Sherlock Holmes. Sempre mantendo intactas
suas peculiaridades exóticas, aristocráticas, soturnas.
Características parecidas com sua própria pessoa.
Peter
Cushing é muito lembrado também como o cientista louco de dois filmes
para o cinema da série de ficção científica inglesa da BBC, A
Guerra dos Daleks, uma série de TV que não foi até hoje exibida
no Brasil. Trata-se de uma legenda da TV inglesa sendo exibida por mais
de dez anos ininterruptos. O longa-metragem é de 1965 e nessa época
Cushing ainda interpretava vários papéis para a Hammer. Além de sua
longa interpretação como Dr. Who, é bom ressaltar que atuou também
em dezenas de telefilmes, com especial destaque para a produção The
Caves of Steel (1964) – raríssima –, uma adaptação do bom
romance Caça aos Robôs, de Issac Asimov. Cushing interpretou o
protagonista, o investigador Elijah Baley.
No
início dos anos 70, ele mudou de produtora. Com a decadência da Hammer,
foi para a rival (e não tão brilhante) Amicus e emprestou seu talento
a bons filmes, como A Casa que Pingava Sangue (1970) – quatro
histórias curtas, baseadas em contos de Robert Bloch – , O
Expresso do Horror (1972) e A Essência da Maldade (1973).
Estes dois últimos falando, coincidentemente, de monstros há muito
esquecidos das estepes siberianas e de ilhas indonésias. Todos, ao lado
do parceiro e vilão Lee, que também mudou de produtora.
Armadilhas
Da
mesma maneira que a fórmula de filmes de horror foi usada à exaustão
pela Universal Pictures, o mesmo fez a Hammer. Resultado: filmes cada
vez piores, bilheterias menores, cancelamento de novas produções,
desemprego para a maioria dos atores. E Cushing atuou em ‘pérolas’,
algumas curiosas até pelo título, como por exemplo, Drácula no
Tempo da Mini-Saia, de 1972.
Desta
forma, a exemplo dos astros Bela Lugosi e Boris Karloff, que pagaram um
alto preço nos anos 50 e 60 por trabalharem em várias produções de
horror de má qualidade, caminho parecido seguiram os ídolos ingleses
Peter Cushing e Christopher Lee, atuando em vários filmes ruins no
início dos anos 70, para em seguida verem minguar os convites para
atuarem em produções de melhor qualidade.
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Afora
a queda dos bons personagens para interpretar, Cushing sofreu um duro
golpe em 1971, quando morreu sua mulher Helen Cushing. O ator era muito
apegado a ela, a amava de uma maneira intensa, e o declínio de sua
carreira também pode ter sido motivado pela perda da esposa.
Mesmo
assim, corria o ano de 1977 e um jovem cineasta hollywoodiano, deu o
último papel digno a Cushing. O diretor era George Lucas, que foi
filmar na Inglaterra (pois os cachês eram mais baratos) e fazer
história com a space-opera Guerra nas Estrelas. Cushing
interpretou o personagem malígno de Grand Moff Tarkin, comandante de
Darth Vader nas forças do Império.
No
conjunto de sua filmografia, Peter Cushing brilhou no clássico de Lucas
e é saudado como o Dr. Who pelos fanáticos fãs desta série inglesa.
Mas dez anos após sua morte o que melhor representa sua carreira são
os personagens que fez para a Hammer. Sherlock Holmes, o Barão Victor
Frankenstein e, sobretudo, o Professor Van Helsing, são as principais
facetas daquele que está justamente imortalizado como o gentleman of
horror.
Os
Principais Filmes de Peter Cushing:
O
ator teve uma carreira bastante longa de 47 anos, onde atuou em 133
produções, entre cinema e TV. Segue uma listagem básica, com 50 dos
seus filmes.
—
The Man in the Iron Mask, de
1939
—
Vigil in the Night, de 1940
—
Hamlet (Hamlet), de 1948
—
1984 (1984), de 1954
—
Alexander the Great (Alexandre,
o Grande), de 1956
—
The Curse of Frankenstein (A
Maldição de Frankenstein), de 1957
—
The Abominable Snowman (O
Monstro do Himalaia), de 1957
—
Horror of Dracula (O Vampiro da
Noite), de 1958
—
Revenge of Frankenstein (A
Vingança de Frankenstein) , de 1958
—
The Hound of the Baskervilles
(O Cão dos Baskervilles), de 1959
—
The Mummy (A Múmia), de 1959
—
The Flesh and the Fiends (A
Carne e o Diabo), de 1959
—
The Brides of Dracula (As
Noivas de Drácula), de 1960
—
The Man who Finally Died, de
1962
—
The Evil of Frankenstein (O
Monstro de Frankenstein), de 1964
—
The Caves of Steel, de 1964
—
The Gorgon (A Górgona), de
1964
—
Dr. Terror’s House of Horrors
(As Profecias do Dr. Terror), de 1965
—
She (Ela) , de 1965
—
The Skull, de 1965
—
Dr. Who and the Daleks (A
Guerra dos Daleks), de 1965
—
Frankenstein Created Woman (E
Frankenstein Criou a Mulher), de 1967
—
Torture Garden (As Torturas
do Dr. Diábolo), de 1967
—
Frankenstein Must Be Destroyed
(Frankenstein Tem de Ser Destruído), de 1969
—
Scream and Scream Again (Grite,
Grite Outra Vez), de 1969
—
The Vampire Lovers (Carmilla, a
Vampira de Karnstein), de 1970
—
The House that Dripped Blood (A
Casa que Pingava Sangue), de 1970
—
I, Monster (O Soro Maldito), de
1971
—
Twins of Evil (As Filhas de
Drácula), de 1971
—
Tales From the Crypt (Contos do
Além), de 1972
—
Fear in the Night (Um Grito
Dentro da Noite), de 1972
—
Nothing But the Night (Terror
na Penumbra), de 1972
—
Dr. Phibes Raises Again (A
Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes), de 1972
—
Asylum (Asilo Sinistro), de
1972
—
Dracula A.D. (Drácula no Mundo
da Mini-Saia), de 1972
—
And Now the Screaming Starts!
(Os Gritos que Aterrorizam), de 1973
—
The Creeping Flesh (A Essência
da Maldade) , de 1973
—
Horror Express (O Expresso do
Horror), de 1973
—
From Beyond the Grave (Vozes do
Além), de 1973
—
The Satanic Rites of Dracula
(Os Ritos Satânicos de Dracula), de 1974
—
Madhouse (A Casa do Terror), de
1974
—
The Legend of the Golden Vampires
(A Lenda dos Sete Vampiros), de 1974
—
The Beast Must Die (A Fera Deve
Morrer), de 1974
—
The Ghoul (O Carniçal), de
1975
—
At the Earth’s Core (No
Coração da Terra), de 1976
—
The Uncanny (Trama Sinistra),
de 1977
—
Star Wars (Guerra nas Estrelas)
, de 1977
—
The Mystery of Monster Island
(O Mistério da Ilha dos Monstros), de 1980
—
House of the Long Shadows (A
Mansão da Meia-Noite), de 1983
—
Adventures in Time, de 1986
Agradeço
a Renato Rosatti pela indicação de alguns filmes e a checagem dos
títulos em português.
Marcello
Simão Branco é jornalista e editor. Publica o fanzine de ficção
científica e horror Megalon desde 1988. Editou e organizou o
livro de contos Outras Copas, Outros Mundos, pela editora Ano-Luz
em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta coluna podem ser
enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.
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