Os Fãs de Jornada nas
Estrelas no Brasil
Marcello Simão Branco

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A história do movimento de fãs brasileiros de Jornada nas Estrelas (Star Trek) é, curiosamente, muito posterior ao tempo em que a série já era exibida na TV de nosso país. Quando o seriado estava na terceira e última temporada nos Estados Unidos, ele chegou ao Brasil. Era 1968 e a TV Excelsior, de São Paulo, passou a exibi-la. Esta emissora sofreu um terrível incêndio e cessou suas atividades pouco tempo depois. A série voltaria ao ar em meados dos anos 70, na TV Tupi, também de São Paulo, exibida durante alguns anos nos sábados à tarde. Mais alguns anos de ausência e a série retorna ao ar por meio da TV Bandeirantes, de São Paulo. Esta emissora passou a ter uma convivência e exibição longa e intermitente, com várias fases de exibição e retirada do ar. O período mais longo de exibição foi entre os anos de 1982 e 1985 – quatro temporadas seguidas, portanto. Normalmente era exibida à tarde, por volta das dezessete horas. Mas houve época em que passou às onze da manhã e às oito e meia da noite – e às vezes em até dois horários em um mesmo dia!

Na época em que o primeiro fã-clube surgiu, a série não estava sendo exibida na televisão. Era o início dos anos 80, pouco depois da exibição do primeiro filme da série no cinema, Jornada nas Estrelas (Star Trek – The Motion Picture, 1979).

O grupo era composto, em sua maioria, por fãs que conheciam a série desde os tempos da primeira exibição no Brasil e durante os anos 70. Se denominavam como Star Trek Fan Club do Brasil. Vestiam camisetas que lembravam a série e publicaram um único número de um fanzine chamado Trek News, editado por Leonardo Bussadori – que anos depois obteve algum destaque como co-editor do fanzine ... E no Próximo Episódio, sobre séries de TV.

As atividades deste grupo inicial de fãs consistiam em reuniões semanais no fast-food Well’s da Rua Augusta (centro de São Paulo) e numa loja de fotos e pôsteres de cinema em uma galeria na mesma rua. Trocavam material, como livros, discos, revistas e informações sobre Jornada e cinema. Religiosamente todo sábado a partir das duas horas da tarde.

Alguns dos integrantes foram figuras importantes no fandom de Jornada nas Estrelas durante vários anos, como o jornalista Sérgio Figueiredo e Wilson Maffetano, que tinham um conhecimento enciclopédico sobre a série, capazes de reproduzir falas inteiras dos personagens em diálogos. Também fazia parte daqueles primeiros tempos, fãs ativos por alguns anos, como Paulo ‘Spock’ – que era assim chamado porque era fisicamente muito parecido com o ator Leonard Nimoy –, Pupo – um dos donos da loja de fotos –, Paolo Fabrizio Pugno, Lee – que confeccionava as camisetas –, Gustavo Vargas (1) e outros.

Uma passagem interessante destes anos coube ao Figueiredo. Ele respondeu a perguntas sobre a série durante algumas semanas, em um programa de auditório de muito sucesso na TV, chamado "O Céu é o Limite", apresentado pelo animador J. Silvestre.

Foguetes e a série

Em março de 1983, contudo, surgiu aquele que é identificado com o primeiro fã-clube importante de Jornada nas Estrelas no Brasil, a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST). Inicialmente era uma associação voltada à divulgação e prática da astronomia amadora e construção de foguetes experimentais – alguns chegaram a ser lançados às margens da represa de Guarapiranga, zona sul de São Paulo. Mas dois de seus principais integrantes resolveram acrescentar a série entre as atividades do clube. Eram eles, Álvaro Ricardo de Souza Júnior e Eduardo Brandau Quitete, estudantes do ensino médio do colégio particular XII de Outubro, em São Paulo.

Ao contrário da informalidade e descontração do primeiro grupo, a SAST tinha seu estatuto – que, apesar disso, nunca foi aplicado na prática –, cadastro dos sócios e publicação do fanzine Star News, com boa regularidade, além de um dos primeiros do fandom brasileiro de ficção científica ao lado do Boletim Antares, do Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre. (2)

O Star News foi publicado de 1983 a 1990, com 43 edições, noventa por cento delas tendo como editor o presidente do clube, Álvaro Ricardo. Continha notícias sobre as atividades do clube, informações sobre a série e sobre astronomia e astronáutica, além de artigos, textos de divulgação científica e, vez por outras, contos de ficção científica.

A SAST mantinha reuniões semanais no sábado à tarde no mesmo Well’s da Rua Augusta. Isso não é simples coincidência. Os dois grupos de fãs se conheceram quando o Eduardo Quitete viu na fila de um cinema, membros do Star Trek Fan Club vestidos com camisetas relativas à série. Um papo leva a outro, e os dois grupos acabaram se conhecendo e integrando. A SAST, devido à sua maior organização, agregou os componentes do primeiro grupo de fãs, que abandonaram aquela denominação.

A SAST contava com um quadro associativo expressivo em número (3) e desanimador em atividade. A maioria dos seus sócios entrou para o clube motivados pela reprise da série na TV Bandeirantes – de São Paulo –, entre 1982 e 1985, e pelos sucessos dos filmes no cinema, Jornada nas Estrelas II, III, IV e V.

Apesar de muita gente interessante compor a entidade, muito poucos ajudavam efetivamente. Isso acabou por levar à direção apenas uma pessoa, o Álvaro Ricardo. Ele ficou cada vez mais identificado pessoalmente com a instituição, levando-a de acordo com suas preferências e motivações. Em um certo momento esta dependência excessiva em torno do presidente ocasionou sérios problemas. Em fins de 1988 alguns sócios próximos a Álvaro Ricardo reivindicaram mais espaço para atuar e se fazer ouvir no clube. Eram fãs que haviam entrado para a organização há poucos anos, sem vínculo com a fundação. Propunham alterações radicais na estrutura de funcionamento da SAST: redação de um novo (e efetivo) estatuto, eleição direta para presidente, reformulação do Star News e registro da entidade como uma instituição legal reconhecida.

É possível fazer uma ilação deste movimento com o que o próprio Brasil vivia: um período de transição de volta à democracia, depois de duas décadas sob ditadura militar. Nos mais diferentes setores da sociedade, reivindicava-se mais participação e igualdade entre os cidadãos. Uma nova Constituição havia sido promulgada, com amplos direitos políticos, civis e sociais para os cidadãos. Mas no microcosmo social da SAST, se é possível assim colocar, os ventos democráticos não foram bem recebidos por sua direção.

Sentindo-se meio como dono do clube – por ter sido um dos criadores –, além do fato de conduzi-lo sem muita ajuda até aquele momento, houve uma resistência vigorosa no sentido de não alterar a situação do clube. E para isso contribuiu também o fato do próprio presidente nunca ter cobrado uma maior participação dos sócios – a maioria, especialmente os mais antigos, omissos e satisfeitos em apenas receber passivamente o que o presidente fazia.

Em termos práticos, o presidente Álvaro Ricardo foi apoiado por alguns membros fundadores, como o Eduardo Quitete – embora este fosse um pouco mais flexível em aceitar mudanças –, e seu influente vice-presidente, Heitor Carbone Júnior. Assim a Diretoria não concordou com as propostas de reformulação e, infelizmente, o clube se dividiu, com o grupo opositor se retirando da associação. (4)

Novo clube

Sem espaço político na SAST, os membros oposicionistas criaram um novo clube. Assim, nasceu em 28 de maio de 1989 o Trekker’s Club. E com pompa e circunstância: dentro da programação de uma Semana de Ficção Científica, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Eis os fundadores: Dino Jorge Braga, Gustavo Vargas, Ivo Luiz Heinz, Marcello Simão Branco, Patrícia Melo, R.C. Nascimento e Solange Castanheira. Ambicionava por em prática todas as reivindicações propostas à SAST e, mais que isso, ser a ‘voz oficial’da série no Brasil.

O Trekker’s Club começou suas atividades com reuniões mensais na Livraria Paisagem, situada numa galeria na Avenida São Luís, centro de São Paulo. Mais precisamente no segundo sábado de cada mês a partir das nove horas da manhã. Mau sinal: nunca mais de cinco lá apareceram e ocorreram, se tanto, uns três ou quatro encontros. Publicou também o seu fanzine, o Trekker’s Log. A maioria das edições teve como editor o fã Dino Braga (5), durou quatorze números, com periodicidade irregular e conteúdo precário. Foi o sinal mais evidente do insucesso e fiasco em que se transformou a associação pouco mais de um ano depois de sua fundação.

O fato é que novo clube não deu certo por várias pequenas razões que se somaram. A Diretoria foi mal escolhida, com pessoas inexperientes e que se desentendiam facilmente: Solange, presidente; Dino, secretário-executivo e Ivo, tesoureiro. Além disso, os sócios fundadores não tiveram a devida compreensão e paciência necessária para com uma entidade nova e em formação. Outro fato é com relação à linha de atuação em que foi idealizado o clube. Ele foi muito influenciado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) (6), quanto à forma de ser conduzido e administrado. Mas o mal não é esse, mas sim que o Trekker’s Club acabou por se parecer mais com um clube literário do que o de uma série de televisão. Esqueceu-se que Jornada nas Estrelas é um espetáculo visual de entretenimento e não de erudição. Que pode ser apreciado coletivamente, ao passo que um livro é de caráter individual.

E a SAST como ficou? Esvaziada e relegada a seus fundadores. Até que o próprio presidente perdesse o interesse e, na prática, o clube se extinguisse. (7) Já os fundadores do Trekker’s Club seguiram caminhos diferentes: uns se integraram a novos grupos de fãs da série; outros se mantiveram ativos no fandom literário, e houve os que levaram os desentendimentos para o lado pessoal e se afastaram do convívio da comunidade de ficção científica, seja a dos trekkers, seja a literária.

Frota Estelar Brasil

Mas no rastro da implosão da SAST e do nascimento do Trekker’s Club surgiu aquele que se tornou o maior e mais importante clube sobre Jornada nas Estrelas até esta primeira década do século XXI.

Exatos seis dias depois da fundação do Trekker’s Club foi criada a Frota Estelar Brasil (FEB). (8) Mais precisamente no dia 3 de junho, em um sábado nublado no extinto Cineclube Bixiga, na boêmia Rua 13 de maio, centro de São Paulo. O auditório estava lotado e o clube nascia sob a liderança de professores universitários e de ensino médio. Seu presidente eterno, Luís Ambrósio Navarro era secundado, neste primeiro momento por Aldo Novak e Amaury Simoni. A entidade apareceu com muita publicidade e autopromoção, tendo como marca registrada, os sócios vestidos com o uniforme dos personagens da série clássica. Tinham como lema "levar o conhecimento científico através da ficção científica, especialmente Jornada nas Estrelas."

Polêmicas à parte, a FEB passa a realizar atividades que o fã-médio da série – que não lê livros de ficção científica, mas assiste a muita televisão –, espera: entretenimento e consumo. Arregimentam centenas de jovens fãs, reunindo-os em reuniões periódicas chamadas pomposamente de Convenções Estelares. Nela exibem episódios das várias séries da franquia Jornada nas Estrelas, palestras de curta duração e com temas populares, no qual conceitos científicos são discutidos tendo por base o seriado ou a ficção cientifica de modo geral, sorteio de produtos e memorabilias relativas à série. Estes encontros duravam durante um dia inteiro e havia cobrança de ingresso para os não-associados.

Trocando em miúdos: a FEB importou o modelo norte-americano de eventos de fãs, especialmente os de televisão e cinema, com as devidas adaptações ao cenário brasileiro. Isso nunca havia existido nos outros clubes, ou informais demais, ou muito rígidos quanto ao seu funcionamento. E sem o óbvio: o cultivo à exibição pública dos episódios da série, o objeto de que, afinal de contas, unia a todos em torno de uma mesma paixão.

A FEB também contou com um empurrãozinho: entre os anos de 1991 e 1992, a rede de TV Manchete, do Rio de Janeiro, voltou a exibir a série, depois de seis anos de ausência pela TV Bandeirantes. E a boa novidade não era apenas a reprise da série clássica mas sim a ansiada estréia no Brasil de Jornada nas Estrelas – A Nova Geração (Star Trek – The Next Generation). Os integrantes da FEB não perderam tempo e com senso publicitário aproveitaram a exposição da série para divulgarem a associação, seja em jornais, rádios, revistas e programas de televisão os mais variados. Era relativamente comum nestes primeiros anos da década de 90 vê-los na televisão e na mídia impressa vestidos ou com o uniforme da série clássica ou então da nova geração. Algumas reportagens, inclusive, os ridicularizava, expondo-os como pessoas bizarras e socialmente mal resolvidas. Mas nem isso lhes tirava o ânimo em divulgar em que meio – e de que forma fosse – o fã-clube.

Este modelo de alta publicidade e eventos populares mostrou-se muito bem-sucedido. Além disso, a FEB tinha atividades cotidianas, digamos, para as suas centenas de sócios. A começar pelo fanzine Diário de Bordo, que foi publicado de forma irregular por cerca de doze anos. Também o conteúdo era muito variado, segundo o editor de ocasião – e foram vários. Por vezes a prioridade era a série, por outras uma mescla com popularização científica e ficção científica em geral. Publicava também boletins informativos com temas específicos e sob o cuidado de um fã em particular. Assim havia o TrekkerGramma – notícias –, TrekkerCultura – relação da série com literatura – e TrekkerBiografia, com resumos biográficos de atores vinculados à série. (9)

Por alguns anos existiu também uma curiosa sub-divisão dentro da FEB, chamada de Divisão de Engenharia. Dois dos sócios, o Ivo Luiz Heinz – egresso da SAST e do Trekker’s Club e sócio do CLFC – e Paolo Fabrizio Pugno – vindo do primeiro dos grupos de fãs da série –, engenheiros de formação, lideravam reuniões no qual se debatiam assuntos técnicos, ‘treknológicos’ da série. Não só fãs engenheiros iam às reuniões, mas também fãs em geral interessados neste aspecto da série. E o êxito rendeu um bom fanzine, chamado Warp 9. Com vinte edições – entre 1993 e 1994 –, era bem produzido e de boa periodicidade. Foi, possivelmente, o melhor fanzine brasileiro sobre Jornadas nas Estrelas já realizado. (10)

Rio de Janeiro

Mas o movimento de fãs em torno de Jornada nas Estrelas não se organizou apenas em São Paulo. A ex-capital federal também contou com um grupo expressivo de fãs. Inicialmente os cariocas se organizaram em meados dos anos 80 e se integraram à SAST. Sob a liderança da jornalista Cristina Nastasi, uma comunidade se formou, com atividades próprias, como reuniões, visitas esporádicas de alguns fãs a São Paulo – e dos paulistas aos encontros do Rio também. Com a crise da SAST, eles resolveram manter contato estreito com o novo clube, o Trekker’s Club, mas também ganharam mais autonomia em torno de um fanzine, o JetCom – Jornada nas Estrelas: Terminal de Comunicações. Bem produzido, enfocava a série com sinopses de seriados, comentários de fãs, artigos, curiosidades e notícias. Durou entre os anos de 1992 e 1994.

Com a exibição da série por uma televisão do Rio de Janeiro, alguns fãs terminaram por ser os próprios dubladores dos personagens, como o fã Guilherme Briggs, também um bom ilustrador sobre temas relativos à série. Já a Nastasi se especializou em tradução, como a autobiografia de Leonard Nimoy, Eu Sou Spock (I Am Spock), pela editora Mercúrio, em 1997. E também a do importante livro de referência Star Trek Compendium, de Allan Asherman, que ganhou uma edição brasileira com o título de Jornada nas Estrelas Compendium – A Série Clássica, pela editora Sci-Fi Books, de São Paulo, em 1999. (11)

Com o passar dos anos e o protagonismo da FEB, os fãs cariocas se dispersaram, mas proporcionalmente foram os que mais trabalharam profissionalmente com a série. E eles realizaram ao menos um evento de alcance nacional. Foi em setembro de 1989, na pré-estréia de Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira (Star Trek V – The Final Frontier). Centenas de fãs devidamente      uniformizados      e

fantasiados lotaram um cinema em um sábado à noite, no Largo do Machado, centro do Rio, para ver o filme. Dezenas de fãs de São Paulo e outros estados compareceram.

Visita de atores

A FEB não perdeu tempo e promoveu o mesmo evento – em parceria com a Paramount Pictures no Brasil –, no lançamento do filme seguinte no cinema, Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida (Star Trek VI – The Undiscovered Country), em 1992. Fecharam o maior cinema de São Paulo na época, o Comodoro da Av. São João e lá estiveram cerca de mil fãs uniformizados em sua maior parte para assistir à pré-estréia do filme.

Este talvez tenha sido o primeiro dos mega-eventos que a FEB passou a organizar. Como já ressaltado, suas reuniões mensais eram muito populares e concorridas. Mas foram crescendo em tamanho e ambição. Passaram a ser realizadas apenas quatro vezes por ano, num dos maiores centros de convenção de São Paulo, o Anhembi, e contaram com uma estrutura de organização cada vez mais profissional. A cargo destes eventos esteve o fã e jornalista Christiano de Mello Nunes. Ele também editou alguns números de um fanzine satírico sobre a série, chamado Galileu, mas se destacou mesmo como o manager de convenções cada vez mais bem organizadas e divulgadas. Contava com apoio de agências de publicidade, releases distribuídos na mídia, parceria com a CIC Video e a Paramount Pictures no Brasil. Todo este aporte tornou possível a realização de alguns sonhos de muitos trekkers: a vinda de atores da série clássica ao país.

O primeiro deles a desembarcar em São Paulo foi George Takey, o personagem Sulu da série clássica. Em 28 de setembro de 1996, cerca de mil fãs lotaram uma das salas de eventos do Anhembi. Oficialmente marcou a comemoração de 30 anos de Jornada nas Estrelas. Takey proferiu uma palestra sobre sua participação na série e assinou dezenas de autógrafos.

Em 2002, seis anos depois, foi a vez de Walter Koenig, o personagem Chekov da série clássica. (12) Em outro evento com perto de mil pessoas, dia 15 de junho, em São Paulo, no mesmo local do evento anterior, o ator deu uma palestra e passou um dia inteiro na companhia dos fãs.

No ano seguinte, o Brasil teve a oportunidade de conhecer mais dois atores. Primeiro, em 28 de junho em São Paulo, apareceu a atriz Denise Crosby, a personagem Tasha Yar, da primeira temporada de Jornada nas Estrelas – A Nova Geração. Ela não veio por meio da FEB e sim da U.S.S., uma loja de produtos importados sobre vídeo e cinema. Cerca de 120 pessoas assistiram sua palestra no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. A principal motivação da visita da atriz foi a gravação de um documentário sobre os vários fãs da série em todo o mundo.

Contudo, o grande e maior evento da história do movimento de fãs de Jornada nas Estrelas ocorre quatro meses depois, em 25 de outubro, em São Paulo. A vinda de Leonard Nimoy foi um acontecimento que extrapolou o ambiente dos fãs. Ganhou muito espaço na imprensa, jornais, revistas e reportagens de TV. Apesar da presença de Takey e Koenig ter sido festejada, o que os fãs sempre desejaram mesmo, era a vinda de um dos três principais atores, Nimoy, William Shatner ou DeForest Kelley. Como o Dr. McCoy infelizmente faleceu em 1999, o projeto passou a se concentrar no Capitão Kirk e no Sr. Spock.

Para se ter uma idéia da popularidade de Spock, ele é mais conhecido do público em geral do que a própria série. Mesmo quem não gosta ou não conhece Jornada nas Estrelas, sabe quem é Spock, "aquele alienígena de orelhas pontudas." (13) Aproximadamente mil pessoas também comparecem – no mesmo local dos eventos anteriores – à convenção que marcou sua visita. Nimoy ficou três dias em São Paulo e além do evento, concedeu entrevistas e participou de uma exposição em uma galeria de arte com fotos de sua autoria.

Mesmo com muita euforia dos fãs e especialmente da FEB, responsável pela vinda de Nimoy e dos outros atores, este evento marcou, paradoxalmente, o fim da própria entidade. No momento em que ela atingiu o ápice, chegou também ao seu ocaso. Já há alguns anos havia discordâncias quanto à liderança de Luiz Ambrósio Navarro, outro presidente ad infinitum de clube de fã de Jornada nas Estrelas. Alguns fãs, como Aldo Novak, saíram da entidade, e tentaram criar fã-clubes de outras séries de TV – como Arquivo X –, mas sem êxito. Conforme Navarro se estabelecia no poder, procurava se cercar de novos aliados fiéis e que questionassem pouco sua liderança.

Contudo, o que realmente motivou o fim das Convenções Estelares foi a morte precoce e surpreendente do organizador destes eventos, o Christiano Nunes, com apenas 37 anos, em decorrência de uma cirurgia de redução de estômago mal sucedida. Inclusive, ele mesmo esteve intimamente envolvido nas negociações para trazer Nimoy ao país. O evento aconteceu três meses após o seu falecimento.

Um fã-clube dividido internamente e sem o seu manager, o homem que fazia as coisas acontecerem, na prática levou a FEB a diminuir drasticamente todo o conjunto de atividades que a mantinha. Oficialmente ela não acabou, mas nos dias que correm é uma pálida sombra do que já foi um dia.

Dispersão de fãs

Já antes da desaceleração do principal fã-clube da história de Jornada nas Estrelas no Brasil, os fãs já se organizavam regionalmente pelo país. E esta tendência cresceu com a paralização da FEB, basicamente de duas maneiras: 1) criando pequenos grupos de fãs, espalhados pelo interior do país; 2) mantendo comunicação por meio de sites e listas de discussão na internet.

No primeiro aspecto, existem alguns fã-clubes espalhados pelo país, ou seja acabou a concentração e dependência de São Paulo. É difícil precisar quantos estão ativos, mas os principais são o Organia Star Trek Fã-Clube (de Belo Horizonte, estado de Minas Gerais), Star Trek – Federação dos Planetas Unidos (de Curitiba, Paraná), Grupo Avançado (de Fortaleza, Ceará), Base Estelar Campinas (de Campinas, interior do estado de São Paulo), Solar 7 (de Santo André, também do interior do estado de São Paulo).

Durante a primeira metade dos anos 90 foram atuantes clubes como Star Trek Center (de Jundiaí, interior do estado de São Paulo), Kobayashi Maru (de Porto Alegre, Rio Grande do Sul) e Clube Estelar Star Trek (de Belo Horizonte, Minas Gerais). Em São Paulo também foi criado um fã-clube em fins dos anos 90, chamado Federação da Frota Estelar de São Paulo, provavelmente um grupo dissidente da Frota Estelar Brasil.

A maioria destes clubes possue endereço na internet e também mantém listas de discussão, no qual os fãs mantém contato diário, como o do site Trek Brasilis, um dos mais freqüentados (www.trekbrasilis.net). Existe aproximadamente 60 home-pages criados por fãs brasileiros, enfocando aspectos específicos da série, como raças alienígenas, klingons, borgs, romulanos, vulcanos, naves espaciais, listas de episódios, trilhas sonoras, personagens, versões específicas da franquia no cinema e na TV, como, por exemplo, da Nova Geração e Deep Space Nine, comercialização e troca de produtos etc.

E outro motivo de redução das atividades da FEB, além dos já apontados, é que a exibição das várias versões da franquia da série passou a ser regularmente exibida em TVs a cabo e por vezes mesmo em canais da TV aberta do país. Também foram lançados episódios das várias versões em VHS e em 2005 chegou ao país o tão esperado DVD da série clássica. Com tudo isso, o público que comparecia às reuniões da FEB – e de outros fã-clubes – já estava diminuindo nos últimos cinco anos, pelo menos. Pois as pessoas não precisavam ir a um evento público para rever um episódio da série clássica ou ver um inédito da sétima temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração ou ainda um de Voyager ou Enterprise. Viam os episódios em suas próprias casas.

Desta forma, se o movimento de fãs se dispersou em termos de clubes e eventos, ele, porém, não está desaparecido. Sem dúvida, que o momento atual é menor em termos de atividades concretas e influência dos fãs em torno dos seus interesses com relação às várias séries da franquia Jornada nas Estrelas. Mas eles mostraram sua força apaixonada e ávida de consumo em maio de 2005 quando quase esgotaram em apenas um mês, a primeira edição do DVD do primeiro ano da série clássica. (14)

É possível dizer que os trekkers estão vivos, mas vivendo um momento de maior facilidade de acesso à sua paixão e com um meio de comunicação mais individualista, como a internet. Talvez só mesmo se o Capitão Kirk viesse ao país, poderíamos reunir novamente milhares de fãs em um único local, mostrando publicamente – mais uma vez – o quanto o brasileiro gosta de Jornada nas Estrelas.

 

Notas:

(1 ) Este, um dos fãs mais antigos e ativos. Freqüentou todos os fãs-clubes da série criados em São Paulo, ao longo de mais de vinte anos. Ficou notabilizado por organizar várias listas de assinaturas de fãs com o intuito de pressionar emissoras de TV a exibir as várias versões da série, além do lançamento delas em vídeo VHS.

(2 ) Por coincidência, este clube situado no extremo sul do Brasil também tinha um forte vínculo com a astronomia. Só que aliava a paixão pela observação do céu com a ficção científica em geral, especialmente a literatura.

(3 ) Inclusive com alguns nomes que se tornariam destaque no cenário da ficção científica brasileira, como os escritores Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo.

(4) É curioso notar que este ‘racha’ na SAST foi noticiado até na grande imprensa de São Paulo, especificamente no Jornal da Tarde, incluindo fotos de fãs pró e contra as mudanças.

(5) Depois de se afastar do Trekker’s Club, ele cria uma nova associação na cidade em que morava, São Bernardo do Campo, próxima à São Paulo. Chamou-se Jornada nas Estrelas Brasil, em setembro de 1994. Consta que o fã-clube durou alguns anos e congregou fãs residentes apenas na cidade.

(6) Criado pelo fã e pesquisador R.C. Nascimento em dezembro de 1985, o Clube de Leitores de Ficção Científica é a principal organização da comunidade de fãs brasileiros de ficção científica.

(7) Já os primeiros fãs, aqueles do Star Trek Fã Club do Brasil, pareceram alheios às disputas políticas. Continuaram seus encontros semanais por mais alguns anos na mesma lanchonete e participaram de forma eventual de encontros de fãs de novas entidades criadas posteriormente.

(8) Os integrantes fundadores da Frota Estelar Brasil estiveram presentes – como espectadores – na fundação do Trekker’s Club. E lá anunciaram que também iriam criar um novo fã-clube. Ainda sobre os criadores da FEB, alguns deles chegaram a comparecer em algumas reuniões no fast-food Wells, no começo dos anos 80. Mas não se integraram com o grupo que já freqüentava o local.

(9) Vale registrar que também existiram fanzines sobre a série não ligados a fã-clube, ou seja, editados por fãs de maneira independente. Entre os de maior destaque pode-se citar o Trekker Report – que chegou a ser vendido em bancas de jornais de São Paulo e o Starfleet. Tiveram pouca regularidade e não resistiram por muitos anos.

(10) Por causa do êxito de seu trabalho de edição do Warp 9 e coordenação desta Divisão de Engenharia, Ivo e Paolo foram convidados pelas editora Aleph a traduzirem o livro Manual da Enterprise do Engenheiro Montgomery Scott (Mr. Scott’s Guide to the Enterprise), de Shane Johnson, em 1993. Esta editora também publicou várias novelizações da série, durante a primeira metade da década de 90.

(11) Cristina Nastasi também foi a responsável pelas traduções dos pocket books escritos pelos americanos J.A. Alexander e James Blish – este um prestigiado autor de ficção científica –, que transformaram os roteiros em contos. Saíram cinco volumes, pela editora paulista Unicórnio Azul, entre os anos de 1995 e 1996. Cada volume tinha entre cinco e seis episódios, além de artigos assinados por fãs, como a própria Cristina, Susana Lopes de Alexandria – a responsável pelo Trekker Cultura, da FEB –, Silvio Alexandre – o editor desta série de livros – , e Anna Creusa Zacharias, autora de um romance baseado na série, chamado A Abadia, de 1992.

(12) Antes da visita de Walter Koenig, esteve presente em São Paulo nas convenções da FEB, por pelo menos duas vezes, o produtor da Paramount Pictures americana, Richard Arnold.

(13) Uma curiosidade: em meados dos anos 80, o Brasil vivia um período político de retorno ao regime democrático depois de duas décadas de autoritarismo militar. Em uma das primeiras eleições da nova fase, chegou a ser confeccionado por alguns fãs, um pequeno cartaz com o rosto de Spock e o slogan: "Spock Para Presidente!".

(14) Até o fim de 2005 ainda foram lançados o segundo e terceiro ano da série clássica. Ambos também com boas vendas. E em 2006 chegou ao mercado brasileiro temporadas da série Enterprise – a mais recente da franquia – e de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

 

Referências bibliográficas:

ANÔNIMO (1968). "Lá em Cima Onde Mora a Aventura", Intervalo. (É a primeira reportagem sobre Jornada nas Estrelas no Brasil, anunciando sua estréia na TV.).

ASHERMAN, Allan (1999). Jornada nas Estrelas Compendium – A Série Clássica. Editora Sci-Fi Books.

BLISH, James e ALEXANDER, J.A. (1995-1996). Star Trek – Episódios da Série Clássica. Editora Unicórnio Azul.

BRANCO, Marcello Simão (1992). "Os Fãs de Star Trek no Brasil", Somnium 58, CLFC, dezembro.

BRANCO, Marcello Simão, ed. (1996). Megalon 42, novembro.

BRANCO, Marcello Simão, ed. (2002). Megalon 65, junho.

BRANCO, Marcello Simão, ed. (2003). Megalon 70, dezembro.

FROTA ESTELAR BRASIL (1989-2003). Várias edições do fanzine Diário de Bordo.

HEINZ, Ivo Luiz e PUGNO, Paolo F. (1993-1994). Warp 9, nas 20 edições.

INTERNET (2005a). Google (www.google.com).

INTERNET (2005b). Yahoo Brasil – Diretório (www.yahoo.com.br).

JOHNSON, Shane (1993). Manual da Enterprise do Engenheiro-Chefe Montgomery Scott. Editora Aleph.

LIRA, Roberto de (1994). "Fãs Comemoram Volta de Seriado", Folha de S. Paulo, 11 de setembro.

NIMOY, Leonard (1997). Eu Sou Spock. Editora Mercúrio.

SOCIEDADE ASTRONÔMICA STAR TREK (1983-1990). Várias edições do fanzine Star News.

SHATNER, William e KRESKI, Cris (1995). Jornada nas Estrelas – Memórias. Editora Nova Fronteira.

TREKKER’S CLUB (1989). Estatuto da associação, maio.

O autor agradece a Roberto de Sousa Causo, que fez o convite para um projeto editorial no qual este artigo foi inicialmente escrito. E a Ivo Luiz Heinz, que fez uma leitura atenta da primeira versão.

 

 

Marcello Simão Branco, jornalista e trekker por muitos anos, é um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. E-mail do autor: marcellobranco@ig.com.br.