Scarium Ficção Fantástica

 

Rogério Amaral de Vasconcellos

 

 

 


Entrevista Especial
André Vianco
Publicada na Scarium nº 10

Rogério Amaral de Vasconcellos

Temos o prazer de entrevistar um escritor considerado revelação, que já vendeu centenas de livros e continua crescendo no gosto popular. Falamos de André Vianco, paulista de 29 anos, nesta entrevista concedida antes da Bienal Internacional do Livro recentemente ocorrida em São Paulo.

Visto ser esta a primeira pergunta, nada melhor que começarmos pelo atual sucesso de vendas, o mais recente, lançado pela Novo Século: "Bento". Seu comunicado sobre o lançamento foi muito lacônico quanto ao conteúdo desta obra. Sabemos que ficou enorme, com 500 ou mais páginas, que também usa os vampiros, e promete, para citar suas próprias palavras, "uma história totalmente nova, recheada de seqüências de ação e suspense ao melhor estilo ‘André Vianco’". Será que o suspense não pode ficar só restrito ao livro e nos agraciar com um pouco mais de texto sobre esta obra?

"Bento" é um livro apocalíptico. O leitor descobre junto com o protagonista um novo mundo. O personagem principal desperta trinta anos depois de seu último adormecer e quando abre os olhos encontra um Brasil inacreditável. Os vampiros tomaram todas as cidades e a vida é praticamente impossível durante as horas da noite. Os humanos foram banidos para fortificações onde se recolhem durante a escuridão aguardando por um milagre (na verdade serão quatro milagres) para a libertação das feras.

Está realmente previsto um lançamento de "Bento" no Rio de Janeiro? Se confirma isso, quando e onde?

Visitarei o Rio de Janeiro neste ano. Pretendo ir às principais capitais para aumentar meu contato com os leitores. Meus leitores são na grande maioria adolescentes e adultos e curtem esse tipo de evento. Vou onde os leitores quiserem.

Como foi o Lançamento em São Paulo? Os números, os leitores, a repercussão na mídia, os dados são promissores?

O lançamento foi maravilhoso. Tive diante dos meus olhos o eu todo escritor adora ver em noite de lançamento. Uma fila que não acabou até as dez horas da noite, quando a loja encerrou as atividades. A fila estava repleta de leitores sorridentes, loucos para colocarem as mãos no novo livro. Revelo que antes do lançamento estava bastante apreensivo. O livro é diferente, os vampiros são diferentes. Não tem jeito, sempre pinta o receio, o medo dos leitores não entenderem o novo. Mas a verdade foi bem outra e vi a primeira edição de cinco mil livros acabar em quinze dias. Foi meu maior prêmio até hoje.

Viajando no tempo, um pouco de ficção científica no terror: quando foi que André Vianco olhou para um texto é disse "é, quero fazer isso, vou ser escritor"?

Se falarmos de inspiração, acho que foi lendo The Stand (A Dança da Morte) de Stephen King. Não rolou exatamente esse insight, tipo, vou ser escritor por causa desse cara ou desse texto. Rolou mais isso quando comecei a colocar no papel minhas idéias. Vi que a coisa fluía e que parecia tão interessante quanto de muito escritor tarimbado. Acho que já estava na minha veia. Depois que comecei a escrever não parei mais. Sabia que era isso que eu queria fazer da vida.

Mesmo sendo tão jovem, você já lançou (corrija-me se estiver errado): Os Sete, Sétimo, O Senho da Chuva, Semente do Gelo e A Casa. São todas temáticas focando o terror e o suspense? Fale um pouco sobre cada uma:

São seis livros desde 2000. Uma produção e tanto. O lance é que em 2000 eu tinha pronto Os Sete e O Senhor da Chuva. Os demais vieram aos poucos. Agora, em 2004, estou escrevendo a continuação de Bento. Não classifico todos meus livros como "terror", são mais de aventura que outra coisa. Semente no Gelo é o único que considero terrozão. Tem passagens que dão medo. Em O Senhor da Chuva (o primeiro grande romance que escrevi) tem umas passagens pesadas também, pois trato de anjos e demônios e esses demônios põe pra quebrar. Mas o fio condutor da narração é a aventura.

Alguns consideram "Sementes do Gelo" o mais emblemático, ainda assim muito menos comentado que os dois últimos lançamentos, antes de "Bento". Elegeu algum dos livros como o seu preferido?

Semente no Gelo é um dos meus preferidos por conta da idéia central. Posso estar errado, mas acho que essa idéia não foi explorada por ninguém ainda, acho que estou colocando uma nova entidade no panteão do Terror. O preferido "da vez" é Bento, é uma história que não consegui terminar em um livro só, em um único volume. Consegui enriquecer o universo criado e acho que vai render pano para muita manga.

Já foi sondado por algum cineasta para roteirizar uma de suas obras? Se tivesse de escolher, qual seria e porque?

Ainda não rolou um papo forte de levar um de meus livros para o cinema. O que existe é o meu desejo inexorável de que isso aconteça e, sinceramente, não estou esperando cair do céu algum patrocinador. Acho que como quando decidi colocar meus escritos no mercado, quando eu quiser levar uma história minha para a tela terei que bancar o projeto. Não tenho medo disso e já estou estudando para que isso venha a acontecer a médio prazo. O grande problema é que cinema de película é muito caro. Talvez lance primeiro algum trabalho feito em equipamento digital.

No que se baseou para tornar os seus hematófagos (Os Sete) mais poderosos ainda que o normal?

Na lógica. Quando lancei a primeira edição do Os Sete, foi com recursos próprios. Quando comecei a escrever sabia que seria assim. Então me perguntei o que teriam de diferente os meus vampiros para que chamassem a atenção dos aficionados pelo tema. Veio então a idéia dos "superpoderes".

Alguma relação com o ‘terrir’ brasileiro "As Sete Vampiras", um filme estrelado por Leo Jaime, quando o mesmo ainda não tinha pança?

Não. Na verdade nem assisti a esse filme. Já ouvi falar e tenho muita vontade de assistir. Uma hora rola.

Seus personagens têm uma certa plástica e apelo próprio para história em quadrinho. Você concorda com isso?

Concordo.

Seus críticos afirmam que você deu vastos dons a seres que, por si só, imortalizados pelo criador de Drácula, já são MUITO poderosos. Tirou-lhes algumas das poucas limitações, como a aversão ao alho, ao crucifixo e igrejas. Tirando o mau-hálito, nunca entendi muito bem esse negócio do alho, e o resto, na associação do homem-vampiro com o demônio, toca uma seara religiosa que muitos escritores não ousaram desrespeitar. Ou você está inovando, quebrando a corrente, o marasmo, a mesmice, a previsibilidade, ou foi inspirado por algum outro autor. Existe uma terceira opção?

Acho que não fugi tanto assim do "lugar comum" do mito. O lance dos poderes dados foi para escapar da mesmice, sim. Agora, quando a outros detalhes, como a não aversão ao crucifixo, a debilidade frente a prata e ao alho (meus vampiros perecem com o alho também, veja em Os Sete, página 260) acho que isso vai da composição de autor para autor. O mito do vampiro carrega as mais diversas crenças. Cada região do mundo tem o seu vampiro, o seu ser sugador de sangue. Aqui no Brasil o "vampiro" de nosso folclore é o "chupa-cabras". Em Israel o grande vampiro na verdade é uma entidade feminina, as vampiras, o mito lá é conhecido como Lilith e sua vítima principal são os bebês, os fetos ainda no ventre das mães. Quer dizer, cada cultura traz sua tradição. A gente tem que ler bastante ara criar o "próprio" vampiro. Também não sou muito engessado, em Ada aventura invento uma moda. Em Bento não vemos problemas com alho, mas a prata está lá. Em Bento os vampiros usam mais as árvores para se deslocar, saltando do galho de uma para outra, transpondo as distâncias com grande velocidade (os aborígines australianos nos brindam com a lenda de vampiros que vivem em árvores e em sua crença dizem que os vampiros que vivem nas árvores drenam o sangue da vítima e depois as engolem por inteiro).

Complementando a questão anterior: se para deter o avanço de vampiros tão bombados, que só temem a luz do sol (o último baluarte a ser conquistado) é preciso criar uma força igual ou superior, porém em sentido contrário, ou seja, benigna - aquele que enfrenta a desvantagem numérica e os vastos poderes dos Neos-Vampiros e ainda salva a mocinha e o mundo dos opressores – quem cumpriu esse papel em "Os Sete"? Você procurou desbravar o tema já muito batido ou apenas apimentar a questão?

Em Os Sete o pequeno herói é Tiago, um mergulhador que por acaso acaba encontrando a famigerada caravela naufragada que guarda os corpos dos velhos vampiros. Chamo Tiago de "pequeno" herói porque ele não move mundos e fundos, é apenas posto na fogueira por se sentir responsável e atraído por Eliana, amiga que se torna namorada no decorrer da trama. Ele é impulsivo e não tem medo do mais perverso dos inimigos (leia-se "Inverno"). Em Sétimo, Tiago, já devidamente vampirizado, cresce ainda mais, quando lidera humanos e vampiros contra Sétimo, o último dos vampiros do Rio D’Ouro desperto em terras brasileiras. Agora, correndo à parte vem os pequenos detalhes de cada personagem. Todo um passado (não revelado claramente) permeia ações e reações dos vampiros. Eles temem, sim, muitas coisas. Só lendo com boa vontade para detectar.

Dizem que costuma retratar as cenas de forma bem cinematográfica. Em sentido geral, pelo que você já leu e viu, acredita que isso justifica uma escrita ou filme que só valorize o visual em detrimento da lógica? Exista algum ideal de escrita que você persiga?

Tanto na literatura quanto no cinema acho que é pecado grande valorizar apenas o visual. A lógica tem que existir, se não a história cai no descrédito total e você não tem vontade de ler ou assistir até o final. Se você pira o cabeção e inventa superpoderes para vampiros, tem que criar um background, um pano de fundo que acabe justificando tudo. Tem gente que lê Os Sete e acha idiota a história dos poderes adicionais(Inverno congela o ar; Lobo transforma-se em lobisomem; Acordador desperta os mortos; Tempestade traz chuvas e temporais; Espelho pode transfigurar-se, imitando o rosto de outras pessoas; Gentil e Sétimo é melhor descobrir lendo), agora, milhares de pessoas, maioria esmagadora, entenderam o que eu criei e sabem que aquilo é ficção pura e da grossa e sabem que eu escrevi Os Sete para divertir o leitor da primeira a última página. E o grande barato é que invés de torcerem contra os malditos do Rio D’Oro, acabam torcendo para que os vampiros se safem da caçada promovida pelo Exército Brasileiro. Existe uma história por trás da aventura, tem pé e cabeça. Agora essa resposta é algo pessoal, meu ponto de vista. Há artistas que conseguem fazer o diabo com seus conceitos e sua maneira de criar e conseguem resultados fabulosos... o problema é que a maioria do pessoal que produz não é artista, aí sobram obras engraçadíssimas e outras esquisitas.

Sabemos que tudo começou no Rio de Janeiro, quando seu futuro editor, Luiz Vasconcelos, achou por acaso uma de suas obras em uma livraria, e após procurá-lo propôs a criação da Novo Século. Como está sendo essa experiência, de autor desconhecido até se tornar figura de proa de uma editora? Se puder falar a respeito, gostaríamos de saber que modalidade de contrato pratica:

Só posso dizer uma coisa a esse respeito: adoro ser escritor! Então quando você percebe que está sustentando sua família com o que você gosta... é uma sensação prazerosa, de realização pessoal. O legal também é que como estou escrevendo e sendo publicado vou criando uma obra que ficará para sempre, para todos aqueles que curtem ler ficção e fantasia (milhares de pessoas no Brasil e milhões no mundo). E estou só começando. Ainda não estou em clima de "já ganhou". Para ser autor conhecido, de verdade, tenho de ralar muito ainda e escrever muitos e muitos romances. Já deu para sentir um pouquinho do gostinho da vitória quando fui ao Programa do Jô. Tive Os Sete resenhado na revista Istoé (página inteira) e Bento com meia página no O Globo, tudo mídia espontânea, gente que veio atrás saber dos meus livros (e é claro que também é um prazer receber o contato de vários zineiros do Brasil todo). O único equívoco na pergunta é a respeito do encontro com o Luiz Vasconcelos. Ele encontrou o meu livro em Osasco mesmo e não no Rio. Foi numa livraria do shopping Continental. Já essa parte do contrato, não há grandes coisas, ganho uma porcentagem pequena do preço de capa do livro, assim só ganho bem quando o livro vai bem. Se vai mal não rola muita grana.

Quase encerrando, um pout-pourri digressivo:

seus hobbies?

Ler, escrever e cinema, adoro assistir filmes em casa e nos cinemas.

filmes e livros prediletos?

Caramba! São tantos... vou ficar em alguns: filmes, "O Homem que Copiava"; "Amor Além da Vida"; "King Kong"; "Jurassic Park"; "A Mosca"; "A Noite dos Mortos Vivos"; "Caçadores de Vampiros"; "O Último Samurai"; "Solaris"... tem mais uns quarenta filmes prediletos; livros, "Musashi I"; "Operação Cavalo de Tróia"; "Estação Carandirú" e mais uma dúzia.

um sonho?

Transformar Os Sete em longa-metragem.

um pesadelo?

Não poder escrever mais em decorrência de algum mal súbito.

livro que gostaria de escrever?

Um romance romântico arrebatador, emocionante, daqueles de tirar lágrimas dos olhos do leitor mais durão.

outro que gostaria de esquecer (que leu ou escreveu)?

Não me ocorre nada agora.

como se dá seu momento de criação?

Nada em particular, pode ser a qualquer momento do dia... no trânsito, numa sala de cinema... simplesmente rola.

e a velocidade com que constrói um livro, desde a idéia até o produto final?

Varia muito do tamanho do livro e da minha disponibilidade para escrevê-lo, da inspiração do momento. Se não der nenhuma travada, de cabo a rabo, dá pra ter um livro de 500 páginas na prateleira em oito meses.

Se pudesse dedicar o conjunto de sua obra a alguém, quem seria?

Aos meus leitores mais fiéis.

André Vianco por André Vianco.

Sou péssimo para falar de mim mesmo. Mas para vocês saberem um pouco mais, sou um cara bastante tranqüilo com as pessoas, mas de espírito guerreiro, sempre corro atrás dos meus sonhos e nunca desisto de lutar. É isso.

Vianco, se minhas contas estão certas, com Bento você já escreveu seis livros (vide pergunta 5). O próximo será o 7o. Isso parece muito cabalístico. O sete novamente, agora não só no título. Algum comentário a respeito? Um projeto especial para concluir esse heptágono?

Pode parecer sem graça, mas todo livro que estou escrevendo é especial, não tem jeito. O livro que estou escrevendo no momento é a continuação do Bento e ainda está sem título. Esse vai dar trabalho para ser concluído pois há muitos dados no primeiro livro para se considerar na continuação.

Como vê sua estréia no FicZine, a mais nova sensação em termo de informativo, editado pelas duas vampiras Giulia Moon e Martha Argel?  Sabemos que é sua primeira experiência com contos curtos.  E também o seu O Bêbado e a Equilibrista, publicado no no 2, foi bem elogiado.  Pode comentar sobre isso?  

Gostei bastante de fazer um "conto curto". Não vejo grande dificuldade, mas tenho minha predisposição para as histórias longas. Gosto de livros com mais de 400 páginas. Acho que a gente acaba se envolvendo mais com a obra.

Como foi sua participação na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo?

A Bienal deste ano em São Paulo foi maravilhosa. Fiquei muito feliz com a presença de tantos leitores trazendo livros e mais livros. É legal perceber que quem lê um livro meu acaba curtindo e buscando conhecer os outros títulos. Cheguei lá umas sete da noite e já tinha bastante leitor esperando. É gostoso.

As últimas palavras do autor nesta entrevista para os leitores:

Aos leitores só posso repetir o meu eterno agradecimento. E só através do desejo de vocês, leitores, em terem nas mãos uma obra minha, que posso continuar bancando essa viagem que é escrever diariamente. Obrigado e aguardem, pois tenho um montão de histórias malucas para descer pro papel.

As últimas palavras do autor para os escritores que estão começando, falando de sua visão, já experiente, no mundo dos livros.

Pra quem quer embarcar nessa viagem só aconselho a ter paciência e persistir no sonho. Pode demorar, mas se você for um bom escritor, cedo ou tarde será publicado. E se você é um escritor mesmo, mesmo sem ser publicado, há de continuar escrevendo. Logo terá uma obra. Cinco ou seis títulos para investir numa carreira, investir numa conversa com uma editora.

 

 

 

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