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Renato
Rosatti
"Quando
o Homem entrou na era atômica, ele abriu a porta para um novo mundo. O que
eventualmente encontraremos nesse novo mundo, ninguém pode prever." - Dr.
Harold Medford
Um
fato bastante evidente na raça humana é a incrível quantidade de sangue que
tem manchado a trajetória de sua conturbada história, sempre envolta em
guerras absurdas. Boa parte do desenvolvimento científico e tecnológico da
humanidade foi e ainda é voltado para a indústria bélica, objetivando
fortalecer os interesses econômicos das nações mais poderosas e expandir um
imperialismo hipócrita pelo mundo. Quando os Estados Unidos atacaram com bombas
nucleares duas cidades japonesas em meados dos anos 1940 durante a Segunda
Guerra Mundial, nosso planeta entrou definitivamente na era atômica. E,
através desse ato, a nossa espécie inevitavelmente abriu uma porta
desconhecida para um mundo novo, sustentado pela paranóia nuclear que por sua
vez geraria a criação de uma infinidade de idéias e argumentos a serem
explorados pelo cinema fantástico a partir da década de 1950.
É
desse período que se originou um sub-gênero conhecido como "Big Bug"
("Inseto Gigante"), onde em vários filmes divertidos a humanidade
passaria a enfrentar terríveis ameaças vindas de insetos de todos os tipos, os
quais devido à exposição excessiva de radiação, de forma acidental ou até
mesmo intencional no caso dos "cientistas loucos", acabaram
transformando-se em imensos monstros prontos para lutar com a raça humana pelo
mesmo espaço. De ingênuos, pequenos e aparentemente inofensivos, eles passaram
a gigantescas criaturas ameaçadoras.
Um
dos primeiros filmes do tipo "Big Bug" foi produzido em preto e branco
em 1954 com o nome de "Them!" (ou "Elas!), batizado no Brasil
como "O Mundo em Perigo", e explorando a existência de terríveis
formigas gigantes, que variavam de 2 a 4 metros de comprimento. Dirigido por
Gordon Douglas a partir de uma história de George Worthing Yates, o filme foi
uma das primeiras tentativas de injetar a paranóia nuclear numa fórmula de
causa e efeito, ou seja, a ação nociva do Homem através da manipulação de
elementos atômicos e a reação da natureza, gerando um novo e terrível tipo
de praga na imaginário coletivo. Nesse caso específico, a ação foi sobre
inocentes formigas que cresceram assustadoramente de tamanho devido à testes
com bombas nucleares realizadas no deserto do Novo México, nos Estados Unidos,
em 1945.
A
história se inicia com um policial, o Sargento Ben Peterson (James Whitmore),
investigando estranhas ocorrências num deserto do sudoeste americano, onde
encontra um trailer destruído, com seus ocupantes desaparecidos, um agente do
FBI em férias e a esposa, e a filha do casal vagando sem rumo pelos campos
áridos e em estado de choque. Para aumentar ainda mais o clima de mistério, o
policial encontra também um armazém isolado e igualmente destruído, com seu
proprietário morto violentamente e corroído por uma grande quantidade de
ácido fórmico. Para auxiliá-lo nas investigações é enviado um agente do
FBI, Robert Graham (James Arness), e juntos eles encontram uma enorme e estranha
pegada na areia do deserto, próxima ao trailer atacado. Ao imprimirem e
enviarem a evidência para uma perícia em Washington, eles recebem como
resposta a visita e ajuda de um experiente cientista do Departamento de
Agricultura, Dr. Harold Medford (Edmund Gwenn), juntamente com sua bela filha e
assistente Patricia (Joan Weldon).
Uma
vez todos juntos, o grupo inicia uma investigação no deserto e encontram a
incrível existência de formigas mutantes gigantes, transformadas pela
exposição à radiação de testes nucleares no mesmo local nove anos antes.
Auxiliados pelo apoio militar do General Robert O'Brien (Onslow Stevens), do
Serviço Secreto da Força Aérea, eles tentam destruir o formigueiro com um
pesado ataque de fogo e veneno, porém duas formigas rainhas aladas conseguem
escapar e voam até Los Angeles, escondendo-se nos complexos subterrâneos da
cidade.
A
partir daí, trava-se um combate mortal entre homens e formigas gigantescas, na
tentativa de encontrar seus ninhos e destruir as rainhas, evitando dessa forma a
procriação e proliferação dos insetos em larga escala e que colocaria em
risco a sobrevivência da humanidade.
"O
Mundo em Perigo" é considerado um precursor dos filmes com insetos
gigantes, sendo muito bem recebido pelo público e até ganhando um cobiçado
prêmio "Oscar" por seus eficientes efeitos especiais, muito
interessantes para a época e nitidamente datados, coordenados por Ralph Ayers,
que utilizou uma sofisticada parafernália mecânica formada por uma complexa
combinação de cordas, roldanas e engrenagens para movimentar as grandes
formigas. Em comparação com as modernas técnicas de computação gráfica
atuais, as formigas são até hilariantes, mas analisando-se apenas os recursos
existentes naquele período distante do cinema, é impossível não enaltecer o
grande trabalho realizado.
O
filme é sem dúvida uma tentativa de sucesso em se produzir com um tratamento
sério uma história de ficção científica e horror explorando insetos
gigantes que reagiram aos efeitos nocivos da ciência. E acabou impulsionando
toda uma safra de filmes com temática similar, que apesar de tratados com
orçamentos e seriedade menores, não minimizaram suas propostas de
entretenimento. Como resultado disso, vários outros tipos de insetos acabaram
ampliados pelo cinema como aranhas, lagartos, vespas, gafanhotos e até um
louva-deus, numa série de filmes super divertidos.
Como
todo filme enfocando uma revolta da natureza contra a ciência, em "O Mundo
em Perigo" não poderia faltar a presença marcante de um cientista para
tentar entender a origem da ameaça e como combatê-la, através do uso racional
de seus conhecimentos. Nesse caso, o Dr. Medford é um especialista em formigas
e o responsável por várias frases interessantes e com conteúdos
significativos como por exemplo quando eles descobrem a existência das formigas
gigantes, numa inevitável ameaça mortal contra a humanidade:
"Podemos
estar testemunhando uma profecia bíblica se realizando: A destruição e a
escuridão descerão sobre o mundo e as feras reinarão sobre a Terra."
Ou
quando ele explica aos militares a natureza guerreira das formigas e o perigo
que elas representam para o mundo ao se transformarem em monstros imensos:
"As formigas são as únicas criaturas fora o Homem, que fazem guerra. Elas
fazem campanha, são agressivas e escravizam as prisioneiras que não são
mortas".
O
nome nacional "O Mundo em Perigo" é bem diferente do original "Them!",
mas parece ser um título mais adequado, numa escolha feliz dos responsáveis em
nomear os filmes que chegam ao Brasil. Porém, uma curiosidade é a forma como
os produtores se referiram à palavra "THEM" para aproveitarem a
oportunidade de um interessante marketing, evidenciando suas letras como
iniciais de palavras expressivas como "Terror", "Horror",
"Excitement" e "Mystery".
"O
Mundo em Perigo" foi lançado no Brasil em vídeo DVD pela "Warner
Home Video", numa rara oportunidade de termos acesso a mais essa
preciosidade do cinema fantástico, com a caixa trazendo uma bela capa
destacando uma ilustração colorida do filme, com formigas monstruosas atacando
as pessoas e gerando o caos, num bom exemplo daqueles cartazes típicos dos
filmes dos anos 1950. O material extra inclui um trailer original de 3 minutos
de duração e sem legendas, além de uma interessante galeria de fotos e
algumas poucas imagens de cenas não aproveitadas. O menu interativo também é
bastante criativo aproveitando imagens de divulgação do filme para inserir os
tópicos de navegação.
O
cineasta americano Gordon Douglas (1907 / 1993) nasceu em New York e morreu de
câncer em Los Angeles, California. Sua filmografia é grande contando com quase
100 filmes de todos os gêneros, entre westerns, policiais, aventuras, dramas de
guerra, espionagem e noir. No cinema fantástico ele também dirigiu a comédia
de horror "Zombies on Broadway" (45), com Bela Lugosi.
O
escritor George Worthing Yates (1901 / 1975), autor da história que serviu de
base para "O Mundo em Perigo", é especialista no gênero horror e
ficção científica e suas idéias inspiraram a produção de uma série de
filmes de pura diversão da década de 1950 como "Conquest of Space"
(55), "It Came From Beneath the Sea" (55), "Earth vs. The Flying
Saucers" (56), "The Amazing Colossal Man" (57),
"Frankenstein 1970" (58), "War of the Colossal Beast" (58),
"Attack of the Puppet People" (58), "Earth vs. The Spider"
(59), entre outros.
O
elenco principal do filme é formado pela dupla James Whitmore e James Arness. O
primeiro nasceu em 1921 e continua ativo tendo participado de "Um Sonho de
Liberdade" (94), com Morgan Freeman e Tim Robbins, e "Cine Majestic"
(2001), com Jim Carrey e Martin Landau. Sua semelhança física com o consagrado
ator Spencer Tracy é tão grande que eles frequentemente eram confundidos como
irmãos, só que Tracy era 21 anos mais velho e faleceu em 1967. Whitmore atuou
em quase 80 filmes, e entre eles, sob forte maquiagem como um orangotango no
clássico "O Planeta dos Macacos" (68). Já James Arness nasceu em
1923, em Minnesota, e é mais conhecido como o eterno xerife Matt Dillon na
divertida e longa série televisiva de western "Gunsmoke" (1955-75).
No cinema fantástico, ele foi a criatura alienígena no clássico "O
Monstro do Ártico" (51), de Howard Hawks, e que foi refilmado por John
Carpenter em 1982 como "O Enigma de Outro Mundo". Curiosamente, o ator
Fess Parker tem uma pequena participação em "O Mundo em Perigo" como
um aviador internado num hospital psiquiátrico por alegar ter visto imensas
formigas voadoras. Ele nasceu no Texas em 1925 e é mais conhecido como o
lendário desbravador Daniel Boone na série de TV homônima produzida entre
1964 e 70.
"Uma
horda de formigas gigantes vindas de profundas catacumbas para causar o terror
na superfície."
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