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Renato
Rosatti
"Prepare-se
para o Extraordinário. O poder de sete torna-se a liga de um."
O
cinema muitas vezes recebe inspiração da literatura e dos quadrinhos. E no
caso do gênero fantástico, muitos filmes surgiram com seus argumentos baseados
em personagens idealizados primeiramente pela arte escrita. "A Liga
Extraordinária" (The League of Extraordinary Gentlemen), que entrou em
cartaz nos cinemas brasileiros em 12/09/03, é um exemplo claro dessa
combinação de mídias, onde uma série de personagens clássicos da literatura
de horror, ficção científica, fantasia e aventura se juntaram numa mesma
história desenvolvida pelo genial quadrinista Alan Moore resultando na famosa
graphic novel "A Liga dos Cavalheiros Extraordinários", que por sua
vez, com as devidas liberdades de adaptação, transformou-se num filme dirigido
por Stephen Norrington e estrelado pelo experiente Sean Connery.
Alguns
anos antes, a mesma produtora 20th Century Fox, já havia aproveitado um
trabalho gráfico de Alan Moore para fazer um filme de horror, e em 2001 lançou
"Do Inferno" (From Hell), um thriller ambientado no final do século
XIX envolvendo o misterioso serial killer "Jack, o Estripador",
contando com um elenco formado pelo talentoso Johnny Depp e o experiente Ian
Holm. E a produtora já tinha planos para filmar "A Liga" desde 1995,
conseguindo somente muitos anos depois efetivar o projeto, num generoso
orçamento de aproximadamente US$ 78 milhões.
A
história é ambientada na Europa de 1899, onde a Rainha Vitória, da
Inglaterra, através de um misterioso cavalheiro identificado apenas como
"M" (Richard Roxburgh), solicita a ajuda do famoso aventureiro
imperialista Allan Quatermain, que estava vivendo na África, numa das várias
colônias britânicas, para recrutar um grupo especial de pessoas com
características e poderes extraordinários, para juntos numa liga (similar aos
"X-Men" dos quadrinhos e cinema), enfrentarem a ameaça terrorista de
um vilão louco auto denominado de "Fantasma" (que utiliza uma
máscara para ocultar o rosto deformado, numa homenagem ao personagem "O
Fantasma da Ópera", do escritor Gaston Leroux). Ele tem sido o
responsável por causar uma série de incidentes internacionais criando uma
perturbadora instabilidade da paz entre as principais nações da Europa,
incitando uma guerra mundial que resultaria na macabra oportunidade de
conquistar o mundo devido ao fato dele ser o possuidor do mais moderno arsenal
bélico existente.
O
plano maquiavélico do "Fantasma" incluía a destruição da cidade
italiana de Veneza exatamente quando haveria uma conferência internacional dos
países europeus para avaliarem a turbulência política do velho continente. E
para evitar o desastre e uma guerra iminente, Quatermain e a liga
extraordinária, auxiliados pelo futurista submarino "Nautilus" do
Capitão Nemo, entram em ação e partem para um confronto direto com o vilão
na tentativa heróica de impedir a queda de Veneza, e descobrindo mais tarde a
existência de uma poderosa fortaleza onde o "Fantasma" estava
construindo poderosas armas de guerra e realizando experiências científicas
para a criação de seres com os mesmos poderes extraordinários de alguns dos
membros da liga.
A
liga dos cavalheiros extraordinários é liderada pelo caçador Allan Quatermain
(o veterano Sean Connery), personagem criado pelo escritor Henry Rider Haggard
em "As Minas do Rei Salomão", sendo uma espécie de precursor do
arqueólogo "Indiana Jones", de Steven Spielberg. Completam a
diferenciada equipe a bela Mina Harker (Peta Wilson), esposa de Jonathan Harker,
transformada em vampiro pelo Conde Drácula no livro homônimo de Bram Stoker; o
lendário Capitão Nemo (o indiano Naseeruddin Shah), um brilhante cientista
criador do submarino "Nautilus" no livro "20.000 Léguas
Submarinas", de Jules Verne; o psicótico médico Dr. Henry Jekyll (Jason
Flemyng) e sua outra personalidade maléfica Mr. Edward Hyde, personagens do
livro "O Médico e o Monstro" (1886) de Robert Louis Stevenson; o
cientista transparente Rodney Skinner (Tony Curran), nome alterado por problemas
de direitos autorais, substituindo o original da literatura Dr. Hawley Griffin,
da obra "O Homem Invisível, de H. G. Wells; o amaldiçoado imortal Dorian
Gray (Stuart Townsend), personagem criado por Oscar Wilde em "O Retrato de
Dorian Gray"; e finalmente pelo (agora) agente do Serviço Secreto
americano Tom Sawyer (Shane West), criado ao lado de Huckleberry Finn pelo
escritor Mark Twain, popular autor de literatura infanto-juvenil. Esses dois
últimos não faziam parte da liga dos quadrinhos idealizada por Alan Moore e
foram acrescentados somente para a versão do cinema, sendo que Tom Sawyer mais
especificamente, é o único americano do grupo, e foi colocado por questões de
interesses comerciais para atrair a atenção do público americano, já que
todos os outros membros da liga são criações da literatura popular
britânica.
Após
se assistir "A Liga Extraordinária" e fazendo-se um rápido balanço
dos acertos e erros encontrados no filme, através de uma avaliação sem muita
exigência, ainda haverá como resultado final um pequeno saldo positivo. Apesar
da ambientação num mundo alternativo durante o final do século XIX, onde
existe um universo ficcional povoado por personagens da literatura fantástica,
existe uma quantidade excessiva de situações e eventos inverossímeis. Alguns
personagens tiveram suas personalidades alteradas significativamente como por
exemplo o "Homem Invisível", que na verdade é conhecido como
"um cientista louco", perturbado e completamente desorientado por sua
condição de invisibilidade decorrente de uma experiência científica, sendo
que essa característica desapareceu no filme. O aristocrático Dorian Gray (que
teve um excelente filme solo produzido em 1945) foi amaldiçoado pela
imortalidade, e seu comportamento suspeito e destino trágico durante o filme
foi uma decisão equivocada do roteirista. Assim como o personagem Tom Sawyer,
que foi acrescentado na trama apenas para satisfazer o mercado americano, e que
além de sua idade estar errada (jovem demais para a época narrada no filme),
sua postura é irritante e ridícula, na sempre tentativa forçada de assumir o
papel do jovem herói e galã do grupo. Isso somente conseguiu despertar nosso
repúdio e obrigar-nos a torcer inutilmente para ele levar um tiro na testa...
Outro personagem que ficou diferente de sua concepção original é o médico
Dr. Jekyll, que foi base para a produção de uma infinidade de filmes e que
não tinha controle sobre sua dupla personalidade, sendo uma vítima impotente
do monstruoso Mr. Hyde. No filme, a transformação é controlada e só ocorre
após a ingestão de um soro maldito.
Por
outro lado, apesar das modificações nas características de alguns
personagens, e um certo exagero em algumas cenas de ação, com muita correria
desenfreada, o filme tem logicamente seus momentos de pura diversão, e
naturalmente acaba surgindo uma agradável interação entre o espectador e
"a liga dos cavalheiros extraordinários", fazendo-nos torcer pelo
sucesso de sua missão secreta em evitar uma guerra mundial, através da ação
conjunta de um grupo de heróis diferenciados. É difícil não criar uma
aproximação principalmente com a belíssima vampira Mina, que de uma aparente
mulher inofensiva, revela-se quando necessário uma poderosa e mortal predadora.
O
cineasta inglês Stephen Norrington nasceu em 1964 em Londres e já teve uma
experiência anterior com o gênero fantástico dirigindo o primeiro filme sobre
Blade, um personagem vampiro dos quadrinhos da Marvel. "Blade - Caçador de
Vampiros" (1998), com Wesley Snipes no papel título, originou uma franquia
que já lançou uma continuação em 2002 e o terceiro filme está em fase de
produção. Porém, ele é mais conhecido como técnico de efeitos especiais
participando da equipe de produção de filmes como "O Enigma da
Pirâmide" (Young Sherlock Holmes, 1985), "Aliens, o Resgate"
(1986), "Hardware" (1990) e "O Destruidor" (Split Second,
1992), este último estralado pelo veterano Rutger Hauer.
O
aventureiro Allan Quatermain foi interpretado pelo veterano ator Sean Connery,
que também assinou a produção executiva de "A Liga Extraordinária"
e brigou o tempo todo com o diretor Stephen Norrington, devido a diferenças
profissionais na condução do filme. Connery nasceu na Escócia em 1930 e
tornou-se muito conhecido pelo papel do famoso e sofisticado agente secreto 007
James Bond, criação do escritor Ian Fleming, participando em seis filmes
durante os saudosos anos 1960, numa enorme franquia que está ativa até hoje.
Sua vasta carreira inclui mais de 75 filmes, sendo considerado um dos grandes
nomes do cinema atual. Em sua variada filmografia, destacam-se obras como a
ficção científica "Zardoz" (1974), o filme de catástrofe
"Meteoro" (1979), a FC policial "Outland, Comando Titânio"
(1981), a fantasia "Highlander, o Guerreiro Imortal" (1986), o
policial noir "Os Intocáveis" (1987), o terceiro episódio da
trilogia de Indiana Jones, "A Última Cruzada" (1989), a aventura
submarina de guerra "A Caçada ao Outubro Vermelho" (1990), o
blockbuster "A Rocha" (1996), a aventura fantástica "Os
Vingadores" (1998), e o drama "Encontrando Forrester" (2000).
Inicialmente
o filme recebeu o título nacional de "A Liga", sendo até anunciado
dessa forma nas primeiras exibições do trailer, vindo mais tarde a ser chamado
pelo nome definitivo "A Liga Extraordinária". E o ideal ainda seria
se fosse adotada a tradução literal do original "The League of
Extraordinary Gentlemen", acrescentando-se a palavra
"cavalheiros".
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