|
Renato
Rosatti
"Abandone
toda a esperança, acesse todo o mal. Este será o último site que você
verá"
A
"tagline" promocional instiga-nos a desafiar o medo do desconhecido e
romper a fronteira que separa a realidade que conhecemos e um mundo regido por
forças sobrenaturais. A maior questão é se estamos preparados para enfrentar
as prováveis consequências que podem ser decorrentes dessa violação ao
acessarmos um site proibido da internet, cujo preço a pagar é a morte após
dois dias da invasão. Essa é a premissa básica de "Medopontocombr"
(FeardotCom), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 14/11/03, após
mais de um ano de constantes adiamentos, e entrando em circuito em poucas salas
com horários igualmente menos favoráveis.
A
história é ambientada em Nova York, onde o detetive da polícia Mike Reilly (Stephen
Dorff) se une a uma pesquisadora do departamento de saúde, Terry Huston (Natascha
McElhone), para juntos tentarem desvendar um mistério que envolve a morte de
quatro pessoas que tem em comum hemorragias nos olhos e nariz e o fato de
acessarem um obscuro site da internet chamado "feardotcom.com". Com um
visual que incita a curiosidade do visitante, apresentando imagens confusas e
carregadas de um teor bizarro, numa viagem alucinógena, além da interação
com uma sedutora voz virtual feminina, a dupla de investigadores, auxiliados
eventualmente ainda pelo policial Sykes (Jeffrey Combs), descobre que as
vítimas morreram após 48 horas do contato com o misterioso site, e para
encontrarem uma resposta decidem percorrer o mesmo caminho navegando pelo
amaldiçoado endereço eletrônico.
Agora, com apenas dois dias para resolverem o caso e salvarem também suas
próprias vidas, eles mergulham num pesadelo assombrado, enfrentando seus piores
medos e temores, descobrindo estranhas relações entre as mortes, o tormento de
um fantasma de uma criança, o misterioso site, uma jovem brutalmente torturada
até a morte e sedenta de vingança, e finalmente um antigo "serial killer",
Alistair Pratt (Stephen Rea), sádico torturador e assassino de mulheres, auto
denominado como "O Doutor", por seus conhecimentos na arte de mutilar
os corpos de suas vítimas, e que havia escapado da polícia e do detetive
Reilly tempos atrás, retornando para continuar seu legado de sangue através da
internet, na transmissão de "snuff movies" financiados por assinantes
ávidos por violência e morte reais.
O
argumento básico de "Medopontocombr" também utiliza como tema
central a internet, a rede mundial de computadores que disponibiliza para o
usuário uma quantidade quase sem fim de informações de todo tipo e para todos
os interesses. Sua história gira em torno de um site amaldiçoado que
misteriosamente está relacionado à morte dos visitantes que o acessam. Outros
filmes recentes de horror que exploraram igualmente a mesma idéia foram a
oitava parte da saga do psicopata Michael Myers, "Halloween:
Ressurreição", e o thriller "O Olho Que Tudo Vê" (My Little
Eye), ambos apresentando um "reality show" transmitido ao vivo pela
internet.
"Medopontocombr" possui uma proximidade muito grande com a história
do filme japonês "Ringu", produzido anteriormente em 1998, e que
depois foi refilmado nos Estados Unidos em 2002 como "O Chamado" (The
Ring). Entre as similaridades, destaca-se a existência de uma maldição
motivada por vingança, que leva à morte a pessoa que entrou em contato com
seus poderes proibidos e sobrenaturais, após um determinado intervalo de tempo.
Em "Ringu", quem assistia uma estranha fita de vídeo VHS amaldiçoada
acabava morrendo no prazo de sete dias exatos, e em "Medopontocombr" a
vítima morre em 48 horas após interagir com um jogo acessando um obscuro site
da rede.
Apesar do argumento não original, aparentemente aproveitado de outros filmes, e
de um final previsível ainda que razoavelmente satisfatório, "Medopontocombr"
foi injustamente atacado com uma quase unanimidade de críticas negativas e
desprezado pelo público, pois o filme se esforça em apresentar uma história
sobrenatural motivada por vingança, utilizando a internet como meio de
propagação de violência. Existe uma investigação interessante, um show de
imagens bizarras num universo macabro de alucinação, a ação de um frio
psicopata mutilador, e uma crítica à sociedade sedenta de violência real
alheia. O maior erro do filme talvez tenha sido um excesso de situações
forçadas na tentativa de conferir uma maior credibilidade à história, criando
alguns momentos exagerados de fantasia. Mas como filme de entretenimento, e
independente da falta de originalidade, funciona bem e merecia uma
reconhecimento maior.
Curiosamente,
no início da campanha de divulgação, o filme iria se chamar no Brasil "Medopontocom",
numa tradução literal do original, e depois o nome foi alterado para o
definitivo "Medopontocombr". O filme é o típico caso de uma
produção que não despertou grande interesse comercial nos responsáveis pelo
lançamento em nosso país, tanto que estreou nos Estados Unidos em agosto de
2002 e somente chegou por aqui em meados de novembro do ano seguinte, tendo a
estréia nos cinemas adiada inúmeras vezes para não coincidir com o
lançamento de algum concorrente poderoso que poderia lhe prejudicar o
desempenho nas bilheterias. Já que não estava recebendo nenhum prestígio com
o lançamento super atrasado nos cinemas brasileiros, o filme poderia então ter
sido lançado diretamente para o mercado de vídeo, evitando com isso tanta
demora em estrear por aqui. Sem contar a avalanche de críticas desfavoráveis
que o filme recebeu, contribuindo bastante para seu fracasso de público.
O cineasta William Malone já teve experiências anteriores com o gênero,
dirigindo dois episódios da série de TV "Contos da Cripta" (1989/96)
e o filme "A Casa da Colina" (99), pela "Dark Castle", uma
refilmagem de "House on Haunted Hill" (58).
O elenco principal é formado por Stephen Dorff, americano nascido em 1973, e
com passagens em filmes como "O Portão" (87), ainda bem jovem, e
"Blade - O Caçador de Vampiros" (98), além da inglesa Natascha
McElhone, nascida em Londres em 1971, e com participações em "O Show de
Truman" (98) e "Solaris" (2002). Completam ainda o time Jeffrey
Combs, ator bastante lembrado por sua ligação com o horror, em filmes como
"Re-Animator" (85), "Do Além" (86), "Os
Espíritos" (96), "A Casa da Colina" (99), entre outros. Tem
também o experiente Udo Kier numa participação especial e muito rápida no
início do filme como Polidori. Alemão nascido em 1944, ele é dono de uma
carreira com mais de 140 trabalhos, com destaque para os papéis do Barão
Frankenstein e do vampiro Drácula, respectivamente nos filmes italianos "Flesh
for Frankenstein" (73) e "Blood for Dracula" (74), produzidos por
Andy Warhol, além de participações em "Suspiria" (77), de Dario
Argento, e mais recentemente em "Armageddon", "Blade",
"Fim dos Dias" e "A Sombra do Vampiro". E ainda o veterano
irlandês Stephen Rea, que fez o papel de um sádico assassino, e que já havia
participado de "Entrevista com o Vampiro" (94) e "A
Premonição" (99).
|