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Renato Rosatti
"Você não
vê o medo. Você sente"
Abordando
a moda atual dos "reality shows", no estilo do popular programa de TV
"Big Brother", utilizando como cenário uma enorme casa com estilo
gótico isolada numa floresta, e com o auxílio da moderna tecnologia através
da transmissão ininterrupta pela internet, a rede mundial de computadores,
obtemos como resultado o thriller com elementos de horror "O Olho Que
Tudo Vê" (My Little Eye), dirigido pelo galês Marc Evans e que
estreou nos cinemas brasileiros em 30/05/03, explorando essa mistura de idéias
de forma perturbadora.
Um
grupo de cinco jovens é escolhido para participar de um "reality
show" transmitido pela internet. Os eleitos são típicos estereótipos
representados através de três homens, o galã Matt (Sean Cw Johnson), o
rejeitado Danny (Stephen O’Reilly) e o "doidão" Rex (Kris Lemche),
e de duas mulheres, a exibicionista Charlie (Jennifer Sky), e a
"certinha" Emma (Laura Regan). Com motivações variadas, desde a
obtenção de sucesso, fama, dinheiro e até por simples curiosidade, eles
precisam passar seis meses confinados numa mansão com estilo gótico,
localizada no meio de uma floresta, sendo filmados por diversas câmeras
espalhadas por todos os cômodos. Ao contrário dos tradicionais jogos similares
da televisão, os participantes não são eliminados com o passar do tempo, não
há aquelas "festinhas" ridículas e nem precisam realizar provas para
ganhar comida ou outros objetos. Eles precisam permanecer todos juntos até o
final do programa, sem nenhuma desistência, para serem recompensados cada um
com a quantia significativa de um milhão de dólares. Se qualquer um deles sair
por desistência, todos perdem juntos, tornando o objetivo final ainda mais
difícil de ser conquistado.
Esse
argumento básico já foi utilizado de forma similar e com algumas variações
no filme "A Casa da Colina" (House on Haunted Hill, 1999), de William
Malone, onde nesse caso cinco pessoas são convidadas a passar uma noite numa
mansão assombrada e quem sobrevivesse ganharia um milhão de dólares. Por sua
vez, "A Casa da Colina" é uma refilmagem de uma produção
"B" de 1958, "A Casa dos Maus Espíritos", dirigida por
William Castle e estrelada pelo lendário Vincent Price.
O
Olho Que Tudo Vê" começa mostrando cenas da fase de seleção dos
participantes, com curtos depoimentos dos escolhidos. Depois passa rapidamente
para o confinamento na casa, já próximo do final dos seis meses, na última
semana do programa. Nesse momento os personagens são melhor apresentados e
ocorrem alguns inevitáveis sinais de desgaste entre eles após tanto tempo
juntos no mesmo lugar e isolados do resto do mundo, sendo vigiados
constantemente por incômodas câmeras.
Porém,
para tumultuar ainda mais o tenso ambiente, começam a acontecer eventos
estranhos ameaçando a estabilidade emocional dos jovens, como a descoberta de
uma inscrição ofensiva em uma das janelas da casa, ou o aparecimento de um
martelo ensanguentado na cama de Emma, ou pior ainda, a visita inesperada de um
misterioso esquiador perdido, Travis Petterson (Bradley Cooper), que alega não
conhecer o jogo transmitido pela internet.
A
partir daí, a história alcança seu clímax de tensão, com crescentes
conflitos psicológicos entre os personagens e com a morte e o mistério
envolvendo o assustado grupo de jovens, culminando com um trágico desfecho
revelador.
Lembrando
filmes como "A Bruxa de Blair", pelo clima de claustrofobia e horror,
e "O Show de Truman", pela incômoda exposição pública da vida dos
personagens 24 horas por dia, o roteiro básico de "O Olho Que Tudo
Vê", escrito por David Hilton e James Watkins, não tem grande
originalidade, aproveitando todos os clichês usuais de filmes similares. Com um
grupo vivendo numa enorme casa gótica, isolada numa floresta coberta por chuvas
incessantes de neve, enfrentando o aparecimento de situações misteriosas e
sendo dizimado violentamente pelas ações de um assassino, que pode ser de
origem externa ou do próprio grupo. E alguns absurdos da história ficaram
muito evidentes como por exemplo o fato de simplesmente ser desprezada a óbvia
repercussão e influência dos familiares dos jovens confinados na macabra
mansão quando começam a acontecer atividades fora da normalidade, ou ainda a
notável falta de intimidade e interação entre os participantes do jogo, mesmo
estando reclusos numa mansão isolada por quase seis meses.
Mas
o filme tem ao seu favor a interessante idéia de acrescentar novos elementos à
trama, com um suposto "jogo" no estilo "reality show",
filmado de forma ininterrupta por câmeras que transmitem as imagens por
internet para espectadores sedentos por violência real, explorando com
eficiência a misteriosa mitologia que envolve os chamados "snuff movies"
(filmes ilegais com supostas mortes reais em cena e que já se transformaram
numa espécie de "lenda urbana").
O
título escolhido para o lançamento do filme no Brasil é até adequado e
coerente com a história, porém o ideal e mais apropriado ainda seria a simples
tradução do original, "My Little Eye" para "Meu Pequeno
Olho". Os responsáveis pela escolha dos nomes nacionais dos filmes que
chegam por aqui ainda continuam insistindo em complicar de forma equivocada essa
fácil tarefa. Outro detalhe é que "O Olho Que Tudo Vê" é mais um
desses filmes que demoram demais para serem lançados no Brasil, o que é um
fato lamentável, sendo desnecessária essa longa espera, pois estreou na
Inglaterra em 04/10/02 e somente veio para nós quase oito meses depois.
O
diretor Marc Evans não é muito conhecido, e seu principal trabalho anterior
foi com o thriller "A Ressurreição" (Resurrection Man, 1998), filme
inglês com Stuart Townsend. Os atores também são novatos, com destaque para
Kris Lemche que interpretou Rex, o personagem mais interessante da trama, um
viciado em informática e fumante de maconha que fica fazendo caretas para as
câmeras e dizendo claramente seus objetivos em participar do jogo, visando
unicamente o dinheiro do prêmio, provocando com frases ofensivas o público que
está assistindo pela internet. Ator canadense nascido em 1978, ele participou
também do perturbador filme de realidade virtual "ExistenZ", dirigido
por David Cronenberg em 1999, e do filme de horror "Possuída" (Ginger
Snaps, 2000), de John Fawcett.
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