Um
interessante filme de baixo orçamento produzido pela dupla de especialistas
Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson (responsáveis por uma infinidade de
pérolas do cinema fantástico) é "Farsa Trágica" (The Comedy
of Terrors, 1964, também conhecido como "The Graveside History",
lançado no Brasil em vídeo VHS pela "Globo" e fora de catálogo há
muitos anos).
Considerado
um clássico absoluto do humor negro, sem a exposição de violência e apenas
utilizando discretas sugestões, "Farsa Trágica" reuniu quatro dos
maiores atores do cinema de horror de todos os tempos, Vincent Price
(1911-1993), Boris Karloff (1887-1969), Peter Lorre (1904-1964) e Basil Rathbone
(1892-1967). E foi dirigido por outro grande nome do gênero fantástico, o
francês Jacques Tourneur (1904-1977), responsável também por preciosidades
como "Cat People" (1942), produzido pelo lendário Val Lewton, "Night
of the Demon" (1957) e "War Gods of the Deep" (1965).
Filmado
em apenas vinte dias, com turno de trabalho de doze horas diárias, o filme
utilizou os mesmos cenários do macabro cemitério que faziam parte do set de
filmagens de "The Premature Burial" (1962), dirigido por Roger Corman
e baseado em obra de Edgar Allan Poe. O roteiro de "Farsa Trágica" é
também de outro especialista no gênero, o consagrado Richard Matheson, um dos
principais escritores, junto com Ray Bradbury, dos episódios da série original
da televisão "Além da Imaginação" (1959/64), além também de
escrever os argumentos de clássicos como "O Incrível Homem Que
Encolheu" (1957) e "A Casa da Noite Eterna" (1973).
Trazendo
alguns dos momentos de humor negro mais inesquecíveis e antológicos da
história, com cenas super engraçadas e muito bem protagonizadas pelo
fantástico quarteto de atores principais, que parecem se divertir mais do que o
próprio público com suas performances refinadas, o filme é uma aula de cinema
no gênero "Comédia dos Terrores".
Por
volta de 1890, uma agência funerária de New England passa por graves
dificuldades financeiras com poucos clientes. Seus proprietários são Waldo
Trumbull, interpretado por Vincent Price, e seu sogro, Amos Hinchley, um velho
decrépito, meio surdo e dominhoco, interpretado por Boris Karloff. Trumbull é
casado com a bela Amaryllis (Joyce Jameson), uma esposa negligenciada pelo
marido alcoólatra e que vive quebrando os copos da casa com seus gritos agudos
de frustração, pois seu sonho era ser cantora de ópera e constantemente ela
está exercitando sua arte pela casa. O ex-presidiário fugitivo e desengonçado
Felix Gillie (Peter Lorre, excepcional ator húngaro que morreu pouco tempo
depois do lançamento do filme) é o assistente de Trumbull e está apaixonado
pela desprezada Amaryllis. Trumbull tenta também frequentemente matar seu sogro
e sócio através da ingestão de um veneno, o qual o velho esclerosado pensa
ser apenas um simples remédio.
A
situação ruim da funerária torna-se ainda mais desastrosa quando o
proprietário do prédio onde funciona o estabelecimento, John F. Black (Basil
Rathbone), aparece para cobrar o aluguel atrasado de um ano inteiro. A única
solução que Trumbull descobriu foi a de criar "clientes", e com a
ajuda de seu assistente desajeitado, que já foi ladrão de banco, eles passam a
procurar cidadãos ricos à noite para matá-los e oferecer seus serviços
funerários à família. Como a sorte não estava do lado deles, sempre que
criavam um "cliente", a viúva desconsolada e supostamente inocente
acabava fugindo com o dinheiro do marido e não pagava os honorários da
funerária. Diante disso, a solução do problema foi fazer com que o próprio
dono do prédio, Sr. Black, que sofria de catalepsia, uma rara e terrível
doença que dá a impressão da vítima estar morta, virasse também um
"cliente" forçado. Após várias tentativas inúteis de matá-lo,
finalmente Trumbull e seu assistente Gillie conseguem seu objetivo, porém,
Black acorda da inconsciência de sua doença e saí da cripta pertencente aos
seus familiares, partindo para a vingança.
Como
curiosidade, no elenco há o destaque até de uma gata atriz devidamente
creditada como "Rhubard", que interpretou o papel de
"Cleópatra", uma gata amarela de estimação da família Hinchley,
que aparece em muitas cenas.
São
tantas as sequências hilariantes que é impossível não rir com satisfação
das cenas, como no confronto mortal e quase interminável entre Black e Trumbull,
com o primeiro demonstrando sofrer de catalepsia e simular a morte várias
vezes, sempre ressurgindo e declamando poemas de William Shakespeare. Ou no
velório do Sr. Black, onde Amaryllis está cantando com sua voz aguda uma
música fúnebre em homenagem ao suposto "falecido", que tem uma letra
no mínimo curiosa, parodiando os acontecimentos em torno da doença do Sr.
Black:
"Ele
não está morto, mas dormindo. Ele não está morto mesmo. Seus olhos se
abrirão e ele verá as belezas da eternidade. Ele não nos deixou, pois
constantemente poderemos ver que ele observa tudo que fazemos".
A
dupla interpretada por Vincent Price e Peter Lorre é simplesmente impagável,
com trocas de diálogos e expressões faciais super engraçadas. Para se ter uma
idéia da canastrice de ambos, eles utilizam o mesmo caixão da funerária por
13 longos anos, sendo que após a cerimônia de enterro dos clientes e com suas
famílias indo embora do cemitério, eles rapidamente retiram o corpo do caixão
e o enterram direto na terra, aproveitando o ataúde para o próximo funeral.
Ambos
os atores estiveram juntos também em outro filme igualmente excepcional,
"Muralhas do Pavor" (Tales of Terror, 1962), dirigido e produzido por
Roger Corman e também com roteiro de Richard Matheson em três histórias
baseadas em contos de Edgar Allan Poe. Num dos episódios, Price e Lorre são
dois rivais degustadores profissionais de vinho, e eles travam um disputado
duelo para reconhecer a qualidade, marca e idade de vários vinhos finos,
utilizando métodos estranhos e incomuns, onde se destacam as mais inusitadas
expressões faciais que fariam um morto levantar de sua tumba de tanto rir.
Enfim,
"Farsa Trágica" é um clássico do humor negro refinado, sem sangue
nem violência, apenas utilizando um roteiro inteligente com um clima mórbido
de discreto horror, uma autêntica "comédia dos terrores", como diz o
título original. Um filme para ser homenageado e relembrado sempre, como um
exercício de puro entretenimento e para manter eterno o fascinante cinema
fantástico produzido por consagrados nomes do passado como Jacques Tourneau,
Richard Matheson, Vincent Price, Peter Lorre, Boris Karloff, Basil Rathbone, e
outros tantos mais...
N.A.: Um primeiro
esboço desse artigo foi publicado no meu fanzine "Vortex" # 2 (Julho
de 1991), e agora ele foi revisado e atualizado, acrescentando novas
informações e impressões sobre o filme.