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Renato Rosatti
Durante
o final da década de 1950, a frequente exibição na televisão americana de
velhos filmes fotografados em preto e branco sobre a "criatura de
Frankenstein" estrelados por Boris Karloff e dos coloridos produzidos pela
inglesa "Hammer", ajudou a reacender a chama de um novo ciclo de
horror em Hollywood. Entre os muitos filmes produzidos de baixo orçamento, dois
foram inspirados na famosa personagem criada por Mary Shelley, "I was a
teenage Frankenstein" (1957) e "Frankenstein’s daughter"
(1958). A produtora "Allied Artists" decidiu então modernizar a
clássica história e lançou em 1958 o filme "O Castelo de
Frankenstein" (Frankenstein 1970), chamando Boris Karloff para o papel
principal. Ao contrário de seus filmes anteriores, ele interpretou o cientista
criador, Barão Victor von Frankenstein, deixando o papel da criatura para Mike
Lane. Seu último filme para a produtora havia sido "The Ape" em 1940,
quando o estúdio ainda se chamava "Monogram" (somente em 1953 mudou o
nome para "Allied Artists").
"O
Castelo de Frankenstein" mostra o último elemento vivo da família
Frankenstein, o Barão Victor von Frankenstein, interpretado pelo genial Boris
Karloff, tentando recriar a lendária criatura concebida muitos anos antes por
seu ancestral. Seu castelo na Alemanha foi palco de perseguições durante a
Segunda Guerra Mundial e ele tornou-se prisioneiro de um campo de concentração
nazista por quinze anos, sofrendo violentas torturas dos soldados alemães,
deixando no corpo do veterano barão marcas profundas, como cicatrizes no rosto
e ferimentos na perna direita. Com o propósito de conseguir dinheiro para poder
comprar um reator atômico que lhe daria energia para seus experimentos, ele
permite que uma rede de televisão americana realize um filme sobre sua família
utilizando seu castelo gótico como cenário. Ele próprio participa do filme em
uma cena onde faz um discurso (fora do script original) verdadeiramente
memorável. O cientista está na cripta subterrânea do castelo, onde estão
enterrados seus ancestrais e após a leitura de um texto inscrito em uma
lápide, ele inicia seu depoimento macabro.
Seguem
as palavras inscritas na sepultura:
"Richard
Freiherr Von Frankenstein I (1702-1761) – Eu, Frankenstein, comecei meu
trabalho no ano de 1740, com a melhor das intenções e esforço, com o elevado
propósito de pesquisar os segredos da vida em si e conseguir o melhor para a
humanidade."
E
seu discurso em seguida:
"Do
que adiantou isso, meu querido ancestral? É,... primeiro ele tinha que aprender
do que a carne é feita, ele teria que descobrir a arte de transplantar órgãos
vitais de seres humanos para suas criaturas, costurando os pedaços até que
tivesse todos os atributos da vida concebida por Deus. É claro... eu tenho que
admitir... talvez ele não tenha sido muito escrupuloso a respeito de onde ele
conseguia a matéria bruta. Mas, após 17 anos, seus esforços foram finalmente
compensados. Ele criou um ser com vida. Mas para seu horror, ele descobriu que
havia criado apenas um monstro, horroroso, forte, com um cérebro perverso, com
um único pensamento de sobreviver. E para sobreviver ele matou, matou, matou e
matou de novo. Até se transformar na imagem do diabo encarnado. Aí ele
percebeu que o que havia criado teria que ser morto. Mas por ter sido seu
criador, não sentiu remorsos de destruí-lo. Aí está, dentro daquele
sarcófago. Nesta tumba, bem no fundo da terra, ele enterrou a sua criatura, a
sua criação, no antigo túmulo onde foram enterradas várias gerações de sua
família. Ele o fechou aqui para todo o sempre. Os seus órgãos vitais foram
destruídos para que nunca mais nenhum outro mortal pudesse desafiar a Deus, o
único e verdadeiro criador, ao qual pedimos misericórdia e perdão."
O
monólogo foi interpretado com tamanho realismo pelo barão que os membros da
equipe de filmagens se assustaram. Ele passa então a trabalhar secretamente em
seu laboratório oculto embaixo da cripta, pois estava decidido a dar novamente
vida à criatura selada na sepultura por seu ancestral. Enquanto trabalhava, um
gravador registrava suas palavras:
"Quinta-feira,
dia 28, 3 horas. Voltando ao trabalho. Como resultado da retirada da carne do
crânio, mantendo-o limpo e na temperatura exigida, os ossos se tornaram
cristalizados. Agora iniciarei a reconstrução da fisionomia... assim que eu
quiser... Mãos perfeitas, ambas verdadeiras e com transplantes de pele
sintética. Poros abertos e normais. Tonalidade e textura dos tecidos firmes,
não apresentando deterioração. Movimentos dos pulsos estáveis. Aguardando
cirurgia plástica posterior para a retirada de todas as cicatrizes. O corpo
apresenta um perfeito estado de conservação. Agora, pronto para os passos
finais, para os transplantes cirúrgicos dos órgãos vitais necessários para
completar a última etapa antes da utilização do reator atômico para
reproduzir a vida."
O
mordomo do barão, Shuter (Norbert Schiller), descobre acidentalmente o
laboratório e é morto, sendo seu cérebro e coração transplantados para a
criatura. Os registros das experiências prosseguem:
"Agora
cortando a aorta e as cavidades inferior e superior. Sistema automático de
transfusão continua a fornecer sangue fresco. Ambos os corpos recebendo
oxigênio. Os órgãos recentemente transplantados permanecem vivos e
saudáveis. O coração retirado. Está recebendo massagem constante. Agora
colocando-o no lado esquerdo do peito. Suturando a aorta na cavidade do
coração. Mas prosseguindo com massagem ininterrupta durante a cirurgia.
Mantendo o pulso e a circulação artificial do sangue no ritmo normal... O
cérebro de Shuter está restaurado. Todas as membranas intactas. Continuidade
entre a medula e o cordão espinhal restaurada. Cerebelo fechado e tudo reparado
para as ligações padrões através da técnica microscópica."
A
criatura estava finalmente pronta para receber vida e com a chegada do reator
atômico, o barão pode finalmente realizar seu sonho insano.
"Hora,
21:27. Temperatura da cápsula atômica, 7o C. Radiação normal.
Agora estou ligando o gerador atômico de vapor. Ligando agora o tubo.
Temperatura em 52o C. Grau de vapor em 3,6. Prosseguindo a
experiência muito bem. Hora, 22:03. Toda a radiação acabou. Zero no
mostrador."
E
a criatura estava revivida, porém sem a visão. Para obter os olhos, ela
assassinou dois membros da equipe de televisão. Mas por motivos científicos
seus olhos não puderam ser aproveitados, cabendo a Wilhelm Gottfried (Rudolph
Anders) a doação forçada dos mesmos. Ele era um velho amigo do barão e que
por suspeitar de suas experiências, foi morto e seus olhos transplantados para
o moderno monstro que estava sendo criado. E sua próxima vítima seria a
estrela feminina da equipe de filmagens, Carolyn Hayes (Jana Lund), mas a
criatura acaba poupando a vida da jovem garota e se volta contra seu criador.
Enquanto
o barão e o monstro se confrontam, o reator atômico é acidentalmente acionado
espalhando radiação pelo laboratório. Criador e criatura morrem.
"O
Castelo de Frankenstein" tem uma história alternativa interessante dentro
do sub-gênero do cinema de horror que aborda a temática da criatura homônima
criada pela escritora Mary Shelley em 1818. Com elementos de ficção
científica num roteiro ambientado em 1970, um futuro para a época da
produção (que é de 1958), o filme explora uma combinação de horror gótico
com o medo da era atômica, e tem a presença sempre marcante do imortal ator
Boris Karloff, dessa vez como o cientista criador e não como o famoso monstro,
que foi o papel que o consagrou na história do gênero.
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