|
ARTIGOS
Artigos do Fantástico
Artigos de Ciências
Resenhas de Livros
Scarium Cinema
|
Autor:
JOAQUIM MANUEL DE MACEDO. Editora Ática (S. Paulo), Série Bom Livro,
Quarta edição, 1977. Romance publicado originalmente em 1969.
Fruto
da pena de um dos mais célebres romancistas brasileiros, "A luneta
mágica" é uma história densa, fechada sobre si mesma, num esquema
completo. Com uma tessitura filosófica que a perpassa do princípio ao fim,
a novela é fantástica, metafórica, poética, lembrando um pouco a
ficção científica quando a magia se configura em instrumentos de
precisão: as lunetas utilizadas por Simplício.
A
trama só poderia ocorrer com alguém como Simplício: um rapaz absurdamente
míope, e mais absurdamente ainda crédulo, que narra detalhadamente as suas
desventuras. Aprendiz de feiticeiro, ao desencadear forças que não saberá
controlar, Simplício passa a enxergar normalmente ao receber de um
misterioso armênio – cujo nome não é mencionado uma única vez – a
luneta mágica, onde foi aprisionada uma salamandra (não o anfíbio, mas
uma criatura de fábula). O mágico adverte o rapaz:
"Além
do número de três minutos está a visão do mal, que o meu poder de
mágico não te pode impedir; porque a visão do mal é a vingança da
salamandra escrava; mas a fixidade dessa luneta além do número de treze
minutos é a visão do futuro, e essa eu ta impeço." E acrescenta que
a luneta se quebrará nas mãos de Simplício, se ele tentar a experiência.
Simplício,
claro, se deixa levar pela mórbida curiosidade de conhecer a terrível
VISÃO DO MAL, e fixa a luneta (monóculo) por mais de três minutos.
Resultado: tudo, mas tudo mesmo, se lhe afigura perverso, maléfico,
traiçoeiro. Detalhista, o autor entra em minúcias curiosíssimas,
espalhadas por uma infinidade de capítulos curtos. Vejam algumas amostras:
"O
beija-flor é como a serpente pela extensibilidade da língua, e esta ainda
nele se duplica, estendendo dois filetes, que lhe servem como as garras às
aves de rapina. Finalmente assassino e destruidor, ele mata e devora em cada
dia dezenas e dezenas de insetos inocentes, fracos e incapazes de
defender-se, ousando sem continência, nem respeito ir arrancá-los do mais
doce asilo, do seio mimoso das flores!..."
Após
essa diatribe contra o colibri, que a visão do mal lhe revela ser um ente
malvado e sádico, Simplício prossegue em suas decepções com a Natureza:
"Vi uma pulga. A perversa estava cheia de sangue, talvez meu, com que
se havia regalado (...) Inimiga declarada do homem e da senhora, ousa
devassar o leito da honestidade e do recato, morder sem piedade a menina, a
donzela, a esposa, a matrona (...) Vi o mosquito: outro monstro sanguinário
dez vezes mais bárbaro que a pulga; porque a pulga farta-se do sangue em
silêncio, e não zomba das vítimas, e o mosquito, à semelhança dos
selvagens e dos bárbaros que dançavam festivos em roda dos cadáveres de
suas vítimas, o mosquito, digo, bebe sangue ao som da musica, ou antes e
depois de bebê-lo em nossos corpos, canta enfadonho, insuportável,
desatinador, insistente como o grilo."
E
assim por diante: o cupim é "implacável", um "inseto-monstro",
a aranha é "assassina, terrível". Se simples animais
irracionais, inocentes, causaram tanto horror desvendados à "visão do
mal", imaginem o que Simplício não vê nas pessoas! Para início de
conversa perde a confiança nos parentes com quem mora: o irmão Américo, a
tia Domingas e a prima Anica. Todos eles se transformam, a seus olhos,
sanguessugas exploradoras.
A
visão do mal arrasta Simplício ao ceticismo, ao desespero, ao ponto de
admitir: "Achei-me na terra sem um parente amado, sem um parente
possível, sem uma noiva possível, sem sociedade possível..." O
curioso é que quando Simplício troca de luneta e passa a ver o bem em
todos e em tudo, sua situação não melhora. De certa forma até piora
porque, confiando em todos, acaba vítima dos mais descarados vigaristas,
emprestando dinheiro e assinando documentos, até colocar a família em
pânico e ser ameaçado de interdição.
É
incrível a credulidade do Simplício: com a visão do bem eis o que ele
vê, quando visita a penitenciária: "Será incrível, mas é verdade:
não há um só daqueles infelizes condenados que não seja inocente dos
crimes que lhes imputam."
Essa
credulidade pode até ser irritante para o leitor: será Simplício um
completo imbecil? Será possível que ele não questione nem por um momento
o que lhe mostram as lentes mágicas? Aliás em nenhum lugar do livro se
explica como funciona a visão mágica, de que maneira o personagem percebe
as qualidades morais que descreve. Isso deve ter sido embaraçoso para
Macedo, e ele preferiu contornar a questão (ou não teve outro jeito).
Simplício admite a sua miopia moral; mas na verdade se ele não fosse assim
o livro não poderia ser escrito. J. M. Macedo levou o assunto à
exacerbação, com o protagonista à beira da loucura sob o efeito da
luneta, e só assim a mensagem pôde ser passada com todo o seu vigor.
Assim, se a luneta mostra o mal, Simplício crê no mal; se mostra o bem,
ele crê no bem.
Será
maniqueísta a visão do livro? Não; é o anti-maniqueísmo. Nesse mundo, e
principalmente noas seres humanos, as coisas boas e más estão misturadas.
Por isso não se espera que as pessoas sejam inteiramente boas ou más. Por
não compreender isso Simplício caminha para a autodestruição, que só o
armênio sem nome, o único que controla os acontecimentos, irá impedir na
hora certa.
Há
uma riqueza filosófica nessa novela cuja posição é singular na ficção
brasileira; riqueza essa disfarçada, de certo modo, pela ingenuidade do
estilo, estribado na ingenuidade do personagem central. É livro cuja
leitura eu recomendo.
A
edição que utilizei possui um anexo para exercício escolar em torno da
história, e um comentário de Marisa Philbert Lajolo.
|
|