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Roberto de Sousa Causo fala do livro "Os melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica"

>> Entrevistas da Scarium

Um dos mais importantes escritor e crítico da ficção Científica no Brasil, com textos publicados na Locus e entre outras revistas.

Marco Bourguignon - 20/02/2008

Qual foi a sua maior expectativa ao organizar esta nova antologia "Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica?"

Vê-la publicada. São quase dez anos de trabalho em torno desse projeto, compilando as histórias, apresentando-as, reformulando a seleção dos contos e procurando editoras. O livro só saiu por ter encontrado no Diretor Editorial da Devir, Douglas Quinta Reis, alguém com um projeto para a ficção científica brasileira que inclui de colocar as coisas em perspectiva, isto é, uma visão histórica da presença do gênero entre nós. Um propósito que casa perfeitamente com o da antologia.

É claro, há o desejo de que ela seja bem recebida e discutida, dentro e fora do ambiente do fandom.

Como foi o processo de escolha dos autores e dos contos (por exemplo, os critérios)?

Ao longo dos anos e de muitas leituras a gente vai registrando histórias que marcaram de alguma maneira. A preocupação de ter uma história que demonstrasse a presença de alguma forma de FC no Brasil durante o século XIX, “O Imortal”, de Machado de Assis, apareceu depois da pesquisa que resultou no meu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950. Autores como Jerônymo Monteiro, André Carneiro e Rubens Teixeira Scavone estavam presentes desde o início, pela importância de suas carreiras.

Carneiro estava escalado com “A Escuridão”, sua história mais famosa. Mas ela foi publicada recentemente em Palavras de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros, a antologia montada pelo Braulio Tavares. Achei melhor trocá-lo por “A Espingarda”, de modo que esse foi um critério — não repetir contos publicados mais recentemente. As histórias de Domingos Carvalho da Silva e de Levy Menezes são menos conhecidas mas também de alta qualidade, e merecem ser redescobertas pelos fãs. Com a de Carneiro e a de Monteiro elas formam um núcleo temático, demonstrando a importância dos temas do pós-apocalipse e do medo da energia atômica, característicos da FC da Primeira Onda — aquela publicada na década de 1960 por Gumercindo Rocha Dorea e outros.

As histórias de Finisia Fideli e Jorge Luiz Calife demonstram a influência entre nós da Golden Age das revistas americanas, mas também a variedade temática e de estilo que essa FC mais característica pode assumir. O mesmo acontece com o meu conto e o de Ricardo Teixeira, ambos histórias de primeiro contato, uma ambientada no exterior, outra no interiorzão do Brasil, com tons e estilos bem diferenciados.

Então o objetivo não foi só relacionar bons contos, mas obter uma combinação de histórias que fosse gostosa de ler e que dissesse algo sobre os temas e abordagens da nossa ficção científica, passando uma imagem, eu espero, de variedade e de diálogo constante com a influência estrangeira e com a tradição literária brasileira. O livro é concebido de modo a fornecer um instantâneo da evolução do gênero no Brasil e de sublinhar o que ele pode expressar da situação histórica do país, seus dilemas, seus mitos culturais e tendências literárias próprias.

A outra coisa a ter e mente é que não quero propor uma antologia “definitiva” dos melhores. A idéia, inclusive, é a de que seja a primeira de uma série de antologias que lance luz, de maneiras diferentes, sobre as diversas tendências e possibilidades do gênero entre nós.

Por fim, há o fator circunstancialidade — nem tudo o que gostaríamos de ter no livro está disponível. Por exemplo, quando tentei incluir um conto de Dinah Silveira de Queiroz na antologia que organizei para a Ática, Histórias de Ficção Científica, a editora desistiu da idéia diante da dificuldade de encontrar e lidar com os herdeiros dessa autora.

O que dizer sobre as antologias históricas, como esta que acabou de montar?

Essa é a primeira desse tipo, se descontarmos aquela do Braulio Tavares e outras de contos fantásticos editadas por Jerônymo Monteiro e Jacob Penteado, há uns cinqüenta anos. Ela certamente cumpre a função de resgatar textos de difícil acesso, e tenta colocá-los em perspectiva e sugerir a existência de uma tradição do gênero no Brasil. Abre-se uma porta para se construir uma respeitabilidade maior da FC perante o público em geral. Mas também para que os novos autores possam compreender melhor a evolução do gênero e se situar dentro dela — seja como continuidade ou ruptura. Isso pode conduzir ao que se costuma chamar de “diálogo intertextual” entre o presente e a tradição, e dar mais substância, mais verticalidade à FC brasileira.

Como você lida com a crítica (não especializada) que reclama quando se faz alguma coisa em nome da Ficção Científica Brasileira e também reclama quando não se faz nada pela Ficção Científica Brasileira? Qual seria o real problema brasileiro?

Eu sou um fã ativo desde 1983, de modo que estou escolado em todo tipo de atitudes e ingenuidades que costumam pular do seio do fandom, quando uma iniciativa desse tipo aparece. O Cesar Silva costuma dizer que o fã médio é um cara confortável na posição de consumidor, e o que ele quer são produtos que alguém deveria entregar à sua porta a preço de banana. Iniciativas que exigem opinião própria, ousadia ou que fujam do gosto desse fã médio por ficção científica anglo-americana costumam ser recebidas com manifestações do tipo “é muita pretensão”, “é cedo ainda para pensarmos nisso”, “vamos fazer isto ou aquilo quando tivermos as coisas mais sedimentadas”, “não cabe a nós dizermos o que é bom ou ruim em FC, mas a algum professor universitário de literatura”, “nada disso importa porque literatura é uma coisa só”, “deixa pra depois”... Essas falas eu ouvi quando criei o Prêmio Nova em 1988, ou quando organizei as InteriorCons a partir de 1990, de gente que na época tinha quase o dobro da minha idade. Hoje, são repetidas por pessoas de uma geração completamente nova — e não só sobre o meu trabalho, mas também sobre o de Cesar Silva e Marcello Branco com o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Vai entender...

O engraçado é que, quando você tenta atendem às reivindicações dessas pessoas — como quando tentei “abrir” um diálogo entre o fandom e o meio acadêmico com os dois Encontros Ficção Científica/Universidade que organizei para o CLFC, e sair do “gueto”, como queriam — elas simplesmente não aparecem! Quando você inclui nos projetos gente de fora do gueto, elas denunciam que o vizinho deles no gueto não foi contemplado!

Nesse sentido, outra reclamação é a de que faltou incluir ou citar este ou aquele autor. Isso é natural o bastante, mas às vezes revela algo da política de grupos dentro do fandom, como quando Libby Ginway foi “sabatinada” por um desses grupos, por não ter mencionado tais e tais autores no seu livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro. Como se o livro não fosse uma pesquisa com um recorte específico (o que a faz mencionar preferencialmente trabalhos que apóiam as suas idéias), mas uma vitrine para a FC brasileira.

Reclama-se que numa antologia como Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica só há velharias e nenhum espaço aos novos, o que sugere um ensimesmamento de certos setores do fandom, para os quais só parece importar o que estão fazendo agora. Enfim, impossível agradar a “gregos e baianos”, como diria José Paulo Paes. Diante disso, o resultado é que a gente se sente até mais livre para conduzir os projetos como achar melhor.

Sobre a crítica especializada, como vem sendo a repercussão desta nova antologia?

Tem sido boa, eu suponho. Uma das melhores resenhas foi a de Antonio Luiz M. C. Costa, na revista CartaCapital; ele compreendeu bem a proposta que a antologia tem de ser uma referência de FC brasileira para o público em geral e uma forma de balizar os novos autores. O livro foi resenhado ou mencionado em periódicos de várias capitais, na Internet e na revista Sci-Fi News.

Em alguns casos as repercussões têm sido dominadas pela presença de Machado de Assis no livro — que, por estar em domínio público, economizou alguma grana à editora, e que desperta a curiosidade do leitor em geral. Seu conto ajuda a passar a idéia de que a FC brasileira existe desde o século XIX e que foi praticada, aqui e ali, por grandes nomes da literatura respeitada. No meu ponto de vista, é perfeitamente natural reivindicar essa história para a FC, mas isso gera um estranhamento por parte dos críticos mainstream. Mais do que eu esperava. Mas isso não deixa de chamar a atenção para o livro, e tenho certeza de que quem tiver a chance de ler vai encontrar nele muito mais.



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