1) Márcio, fiquei conhecendo seu trabalho na divulgação
que se fez em uma lista onde a ficção científica é o escopo principal.
"Céus de Fuligem" é uma produção de 2005, com 40 minutos de
duração e 9 atores em cena. Qual sua idéia ao bancar essa produção que,
segundo você, teve custo aproximado de 9 mil reais?
MN = Esta é sem dúvida uma pergunta muito interessante.
Permita-me inserir um curto histórico: Acredito que lá pelo ano de 2000 ou
2001, vi na internet um curta com aproximados 3 minutos que me encantou: 405.
É um filme bem rápido, genial nos efeitos visuais e tem uma gag hilariante
no final. Foi realizado em apenas 3 meses e nenhuma verba, por apenas 2
artistas de efeitos visuais em todo o tempo vago que eles conseguiam
encontrar. Na época, esses 2 artistas foram sensação nos Estados Unidos,
atraíram a imprensa especializada de todo o país, inclusive chamaram a
atenção de Hollywood. Pode-se dizer que este pequeno curta foi o pai de
todos os projetos que hoje habitam a internet com essa mesma aposta:
baixíssimo orçamento, poucos recursos porém ótima produção e acima de
tudo, efeitos visuais hollywoodianos (ou quase). Hoje na internet existem
muitos projetos assim: só no Ifilm existem inúmeros, mas com certeza muitos
foram inspirados, em algum lugar do passado, pelo genial 405. O Céus de
Fuligem também nasceu dessa forma. Vi este filme e fiquei encantado,
decidi que precisava fazer algo igual. Então considerei a hipótese de criar
um curta do Matrix (que possivelmente eu filme ainda este ano), um
curta do Terminator e o próprio Céus de Fuligem. Sempre fui
viciado, apaixonado e encantado por filmes americanos, especialmente por
aqueles com efeitos especiais (sejam Sci Fi ou não). Então todo o processo
acabou ocorrendo de forma natural. Para ter chances no mercado de trabalho,
decidi preparar um portfólio. E foi assim que combinei o útil ao agradável:
realizei um projeto devido à minha paixão por filmes americanos e ainda
criei material para portfólio. Mesmo na pré-produção ou nas etapas
posteriores, no entanto, já era possível imaginar este trabalho como algo
pioneiro e até mesmo revolucionário. Céus de Fuligem não atingiu um
nível extraordinário de qualidade, mas certamente tem seus méritos. Talvez
seja o primeiro na história do Brasil a apresentar um estilo como esse, e se
realmente for, já pode ser considerado um filme histórico. Apenas uma
curiosidade: o projeto consumiu aproximados 9 mil reais. Todos sabem que para
qualquer filme, especialmente um que contenha tanta CGI, esse valor é
minúsculo. Na realidade o fato é ainda mais acentuado: 9 mil reais foram
gastos com a compra de um computador novo e serviço de gráfica profissional,
e quase nada mais. Na produção em si do filme, o valor foi um redondo zero.

2) Jô Soares o classificou como "O Spielberg
brasileiro". O que achou do paralelo?
MN = Foi inacreditável, maravilhoso e certamente um elogio
que jamais vou me esquecer. Muito obrigado, Jô!! Eu acredito na visão do
cinema entretenimento. Do meu ponto de vista, o público busca entretenimento
quando compra um bilhete de cinema. Pelo preço de uma entrada, as pessoas
desejam se desconectar das limitações e dramas de suas próprias vidas e
sonhar com tudo aquilo que vêem nas 2 horas de projeção. O público se
apaixona, se envolve, se integra ao admirável mundo de sonhos oferecido pelo
cinema. Cada novo filme será uma descoberta, será uma nova batalha do bem
contra o mal, e pelos personagens inesquecíveis despertarão novas paixões,
novos ídolos. Isto é cinema, é diversão, é sensação, é emoção.
Compartilho esta visão cinematográfica de entretenimento com o cinema
americano. E irei batalhar muito para trazer esta visão também ao cinema
brasileiro.
3) O que você já conquistou em termo de divulgação?
Está ou não dentro da expectativa para uma produção amadora (não querendo
dizer com isso que, necessariamente, tenha sido produzida dessa forma)?
MN = Sobre esta questão, se eu for pensar em coisas
concretas, como um emprego ou mesmo interesse de produtores para um projeto de
TV ou cinema, então tive pouco retorno até agora. Mas obtive um retorno
igualmente valioso: diferencial. Como assim? Eu explico. Ter uma entrevista no
Programa do Jô no currículo facilita o caminho. Após a entrevista, em
qualquer ocasião que eu apresente este filme ou mesmo os conceitos que o
originaram, tenho mais credibilidade para lidar com o assunto. Se eu
apresentasse a um produtor de cinema aqui no Brasil que é possível fazer,
com pouquíssima verba, um filme que combine Top Gun, Armageddon
e Independence Day a uma fração do custo usual, certamente minhas
palavras cairiam em descrédito. No entanto, Céus de Fuligem apresenta
uma proposta que prova que sim, é possível. E a entrevista no Jô endossou
essa proposta.

4) Como publicitário, formado pela FAAP, editor
profissional pelo SENAC paulista, teve algum interesse, por parte de empresas
ou particulares, na elaboração dum longa-metragem baseado em sua obra?
MN = Ao final dos créditos de encerramento do Céus de
Fuligem, cheguei a convidar patrocinadores a abraçar a proposta. Até o
momento, não obtive retorno neste sentido. Porém, já amadureço a um bom
tempo a idéia de eu mesmo realizar um longa com efeitos visuais. Certamente a
idéia me atrai e conheço exatamente até que ponto é possível ou não uma
jornada tão ambiciosa. E até seria bem possível, mas no presente instante
falta-me equipamentos e hardware para tal. Cinema é uma outra realidade, que
exige o dobro da qualidade de um projeto para DVD. Mas a idéia permanece
firme e certamente um dia reunirei o necessário para embarcar neste projeto
dos sonhos.
5) Fale-nos sobre as locações utilizadas em "Céus
de Fuligem" e os recursos investidos e como vocês driblaram o baixo
orçamento para concluir o filme.
MN = Esta é uma das questões mais interessantes sobre
este filme. Céus de Fuligem é essencialmente um filme caseiro, tanto
em termos de recursos quanto na verba disponível. Mas há uma forma muito
clara de maximizar a qualidade de modo que ao final dos 40 minutos de filme, a
platéia não sinta que assistiu a um filme caseiro, e sim a um filme
interessante e rico em produção. Primeiro: o roteiro. Este filme apresenta
um roteiro ambicioso. Podemos até questionar se a qualidade chega a
satisfazer, mas é inegável que o roteiro toma proporções vistas somente em
filmes de 100 milhões de dólares. O filme busca idéias grandiosas, não se
limita nunca às pretensões de um filme caseiro. Segundo: tudo no filme foi
minuciosamente planejado para caber dentro dos recursos possíveis. Então,
planejamento foi essencial. Filmes profissionais abrangem números colossais,
por exemplo: qualquer filme conta com mais de 50, 100 ou 200 atores no
roteiro. Céus de Fuligem contou com 9 atores, distribuídos de tal
forma que a história consegue se desenvolver. Mesmo os figurantes que
aparecem são os mesmos atores do filme todo. Ou seja, o planejamento
minucioso tornou o filme econômico em recursos. Terceiro: talvez este seja o
mais essencial tópico. Os efeitos visuais proporcionaram situações que só
seriam possíveis para filmes profissionais. Vou dar alguns exemplos:
redações da CNN e Globo foram compostas na pós-produção por meio de
efeitos visuais. As filmagens aconteceram dentro do meu quarto, contando com
uma parede coberta de cartolina azul, para realização do chroma key.
As cenas dentro dos carros futuristas, hangar da base, Área 64, avião
presidencial, entre outros foi tudo dentro do meu quarto. Os efeitos visuais
fizeram a mágica depois. Sem os efeitos e com o orçamento que dispunha,
nunca seria possível realizar uma obra como esta.

6) A história conta a queda dum artefato desconhecido na
cidade de São Paulo, em 2002, certo? Após rasgar sua passagem no concreto
urbano e liberar uma cortina de fuligem, o objeto alienígena se torna fonte
de conhecimento por parte dos brasileiros envolvidos em sua exploração.
Após 7 anos de progressos em todas as áreas (não ficou claro, na sinopse
divulgada, se o restante do mundo acompanhou a isso de forma plácida ou
não), o Brasil alçou-se ao patamar de potência político-econômica-militar
do planeta, ditando as regras para o resto da humanidade. Como surgiu essa
idéia? Algum autor o inspirou?
MN = A idéia geradora do roteiro é baseada em diversas
referências da cultura pop mundial. Posso afirmar que grande parte do roteiro
é baseada em filmes como Top Gun e Armageddon e no anime
japonês Macross. Busquei um estilo de direção, obviamente
resguardadas as devidas proporções, em um dos meus maiores ídolos: Michael
Bay, que considero um gênio e um mestre do cinema. Tive uma inspiração do
meu irmão para o argumento original do filme também. Apenas um fato
relevante: diversas idéias surgiram durante todo o processo criativo do
filme, algumas até muito interessantes, como uma cena revelando um jovem
Ricky Carter, e um final emocionante onde a humanidade estaria na expectativa
dos eventos derradeiros, e diversas imagens do heróico Ricky Carter cobririam
arranha-céus na Av. Paulista, e em outras partes do mundo. Mas infelizmente,
muita coisa ficou de fora por questões de tempo. O filme é essencialmente
material para portfólio, então não considerei viável dedicar mais do que 1
ano para este projeto. Certamente se fosse um filme profissional, muitos
outros eventos teriam entrado no roteiro.
7) Feito por brasileiros, exatamente para mostrar que é
possível realizar obras com orçamento reduzido, ainda com efeitos especiais,
fiquei pasmo ao ver que praticamente todos os personagens (pelo que depreendi
também são brasileiros) apresentam nomes, ou sobrenomes, estrangeiros...
Tudo bem que entendo que somos constituídos por dezenas de imigrantes e
raças, mas não surgiu lugar para um Silva, sequer, na história.
Considerando que o personagem principal, interpretado pelo ator Renato
Siqueira, chama-se Ricky Carter, o que podemos esperar dessa produção
brasileira "inovadora"?
MN = Esta pergunta é muito interessante, e realmente
curiosa. Já havia me deparado com este tópico anteriormente. Mas a resposta
é de fato simples: sou fã da cultura americana. Então, achei interessante
criar personagens com o primeiro nome brasileiro (Letícia, Daniella,
Carolina) e o sobrenome americano. Mas existe uma resposta ainda mais
elaborada do que esta. Constantemente a imprensa define o estereótipo do
Brasil como aqueles aos quais estamos acostumados, mas eu enxergo de outra
forma o nosso próprio estereótipo. Vamos pegar diversos nomes de pessoas
famosas que estão no Brasil ou que são brasileiros naturalmente: Hans
Donner, William Bonner, Daniella Cicarelli, Danielle Winits, Dan Stulbach,
Walter Salles, William Waack. Então, estamos acostumados a acreditar que o
estereótipo do Brasil é aquele elaborado pela mídia de massa, mas também
temos um Brasil de nomes europeus, de costumes europeus e americanos. O Brasil
também é feito por Bonners, Waacks, e outros. Céus de Fuligem mostra
este Brasil real, mas que parece falso e americano para muitos. Céus de
Fuligem define um Brasil rico, potência, sem favelas. Enfim, um país do
qual sentiríamos infinito orgulho e respeito.

8) Continuo na mesma. Tudo bem que seu argumento, dos
tantos nomes ‘estrangeiros’ que temos, flutue na nata do leite. Mas
continua sendo nata. Como portfólio, portanto básico, e após ver o filme,
especialmente o tratamento profissional que você deu à apresentação do
produto, poderia baixar o meu ‘desconfiômetro’. Todavia vejo que você é
ambicioso, decidido, tudo isso no bom sentido. Se não houvesse esperança em
você, não insistiria na questão. Logo, se a proposta é justamente mostrar
que podemos fazer algo, com nossa gente, nossa criatividade (e nisso você dá
um banho), não seria também justo, com o ‘leite’, citar os brasileiros
que não apresentam, obrigatoriamente, nomes artísticos agringalhados?
MN = Certamente, considerarei nomes que sejam mais
identificáveis como brasileiros para futuras produções. Céus de Fuligem
nasceu com o propósito de portfólio, e como tal, pretendo utilizá-lo para
conseguir emprego também no exterior. Dessa forma, achei que seria mais
viável para apresentações fora do país que os personagens tivessem nomes
estrangeiros.
9) Algum projeto de ampliar a distribuição do filme? Como
o leitor poderá adquirir a obra?
MN = Em um futuro breve (acredito que estará pronto em
poucos meses), pretendo lançar um site na internet que conterá gratuitamente
diversos conteúdos para download. De forma totalmente grátis, será
possível baixar Céus de Fuligem, Terminator, entre outros.

10) Para encerrar, comente sobre seus outros projetos e
como você vê o cinema como um todo.
MN = Estou dando continuidade a esta proposta de cinema
hollywoodiano, com efeitos visuais world class, feitos com
pouquíssimos recursos. Atualmente estou finalizando um curta sobre o Exterminador
do Futuro que já se encontra 75% pronto. A proposta é provar que é
possível realizar um filme milionário como este com recursos acessíveis
como os que disponho. Será um filme baseado na mesma mitologia criada por
James Cameron, mas abordada em uma história totalmente nova. Não será de
forma alguma uma sátira ou plágio. Será um novo capítulo do mesmo universo
apresentado pelo cinema americano, com momentos profundos beirando até ao
drama. Novamente, efeitos visuais em peso e melhores que os de Céus de
Fuligem. Naturalmente, também será material para portfólio. A respeito
do meu entendimento sobre cinema, vejo da seguinte forma: o cinema americano
nos fornece a fórmula do sucesso há décadas. Cada vez mais, os países
terão que adaptar a sua própria escola de cinema aos moldes apresentados por
Hollywood. Países como Brasil que não o fazem, acabam por aceitar uma
parcela minúscula da bilheteria com os filmes nacionais. Não estou dizendo
que teremos que mudar a nossa própria cultura, mas teremos que englobar novas
formas narrativas, novas tecnologias, técnicas e conjugá-las com o nosso
próprio cinema. Pelo mundo todo, já se nota este fenômeno. No cinema
japonês, inglês, francês já é claro a influência do cinema americano.
Basta ver alguns filmes de Luc Besson, Final Fantasy, Animatrix
e animes japoneses para notar o que quero dizer. Estes cinemas não perderam o
vínculo com seus países, mas certamente englobaram novos estilos, técnicas
e formas narrativas para evoluírem para algo mais eficiente e viável
comercialmente. Para finalizar, sou absolutamente fã de Peter Jackson,
Michael Bay (considero estes dois os melhores diretores do mundo), James
Cameron e Steven Spielberg.
Rogério Amaral de Vasconcellos
rogamvas@gmail.com