Semente no Gelo é um dos meus preferidos por
conta da idéia central. Posso estar errado, mas acho que essa idéia não foi
explorada por ninguém ainda, acho que estou colocando uma nova entidade no
panteão do Terror. O preferido "da vez" é Bento, é uma
história que não consegui terminar em um livro só, em um único volume.
Consegui enriquecer o universo criado e acho que vai render pano para muita
manga.
Já foi sondado por algum cineasta para roteirizar uma
de suas obras? Se tivesse de escolher, qual seria e porque?
Ainda
não rolou um papo forte de levar um de meus livros para o cinema. O que
existe é o meu desejo inexorável de que isso aconteça e, sinceramente, não
estou esperando cair do céu algum patrocinador. Acho que como quando decidi
colocar meus escritos no mercado, quando eu quiser levar uma história minha
para a tela terei que bancar o projeto. Não tenho medo disso e já estou
estudando para que isso venha a acontecer a médio prazo. O grande problema é
que cinema de película é muito caro. Talvez lance primeiro algum trabalho
feito em equipamento digital.
No que se baseou para tornar os seus hematófagos (Os
Sete) mais poderosos ainda que o normal?
Na lógica. Quando lancei a primeira edição do Os Sete,
foi com recursos próprios. Quando comecei a escrever sabia que seria assim.
Então me perguntei o que teriam de diferente os meus vampiros para que
chamassem a atenção dos aficionados pelo tema. Veio então a idéia dos
"superpoderes".
Alguma relação com o ‘terrir’ brasileiro "As
Sete Vampiras", um filme estrelado por Leo Jaime, quando o mesmo
ainda não tinha pança?
Não. Na verdade nem assisti a esse filme. Já ouvi falar e
tenho muita vontade de assistir. Uma hora rola.
Seus personagens têm uma certa plástica e apelo próprio
para história em quadrinho. Você concorda com isso?
Concordo.
Seus críticos afirmam que você deu vastos dons a seres
que, por si só, imortalizados pelo criador de Drácula, já são MUITO
poderosos. Tirou-lhes algumas das poucas limitações, como a aversão ao
alho, ao crucifixo e igrejas. Tirando o mau-hálito, nunca entendi muito bem
esse negócio do alho, e o resto, na associação do homem-vampiro com o
demônio, toca uma seara religiosa que muitos escritores não ousaram
desrespeitar. Ou você está inovando, quebrando a corrente, o marasmo, a
mesmice, a previsibilidade, ou foi inspirado por algum outro autor. Existe uma
terceira opção?
Acho que não fugi tanto assim do "lugar comum"
do mito. O lance dos poderes dados foi para escapar da mesmice, sim. Agora,
quando a outros detalhes, como a não aversão ao crucifixo, a debilidade
frente a prata e ao alho (meus vampiros perecem com o alho também, veja em Os
Sete, página 260) acho que isso vai da composição de autor para autor.
O mito do vampiro carrega as mais diversas crenças. Cada região do mundo tem
o seu vampiro, o seu ser sugador de sangue. Aqui no Brasil o
"vampiro" de nosso folclore é o "chupa-cabras". Em Israel
o grande vampiro na verdade é uma entidade feminina, as vampiras, o mito lá
é conhecido como Lilith e sua vítima principal são os bebês, os fetos
ainda no ventre das mães. Quer dizer, cada cultura traz sua tradição. A
gente tem que ler bastante ara criar o "próprio" vampiro. Também
não sou muito engessado, em Ada aventura invento uma moda. Em Bento
não vemos problemas com alho, mas a prata está lá. Em Bento os
vampiros usam mais as árvores para se deslocar, saltando do galho de uma para
outra, transpondo as distâncias com grande velocidade (os aborígines
australianos nos brindam com a lenda de vampiros que vivem em árvores e em
sua crença dizem que os vampiros que vivem nas árvores drenam o sangue da
vítima e depois as engolem por inteiro).
Complementando a questão anterior: se para deter o avanço
de vampiros tão bombados, que só temem a luz do sol (o último baluarte a
ser conquistado) é preciso criar uma força igual ou superior, porém em
sentido contrário, ou seja, benigna - aquele que enfrenta a desvantagem
numérica e os vastos poderes dos Neos-Vampiros e ainda salva a mocinha e o
mundo dos opressores – quem cumpriu esse papel em "Os Sete"?
Você procurou desbravar o tema já muito batido ou apenas apimentar a
questão?
Em Os Sete o pequeno herói é Tiago, um mergulhador
que por acaso acaba encontrando a famigerada caravela naufragada que guarda os
corpos dos velhos vampiros. Chamo Tiago de "pequeno" herói porque
ele não move mundos e fundos, é apenas posto na fogueira por se sentir
responsável e atraído por Eliana, amiga que se torna namorada no decorrer da
trama. Ele é impulsivo e não tem medo do mais perverso dos inimigos (leia-se
"Inverno"). Em Sétimo, Tiago, já devidamente vampirizado,
cresce ainda mais, quando lidera humanos e vampiros contra Sétimo, o último
dos vampiros do Rio D’Ouro desperto em terras brasileiras. Agora, correndo
à parte vem os pequenos detalhes de cada personagem. Todo um passado (não
revelado claramente) permeia ações e reações dos vampiros. Eles temem,
sim, muitas coisas. Só lendo com boa vontade para detectar.
Dizem que costuma retratar as cenas de forma bem
cinematográfica. Em sentido geral, pelo que você já leu e viu, acredita que
isso justifica uma escrita ou filme que só valorize o visual em detrimento da
lógica? Exista algum ideal de escrita que você persiga?
Tanto
na literatura quanto no cinema acho que é pecado grande valorizar apenas o
visual. A lógica tem que existir, se não a história cai no descrédito
total e você não tem vontade de ler ou assistir até o final. Se você pira
o cabeção e inventa superpoderes para vampiros, tem que criar um background,
um pano de fundo que acabe justificando tudo. Tem gente que lê Os Sete
e acha idiota a história dos poderes adicionais(Inverno congela o ar; Lobo
transforma-se em lobisomem; Acordador desperta os mortos; Tempestade traz
chuvas e temporais; Espelho pode transfigurar-se, imitando o rosto de outras
pessoas; Gentil e Sétimo é melhor descobrir lendo), agora, milhares de
pessoas, maioria esmagadora, entenderam o que eu criei e sabem que aquilo é
ficção pura e da grossa e sabem que eu escrevi Os Sete para divertir
o leitor da primeira a última página. E o grande barato é que invés de
torcerem contra os malditos do Rio D’Oro, acabam torcendo para que os
vampiros se safem da caçada promovida pelo Exército Brasileiro. Existe uma
história por trás da aventura, tem pé e cabeça. Agora essa resposta é
algo pessoal, meu ponto de vista. Há artistas que conseguem fazer o diabo com
seus conceitos e sua maneira de criar e conseguem resultados fabulosos... o
problema é que a maioria do pessoal que produz não é artista, aí sobram
obras engraçadíssimas e outras esquisitas.
Sabemos que tudo começou no Rio de Janeiro, quando seu
futuro editor, Luiz Vasconcelos, achou por acaso uma de suas obras em uma
livraria, e após procurá-lo propôs a criação da Novo Século. Como está
sendo essa experiência, de autor desconhecido até se tornar figura de proa
de uma editora? Se puder falar a respeito, gostaríamos de saber que
modalidade de contrato pratica:
Só posso dizer uma coisa a esse respeito: adoro ser
escritor! Então quando você percebe que está sustentando sua família com o
que você gosta... é uma sensação prazerosa, de realização pessoal. O
legal também é que como estou escrevendo e sendo publicado vou criando uma
obra que ficará para sempre, para todos aqueles que curtem ler ficção e
fantasia (milhares de pessoas no Brasil e milhões no mundo). E estou só
começando. Ainda não estou em clima de "já ganhou". Para ser
autor conhecido, de verdade, tenho de ralar muito ainda e escrever muitos e
muitos romances. Já deu para sentir um pouquinho do gostinho da vitória
quando fui ao Programa do Jô. Tive Os Sete resenhado na revista Istoé
(página inteira) e Bento com meia página no O Globo, tudo
mídia espontânea, gente que veio atrás saber dos meus livros (e é claro
que também é um prazer receber o contato de vários zineiros do Brasil
todo). O único equívoco na pergunta é a respeito do encontro com o Luiz
Vasconcelos. Ele encontrou o meu livro em Osasco mesmo e não no Rio. Foi numa
livraria do shopping Continental. Já essa parte do contrato, não há grandes
coisas, ganho uma porcentagem pequena do preço de capa do livro, assim só
ganho bem quando o livro vai bem. Se vai mal não rola muita grana.
Quase encerrando, um pout-pourri digressivo:
seus hobbies?
Ler, escrever e cinema, adoro assistir filmes em casa e nos
cinemas.
filmes e livros prediletos?
Caramba! São tantos... vou ficar em alguns: filmes,
"O Homem que Copiava"; "Amor Além da Vida"; "King
Kong"; "Jurassic Park"; "A Mosca"; "A Noite dos
Mortos Vivos"; "Caçadores de Vampiros"; "O Último
Samurai"; "Solaris"... tem mais uns quarenta filmes prediletos;
livros, "Musashi I"; "Operação Cavalo de Tróia";
"Estação Carandirú" e mais uma dúzia.
um sonho?
Transformar Os Sete em longa-metragem.
um pesadelo?
Não poder escrever mais em decorrência de algum mal
súbito.
livro que gostaria de escrever?
Um romance romântico arrebatador, emocionante, daqueles de
tirar lágrimas dos olhos do leitor mais durão.
outro que gostaria de esquecer (que leu ou escreveu)?
Não me ocorre nada agora.
como se dá seu momento de criação?
Nada em particular, pode ser a qualquer momento do dia...
no trânsito, numa sala de cinema... simplesmente rola.
e a velocidade com que constrói um livro, desde a idéia
até o produto final?
Varia muito do tamanho do livro e da minha disponibilidade
para escrevê-lo, da inspiração do momento. Se não der nenhuma travada, de
cabo a rabo, dá pra ter um livro de 500 páginas na prateleira em oito meses.
Se pudesse dedicar o conjunto de sua obra a alguém, quem
seria?
Aos meus leitores mais fiéis.
André Vianco por André Vianco.
Sou péssimo para falar de mim mesmo. Mas para vocês
saberem um pouco mais, sou um cara bastante tranqüilo com as pessoas, mas de
espírito guerreiro, sempre corro atrás dos meus sonhos e nunca desisto de
lutar. É isso.
Vianco, se minhas contas estão certas, com Bento
você já escreveu seis livros (vide pergunta 5). O próximo será o 7o.
Isso parece muito cabalístico. O sete novamente, agora não só no título.
Algum comentário a respeito? Um projeto especial para concluir esse
heptágono?
Pode parecer sem graça, mas todo livro que estou
escrevendo é especial, não tem jeito. O livro que estou escrevendo no
momento é a continuação do Bento e ainda está sem título. Esse vai
dar trabalho para ser concluído pois há muitos dados no primeiro livro para
se considerar na continuação.
Como vê sua estréia no FicZine, a mais nova sensação em
termo de informativo, editado pelas duas vampiras Giulia Moon e Martha
Argel? Sabemos que é sua primeira experiência com contos curtos.
E também o seu O Bêbado e a Equilibrista, publicado no no
2, foi bem elogiado. Pode comentar sobre isso?
Gostei bastante de fazer um "conto curto". Não
vejo grande dificuldade, mas tenho minha predisposição para as histórias
longas. Gosto de livros com mais de 400 páginas. Acho que a gente acaba se
envolvendo mais com a obra.
Como foi sua participação na Bienal Internacional do
Livro, em São Paulo?
A Bienal deste ano em São Paulo foi maravilhosa. Fiquei
muito feliz com a presença de tantos leitores trazendo livros e mais livros.
É legal perceber que quem lê um livro meu acaba curtindo e buscando conhecer
os outros títulos. Cheguei lá umas sete da noite e já tinha bastante leitor
esperando. É gostoso.
As últimas palavras do autor nesta entrevista para os
leitores:
Aos leitores só posso repetir o meu eterno agradecimento.
E só através do desejo de vocês, leitores, em terem nas mãos uma obra
minha, que posso continuar bancando essa viagem que é escrever diariamente.
Obrigado e aguardem, pois tenho um montão de histórias malucas para descer
pro papel.
As últimas palavras do autor para os escritores que estão
começando, falando de sua visão, já experiente, no mundo dos livros.
Pra quem quer embarcar nessa viagem só aconselho a ter
paciência e persistir no sonho. Pode demorar, mas se você for um bom
escritor, cedo ou tarde será publicado. E se você é um escritor mesmo,
mesmo sem ser publicado, há de continuar escrevendo. Logo terá uma obra.
Cinco ou seis títulos para investir numa carreira, investir numa conversa com
uma editora.