Hiperespaço: Rogério, explique o que é,
exatamente, uma Slev. É um jogo, um projeto artístico-literário, ou um
projeto comercial?
Rogério: A SLEV – Suruba Literária Experimental
Virtual – significa quase tudo que você destacou, Cesar. Pelo lado do jogo,
confere pontos e desenvolve habilidades de disputa (no melhor sentido), como
um rally literário, emprestando dificuldades, tipo prazo exíguo (10
dias para entrega de texto), limitação de palavras e um determinado tema,
principalmente. Como Projeto (desde 2000) visa montar os mecanismos para que
os autores possam absorver e transmitir conhecimentos, privilegiando o lado
multimídia da Slev. Já em seu braço comercial, tudo dependerá de uma
série de ajustes e parcerias para torná-lo economicamente viável. Por
enquanto, é uma prestação gratuita de serviços que faço, em sintonia com
recursos mínimos – a maior parte comprometimento e disposição para
privilegiar a coletividade do Projeto por parte dos inscritos – viabilizando
um bom entretenimento e treino, em especial na forma literária.
Hiperespaço: Quem são os consumidores dos
produtos das SLEVs? São os próprios autores, os internautas ou algum outro
tipo de gueto ou fandom?
Rogério: Tento, na medida do possível, evitar o
termo 'gueto', pois isso já embute um certo preconceito de base. Nem o
chamado fandom é necessariamente meu alvo imediato. Busco gente que goste de
desafios e pretenda trabalhar em grupo (já viu alguma suruba individual?),
todos agregados pelas facilidade do meio virtual que tende a unir classes,
credos e distâncias. Meu alvo tende a ser o mais amplo possível. Perderei,
ao deixar de insistir ou focar o tradicional. Terei êxito quando quebrar
alguns elos dos grilhões dessa Babel. Sendo a coisa mais complicada de se
fazer, uma vez que o intercâmbio de informações não se faz impunemente.
Por isso agradar a todos não faz parte de meus objetivos. A Slev quer ser
consumida e quer se alimentar também de seus participantes, não importa qual
estilo seja empregado, ou FC, Terror ou Fantasia (e outros mais que sejam
apropriados). O detalhe está na participação ativa de seus membros,
tornando viável algo que antes era apenas uma idéia. Esse é o meu público.
Hiperespaço: Na edição 50 do Hiper,
resenhei a novela Idade da Decadência – Inferno em Khallah que foi
fruto da Slev II. O que resultou da Slev I? Porque não foi igualmente
publicado?
Rogério: Sim. Que fim levou ela? Foi a primeirona
e poderia ficar usando seu precioso espaço para explicar, em detalhes, porque
não se concretizou na forma de livro ou outro produto qualquer. Tentarei
condensar, embora saiba que a tentativa não deve resultar tão certo assim: A
Slev 2000 foi gerada não para funcionar como 'robin round' (aquele estilo
onde um escritor escreve e não conclui, deixando a cargo do próximo escritor
essa tarefa). Era sobre Terror, também havendo um pano de fundo comum, embora
sem qualquer exigência de ligação maior entre as obras. Porém os demais
participantes – membros da Oficina Literária onde o Projeto se originou, em
www.oficinaliteraria.hpg.com.br – fizeram coro e desejaram fiat
robin round!! A 'clientela' pedindo, cumpri essa vontade.
Conhece o ditado daquilo que começa mal tende a terminar
pior? Pois é. Quando algumas coisas não são devidamente amarradas, dão
nisso. Confesso que devo ter pecado aí, não por haver cedido à robin
round, mas justamente por não ter-me entregue de corpo & alma quanto
deveria, transparecendo isso. Resumo da ópera: Ao partir por trilhar os
mesmos caminhos dos demais, um outro participante quis mudar as regras do
Jogo, para evitar a saia justa na qual fora colocado (por mim). Foi o que
faltava para quase lacrar o caixão. O último cravo estava a caminho:
Postecipadamente 'incorporei' o Congresso Nacional no caso Collor e decretei o
empeachment de um dos contos, do autor que preferiu fugir a estrutura
encadeada – sendo o maior entusiasta da idéia no início -, comum às
R&R, transformando a minha estória em um simples sonho, apagando-o do
mapa, quando deveria mostrar em sua obra seu real valor. Sendo assim, com
polêmica no começo e no fim, não houve um final verdadeiro para a Slev
2000.
A maioria dos trabalhos (inéditos) estão no site www.slev.cjb.net.
Existem muitas coisas curiosas com relação a essa edição da Slev, e faz
parte de meus planos, em comum acordo com alguns dos participantes, sanar a
deficiência e publicar a obra futuramente.
Aproveito o espaço cedido para agradecer a resenha da
edição 2001, feita pelo Hiper, que está exibida em destaque
no site do Projeto, como tudo que diz respeito ao mesmo.
Hiperespaço: Quem foi considerado o ganhador da
Slev II e por quê?
Rogério: Cláudia Furtado foi a campeã da Slev
2001. Ela é uma escritora carioca, pequena em tamanho mas grande em talento.
Atualmente está inscrita na Slev 2002. E o motivo de ter ganho, posso
arriscar em dizê-lo, residiu no melhor aproveitamento de suas obras (foram
duas), tanto pelo aspecto ortográfico, como pela estória em si, unindo os
elos de escritores anteriores e desenvolvendo uma trama que, na opinião de
seus próprios companheiros – todos são obrigados a julgar as obras uns dos
outros, com exceção do Coordenador (eu) – cumpriu com a maioria dos
requisitos da Slev, por isso os méritos são todos dela.
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Hiperespaço: Idade da Decadência –
Inferno em Khallah é apresentada como parte 2 de uma trilogia. As partes 1
e 3 ganharão publicação?
Rogério: Certamente. Mas não farão parte da Slev.
Serão obras escritas como livros individuais. A parte 1 voltará no tempo,
mostrando a chegada em Khallah das mais de 100 raças trazidas pelos
Atemporais, fugindo de uma praga que assolava a galáxia na ocasião (seres
elipsóides, que se alimentavam de energia vital, chamados de Anéis). Fará
um plano geral da história do planeta gigante, mostrando as várias
"Idades" de ocupação, do apogeu, a criação da megacidade de
Robotróia, ao declínio humano, com a chegada da praga Fogo Alucinante,
dizimando raças indiscriminadamente. A parte 3, óbvio, retratará Khallah
após os acontecimentos narrados em IDIK, com a tomada do poder pelos
revoltosos, a Liga dos 1000 Sóis, e a partir disso a conquista interna e
externa para a formação do Império Khallah. Também serão revelados alguns
mistérios do livro 2...
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Um desses livros ficará a cargo da ganhadora da Slev 2001,
e o outro será feito por mim, provavelmente no próximo ano.
Hiperespaço: Acabei de reler o regulamento da
Slev III, e confesso que fiquei um tanto confuso. O regulamento é draconiano.
Isso não prejudica a formação de um bom corpo criativo na obra, uma vez que
cada autor estará trabalhando sempre com a corda no pescoço?
Rogério: Interessante sua pergunta. A Slev não
pretende ficar só batendo em teclas antes tocadas. Para um projeto
experimental, novas propostas estão em julgamento. Nunca tivemos um
regulamento tão complexo e, apesar desse suposto draconianismo, e por
existirem vários Adendos com informações precisas sobre outros fatores,
apostei na tenacidade dos escritores e no geral não estou perdendo. Pela
primeira vez, além do estilo Ficção Científica, está sendo aplicado um
gênero que muitos não consideram associado com a FC. É a ficção
histórica. Nossos escritores foram recrutados cientes que deveriam compor
obras alternativas, partindo da ficção histórica para, aliando ao cenário
e personagens construídos por mim, desenvolverem uma trama compatível com o
formato da Slev 3. Uma coisa assim nunca é possível sem um roteiro prévio e
dispositivos de controle. Mas estou fazendo minha parte, nunca deixando
qualquer pergunta sem resposta. Mais que uma pretensão no sentido lato,
procuro seguir essa determinação à risca. Instruo-os a porem para fora toda
dificuldade encontrada. O feedback é a única saída viável. Faz parte do
processo de aprendizado coletivo. Ouso dizer que está dando certo. O pessoal
começou a perceber qual a minha intenção para tamanha complexidade. São
estimulados a serem mais criativos e lidar com coisas desenvolvidas para minar
seu caminho, superando as armadilhas e dificuldades. E eles estão fazendo
isso! Não é porque EU queira. É porque ELES querem. Posso afirmar, agora
que recebi quatro obras da Slev 3 (estou dando esta entrevista em 05/08/02),
que a criatividade fez da proverbial 'corda no pescoço' uma gravata.
Certo que nem tudo é 100%, mais estamos trabalhando para
isso. Erros são bastante instrutivos também, se o dissecamos, usando-os como
trampolins par coisas melhores. Procuro sempre envolver os participantes em
projetos paralelos, criando testes – os chamados Perde & Ganha, ou Pegas
– para auferir conhecimentos, penalizando e premiando os participantes.
Além disso temos o Sonda, comandado por Ricardo Caceffo, para pesquisa na
internet de assuntos 'polêmicos'; o Nlingua, chefiado por Mauricio
Wojciekowski, para a tradução de textos, servindo como pilar para o
intercâmbio com participantes de outras nacionalidades; o Rima,
supervisionado por Daniela Abelha, núcleo de roteiro e imagem da Slev, para
adaptar as obras para outro formato – roteiro de televisão, storyboards e
quadrinhos, por exemplo – entre outros sistemas criados para sempre deixar a
Slev vibrante. A Lista de Debates, a espinha dorsal da Slev, é o palco
virtual onde tudo isso acontece, tendo como tela o site, executado pelo web
designer Miguel Angel Pérez Corrêa, um mago que transforma minhas idéias
leigas em realidade. Criei até um sistema de ‘visto temporário’,
autorizando eventuais visitantes, aspirantes de alguma vaga na Slev, que ainda
não estão bem certos do compromisso com o Projeto. O Visto igualmente visa
atrair gente de mídia, pois ainda estamos fracos de pessoal habilitado para a
criação de imagens, seguindo daí para elaborarmos coisas mais sofisticadas.
Contudo vamos chegar lá, e mais além, até o ponto de criarmos um desenho
com computação gráfica, feito a partir de alguma estória da Slev. Quer
mais? Aguarde!
Hiperespaço: A idéia da Slev 3 é uma aventura
de história alternativa e/ou mundos paralelos, com liberdade temática para
cada autor. Além disso, uma das regras é a farta distribuição de
personagens-embriões para os autores trabalharem. Isso não causará uma
superpopulação de personagens e ambientes na obra final, fragmentando a
narrativa dramática como aconteceu em Idade da Decadência?
Rogério: Foi pensando nisso que, antes mesmo da
Slev se iniciar pra valer, em Maio, aconselhei e coloquei em votação a
eliminação dos Embriões. Eles não existem mais na versão gama do
Regulamento (a que você teve acesso para fazer sua pergunta foi a versão
Delta, uma das primeiras a serem geradas). Inclusive dei permissão para
alguns escritores, bem afastados entre si, optarem por ‘eliminar’ até 3
dos personagens considerados como fixos (um deles, inclusive, já ‘capotou’,
vivendo em uma espécie de paraíso, num Japão medieval). Essas eliminações
não necessariamente acontecerão de forma física. O simples fato do
personagem ser abandonado nos cenários alternativos caracteriza o descarte
provisório do mesmo. Por quê provisório? Bem, na fase 2 da Slev III posso
vir a esquematizar o enredo para que alguns resgates sejam possíveis. Mas
isso faz parte de um contexto que precisa ser desenvolvido a partir do
término da presente fase, em conluio com os finalistas. O que posso reforçar
é que na Slev 3: Lapidação – E se a História fosse outra?, seu
nome de batismo completo, a fase 1 não lidará com mundos paralelos no
sentido onírico, como muitos associam a coisa. Foi para evitar – e talvez
até provocar – muitas dúvidas que criei Vaca Profana – Teoria da
Revolução, um livro de consulta em forma romanceada. Apesar das mais de
51.000 palavras, ainda está por terminar (justamente a parte de História
Alternativa, executada pelos participantes). Na Vaca esboço todos os
13 personagens fixos, além de alguns outros e circunstâncias especiais da
atual Slev, mostrando regras práticas e mecanismos a serem observados, tudo
embutido no enredo. Fiz todo material introdutório para que os contos deles
tenham um sentido de ligação natural, como obras independentes e ao mesmo
tempo ligadas entre si de forma sutil, ou não tão sutil assim, dependendo do
autor encarregado de sua parte no projeto.
Hiperespaço: O critério de avaliação por
notas, na base de todos avaliam todos, não é um tanto inadequado? Afinal,
como garantir dos autores isenção e competência real para julgar seus
colegas?
Rogério: Evidentemente não considero assim. Se é
preciso lidar com material humano, alguns até fazendo pela primeira vez esse
tipo de exercício na vida (aviso que temos jovens de 16 anos até não tão teens,
quarentões, alguns com mais estrada literária que outros, independentemente
da idade), devemos nutrir o melhor juízo possível. A competência é sempre
satisfatória, e ajudará na troca de experiências com os menos preparados.
De toda forma, usando um mecanismo de média (que acaba com o fantasma da
participação eventual dos concorrentes, por abandono do projeto, até a hora
do julgamento) isso tenderá a ser nivelado. Sobretudo, Cesar, e como reza no
Regulamento, item 12 ("Caberá também ao coordenador, em casos extremos,
interpelar um determinado julgador quando achar que algum conjunto de notas
necessitem de alguma explicação, a fim de zelar pela transparência na
apuração das notas"), serei o juiz para casos que achar gritante na
aplicação de notas sem fundamento compatível (tenho notas já computadas
que corroboram a preocupação dos autores com essa avaliação objetiva, e a
maioria está cumprindo seus prazos com rigor profissional). Inclusive, por
conta dos Anexos ao Regulamento, todos os participantes são obrigados a
justificarem suas notas. A partir disso fica mais fácil compreendermos o
ponto de vista do julgador. É por todo momento as réplicas e tréplicas
estão acontecendo. Ajuda a preencher o intervalo entre uma obra e outra.
A completa isenção e preparo olímpico é algo para mim
muito mais fantasioso e irreal que o método explanado acima. Nem com uma
bancada de Desembargadores que não estejam escrevendo na Slev conseguiríamos
certeza absoluta disso.
Hiperespaço: Como ficam acertadas as questões
de propriedade intelectual e comercial dos trabalhos das Slevs?

Rogério: Eu sou o autor do Projeto e do
trabalho-base, com os personagens e situações descritas em Vaca Profana.
Mas todos os demais participantes estão livres para usar suas construções
em História Alternativa as personagens/situações, tomando-os emprestado.
Quando tais obras forem publicadas em outros veículos (fanzines, antologias,
sites, livros, etc), bastará que seja observada a regra mencionada no
Regulamento: "Item 20: Toda obra concebida a partir do livro inicial no
Projeto Slev III, isto é, as continuações feitas por seus respectivos
autores, serão de sua autoria, devendo apenas, uma vez publicada fora do site
Slev, indicar o seguinte texto: Obra concebida a partir do Projeto Slev
III, baseado no livro Vaca Profana – Teoria da Revolução, criado por
Rogério Amaral de Vasconcellos". Se alguma obra futura – filme,
desenho animado, RPG, ..., - surgir da união dos trabalhos concebidos na Slev,
certamente cada autor terá participação de acordo com aquilo que fizer. Se
nada for usado desses autores, obviamente também nada poderá ser cobrado. O
respeito mútuo é a base de uma boa e duradoura relação.
Hiperespaço: A SLEV 3 está em que fase, neste
momento?
Rogério: Depois de certo adiamento, rejeitando
alguns cadastros para conquistarmos um cast de autores compatível com
o projeto – mesmo advertindo quanto as dificuldades, nunca tivemos tantos
inscritos em uma única Slev, preenchendo 15 das 20 vagas reservadas – já
avançamos até o 4º conto, sendo que o 5º está sendo preparado neste exato
instante, e até a edição do Hiperespaço sair (presumindo que
seja em setembro), já teremos praticamente concluído a 1ª jornada da Slev,
com os finalistas preparando-se para o próximo nível, em um ambiente um
pouco mais vasto. A primeira obra encaminhada foi "De Templos e
Tempos", de Maurício Moraes Wojciekowski; o 2º conto foi "O futuro
é reflexo do passado", de Turíbio Alceu Cristóvão Gabil-bizar; sendo
o 3º "Iroha", escrito por Ernesto Eiji Nakamura, e o 4º,
denominado "Ankh", de Daniela Dias Abelha Fabrin de Barros (o menor
titulo até o presente instante). Ricardo Cacceffo está em vias de entregar o
5º conto. Ainda temos os seguintes escritores de sobreaviso: Roberval
Barcellos, Maria Helena Bandeira, Jaime Araújo, Miguel Pérez, Maria Odila,
Paulo Alexandre e Cláudia Furtado. O período histórico até aqui mais usado
foi a Idade Média, apresentando 'locações' em Portugal e Japão, começando
um pequeno vôo para atrás no tempo, chegando até a costa da Grécia,
passando para Roma e Egito, a partir do ano 31 a.C.
Hiperespaço: Quais as perspectivas para outras
edições da Slev? Como os interessados podem participar?
Rogério: As melhores perspectivas possíveis,
Cesar. Estou pensando para o próximo ano, uma Slev cujo o tema é Guerra (o
título provisório mais cotado é Nada de Novo no Front..., abordando
batalhas no espaço, na mente, na alma, no céu, na terra, mar ou no inferno,
em qualquer parte, em qualquer época). Também temos vagas para a 1ª fase da
Slev, mas, estou sendo absolutamente sincero, será muito trabalhoso para os
novos inscritos tomarem ciência do material já veiculado e julgá-los na forma do Regulamento (essa
posição vale até princípio de agosto). Todavia nada impede se assim o
quiserem, bastando que mandem sua Ficha de Adesão devidamente preenchida para
concessão de passes e cadastros futuros. Esse modelo de Ficha está
disponível no site da Slev, dentro da edição 2002 do Projeto. Basta fazer o
download (aproveite para ler o regulamento ‘draconiano’) e
responder a todas as questões, com especial atenção para a última,
testando o seu conhecimento em história alternativa, que a maioria das
pessoas não entendem muito bem o significado disso.
Obrigado por tudo, e aplausos por sua revista que é um
importante fórum para todas tendências.