Contos do Navegador

A Irmandade da Água

John Dekowes

Planeta Terra

Ano 2075

Agosto

04h15 (madrugada)

 

Nas centenas de cartazes colados nos postes e paredes em letras garrafais estavam escritas:

OS HUMANOS FORAM JULGADOS

E CONSIDERADOS CULPADOS

PELOS CRIMES DE VIOLAÇÃO

DOS DIREITOS DA NATUREZA

E DESRESPEITO À PRÓPRIA VIDA.

SENDO CONDENADOS À PENA MÁXIMA:

EXPULSÃO DO PLANETA TERRA

A SENTENÇA SERÁ EXECUTADA EM 168 HORAS TERRESTRES

 

CONFRARIA DO ÓLEO

 

Aos montes, milhares de seres humanos eram arrastados para dentro do Destróier Espacial, por soldados alienígenas fortemente armados, como se fossem gados. Homens, mulheres, crianças, velhos, de todas as idades, raças e cores, se acotovelavam espremidos uns contra os outros, temendo ultrapassarem a faixa vermelha traçada no chão, e que se perdia à distância; em 2 corredores com mais de 4 quilômetros de extensão, que iam se afunilando até as aberturas laterais da imensa nave aportada a 3 metros da altura do solo na orla da praia. Cada ser humano levava preso no pescoço um fitilho de aço amarelo, verde ou vermelho. De vez em quando se escutava uma espécie de ruído sonoro e alto, gerado por alguma espécie de arma eletrônica, como um estampido, seguido de muitos gritos e choros humanos. Mas ninguém se voltava para ver o que estava acontecendo, muito pelo contrário, procuravam apressar o passo, empurrando a pessoa da frente, para entrar logo na nave mais adiante. Quanto mais cedo saíssem daquele inferno, maiores possibilidades teriam de sobreviver, seja lá onde fosse. O planeta Terra já não era um lugar seguro para se morar...

E os soldados, ameaçadores, acionavam suas armas travadas na quinta escala, considerada a mais letal, e o som percorria um longo caminho até explodir em ondas sonoras que ecoavam sob a cabeça dos humanos acossados. Um tiro direto elevava um corpo de até 150 quilos a quase 20 metros de altura, para depois transformá-lo em partículas de íons. Entretanto, o efeito do som, causava mais danos do que o estrondo, propriamente dito, pois os tímpanos humanos não suportavam a intermitência do ruído abafado e estouravam. Muitos já não escutavam mais, e de seus ouvidos saíam pequenos filetes de sangue.

Essa situação acontecia em diversos continentes e litorais do planeta; assim como no interior, aonde outras espaçonaves menores iam recolhendo seres humanos e levando-os para outros Destróieres estacionados. Nos locais considerados já evacuados, Comandos Paramilitares em flutuadores, portando controladores orgânicos e animais farejadores vasculhavam novamente em busca de terráqueos ocultos, que eram exterminados na hora. A Confraria do Óleo estabelecera prazo e tempo determinados para a evacuação total do planeta. O que os humanos haviam feito era um crime sem perdão!

 

Planeta Terra

Ano 2006

Outubro

16h40 (Tarde)

 

Em pleno mar revolto, no meio do Oceano Atlântico, centenas de embarcações lutavam para se manterem afastadas uma das outras a uma distância segura. Ao centro, com mais de 430 quilômetros de circunferência, imóvel a apenas 2 metros da linha d’água, a imensa espaçonave completamente iluminada, com pranchas arriadas, deixava entrar vários humanos; todos com o mesmo tipo de traje laranja e com um desenho do globo terrestre sobressaindo no ombro esquerdo; homens, mulheres e algumas crianças. E ao mesmo tempo, de outra espaçonave idêntica, em outro local, saíam do seu interior, milhares de seres extraterrestres com uniformes metalizados em tonalidades azuladas. No lado direito do traje, apenas um símbolo: um círculo cortado ao meio por um raio. Possuíam estaturas medianas, e o mais alto, deveria ter 1,50 metros e o menor, 0,80 de altura. Cabeças pequenas, olhos grandes e amendoados, narizes minúsculos e bocas apenas num traço. Pareciam cheios de irradiante felicidade.

Naquele momento, ocorria um acontecimento há muito tempo esperado, principalmente para Asÿlin e sua unidade parceira Aurûk: o Intercâmbio Extragaláctico de Raças (INEXTRA). Vinte mil humanos estavam sendo levados para o planeta Marte, onde iriam estudar, aprender e conhecer profundamente a tecnologia marciana, e a mesma quantidade de seres marcianos se estabeleceriam na Terra, para conviverem e aprenderem também com os terráqueos. Entretanto, o que mais interessava aos marcianos não era a tecnologia, nem a cultura, nem os preceitos religiosos... Nem os humanos, propriamente dito. Sujeitaram-se aquelas condições, simplesmente por causa daquele elemento fabuloso, fantástico, cheio de vida e energia que eles possuíam em abundância no planeta, chamado ÁGUA!

Não queriam vir mais escondidos saborear aquele líquido, que somente existia ali, com todas aquelas características peculiares e em 3 estados elementares divinos: Sólido, Líquido e Gasoso!

Por toda a vastidão do universo, Asÿlin encontrara poucos planetas com tamanha proporção de água quanto na Terra. Dos 154 planetas visitados no Sistema Solar, juntamente com os 9 mais próximos já conhecidos pelos humanos; os satélites e asteróides existentes, o único astro que realmente possuía água, era chamado de Terra! Não compreendia o porquê daquele estranho nome, se a porção ocupada daquela matéria era de apenas um terço de toda a extensão líquida? Mas o importante que agora era tudo legal! Podiam explorar as reservas, os mananciais, os rios, os mares e oceanos até as profundezas. Livres! Abertamente! Sem serem considerados invasores! Poderiam estudar o que ocasionara aquele fenômeno exclusivo daquele mundo maravilhoso! Como acontecia aquela modificação. O INEXTRA permitia e concedia PASSE LIVRE! Sem nenhuma interferência dos humanos! E durante os próximos 20 anos terrestres estariam efetivamente ligados àquele planeta...

Os humanos teriam a mesma sorte. Matariam a curiosidade sobre o solo marciano, poderiam pesquisar e vasculhar todo o Planeta Vermelho considerado até então árido e desprovido de vida; comparar suas teorias sobre o "dimorfismo peculiar do rosto em Cydonia, descobrir as verdades ocultas das construções artificiais e o prazer de visitar Phobos e Deimos, como denominavam os dois satélites artificiais. Finalmente, iriam entender o sentido das palavras, a compreensão dos fatos e uma nova maneira de olhar para a sua ciência inexata, diante de leis astrofísicas desconhecidas. Ceddar já não era habitada há muito tempo, por ser um terreno perigoso, mas os terráqueos poderiam construir suas moradas perto do equador, nas colinas de Q’vyr de onde se avistava o Triângulo de Mutçá e a entrada do aeroporto subterrâneo com linda vista para a Lua. Marte não teria mais mistérios quando os humanos retornassem a Terra".

 

Espaço Sideral

Ano 1952 (Terrestre)

Março (presumível)

23h32 (noite)

 

Como uma minúscula estrela cadente, aquela luz cortou o firmamento e se perdeu no infinito. Visto da Terra era apenas um filete quase desapercebido aos olhos humanos. Contudo, no interior daquela bola de fogo multicolorida, um ser de pura energia manuseava com seus longos tendões, em movimentos suaves, como numa regência orquestral cósmica, filtros iridescentes que controlavam a sua nave. Ao seu redor, outros seres idênticos apontavam para um gigantesco Sol amarelo mais à frente. Houve apenas uma ligeira confirmação, e a tela principal foi invadida por tremenda claridade e calor intenso vinda do astro; e as labaredas alaranjadas e vermelhas pareciam adquirir vida rodopiando dentro da cabina, engolindo tudo. Quando a barreira de proteção foi abaixada, os seres continuavam calmamente em suas posições. Depois, no centro da sala surgiu o Sistema Solar com todos os planetas, satélites, cometas e meteoros. Um ser indicou com um dedo o pequeno planeta azulado, e ele cresceu em primeiro plano, por toda a dimensão do Sistema Planetário. A visão fascinante do movimento das nuvens, a sua rotação, a sombra da noite avançando sobre o dia. O ser que parecia o comandante se aproximou e tocou no globo. Seus dedos de energias se aprofundaram na massa líquida. Quando retirou sua mão, estava cheia de uma massa aquosa, que deslizou suavemente para o chão da nave. Inclinou-se em direção aos outros, que confirmaram a posição.

O Grande Regente Galáctico retornava de uma visita ao planeta Ûghar, conhecido como Estrela Negra, oculto atrás do Sol amarelo, quando tivera uma visão divina. Vislumbrara numa espécie de "Insight" um mundo azul, coberto de nuvens e abaixo, um elemento líquido completamente vivo. O mapa estelar indicara um único planeta com aquela característica no Sistema Solar. Claro que existia no Planalto de Zãn-yor, naquela mesma dimensão, outros planetas idênticos, só que ficavam em órbitas opostas. Aquele era o mais próximo. Se bem que o Planeta Roshary também se aproximava daquelas condições climáticas, mas faltava muito para atingir aquele estágio evolutivo. Enviou várias naves de reconhecimento e expedições ao planeta. E passado algum tempo, as que retornaram, alertaram para a impossibilidade de contato imediato com o povo daquele mundo, por serem muito agressivos, uma mente ainda muito primitiva, um conceito muito prematuro sobre o universo e muito propenso às guerras.

O Grande Regente Galáctico cuidou pessoalmente daquela missão que considerava importante para a harmonia do Universo. Os seus primeiros encontros com as autoridades terráqueas foram cheios de conflitos e confrontos, com prisões e torturas acontecidas inexplicavelmente de ambas as partes. Até que um grupo de militares terrestres e cientistas, indiferentes aos incidentes ocorridos propuseram reuniões secretas em locais bastante afastados dos olhares curiosos e governamentais. O Grande Regente Galáctico então, como prova de boa fé dos humanos, solicitou aos terráqueos que libertassem todos os seres extraterrestres que por ventura se encontrassem prisioneiros em suas Instalações Militares ou não. A tecnologia que iriam aprender no futuro seria muito mais sofisticada do que sabiam até agora. A princípio os militares negaram veementemente, mas quando viram as imagens de extraterrestres servindo de cobaia em laboratórios ou prisioneiros, ficaram espantados e cheios de desculpas evasivas, e todos foram libertos.

E 15 anos se passaram. Sob os olhares de desconfiança dos humanos, o Grande Regente Galáctico sugeriu uma interação extragaláctica, uma troca de informação entre os povos do Universo. Como a Terra se encontrava atrasada em diversos setores da ciência, e afastadas da linha do conhecimento divino, sugeria um Intercâmbio Extragaláctico de Raças, como qualificava. O planeta mais próximo era Marte, e como os terráqueos possuíam verdadeira fixação por aquele mundo, poderiam iniciar o intercâmbio por lá. Não via nenhum empecilho, pois mais tarde poderiam ser outros planetas. E essa troca de interesses comuns, funcionaria da seguinte forma: um contingente de humanos seria levado para o planeta Marte, e igual quantidade de marcianos viriam para a Terra; o que resultaria duplamente num verdadeiro crescimento e expansão de conhecimento nas mais diversas áreas de interesses.

O que o Grande Regente Galáctico não contava era com o surgimento de uma guerra entre as principais nações envolvidas, e que impediu o prosseguimento do processo de intercâmbio. Antes que o projeto se transformasse em troca de material bélico, como já sugeriam, e das ameaças de ser considerado "traidor e inimigo", encerrou as conversações com as partes aguerridas e continuou somente com os países não afeitos ao conflito. E, mesmo assim, desgastaram-se mais 27 anos, até que finalmente os governos cederam a um "Tratado de Paz Mundial", reatando novamente as conversações e seleção de pessoal qualificado nos mais diversificados segmentos sociais, culturais e científicos para compor a missão ao planeta marciano. E quase surge outro atrito, quando alguns países se ressentiram do seu volume de pessoal selecionado ser menor do que dos outros, quando todos deveriam possuir o mesmo número. Antes que tudo desandasse novamente, foi proposto que o intercâmbio funcionaria para os humanos, de forma rotativa, e os marcianos que estivessem na Terra, participariam também do mesmo esquema.

 

Planeta Terra

Ano 2023

Dezembro

08h15 (manhã)

 

O que parecia ser impossível à primeira vista se transformara num tremendo sucesso, isto é, tão logo as criaturas de Marte chegaram ao planeta Terra, a animosidade e desconfiança que todos possuíam pelos alienígenas, com o tempo foram se modificando amigavelmente, e agora, àquela época, eles já participavam assiduamente da vida social entre os grupos terrestres. Principalmente Asÿlin com a sua unidade parceira, que estava sempre nos eventos importantes, e demonstrava um interesse incomum quando o assunto a ser tratado referia-se a água. Aprendera a falar vários idiomas; não que necessitasse, pois podia captar a estrutura semântica de cada palavra, e conversar telepaticamente, mas em certos lugares, havia restrições deles conversarem mentalmente, e os humanos eram propensos a extensas e terríveis dores de cabeça quando insinuados a uma conversação mental, além de ficarem desconfiados de estarem sendo manipulados de alguma forma. Então, preferia usar o modo vocal.

Asÿlin nem mais se preocupava com isso. Quando em ambiente humano, bloqueava a mente, cortando toda a interação mental com a unidade parceira, ou com outros da sua raça; diferentemente de quando estavam isolados nas "yokas residentias", suas moradias.

A sua maior preocupação no momento era a listagem dos que poderiam permanecer no planeta Terra, continuando os estudos. E, ela fora inclusa com anotações favoráveis dos terráqueos a seu favor, graças ao brilhante trabalho que desenvolvera sobre a "Floculação Hidriônica e a Condutibilidade dos Íons através da Hibridação Eletrônica Molecular". Uma pesquisa que lhe rendera muitos favores especiais, inclusive um convite inusitado: fazer parte de uma organização que estava sendo criada e subvencionada pelos governos intitulada: "IRMANDADE DA ÁGUA", para regularizar a situação dos alienígenas que se estabeleceriam no planeta Terra, além de constituir uma nova ordem de direitos para os humanos que retornariam de Marte. Asÿlin entendia que se moldava uma espécie de órgão que submeteria o INEXTRA, composto dos 20 mil marcianos e todos aqueles nascidos até aquele período, no planeta, ao seu controle.

Depois que os marcianos chegaram a Terra, muitas coisas começaram a mudar. Principalmente com relação à própria situação diplomática gerada pelo intercâmbio. De uma hora para outra, no espaço aéreo terrestre, apareceram naves estranhas com seres reivindicando os mesmos direitos dos participantes do INEXTRA. E que levariam quantos humanos quisessem para pesquisar em seus planetas.

Sucysks, Barthyards, Yhons, Uhanmares, Yiorks, Paröhs, Dahars, Zhytons, Ornis, Rhemps, M’sogs, Klanus, Ailahs... Seres com aspectos inimagináveis e com formas de vidas bastante primitivas, mas com tecnologia avançadíssimas, ou então, não mais evoluídas do que as existentes na Terra, contudo com conceitos e estruturas diferenciadas. Muitos pesquisadores perceberam que os caminhos da evolução das raças e suas maquinas voadoras, se desenvolviam paralelas aos seus conhecimentos, numa performance linear curiosa. Muitos alienígenas ficaram espantados com o segmento de raciocínio tecnológico seguido pelos humanos; quando poderiam já estar dominando o espaço, conhecendo outras raças, permaneciam ainda com preconceitos científicos e mentes fechadas à evolução... Sonhavam com outros Universos, formulando a distância teorias infundadas, estabelecendo leis físicas aquém da realidade, e dissertando sobre "ódios de estimação", demonstrando total estreiteza psicológica e incapacidade de assimilar e se abrir ao novo, num verdadeiro retrocesso mental. Mas todos os que chegaram ao planeta, possuíam algo em comum: a fixação pelo elemento líquido; a água que jorrava em abundância pelos céus da Terra.

A "Irmandade da Água" queria preservar os direitos dos humanos, diante aquela vinda inesperada de Ets, como costumavam chamar os extraterrestres. E como exemplo, o INEXTRA foi quem mais sofreu retaliações e restrições injustamente. Asÿlin procurava manter-se afastada dos tumultos formados, e Aurûk, a sua unidade parceria, era o mais revoltado e envolvido naquilo tudo. Obtivera o código de acesso restrito da listagem dos 95% que retornariam ao planeta Marte. Era impossível acreditar! Depois de tudo o que fizeram pelos humanos... Enquanto que os humanos em Marte obtiveram permissão para permanecerem lá. Alegavam que o período temporal de Marte era mais curto do que o da Terra, e que, portanto, necessitavam de mais tempo para concluírem suas pesquisas. A lógica sem fundamento dos humanos funcionava brilhantemente no favorecimento deles. Igual período e igual tempo deveriam ser estabelecidos independentes de diferenças temporais. Prevaleciam as condições terráqueas mesmo em Marte.

Aurûk tinha informações importantes e terríveis que a "Irmandade da Água" desconhecia completamente: os milhares de humanos que estavam sendo levados pelas naves alienígenas para outros mundos, não chegavam aos seus destinos finais. Muitos até saíram da Terra, mas foram mortos no espaço; outros sucumbiram dentro das naves sob pressões altíssimas. Os Ets queriam obter o "Passe Livre" a qualquer custo para permanecerem no planeta gozando das delícias da água e suas propriedades químicas e físicas, e nem um pouco preocupados em retornarem ao espaço. Muitos humanos foram "despachados" em naves alienígenas e entregues à próprias sortes, guiadas por piloto automático.

 

Planeta Terra

Ano 2024

Outubro

19h23 (noite)

 

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Asÿlin olhava para aquilo sem entender. Decodificar a senha de acesso aos mais 19 mil nomes que compunham a listagem dos que retornariam a Marte. Já conseguira decifrar as letras convertendo-as em valores numerais, mas o acesso ainda era negado. Mas claro! A seqüência após o traço parecia ter uma lógica, mas qual? Uma brincadeira de criança levada! Ao invés de utilizar o sistema.

De criptografia algorítmica de 300 terabytes, aplicavam um sistema linear baseado matematicamente num conjunto alfanumérico antigo. "Tudo bem!" – pensou. Ela observava que deveria haver uma ligação dos números depois do traço com os números anteriores. O seu "Servcomp" analisava todas as possibilidades... Já conseguira decifrar a maioria dos códigos secretos utilizados pelos humanos... Dependia apenas dela aquela função. Em Marte trabalhara certa vez no Setor de Comunicação e Camuflagem, e vivia traduzindo e interpretando enigmas siderais que recebiam. Tinha ordens expressas de bloquear e maquiar quaisquer mensagens que recebesse do planeta Terra, e caso não fosse possível, que alterasse os padrões eletrônicos dos seus equipamentos... De repente, começaram a surgir alguns números no seu "Servcomp", mas de cores diferentes. O código estava sendo quebrado, era só esperar e aguardar pacientemente. Asÿlin sorriu quando seus olhos azulados pousaram distraidamente sobre um cartaz que mostrava uma mulher, jovem e muito bonita, fazendo a propaganda de um aparelho de comunicação digital denominado de celular, datado de 2004!

Uma coisa admirava nos terráqueos: o grau de criatividade. Mas a sua unidade parceira estava coberta de razão; enquanto aquela situação perdurasse, todos os que participavam do "INEXTRA" estariam irremediavelmente tolhidos dos seus direitos, e tentavam encontrar uma solução viável junto ao Comitê Gestor do intercâmbio, apelando até para o Grande Regente Galáctico. Simplesmente não aceitavam assumir a culpa pelos erros cometidos por outras raças, ainda mais quando foram eles, os humanos, que abriram concessões diante o vislumbre das naves espaciais exóticas que surgiram nos céus da Terra. Aquela fora uma época de muito entusiasmo, de muita alegria... De aceitação do desconhecido. Tudo o que voava e tinha um aspecto "extravagante" era bem vindo, e quando as criaturas que saíam do interior das naves também eram "algo esquisitas", aguçavam-lhes a sede de saber como era o outro lado do Universo. Asÿlin não culpava os humanos. Pareciam crianças diante de um brinquedo novo. Mas quando viram o "quarto" entulhado de "quinquilharia", perceberam o engodo no qual haviam se metido. Os levantamentos realizados mostravam que chegavam de 3 a 4 espaçonaves por semana ao planeta Terra, trazendo dezenas de Ets, que se misturavam com povo... E depois, quando viram os relatórios alertando sobre as doenças, os vírus, os germes aliens proliferando sem nenhum controle e afetando a população humana, despertaram tardiamente e criaram a "IRMANDADE DA ÁGUA", cujo lema era "Proteger e Guardar". Proteger os humanos sob todos os aspectos e guardar os seus direitos inaliáveis como cidadãos da Terra. De uma hora para outra, houve um retrocesso geral, parecendo que a Terra havia voltado a um período muito negro da sua história: a "Caça as Bruxas" ou "Caça aos Ets!". A "Irmandade da Água" se incorporava na malfadada "Inquisição religiosa", assumindo o direito da vida e da morte, junto aos extraterrestres. Os que chegassem passariam por um sistema de controle.

Asÿlin percebeu que a "Irmandade da Água" incorria em outro erro. No afã de regularizar e assumir o controle total da situação, os ditos dirigentes se esqueciam que muitas naves nem solicitaram autorização para entrar no espaço aéreo terrestre, se prevalecendo de suas tecnologias e assim, camufladas, jamais foram rastreadas pelos radares e se fixaram em diversos lugares, em ambientes apropriados a eles, por todos os cantos da Terra. Isso queria dizer que, muitos estavam nas profundezas dos mares a 400 atmosferas ou mais, ocultos nas fossas abissais, ou vivendo na escuridão das cavernas e grutas úmidas e profundas existentes pelo planeta. Nunca os encontrariam... Mas ela sabia também da existência de um registro extracurricular contendo toda a movimentação das naves que chegaram, e com relatório completo, qualificando a todos de acordo com as suas características biológicas, físicas, assim como suas condições de vida e região terrestre mais propícia para a sua sobrevivência. É óbvio que a "Irmandade da Água" desconhecia esses documentos. Somente uns poucos, participaram dessa operação super sigilosa.

 

Planeta Terra

Ano 2043

Julho

23h50 (noite)

 

"Consumatum est" como dizem os humanos parafraseando Jesus Cristo, antiga divindade de uma religião extinta. Asÿlin pensava muito nisso. Após a chegada dos aliens ao planeta, os dogmas religiosos caíram por terra. O pensamento sobre um ser superior volatilizou-se tão rápido quanto o éter cósmico! Aja visto que toda a estrutura politico-militar e científico-religioso perderam suas bases mais importantes. O poder alienou-se por completo, e a recomposição de novos valores, causava até hoje choques violentos. Entretanto, a disseminação de culturas alienígenas pelo planeta ainda não havia conseguido combater o radicalismo humano, nem destruir a sua sede de poder, a constante busca pelo domínio continuava sendo o maior empecilho para que houvesse harmonia e equilíbrio na Terra. As espécies mais bélicas tomaram outro destino fora da galáxia, por se recusarem fazer parte do INEXTRA. Não tinham nada a oferecer, nem trocar, apenas tomar e roubar... Em quase meio século de vivência no planeta, conhecia-o mais do que muitos dos seus habitantes. Os marcianos abriram um campo de conhecimento muito grande para a ciência humana. As naves desenvolvidas com a energia da água, que puxavam sua força e combustão do vapor, num processo inovador, foi realmente o que marcou aquele tempo. A união de mentes brilhantes: terráqueas e marcianas facilitou essa evolução inesperada de tecnologia. O elemento principal era a água em seus três estados elementares, que revolucionava até a ciência alienígena. Quando o novo conceito de discos voador começou a cortar os céus da Terra, foi um tremendo sucesso. Em todas as áreas técnicas aconteceram mudanças drásticas de tal forma, que foram necessários estabelecerem novas ordens. Não que ela já não existisse, contudo, era imprescindível que se tornasse evidente, dinâmica e exclusivamente humana!

 

Planeta Terra

Ano 2045

Novembro

07h50 (manhã)

 

Todas às vezes que se aproximava o final do intercâmbio, se iniciava um novo período de tensão e nervosismo. O que era realizado pelo INEXTRA mantinha-se organizado, os projetos finalizados, mas não inteiramente concluídos. Cada estudante ou pesquisador mostrava as infinitas possibilidades que as suas experiências poderiam alcançar baseadas numa simples fórmula química, e as transformações que ocasionariam ao mundo. A água sendo utilizada em infinitas composições biotecnológicas, em desenvolvimentos de peças e materiais de baixo custo. Novos conceitos que os humanos, ainda não haviam conseguido se acostumar totalmente, e talvez nunca conseguissem. Enquanto por um lado alguns seres humanos lutavam pela modernidade, buscando de todas as maneiras melhorar a qualidade de vida de todos no planeta, outros seguiam caminhos opostos, incentivando e estimulando o retrocesso; sabotando máquinas, poluindo os mares, espalhando elementos impuros pela atmosfera, contaminando os alimentos e plantações, tudo isso na tentativa de expulsar os extraterrestres da Terra. Eram chamados terroristas radicais, que promulgavam o retorno da espécie humana às raízes, a um retroagir cultural e tecnológico/social de quase 1000 anos!

Com tantos problemas acontecendo, a "Irmandade da Água" além de estar guardando os direitos humanos, acobertava os terroristas que destruíam o planeta pelo pior método! Numa reunião secreta, os estudantes do INEXTRA, resolveram contra atacar, resguardando também, seus direitos de permanecerem no planeta, assim como de protegerem a própria Terra do vandalismo humano! Foi unânime a votação para a formação de um grupo que agiria, principalmente, em favor da proteção da água.

A "Confraria do Óleo" surgiu como um suspiro de alento, numa legião de combatentes ferrenhos em prol do resgate da pureza do líquido sagrado. Para separar o joio do trigo, nas suas investidas táticas nos redutos humanos, colocavam fitilhos de aço fosforescentes preso nos pescoços deles, nas cores verdes, vermelhas ou amarelas. Os verdes indicavam pessoas contra a natureza, amarelos, os filhos de humanos com aliens ou vice-versa, os vermelhos eram utilizados por todos os que lutavam pela preservação da natureza, mas com restrições.

Os humanos eram em maioria e viviam no planeta há milhares de anos, mas os extraterrestres apesar da pouca convivência, já conheciam suas "manhas" e por terra, água e ar o planeta passou a ser constantemente vigiado.

A "Irmandade da Água" reagiu determinando a expulsão de todos os que faziam parte do intercâmbio, além de outros seres. Uma longa e vastíssima lista de nomes saiu nos meios de comunicação, traduzida nos diversos idiomas alienígenas.

E desta vez, o seu nome estava escrito em negrito e sublinhado. Asÿlin não se conformava. De alguma forma a sua unidade parceira não fora incluída na listagem. Não entendia como, se constavam todos os participantes do INEXTRA, todos os 20 mil! Agora não havia mais escapatória, a pressão era demasiadamente forte, e tudo o que fizera em favor do planeta e pela qualidade de vida dos humanos, tinha sido em vão. A loucura da sua ida, não era por pertencer a um grupo que discutia o modo como os humanos prejudicavam o meio ambiente, poluindo as águas com dejetos químicos jogados na natureza sem o menor tratamento, inclusive com previsões trágicas sobre o futuro, caso não se tomassem nenhuma providência: 200 anos; era o tempo exato para toda a água do planeta estar completamente contaminada! Com mananciais e nascentes secas ou misturadas com imundícies humanas! Em muitas partes do globo vinham acontecendo isso. Era um fato! Uma realidade inexorável! A Terra não podia se transformar em um mundo estéril, mas eles não entendiam! Tornaram-se surdos e cegos aos seus relatórios. Só passariam a acreditar nos seus constantes avisos quando se repetisse ali, o fenômeno "Rhosfreyt" que transformou o planeta Marte no que era hoje: uma atmosfera rarefeita, de dióxido de carbono, e o interior completamente gelado, com a maioria do seu povo vivendo nos satélites próximos. Os humanos não sabiam que aquele era um fenômeno cíclico cosmológico inevitável, mas que se podia controlar e até evitar, dentro das devidas proporções. Mas o povo da Terra não estava nem aí; pouco se importava que o seu mundo acabasse!

Não fora por causa da sua determinação, da sua maneira de agir e pensar, que fora banida do planeta. O motivo: devia voltar para restabelecer o vínculo com a sua pluri-unidade deixada em Marte! Esse era o motivo mais estapafúrdio que conhecera. Não existia nada contra ela. Muito pelo contrário! Ao vir para o planeta rompera o lacre orgânico para sempre, e fizera questão de se dedicar exclusivamente ao estudo pela melhoria da qualidade de vida dos humanos, e jamais pensara em sair dali! A sua vida não significava nada em outro canto do universo! Preferia morrer a abandonar o planeta Terra! Com esse pensamento decretava a sua morte insólita!

 

Planeta Terra

Ano 2063

Janeiro

18h30 (noite)

 

Os humanos conseguiam com sucesso realizar suas maiores façanhas destrutivas. Numa ação terrorista magistral explodiram o super navio que transportava tanques de acetona em pleno mar, e o efeito foi arrasador para a fauna marinha. Depois, detonaram de uma só vez, os dutos petrolíferos que atravessavam as águas intercontinentais, para não falar no incêndio criminoso que devastou metade da Floresta Amazônica. Isso tudo para causar danos irreparáveis e expulsar os alienígenas do planeta. Só que agindo dessa maneira irracional, participavam também de todo o estrago ambiental que se previa acontecer quase de imediato. E o resultado não se fez esperar: as conseqüências se iniciaram com a chuva ácida que principiou a cair em algumas regiões do globo terrestre ocasionando grandes enchentes e causando muitas mortes, acabando com lavouras e tamanho desequilíbrio atmosférico. As populações expostas às águas poluídas viam nascer em seus corpos feridas purulentas e doloridas; suas peles começaram a descamar, a perder a consistência até ficarem em carne viva... E milhares de humanos: crianças, mulheres, idosos foram morrendo nessa situação.

A "Irmandade da Água" como sempre, resguardando os direitos humanos, e salvaguardando quaisquer que fossem os resultados obtidos, acusavam os extraterrestres de sabotagem e complô contra os seres humanos, numa incitação escancarada, com o único objetivo de forçar a evacuação de todos os Ets do planeta, sem exceção. Em outras palavras, a Terra desconhecia todos os feitos e benefícios realizados pela INEXTRA.

Por outro lado, a "Confraria do Óleo" implantou um racionamento de água, que atingiu a maioria das represas e diques que ainda possuíam água potável. Uma retaliação que surtiu o efeito desejado entre os humanos, que se viram de uma hora para outra, resumidos a um sistema de cotas de água semanal, onde cada um recebia 3 cubos de água, com 10 centímetros de face, em seu estado sólido, que passava por um processo de refrigeração criogênica. Os humanos eram muitos, mas o povo, por sua vez, era por demais dependente e muito fragilizado, e nas piores situações bastante persuasivo. Ao se ver acuada, a "Irmandade da Água" apelou para a execução de planos camuflados com táticas indiretas de guerrilhas. E foi espalhando entre os humanos a idéia da importância de destruir todos os mananciais restantes, pois somente assim, poderiam restabelecer novamente a ordem no planeta. E, em conseqüência desta orientação muitos humanos e extraterrestres começaram a morrer quando as águas se tornaram de vez mais poluídas.

 

Planeta Terra

Ano 2075

Janeiro

23h49 (noite)

 

A "Confraria do Óleo" conseguira em pouco tempo restabelecer o nível de pH da água, e oito superdestróieres espaciais espalhados pelos quatro cantos da Terra, tratavam de remover a capa oleosa que encobria mares e oceanos. Muitas criaturas marinhas pereceram, e aqueles que viviam a 100 ou 200 atmosferas lutavam para sobreviver em seus estados agonizantes com a escassez do oxigênio. As naves iam passando lentamente, recolhendo as impurezas e revolvendo a água das profundezas com potentes supressores eólicos que criavam correntes de bolhas de ar, num torvelinho contínuo. Outras naves procuravam recuperar os mananciais, se aprofundando com fortes brocas para o interior da terra, enquanto naves com aspectos estranhos, cheias de tubos finíssimos descarregavam continuamente raios contra as nuvens acinzentadas, tentando polarizar com jatos de energias eletromagnéticas as chuvas ácidas, e reverter assim, o ciclo de águas poluídas. Era uma operação vital para a recuperação e revitalização do planeta Terra. Uma luta árdua contra o tempo, antes que o fenômeno "Rhosfreyt" tomasse forma e arrasasse tudo realmente. Algumas áreas se tornaram completamente irrecuperáveis. Parte da Floresta Amazônica se transformara em depósitos de árvores retorcidas e queimadas pela acidez do solo, e dunas de areias amarelas avançavam ameaçadoramente para o interior da mata. Cidades litorâneas estavam abandonadas deixando no ar um fedor bolorento de carne podre misturado às carcaças de animais e peixes mortos, e também em virtude da seca, da fome e da poluição.

Havia ainda a esperança da recuperação de tudo. A própria natureza lutava bravamente para vencer a destruição causada pelo homem. A "Confraria do Óleo" rejeitava completamente a ajuda de qualquer humano, até os "Dvgl" ou "Devlogue", os filhos de aliens gerados por pais ou mães humanas foram afastados dessa operação, principalmente os "Tvragah", considerados de 3a geração, e que estavam mais envolvidos com os terráqueos.

Há quase seis anos que o INEXTRA tomara essa decisão, e comunicara à "Confraria do Óleo". Os humanos poderiam morrer à vontade, mas o planeta Terra, não! Os terráqueos participantes do intercambio que estavam no planeta Marte, nem se importavam mais com o fim do seu mundo. Pôde-se perceber isso, quando a "Irmandade da Água" solicitou o fim do intercâmbio, e a volta de todos para a Terra, no sentido de que auxiliassem no combate aos extraterrestres, ou que os mesmos retornassem para que a troca fosse desfeita. Contudo, em extensa carta assinada por todos os integrantes do INEXTRA-M (Marte), recusaram-se contra tal decisão tomada de forma aleatória, alegando conflito de interesses, assintonia política e por fim, solicitavam cidadania marciana para todos.

 

Planeta Terra

Ano 2075

Julho

08h48 (manhã)

 

O super petroleiro que singrava o Oceano Atlântico com destino a Europa, teve um dos seus tanques explodidos - e uma mancha preta de óleo com mais de 3 metros de espessura foi se alargando pelo mar adentro, cobrindo uma grande extensão -, depois foi adernando de lado, e quando ia começar a despejar o outro tanque, surgiu um imenso disco voador que desceu rapidamente até a superfície da água sobre o navio, em seguida, abriu-se um alçapão central de onde soltaram milhares de pequenos filamentos que envolveram a estrutura do petroleiro. A espaçonave foi descendo lentamente e submergiu nas águas do mar, deixando um enorme circulo oco no meio da mancha escura que foi se fechando sobre si, lentamente.

De repente, uma onda com mais de 10 metros de altura se elevou do meio das águas e como se estivesse sendo comandada, foi arrastando a mancha negra para um determinado lugar, quando surgiu do espaço infinito, bilhões e bilhões de minúsculos insetos que mergulharam sobre o imenso tapete oleoso, num zumbido contínuo e aterrador. Quando logo depois os insetos alçaram vôo, não havia mais resquício nenhum de óleo sobre o mar. As águas estavam azuis e claras. Mais tarde o disco voador saiu numa inclinação que sequer movimentou as ondas e sumiu no espaço, levando o super petroleiro em seu bojo.

Aquela fora a última ação terrorista organizada pelos humanos. Com a situação inteiramente controlada, a "Confraria do Óleo" decretou alerta geral e Estado de Sítio em todo o planeta. Milhares de prospectos foram espalhados, assim como cartazes afixados, colados em postes e muros, diziam: "Os humanos foram julgados e considerados culpados pelos crimes de violação da natureza e desrespeito à própria vida, sendo condenados à pena máxima: Expulsão do Planeta. A sentença será executada em 168 horas terrestres!" Abaixo assinava a "Confraria do Óleo". E, em letras menores: "só poderão permanecer no planeta, os filhos gerados por pais com mães alienígenas ou mães humanas com pais alienígenas de quaisquer raças ou espécies da primeira geração. Pais e mães humanos serão expulsos".

A "Irmandade da Água" foi a primeira instituição a ser dissolvida, e seus membros classificados como: indivíduos perigosos! Criminosos inafiançáveis. Pena Capital. Qualquer reação era passível de execução imediata.

Todos os seres que viviam nas profundezas vieram à tona, atendendo ao chamado da "Confraria do Óleo", que mais parecia uma intimação decisiva. E pela primeira vez, os humanos se viram acuados com a presença de soldados em uniformes azuis, recortados nos ombros por tiras de lâminas e tubos de um metal desconhecido. O menor deles devia ter uns 2 metros de altura; o maior, que parecia ser o comandante geral, vestia uma jaqueta em tom laranja com um estranho símbolo metalizado impresso no peito, deveria possuir uns 3 metros e um corpo bastante avantajado. Portavam-se com indiferença. Eram frios, cruéis e inteiramente profissionais.

Uma semana! 168 horas: Sete dias eram o tempo derradeiro que os humanos tinham para desfrutarem pela última vez daquele planeta que fora sempre o seu lar. Não havia mais esperanças em seus corações. Nenhum milagre aconteceria para que tudo voltasse ao normal. Que nada daquilo estivesse acontecendo... Em cada um batia um sentimento muito forte de desolação, de incertezas, muita amargura e... Tristeza.

Quando vinham os soldados desalojando todos de suas casas, e com suas armas ameaçadoras e intimidativas impunham o terror e o medo, enquanto iam ajuntando todos os humanos, como animais em praças, estádios, desertos e campos de futebol. E não se detinham por nada. Não havia nenhum empecilho para a execução de suas ações. O objetivo tático, a ordem geral para que todos os terráqueos fossem embarcados em naves cargueiras, o mais breve possível os tornavam determinados. Aqueles que provocassem tumultos ou tentassem reagir contra seus comandos, seriam eliminados na hora. Tinham um prazo a cumprir. O contrato rezava: SETE DIAS TERRESTRES, ou seja: 168 horas ou 10.080 minutos do ciclo para a evacuação completa de todos os humanos do planeta. Não deveria restar nada com vida que sugerisse ou tivesse alguma semelhança ou característica humana.

A "Confraria do Óleo" fora buscar o que existia de melhor em empresas extragalácticas de purificação de mundos. O valor a ser pago geralmente partia sempre do volume de detritos, despojos e restos de raças que seriam eliminadas. No caso dos humanos, o destino deles já estava coordenado, e o fator tempo era imprescindível naquela operação, e todo o cuidado era importante. As tropas foram divididas por setores, e a principal era aquela que percorria de tempos em tempos toda a zona noturna e diurna. Seguia o ciclo terrestre de dia e noite, isto é, a sombra que separava a claridade da escuridão, era acompanhada pela legião de soldados. Nessas condições, de modo cirúrgico, tudo funcionava infalivelmente, pois podiam monitorar sempre a existência de algum terráqueo fugitivo oculto, quando passavam com seus controladores orgânicos que analisavam sinais vitais humanos: determinados batimentos cardíacos, o calor do corpo, e principalmente, o feromônio, o forte cheiro liberado pela elevada taxa de adrenalina, ocasionada pelo pavor que tinham dos "Dwargs", os cães farejadores que sentiam a presença humana a quase 3 quilômetros de distância. Quando tal acontecia, um grupo de paramilitares em seus planadores, avançavam até o local e faziam a execução sumária do infeliz. A evacuação já era um fato consumado, portanto: resistir, reagir, se esconder, só alteravam o travamento do disparo de suas armas, e naquele estágio da operação, não passavam de crimes capitais, com sentença imediata: a morte!

As naves cargueiras médias se posicionavam nas zonas litorais e costeiras, enquanto que as menores se deslocavam para o interior, e estacionavam próximas às grandes concentrações humanas. Quando cheias, partiam para o espaço profundo, e outras vinham ocupar os lugares vazios.

A única coisa que os terráqueos sabiam era da existência de uma nave mãe, que se encontrava bem distante da Terra, no hiperespaço. Por causa das suas dimensões gigantescas não pudera se aproximar em demasia senão seus possantes reatores magnéticos influenciariam o campo gravitacional do planeta.

 

Planeta Terra

Ano 2075

Setembro

12h30 (dia)

 

A Terra se transformara num reduto extraterrestre. Ainda podiam se ver naves espaciais com equipes de limpezas, drenando os lagos e rios das impurezas deixadas pelos humanos. Grandes extensões de terras calcinadas pelas chuvas ácidas e queimadas passavam por tratamentos eletrostáticos químicos, com imersão constante de cargas eletrônicas de flashes azulados que revolviam o solo.

A "Confraria do Óleo" elaborara um documento no qual todos os aliens que estivessem e quisessem permanecer no planeta deveriam assinar. E os termos eram simples e generalizados: respeitar a natureza e proteger a água. Havia o comprometimento de manter o planeta como um paraíso.

De certa forma, a Terra estava deserta.

Não era de seres que chegavam a todos os instantes, nem o Sol amarelo que inundava com a sua claridade os dias com céus azuis e brisas suaves ou ventos fortes; nem à volta dos cantos dos pássaros que modificava aquela sensação de vazio.

Asÿlin sentia isso. Custou a perceber o que era. Cada dia que passava, cada momento que passeava de planador por sobre as cidades ou pelos campos, uma solidão estranha apertava-lhe no peito. De repente, descobriu o que era tudo aquilo e se espantou. Uma lágrima triste e isolada desceu pela sua face. Olhando para toda aquela imensidão que era a Terra descobrira que nunca mais seria a mesma. Sentia a falta dos humanos! Das suas alegrias, dos seus sorrisos, das suas brigas, das emoções que aprendera a sentir com eles... As suas músicas melodiosas e barulhentas, do amor que sentiam uns pelos outros...

De repente, a água já não era tão importante!

 

NOTA DO NAVEGADOR: A empresa que realizou a operação de limpeza no planeta Terra, levou os humanos para o planeta Roshary, que fica no planalto de Zãn-yor, do outro lado do Sol amarelo, cuja distância da Terra é de algumas horas quando realizada por naves do porte da nave mãe. Por outras, levam-se anos-luz, ou nunca chegarão, devido as quatro dimensões que se encontram pelo trajeto, e aos desvios temporais. Esse fato me foi relatado por Aurûk, que atualmente se tornou Gestor Interdimensional do INEXTRA em Ûghar.

 

Tarde de Domingo

20/10/2002

Praça do Cenip

 

Leia também: ESTHER E ARTHUR –. O PLANETA DE CRISTAL e O JUÍZO FINAL, através do site: www.ieditora.com.br.

 

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