Contos do Navegador

 BEIJA A MÃO DO DEMÔNIO

John Dekowes

Qual é a forma da Maldade? Basta olhar para as criaturas do Bem; pois não existem obstáculos intransponívels quando desejam alcançar seus objetivos. O excesso de bondade, como é atribuído àquelas santificadas e beatificadas por todos, desequilibram a harmonia cósmica. Onde há luz, há trevas. É uma realidade verdadeira. Antagonicamente, ao se falar em Deus, clama-se com o mesmo fervor para o Diabo. Não se pode fazer o bem sem prejudicar outrem. É um princípio ativo universal, onde a simples existência da vida, permeia a todo o instante pelos meandros da existência da morte. É inegável essa constante. Portanto, a vida é o sopro de Deus para o início, e a morte é o aspiro do Diabo para o fim. Uma necessita da outra. Se não houvesse a morte, inexistiria vida, e vice-versa. O ato de se alcançar o sucesso, o prestígio, a fama, já é um ato de maldade para aqueles que não tiveram a mesma sorte, e, portanto, serão obrigatoriamente esquecidos, e somente com o descenso daquele, é que poderão chegar a vitória. A perda, a derrota, o fracasso não são uma questão interior de cada um, mas um desequilíbrio cósmico onde, não existe nem peso nem medidas, apenas a força da energia que se conecta, e é atraída para aquela polaridade eletromagnética. Dessa forma, a energia é sugada para apenas umas pouquíssimas pessoas, em detrimento de outras. O bem não interage com unanimidade dentro de um processo em massa; apenas seletivamente, porém, a maldade procede de uma forma equânime sem obliterar ninguém.

       O mal nunca vence, mas deixa a marca da sua existência por onde passa. O mal é a morte? Ou a morte é um mal necessário para se justificar a vida para o bem? Quem prevalece no embate? 

       Há males que vem para o bem, ou há bondade que vem para o mal? Uma ou outra forma de pensar impreguina o pensamento de dúvidas. Não adianta ficar filosofando em cima de respostas estapafúrdias ou religiosas, ou sejam do que tipo for. Cristo foi sacrificado! Ficar diletando sobre o seu cadáver é tentar apagar o fogo com cuspi. É um fato real. Morrer pela maldade para se justificar o plano divino da vida eterna, ou seja, o ato da bondade. A vida é passageira, mas a morte é um fato consumado. Viver para morrer biologicamente nesta existência temporal, com datas e prazos invalidados, incertos e inconstantes. A vida coage a morte com promessas de eternidade espirituais, mesmo sabendo que os fins não justificam os meios. A certeza é somente uma: Onde há vida, há morte, ou, onde existe morte, com toda certeza já existiu vida. E sempre dessa máxima, renasce a vida, não para a vida espiritual eterna, mas como força elementar biológica da própria natureza, que luta e reage sempre, buscando na própria morte o motivo principal da vida. Um círculo vicioso. Mudar tal pensamento é sucumbir num paradoxo íntimo vivenciado por pesadelos e delírios. O que seria da vida sem a morte? Ou a morte sem a vida? A vida geraria um descontentamento íntimo torturante. Não haveria o pensamento da morte, e como seria ser eterno? A vida teria algum valor? Isto é, seria considerada como tal? Como todo mundo a conhece (?). Viver não é somente aspirar e respirar. Existe um metabolismo muito mais intricado do que se pode imaginar, ainda desconhecido. Como se comportaria bioquimicamente cada célula do corpo humano? Em constante mutação. Um “Moto contínuo divino”. Uma reciclagem com a renovação molecular atômica? Até quando duraria essa transformação biológica, ou se fosse eterna, qual seria o processo revitalizador nuclear? Uma máquina mecânica ou eletrônica necessita de manutenção e troca de peças geradas pelo desgaste, pelo uso contínuo. E, mesmo sendo observado todos os cuidados, e um belo dia, quando menos se espera, tornam-se obsoletas, ineficazes, inoperantes. Destino: são trocadas por outras mais modernas, com menor consumo de combustível e energia. Agora, e o Ser Eterno? 

       Viver eternamente, na realidade é só em pensamento, pois haverá um dia, em que até o pensamento não será mais eterno, ou, será eterno enquanto dure a vida. E de fato, as idéias se juntam às idéias de eternidade, que são passadas de diversas maneiras: oral, escrita, etc. O corpo morre, a vida tem o seu final. A única certeza que se tem da comprovação da vida, ironicamente, é quando se acredita na existência da morte. Não importa de que forma ela virá. Mais dias, menos dias, cedo ou tarde, hoje, agora, neste momento que já passou, se tornou passado, quantas vidas deixaram de existir? Ou estão nascendo. O ciclo vital contínuo em todo o Universo se desenvolve sob beneplacência da morte, que administra friamente cada concepção criada, evitando a gestação desmedida de criaturas, seres e espécies diversas fora do padrão seletivo. 

       O bem e a morte são seletivos na Ordem Universal, escolhem antagonicamente somente aquelas que alcançarão fama, sucesso e fortuna, ou não passarão de simples espórios na organização cósmica, enquanto que maldade e a vida, surgem desorganizadamente e de maneira avassaladora...

***

       Entre os humanos, na antiguidade, existiam os arúspices, sacerdotes que prediziam o futuro pelo exame das entranhas das vítimas, ou seja, dos mortos em sacrifícios. Através da maldade, se prevalecendo da morte, buscava-se a vida eterna, ou mais uma vez, ironicamente, o bem. Faz parte da essência cósmica essa ausência de futuro, assim como a procura constante de antecipar, ou sobrepujar a maldade com o Bem, ou blefar com a Bondade objetivando o Mal. O certo é: Nunca se saberá ao certo até que ponto o Bem prevalece, ou o Mal termina, pois, às vezes, o que é bom para uns é mal para outros, ou o que significadamente é prejudicial para muitos, é benéfico para poucos. E, assim sucessivamente, as ações contínuas fatalmente se concluem em reações adversas, e, obrigatoriamente, como uma teia de aranha, se espalham advindo conseqüências favoráveis ou não. 

       Olhar o Mal sob a ótica da maldade é esquecer como se faz o Bem e pratica-se a bondade. A idéia do Demônio assustador e sinistro é combatida pelo sentimento divino de um Deus maravilhoso e apaziguador. Mas o que seria desse Ser Supremo e benevolente, a não existência dessa entidade ínfima e contraditória para manter o equilíbrio e a ordem cosmológica? A perfeição não existe; o que se pode conceber são estruturas perfeitamente moldadas dentro da tridimensionalidade da compreensão de cada um: invisível ou visível. Conceitos de pensamentos que transformam a rotina do realizar em algo construtivo. Pensar culturalmente em tudo isso cria liames atávicos aleatórios dentro da própria trama sedosa aracnídea, que se perde em divagações confusas e desconexas, fugindo sobremaneira da idéia principal: Até onde pode se suportar o mal?

       Mas, o que é o mal?

Propriamente dito, na concepção da palavra: Tudo o que se opõe ao Bem, tudo o que se desvia do que é honesto e moral, tudo o que prejudica ou fere.

       E o Bem?

       Tudo aquilo que é bom e está de acordo com a moral; vantagem, proveito. Tudo o que se faz convenientemente de modo bom.

       A subjetividade das palavras levam a conclusões apressadas e erradas. Quando o Mal se opõe ao Bem, é porque houve um conflito de interesses. Afigura-se que o lado que não se enquadrou dentro do pensamento do que seja conveniente bom, o é representado pelo Mal, contudo, o Bem se apropria dessa situação e tira vantagens, proveito! E de fato, se beneficia integralmente, em prejuízo de outros, o que faz pensar na existência das criaturas benignas que se locupletam às custas do Mal que proporcionam com empáfia. E assim, o Mal se revela na medida em que o Bem se instala acintosamente, com requintes de virtudes e moral. É uma faca de dois gumes, e a ferida depois de aberta sangra com a mesma eqüipolência filosófica, mas a vitória final tende para o bem. Independente de quaisquer resultados supostamente obtidos. A visão simplória e exclusiva de apenas um resultado, como meta, não permite a mente humana abstrações maiores como resultados, unindo satisfatoriamente duplos questionamentos viáveis. O Mal perde no campo das inquietações mais contundentes, mais ganha terreno se comparado com os problemas insolúveis. A dimensão do pensamento humano se restringe ao imediatismo como regra básica, para solução de questões entre o Bem e o Mal. No domínio das especulações, o Diabo é visto como o elemento destruidor. Embutida essa imagem mental estereotipada, é muito difícil modificá-la. O discurso é manipulador, coercivo e tendencioso, Não há liberdade de pensamento ao se falar do Mal, com temeridade do próprio Bem.

       Mas uma coisa é verdade: o Universo todo conspira para o Mal; conspira em favor da maldade, porque há carência do Bem como um todo. Fazer o Mal é muito mais fácil e rápido do que exigir um pouco do Bem de todos. Existe o pensamento arraigado, porém não resolvido, que o Bem de qualquer forma degenera, causa inimizades, conflitos, quando aplicado de maneira generalizada.

       Não significa que sempre foi ou será assim. Existe um pacto de interesses entre ambos os lados. Uma conivência engendrada em níveis superiores divinos, onde o reles humano nem pensa em ascender. Por isso, não há mal sem bem, nem o bem sem o Mal. Tudo isso requer sabedoria e conhecimento profundo, elevado e a mente a uma comoção catártica, antes de se decidir por esta ou aquela facção. Contudo, tais decisões independem de fatores internos. Muitas vezes, valores externos influenciam na escolha. A bem da verdade, se não fosse o envolvimento externo, inexistiria a presença constante do Mal e do Bem. É bastante significativa essa influência, que muitas vezes cerceia, não permite ou não dá oportunidade de opção. Externar as emoções demonstra o caráter da pessoa, e assim, é qualificada, taxada, conceituada e enquadrada dentro de dogmas, e suas reações conflitantes, reflexos involuntários, a deixa estigmatizada para todo o sempre.

       O ambiente propícia a realização do Bem ou do Mal, independente, algumas vezes de fatores externos, em conseqüência de uma educação não constituidamente forte. A fraqueza de espírito é fato importante na concepção da personalidade. Muitas vezes, o berço é esplêndido, contudo, a carne é fraca; o Mal já brotou, só faltando adubar para progredir e tornar-se operante. E ninguém desconfia quando ele ataca, simplesmente acontece... O Bem já necessita de uma espécie de “mìs-em-cène” para se revelar. É mais expansivo, explosivo, espalhafatoso na sua demonstração de realização, isto é, significadamente muito mais trabalhoso, mais oneroso, mais sacrificante... e muito mais odioso. Ao fazer o Bem sem olhar aquém, incorre-se numa situação de injustiça calúnia e difamação. Sob olhares daqueles menos prestigiados, as críticas são as mais destruidoras possíveis. Denegrindo a ação, o gesto, o proceder de forma beligerante. Falar, criticar e fazer o mal é muito mais fácil do que ajudar, auxiliar, confortar... Mas quem está com a razão? 

       Até onde vai o Bem e seus benefícios? Ajudar realmente importa? Criticar é mais saudável? Tudo é questão do ponto de vista de cada um. O Bem de um lado e o Mal do outro lado, e cada um puxando a corda, só que não é uma corda comum. É uma corda elástica que se distende até o máximo, para depois voltar com pressão. Opção? Às vezes, o Mal vai para o lado do Bem... Às vezes o Bem se aventura para o lado do Mal. Mas quando isso acontece? O que se passa na mente, nas emoções, nos sentimentos de todos é uma incógnita.

       A vida está disponível para a morte.E, só o fato de se viver plenamente, sabendo que um dia vai morrer, desencadeia no interior de alguns, infinitas reações de desespero que terminam em tragédias urbanas, onde o Bem e o Mal não passam de arremedos do cotidiano.

***

       As civilizações, sem exceção, experimentam o paiol de elucubrações destrutivas. Guerras que disseminam o terror, a fome, a miséria. A angústia maior em tudo isso, é que o Bem, aquele que se denomina o salvador da pátria, aquele que luta contra o Mal, ocasiona as barbáries contra inocentes, por uma “Boa Causa”. Mas, que causa é essa que “causa” mais mortes do que o próprio mal? Porque o Bem quando está em vantagem, faz o mal sem olhar a quém e sai ileso, como justiceiro, como herói? Para se obter o Bem, conseqüentemente, faz-se o Mal, e a morte tem seus motivos.

       O Mal já se afigura como coisa ruim. Só o fato de esta condição ser evidente, torna-se relegada quaisquer outras prerrogativas de defesas circunstanciais do fato. Assim, neste estado de espírito a mente oblitera-se à abertura de fundamentos óbvios e consistentes sobre outros aspectos do Mal. Mas o Bem também não é um primor de verdade, e ludibria, coage, manipula, escraviza, mata, tortura... E tudo em prol dos bons costumes!

       Em si, o Bem é um Mal necessário para aplacar a fúria insana da maldade. Mas, até aonde o Bem pode prevalecer sem transcender a sua essência? O Bem traz a paz, a tranqüilidade, a felicidade, o amor, a harmonia, a prosperidade...E outros valores e adjetivos exemplares, contudo, a paz em excesso, gera conflitos e discórdias e consequentemente a guerra; tranqüilidade em demasia desequilibra o espírito, causando confusão e desarmonia no Ser; a felicidade predispõe um nível de inveja tal, que descamba geralmente para a tragédia descontrolada; o amor é o vilão sintomático de toda a situação, pois o exagero termina em conflitos de relação e de interesses, finalizando em ódio profícuo e trágico; a harmonia é uma carcaça pútrida que encobre literalmente os piores momentos de uma transição. Estar em harmonia é permanecer sujeito às intempéries emocionais e equilibrando-se no fiel da balança; a prosperidade é o Bem que todos almejam, pois com a prosperidade advém a paz, a tranqüilidade, a felicidade, o amor, a harmonia... E uma avalanche de problemas que o Bem proporciona. Mas a prosperidade em si é a única forma segura para se superar o Mal e o Bem. Ser próspero indica uma condição benfazeja do domínio do Mal sob todas as formas possíveis, e o Bem intercede por este ou aquele elemento, apenas para manter o ritual da complacência social.

       Na verdade, o Mal é o expoente que faz o Bem ser engrandecido de todas as maneiras. Assim como a existência da vida não prevaleceria como a entendemos, senão fosse a constante denominada morte. Se não tem vida, logicamente está morto. E é uma certeza absoluta viver para morrer! Não é ser fatalista. Mas enquanto escrevo, agora, neste exato momento, estão morrendo milhares de pessoas. Até este texto ser publicado, e você leitor, chegar a ler, o ciclo de vida e da morte se renovou muitas vezes pelo Universo. Algum erro?

       Uma verdade muito difícil de aceitar, sem ser deveras pessimista. Devemos ser muito otimistas em se tratando desse assunto... Tal como pensar novamente na eternidade. É uma piada! O que seria uma eternidade? Viver para sempre? Cai-se sempre neste aforismo existencial. Viver até quando? Atravessar gerações e gerações vendo todos morrendo...OPS! Engano. Não existiria morte, nem tal palavra; desconheceria-se tal conceito... A vida também não seria como a conhecemos biológica e espiritualmente. Alma, espírito... Isso tudo faz parte do estereótipo humano, que predetermina um conjunto de idéias filosóficas com a finalidade de perpetuar valores morais, sem, contudo, se aproximar da veracidade do que é isso ou aquilo, na modernização do pensamento. O que é ser imortal? Um desafio à vida, quando tempo e espaço não possuem significado nenhum diante do insofismável. Será que viver eternamente tem a mesma força expressiva de ser imortal? Questionar a vida e a morte é muito mais importante do que buscar atalhos insignificantes e distorcidos da realidade. Entretanto, justifica-se uma resposta. A eternidade seria o tempo em que se viveu cada um o seu tempo, dentro de uma realidade do pensamento. Ser imortal é se prevalecer da vida, sobrepujando a morte até o final. É um sonho acalentador viver com um Ser imortal por toda a eternidade, e ser eterno enquanto dura a imortalidade... Apenas jogos semânticos que urgem da mente dos sábios. Realidade? Nenhuma!

       Tudo é imortal enquanto dura a vida, e eterno quando vem a morte. Pois a vida é diáfana e eterna desde o momento em que se torna construtiva... Se bem que a destruição participa do mesmo movimento energético. Mas somente as melhores lembranças vêem à tona quando as recordações se evidenciam.

       A desgraça é mais contumaz como fato histórico e relevante no apogeu das civilizações. O domínio, a guerra pela paz, com a ironia da sublevação do Mal para alcançar o Bem, ou tudo não passa de uma farsa do Bem camuflado de Mal para obter proveito e vantagens, sem macular própria imagem. A vida, o Bem são feitos de mortes e maldades. A importância da felicidade é passageira, ínfima, quando se busca a valorização da vida como se predispõe o Bem. Talvez, por passarem desapercebidas determinadas circunstâncias, as benesses se perdem no lodo do mal, que privilegia alguns em detrimento de outros.

       De repente, quem sabe, através do exame detalhado das entranhas de algumas vítimas, o futuro surja com uma prédica fantástica, recrudescendo no coração de todos a importância de se viver os momentos da morte, antes que a vida se torne obsoleta. Porque as leituras divinatórias quando clamam as forças cósmicas, são realizadas, quase sempre, através do sacrifício de um ser vivente? De uma forma ou de outra, os procedimentos invocam as energias do Mal para se preconizar as vidências do Bem... As trevas possibilitam um melhor entrosamento com as forças eólias, com os elementos mágicos, com as energias telúricas, do que a claridade irradiante e ofuscante do dia. O ente humano evidencia valores místicos durante os momentos noturnos quando está mais sensibilizado e reptílico, do que naqueles diurnos, quando o subconsciente se encontra disperso e em total irracionalidade.

       Porque a morte sempre favorece a vida? Porque a vida se prevalece sempre da morte? Porque a morte é continuamente mostrada com pesar, choro e lamentação? Viver implica em pesares, choros e lamentações muito mais contundentes e massificantes, com sofrimentos, dores e lástimas que, às vezes, são mais incisivos e vividos do que os curtos instantes diante da inefável e incorruptível presença da morte.

       Somente as criaturas do Bem, possuem tais sentimentos nobres. Numa demonstração muito profunda de apego às raízes humanas. Humanas? É muito fácil conceber a lógica humana para os valores de nobreza. As emoções levadas a catarse, num exemplo de justiça ou condescendência ou de lamento. Na verdade, não importa quais sejam os motivos que levam um ser a mostrar suas reações emotivas. Tendenciosos como são, deturpar seus estados emocionais é façanha das mais ardilosas, que aprendem a manipular desde muito cedo. Já vem de berço. Tais criaturas do Bem seqüestram da maldade o Dom da sutileza e praticam suas vilanias encobertas pelo véu da singela pureza do servilismo. As criaturas do Mal, por si só, despertam o temor e o medo, e são sacrificadas como inocentes úteis, numa pura comprovação do escárnio e maledicência do Bem, que tudo pode sem olhar a quém.  

       E nos ditames religiosos, amar é praticar o bem. Não é importante dar nome aos bois, a carapuça serve direitinho em todos sem diferenciar este ou aquele. Como tudo saiu do mesmo saco, é desperdício de tempo querer proteger, aviltar ou resguardar qualquer seita do paredão. Se uma for condenada, todas sem exceção serão condutoras ou participantes indiretas do mesmo crime. Aos olhos de Deus, todas as crianças são puras, e todos aqueles que se arrependem dos pecados, irão para o Reino do Céu, perdoados. Não existe o Bem e o Mal como lhes são atribuídos valores morais e espirituais. Para as hostes celestiais, nos mundos interiores, nos Universos dimensionais, o Bem e o Mal, Deus e o Demônio não existem... Uma energia única, como um TODO, abrange e envolve todo o Cosmo em serenidade. Assim, o Bem e o Mal só existem em função da criação dos fenômenos sob a influência dos valores gerados pelas criaturas em conflitos externos. A vida e a morte romperam os liames existenciais e sucumbiram ao paradoxo senil da conjugação do Verbo, em pleno estados de autofagia. Entre ser ou estar, muitos preferem ficar, pois somente assim, ficando conseguem ser aquilo que imaginam, e estar conscientes daquilo que pressupõem ser a permanência da vida enquanto vida.

       A suprema necessidade de ser superior a própria força da natureza, e comandar as leis cósmicas que regem o Universo, levou o ser humano a inventar o Bem e o Mal, a Vida e a Morte; pois a inexistência de tais fundamentos impedia que uma ordem de classificação fosse criada para se estabelecer uma organização existencial. Desta maneira, os conceitos foram sendo arraigados à principio de forma desordenada, como o caos, atrapalhando a visão daquilo que era o real, e incutindo misticismo nas mentes puras de sentimento.

       A vida perde o fio da existência quando passa a ser tolhida pela figura da morte, como destino final. A morte perde o vínculo que transcende a vida e determina o vir-a-ser de uma incógnita sem origem nem fim. Viver para morrer é o resultado final muito bem esclarecido, sem nenhum constrangimento. O Bem é o Bem, o que vier a ser gerado fora dos padrões do Bem, é representado pelo Mal. O Mal, consequentemente é a derivação, ou melhor, o desvirtuamento da moral e a desvalorização do ser enquanto ser. A lógica humana não refuta os termos nem as condições a que se chega ao Bem ou ao Mal, entretanto, tendência para o que se apregoa como “Prática do Bem” mas, na “Execução do Mal”. O pensar que existem seres com idênticas condições de pensamento, de livre arbítrio, e existências parecidas, faz do ser humano um paiol pronto para explodir, porque são os fatores externos que acendem o estopim, e não o fogo interno. Ele não tem, e nunca terá condições de implodir, pois sua energia interior foi dividida em partes e classificadas, e o seu TODO se diluiu num engodo subconsciente.

       Qual é a forma da maldade?

       As criaturas do Bem se mesclam com as criaturas do Mal simultaneamente e espontaneamente na medida em que as necessidades carecem de ações imediatas. O Bem e o Mal são parceiros constantes dos fatos que regem a Vida e a Morte do planeta Terra. 

       Iluminar a mente do ser humano, libertar a sua energia interior para a sua expansão e esclarecimento no Universo, é chafurdar a inteligência cósmica na lavagem dos porcos... Só resta um consolo, beijar mão do Demônio e pedir perdão pelos erros cometidos, e quem sabe, Deus acolha a súplica e desfaça todo o mal entendido... Em favor do Bem.

NOTA DO NAVEGADOR: Meus apontamentos revelaram esse pormenor existencial característico dos seres humanos. Desenvolveram um erro bio-espiritual tão profundo, que se tornaram dependentes dele para reger suas vidas. E sem parâmetros para avaliarem as conseqüências dos seus desatinos, vão cada vez mais sendo engolidos pelos preconceitos, pela esperança da salvação na eternidade, após praticarem toda a espécie de Bem pelo Mal, ou vice-versa. É um das raças mais complicadas que existe na Via Láctea.

 

OBS: Caro leitor, se você chegou até aqui, gostaria do seu comentário a respeito do conto BEIJA A MÃO DO DEMÔNIO.

Se desejar saber mais a respeito do que escrevo, por favor acesse ao site: www.montecastelo.com.br. Em e-books você encontrará o livro SÓ OS ANJOS MORREM CEDO.

Leia também: ESTHER E ARTHUR –. O PLANETA DE CRISTAL e O JUÍZO FINAL, através do site: www.ieditora.com.br.

 

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