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TAO

Silvia Cobelo


19/02/2008

Passara a escrever tudo que lhe acontecia. Detalhes, acontecimentos pertinentes, emoções, raivas, tudo que conseguia expressar por meio das várias línguas que conhecia. À noite quando não acontecia nada, depois de haver escrito que nada acontecia, ele, então, ficava a ler tudo que havia escrito.

Corrigia seu texto, deformava alguns fatos para fazê-los mais verdadeiros, encurtava silêncios para não deixá-lo enfadonho, misturava protagonistas para que parecessem mais interessantes. O que mais apreciava era ver seu dia passado a limpo, um dia lindo, rico, cheio de pessoas e fatos fascinantes. Tao transcreveu anos e anos da sua vida, a preencher centenas de folhas com pequenos capítulos, trezentos e sessenta e cinco ou seis deles por ano. Com o passar do tempo, ele passou a arriscar já deixar escrito o que aconteceria no dia seguinte, afinal sua vida era tão igual...

Não tentem fazer que explique como ou mesmo quando aconteceu, mas num desses dias, Tao tentou escrever o dia seguinte. Inteirinho. Só por brincadeira. Ao acordar, escovou os dentes, tomou café, até aí nada, mas depois perdeu o metrô como havia escrito, foi admoestado por seu chefe, e ao voltar, perdeu seu guarda-chuva. A parte boa? Só teve que corrigir uma ou outra coisa, o resto estava pronto. Gostou da experiência e fez de novo. E assim foi, escrevendo um dia antes, tudo que aconteceria no dia seguinte.

Confuso, sem saber se as coincidências eram forjadas inconscientemente por ele ou não, Tao passou doze meses, com tudo previsto e pré-visto, e concluiu que aquilo era muito chato. Sua vida não tinha mais graça. Resolveu então ousar. Passou a inventar arrojadas aventuras para si mesmo - testemunha de crimes, extra em passeatas, manifestações, e coisas que valham. E uma noite resolveu que era hora de se apaixonar. Sentou-se a escrever e inventou uma mulher, lindíssima e misteriosa, claro, que o abordaria na estação e se apaixonariam perdidamente.

Esperou o dia seguinte insone. Chegou à estação e quando a viu - ela era exatamente como a havia descrito, teve que correr para despertar e entrar em seu vagão. Ela deveria olhar para ele. Nada. A olhou insistente. Nada. Concebido o inconcebível, Tao a seguiu. Depois de alguns metros ela voltou-se e questiona: - O que está acontecendo? Responder o quê? Afinal, como explicar a uma personagem que ela é uma? -Nada, respondeu. -Achei você linda, só isso.

- Só isso? Então está bem. Achei que fosse um daqueles... Tão a olha, já enamorado. - Quem? Ela olha para ele, embevecida. - Deixa pra lá.

Foram tomar um café juntos. Ela pediu um expresso, ele só um copo de água mineral. - O que você faz? Ela demorou em responder. - Nada. Ele retrucou: - Como assim, nada? Ninguém faz nada. É uma contradição até gramatical, o verbo fazer implica numa ação. Ela parecia divertir-se. - Pois é. Eu consegui. Não faço nada. Aliás nem sei porque estou aqui. É como se estivesse sendo manipulada por um diretor invisível. Tao sorriu antes de perguntar: - Ah Você é atriz. É tão bonita. Ela é reticente. - É, acho que sou. Sei lá. - Teu nome? Respondem juntos: - Isis. Ela ficou surpresa. – Como é que você sabe? Tão disfarçou: - Sei lá. Vai ver que eu escrevi essa história. Ela achou graça e o beijou na boca.

Passaram a se ver com freqüência. Tanta freqüência, que Tao nem tinha tempo para escrever e quando o fazia, a sua versão era tão distorcida, resumida, maquiada, descuidada, que parecia qualquer coisa menos a realidade. Muitas vezes até produzia um texto mal escrito – tão boa era sua vida de apaixonado. Tao passou então, no lugar de descrever seu dia a dia, a se dedicar a escrever o amanhã. Consultava discretamente sua parceira e depois inventava as mais deliciosas horas cotidianas, segundo o ânimo de cada um.

Numa sexta-feira, amanheceu sem roteiro. É que eles iriam viajar e os preparativos os consumiram, sugaram todos os minutos disponíveis na organização de tudo e Tao não pôde escrever nada. Deveria. Arrependeu-se amargamente.

O dia prometia acabar bem, quando um pesadelo tomou conta da situação. O táxi que os levava ao aeroporto se envolve num monstruoso acidente de trânsito. Isis vê um ônibus vir em sua direção, suspira e num derradeiro olhar ao seu amado Tão, o perdoa por não ter escrito um final melhor. Ela ouve seus ossos trincarem e por último, seu cérebro chacoalhar dentro de sua caixa craniana. Depois, o contínuo tracejar, o coma três, o sinônimo da temida morte cerebral.

Tao, volta, com seus poucos arranhões para seu refúgio, onde cada molécula, cada composto, objeto, canto; o martirizam por sua existência: haviam sobrevivido à sua amada. Tao outra vez só. Relê, em prantos, cada página/dia, ultimamente compartilhado com sua musa, a mesma que era agora, só um potencial conjunto de órgãos a serem doados.

Isis, Isis, porque não escrevemos tudo antes? Enlouquecido, começou a escrever o dia anterior, passo a passo, cena a cena. Desta vez, eles nem iriam ao aeroporto, mas ao seu sítio e ninguém dirigia um carro, tampouco estavam naquela esquina quando o ônibus chegava naquele instante. Ele escreveu fervorosamente durante toda a noite e adormeceu num transe, num sono profundo e nem sentiu as violentas forças do universo se retorcerem, intrincarem e, imbricadas, darem a volta para desfazer o já feito.

Tao acordou atordoado. Olhou ao seu redor e não detectou mudança alguma. Mas depois começou a olhar seu quarto e não o reconheceu. Mas sim, aquele era o seu quarto! Tao viu que alguém havia dormido ao seu lado. Levantou-se correndo e foi para cozinha. Seu coração parou: Isis estava lá, com cara de sono, perguntando o que comeriam naquela manhã. Tão faminta como sempre. Linda e faceira, como sucessivamente a descrevera. Seu relato havia sido um sucesso. Sua ficção enganando a morte.

Tao decidiu nunca mais escrever nada. Afastou-se dos seus diários de uma maneira inexplicável, mais ainda, resolveu queimá-los – todos, com uma única exceção. Ísis nunca entendeu, afinal aquela última e fatídica noite, não haviam escrito nada. E por essa razão todas as noites ele escrevia num caderno de capa dura branca: Nós estamos vivos e nós vamos acordar e viver amanhã. Mais nenhuma palavra. Assumia sua vida na própria existência da mesma. Mais nada era importante a ser escrito. Nada.


Silvia Cobelo - Roterista e escritora. Mestranda em Literatura espanhola na FFLCH - USP




 

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