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TAO
19/02/2008
Passara a escrever tudo que lhe
acontecia. Detalhes, acontecimentos pertinentes, emoções,
raivas, tudo que conseguia expressar por meio das várias
línguas que conhecia. À noite quando não
acontecia nada, depois de haver escrito que nada acontecia, ele,
então, ficava a ler tudo que havia escrito.
Corrigia seu texto, deformava
alguns fatos para fazê-los mais verdadeiros, encurtava
silêncios para não deixá-lo enfadonho, misturava
protagonistas para que parecessem mais interessantes. O que mais
apreciava era ver seu dia passado a limpo, um dia lindo, rico, cheio
de pessoas e fatos fascinantes. Tao transcreveu anos e anos da sua
vida, a preencher centenas de folhas com pequenos capítulos,
trezentos e sessenta e cinco ou seis deles por ano. Com o passar do
tempo, ele passou a arriscar já deixar escrito o que
aconteceria no dia seguinte, afinal sua vida era tão igual...
Não tentem fazer que
explique como ou mesmo quando aconteceu, mas num desses dias, Tao
tentou escrever o dia seguinte. Inteirinho. Só por
brincadeira. Ao acordar, escovou os dentes, tomou café, até
aí nada, mas depois perdeu o metrô como havia escrito,
foi admoestado por seu chefe, e ao voltar, perdeu seu guarda-chuva. A
parte boa? Só teve que corrigir uma ou outra coisa, o resto
estava pronto. Gostou da experiência e fez de novo. E assim
foi, escrevendo um dia antes, tudo que aconteceria no dia seguinte.
Confuso, sem saber se as
coincidências eram forjadas inconscientemente por ele ou não,
Tao passou doze meses, com tudo previsto e pré-visto, e
concluiu que aquilo era muito chato. Sua vida não tinha mais
graça. Resolveu então ousar. Passou a inventar
arrojadas aventuras para si mesmo - testemunha de crimes, extra em
passeatas, manifestações, e coisas que valham. E uma
noite resolveu que era hora de se apaixonar. Sentou-se a escrever e
inventou uma mulher, lindíssima e misteriosa, claro, que o
abordaria na estação e se apaixonariam perdidamente.
Esperou o dia seguinte insone.
Chegou à estação e quando a viu - ela era
exatamente como a havia descrito, teve que correr para despertar e
entrar em seu vagão. Ela deveria olhar para ele. Nada. A olhou
insistente. Nada. Concebido o inconcebível, Tao a seguiu.
Depois de alguns metros ela voltou-se e questiona: - O que está
acontecendo? Responder o quê? Afinal, como explicar a uma
personagem que ela é uma? -Nada, respondeu. -Achei
você linda, só isso.
- Só isso? Então
está bem. Achei que fosse um daqueles... Tão a
olha, já enamorado. - Quem? Ela olha para ele,
embevecida. - Deixa pra lá.
Foram tomar um café
juntos. Ela pediu um expresso, ele só um copo de água
mineral. - O que você faz? Ela demorou em responder.
- Nada. Ele retrucou: - Como assim, nada? Ninguém faz
nada. É uma contradição até gramatical, o
verbo fazer implica numa ação. Ela parecia
divertir-se. - Pois é. Eu consegui. Não faço
nada. Aliás nem sei porque estou aqui. É como se
estivesse sendo manipulada por um diretor invisível. Tao
sorriu antes de perguntar: - Ah Você é atriz. É
tão bonita. Ela é reticente. - É, acho
que sou. Sei lá. - Teu nome? Respondem juntos: -
Isis. Ela ficou surpresa. – Como é que
você sabe? Tão disfarçou: - Sei lá.
Vai ver que eu escrevi essa história. Ela achou graça
e o beijou na boca.
Passaram a se ver com
freqüência. Tanta freqüência, que Tao nem tinha
tempo para escrever e quando o fazia, a sua versão era tão
distorcida, resumida, maquiada, descuidada, que parecia qualquer
coisa menos a realidade. Muitas vezes até produzia um texto
mal escrito – tão boa era sua vida de apaixonado. Tao
passou então, no lugar de descrever seu dia a dia, a se
dedicar a escrever o amanhã. Consultava discretamente sua
parceira e depois inventava as mais deliciosas horas cotidianas,
segundo o ânimo de cada um.
Numa sexta-feira, amanheceu sem
roteiro. É que eles iriam viajar e os preparativos os
consumiram, sugaram todos os minutos disponíveis na
organização de tudo e Tao não pôde
escrever nada. Deveria. Arrependeu-se amargamente.
O dia prometia acabar bem,
quando um pesadelo tomou conta da situação. O táxi
que os levava ao aeroporto se envolve num monstruoso acidente de
trânsito. Isis vê um ônibus vir em sua direção,
suspira e num derradeiro olhar ao seu amado Tão, o perdoa por
não ter escrito um final melhor. Ela ouve seus ossos trincarem
e por último, seu cérebro chacoalhar dentro de sua
caixa craniana. Depois, o contínuo tracejar, o coma três,
o sinônimo da temida morte cerebral.
Tao, volta, com seus poucos
arranhões para seu refúgio, onde cada molécula,
cada composto, objeto, canto; o martirizam por sua existência:
haviam sobrevivido à sua amada. Tao outra vez só. Relê,
em prantos, cada página/dia, ultimamente compartilhado com sua
musa, a mesma que era agora, só um potencial conjunto de
órgãos a serem doados.
Isis, Isis, porque não
escrevemos tudo antes? Enlouquecido, começou a escrever o
dia anterior, passo a passo, cena a cena. Desta vez, eles nem iriam
ao aeroporto, mas ao seu sítio e ninguém dirigia um
carro, tampouco estavam naquela esquina quando o ônibus chegava
naquele instante. Ele escreveu fervorosamente durante toda a noite e
adormeceu num transe, num sono profundo e nem sentiu as violentas
forças do universo se retorcerem, intrincarem e, imbricadas,
darem a volta para desfazer o já feito.
Tao acordou atordoado. Olhou ao
seu redor e não detectou mudança alguma. Mas depois
começou a olhar seu quarto e não o reconheceu. Mas sim,
aquele era o seu quarto! Tao viu que alguém havia dormido ao
seu lado. Levantou-se correndo e foi para cozinha. Seu coração
parou: Isis estava lá, com cara de sono, perguntando o que
comeriam naquela manhã. Tão faminta como sempre. Linda
e faceira, como sucessivamente a descrevera. Seu relato havia sido um
sucesso. Sua ficção enganando a morte.
Tao decidiu nunca mais escrever
nada. Afastou-se dos seus diários de uma maneira inexplicável,
mais ainda, resolveu queimá-los – todos, com uma única
exceção. Ísis nunca entendeu, afinal aquela
última e fatídica noite, não haviam escrito
nada. E por essa razão todas as noites ele escrevia num
caderno de capa dura branca: Nós estamos vivos e nós
vamos acordar e viver amanhã. Mais nenhuma palavra.
Assumia sua vida na própria existência da mesma. Mais
nada era importante a ser escrito. Nada.
Silvia Cobelo
- Roterista e escritora. Mestranda em Literatura espanhola na FFLCH -
USP
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