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Tocado a Vento

Cristian Derosa

18/02/2008

Liberto-te pra que vagues errante pelas coxilhas até que Deus lhe tenha piedade, disse a voz gutural à fogueira noturna.

Conta-se ainda pelas bandas de São Pedro, que o Capitão, destemido e bravo como um dragão das coxilhas, desaparecera depois de ser prisioneiro dos imperiais. Mas outros dizem que o viram troteando pelos campos tempos depois e ainda pelejando contra o Império com a mesma espada com que degolou tantos castelhanos a lavar a honra com o sangue que derramou por este Imperador ainda infante. Eis a história que contam os fantasiosos com um pouco de verdade e um pouco de mentira.

Entre as numerosas guerras que assolaram o Pampa, uma destoou do simples uso da força pela soberania de um Império. Pois a força dos dragões do regimento do Sul havia sido desonrada pela soberania imperial cuja segurança lhes havia sido motivo de orgulho e depois, causa de miséria. Ninguém lembra-lhe o nome, tampouco uma alcunha que o identificasse. Somente o lenço vermelho, as botas couro negro, o tradicional pala. Um capitão cuja bravura o eternizou por estes campos, por estas trevas desérticas, cariciadas pela costumeira ventania. Trazia consigo o cavalo e a espada companheira das execuções. Testemunha de coragem embainhada em sangue de vitórias. Honrava o posto de capitão, lutou em tantas pelejas que nem mais se lembra qual lhe vitimara. Esqueceu-se até o nome, fruto dum nefasto nebuloso, só sobrara-lhe a espada e o cavalo, fiéis companheiros e únicas almas que vagavam no ermo cruel de um lugar bem ao sul das Américas.

A última coisa que lembra é da voz dum homem, dizia que o libertava. Uma chaleira chiando, uma galhada queimando, cheiro de picanha assando, ressoar de canhões e os macabros tambores dos bugres. Atordoado pela surra do dia anterior e da guerra que travara contra meia dúzia de capangas imperiais, levava no peito uma lançada superficial, mas doída. Lembra-se ainda de que o aprisionaram numa barraca e que perto dela ficavam os cavalos. O bagual que o acompanhara nas lutas era ainda forte e troteador, lançava relinchos como se o chamasse nas madrugadas, para que enfim fugissem. Ao pensar nos ferimentos, confunde-se ao não sentir mais nenhum deles. Até que Deus lhe tenha piedade, ouvia a voz na cabeça e depois disso lembrou-se de ter corrido para o bagual, montá-lo num sobressalto e varar a coxilha feito um raio. Nem deram com o desaparecimento, nem deviam tê-lo visto fugir, eram na certa mui distraídos. Foi nas coxilhas de São Pedro que o Capitão sem nome nem passado, tampouco fisionomia, encontrara um vilarejo. Errante, a olhar para trás, no temor de o estarem perseguindo, entrara sorrateiro na vila em que o vento assobiava alto e a chuva contornava ruínas. Restos de comida e corpos pelo chão. Carne, pão amassado, cheiro de queimado... Seria carne humana? Parecia, lembrava-se. Tinha cheiro de mortos, era um cheiro que nem o vento dispersava. Ouvia murmúrios vindos duma cabana. Uma mulher. A moça tinha um horroroso ferimento na perna e trazia no colo uma criança duns três anos, notadamente morta, decomposta, de pele cinza e olhos comidos pelas larvas. Chorava e pedia-lhe que o cuidasse, que o levasse a cidade próxima para curá-lo.

Mais alguns passos pela vila em ruína e o capitão deu-se conta de que havia sido invadida por bugres e não imperiais. Mataram todos e comeram a carne duns muitos que sobraram entre a negra terra das lavouras desenterradas, úmidas carniças de gente podre entre uma bruma louca e misteriosa, um odor de picumã na nuvem campesina. Bugres canibais. Outro sobrevivente o chamou e teve um súbito ao acreditar reconhecer no rosto do capitão, um bravo guerreiro que o tinha salvo nas terras orientais, noutra grande guerra contra os castelhanos pela qual morreram muitos à glória do Império. Mas o capitão não se lembrava deste homem.

Viu uma coruja vislumbrar a ruína de cima da cruz do que outrora sustentava uma capela. Queimada e rodeada de mortos-vivos, a capela resistira somente sobre duas colunas. A coruja alçou-se a pousar numa delas e parecia olhar firme para o capitão desconhecido montado ao pingo. Baixou o chapéu em respeito aos mortos e partiu, acreditando que aquela era uma verdadeira terra de ruínas.

Olhou a terra negra que já surgia entre colheitas fulminadas pela geada, travou pés fazendo alto numa das poucas savanas sombreadas que lhe acolhera. Ouvia rumores entre as árvores, mas concordou em não dá-los ouvido. Ocupou-se da fogueira e averiguar os ferimentos do animal. Dali a pouco, um suspiro encheu o ar e cairam folhas duma copa. Quem está aí, gritou o capitão, hesitante. Um homem de pele clara saiu das folhas dos arbustos com uma lança na mão e o capitão pôde então contar outros três em redor dele.

Diziam os homens, serem moradores da floresta e falavam numa língua estranha, mas amigada com o português hispânico que o capitão lhes falava. Vivem na floresta como bugres?, perguntou o capitão num certo ponto.

Era assim que nossos antepassados viviam, respondeu um deles. Vivemos assim para que um dia eles nos retornem as preces duma morte tranqüila para os que ficaram. E para que se alegrem quando nos visitam.

Mesmo sem entender o que eles diziam, o capitão os acompanhou para o interior dos arbustos que se transformaram em pouco em grandes árvores que pareciam trazer a noite para o dia, dentre esparsas rajadas de luz difusa que dava às suas habitações de barro, uma coloração dourada e paradisíaca, uma paisagem onírica e ao mesmo tempo perturbadora.

Amarrou o cavalo à vara que ficava na porta dos seus cercados, entrou numa das casas na companhia do mais velho dos homens que o guiava e conheceu o chefe deles, Servari um senhor de olhos verdes e semblante amigável. Nossa origem é Trento, na Itália, disse o velho. Mas há muito saímos de lá e por muito ainda ficaremos nestas terras. Nossos vilarejos pereceram nesta louca guerra e nos refugiamos nestas florestas. Mas não ache que aqui somos infelizes, do contrário. Aqui temos tudo o que precisamos. Nossas plantações dão sempre colheitas maravilhosas como em nenhum outro lugar dessa terra desértica de campos.

O capitão o perguntou se ele não pretende sair desta floresta, nem mesmo a fogo dos imperiais que rondam os campos fazendo mortes. O velho coçou a longa barba, bebeu dum chá morno que se derramava na sua mão tremula e disse furtivamente: Esta terra em qual vivemos é benevolente para conosco, mas não sem nos privar do que tínhamos antes dos imperiais aparecerem. Vivemos em fartura, mas à custa de nossa liberdade. Há nas folhas das copas, nos caules das árvores, no fruto que cai maduro, um mal que nos mantém prisioneiro. Este mal são as sombras da floresta. Elas vagueiam sobre o chão e matam nossos animais e colheitas quando do menor sinal de fuga dos seus aterradores domínios. Vivemos prisioneiros e não há esperança para nossas gerações, dizia o velho.

Ao passo dessa conversa, o capitão foi se deixando estupidificar ao ponto de perguntá-lo, tão rápido pudesse aproar o cavalo:

E eu? O que será de mim? Sou homem de campo, de liberdade, não posso ficar confinado à sombra duma floresta macabra...

Não terás problema algum no sair dessas imediações, disse Servari devagar. O soar das trombetas da guerra ainda não chegou e muito antes disso poderá seguir o seu destino de Dragão do Regimento republicano.

Mais calmo, capitão ficou impressionado com o conhecimento que o velho tinha sobre o que acontecia tão longe dali. Enquanto cuida do seu animal ferido, dizia o velho a arfar pesadamente o peito, ficas aqui na companhia do povo da floresta até que estejas pronto para lançar-se à guerra para que fora nascido.

Contam que o capitão ficou seis meses junto dos trentinos tratando de seu cavalo e afiando a espada para a briga que viria. Aprendeu a sobreviver na floresta e a usar de suas cores e formas para o intento da furtividade, da invisibilidade e dos meios maquinais com que podia vitimar estranhos. Mesmo sem memória, aprendeu novas técnicas de guerra com um povo acostumado à paz e à sofreguidão do exílio assombroso, mas de certa forma puro e idílico, daquela floresta em que sombras se arrastavam no entardecer. Devia pelear com os imperiais, era a única cousa que lembrava. Eles, que lhe tomaram a memória e destruíram seu passado, deviam pagar com juros, além disso, aos maus tratos do aprisionamento. Via, desde que fugira da coxilha campal, um rosto em sua mente. Uma mulher mui guapa e de cabelos negros que o parecia olhar, mirar os olhos a estarrecer de medo, como se morresse à sua custa, como se vitimada pelo algoz que zoneava os campos, malditos imperiais. Era uma linda moça que o arrancava da terra que jazia enterrado, um sonho que se repetia. Devia ser a esposa esquecida que estava perdida nos corredores labirínticos da sua mente confusa, trespassada por um sabre bandeirante. Não lhe vinha nem um nome.

Mesmo tendo percebido que o velho Servari sabia o bastante sobre o mundo exterior, o capitão não conseguiu extrair dele outras informações que o ajudassem na descoberta do seu passado misterioso, que levassem ao seu nome, ao nome da mulher que via em seus sonhos. Servari somente palrava em coisas como o espírito da floresta e das sombras que a regiam, pactos entre os trentinos e a própria floresta, terríveis tempestades e ventanias que varriam as lavouras e casas, os estranhos sacrifícios de animais que eram obrigados a fazer em toda a entrada de estação, assim como as luas e suas fases distintas, lendas que povoavam as cavernas do cânion e outras coisas que o capitão ouvia com atenção, mas sempre pensativo. Começou a achar que eles eram demasiado religiosos e achou que era hora de partir de encontro ao seu destino.

Na hora em que o capitão alçava-se sobre o cavalo, uma última palavra pareceu querer sair da boca do velho Servari, mas conteve-se e, ao invés disso, fez um sinal ao seu discípulo. Este por sua vez, trouxe ao capitão uma espada prateada muito límpida e com inscrições na guarda como uma letra ‘I’ em baixo relevo. Curioso, pensou em perguntar o que significava, mas ouviu um troar dos céus e recebeu um gesto apressado do velho sacerdote. Entendeu que devia ir-se dali o mais depressa possível e assim o fez.

Ao ocaso, não caiu nenhuma tempestade. À noite, também não chegara. O capitão não relutou em acreditar que aquela tempestade que se ensaiava, atravessou as montanhas e caiu-se somente sobre a floresta dos trentinos, tal era a sua sina. Compreendeu, mas tentou não tomar conhecimento de que àqueles seis meses que passou na floresta à companhia dos trentinos, conversava com mortos, fantasmas da floresta da sombra. No entanto, a misteriosa espada era real e a sua lâmina era marcada por degolas tal a sua que também trazia à cintura, e tal a adaga que lampejava ao sol. Naquela tarde, o capitão encontrou um riacho mui estreito. Ao perceber-se de que o fio se alargava, decidiu segui-lo. Chegou onde o pequeno riacho transformara-se num rio generoso e à beira de sua costa, havia um rancho.

Ao aproximar-se percebeu se tratar duma fazenda e ouviu em seguida, tiros vindos da colina qual iluminava um seleiro. Rompeu o trote até que os tiros ficassem tão mais alto que se podia sentir a nuvem de pólvora. No tilintar de espadas e gritos, o capitão desceu do cavalo e aproou perto da porta. Meio metro de distancia disparava um guarda regimentado. Sem olhar os lados e antes que o vissem, o capitão varou-lhe o peito com a espada prateada. Chutou um dos outros que aproximava e derrubou-o sobre um monte de feno. Viu um tiro atingir muito perto e puxou a pistola. Atirava sem mirar e os estampidos vinham acompanhados da espessa nuvem das explosões, começou-se uma correria pelo seleiro. O capitão esquentara uma briga que antes se arrastava em lentas fustigadas, trouxera a obrigação por um desfecho. Dois ou três tiros a mais se seguiram até que o capitão começou a enxergar no que estava metido. Era briga entre imperiais e camponeses, donos da terra. Até tiros do lado dos camponeses se viram vazar as poças e esboroar pipas de vinho. Eles não sabiam quem era aquele desconhecido que parecia que atirava a esmo. E o capitão ficou irado com a demora da briga a ponto de saltar sobre um dos guardas e o decapitar num só golpe, atirou-se no chão antes do tombo do último e já erguia a arma. Viu num lampejo que os olhos dos camponeses se elucidavam e eles notaram que o desconhecido não lhes era agressor, mas os havia ajudando. Daí, mais dois soldados do Império foram mortos com a ajuda dos camponeses e, ao tombar do último, eles ficaram muito gratos ao capitão.

Desculpe se nos confundimos, pensamos se tratar doutro invasor. Obrigado pela ajuda, disse o jovem com baioneta em mãos.

Eu ouvi o alarido e acertei que era briga, dizia o capitão. Tenho que encontrar o bando dos que matam imperiais. Quero ter briga até que logo eu morra e seja livre. Venho andando por essas terras errando e pastando a longos campos junto do meu cavalo e de minhas armas. Não me lembro de quem sou, nome ou profissão... nem ainda sei como é meu rosto. Mas sei que tenho de matar estes guardas fardados, pois sei que agem em favor dum Império ao norte deste país. Foram eles os culpados de todas as desgraças que tenho visto, exceto de uma cidade atacada, acredito, por bugres das cavernas.

O mais velho dos camponeses tinha uma barba rala e era muito magro. Aproximou-se e disse irado:

Pois aquela cidade que viste, transformada em ruínas, na certa, com gente morta por todo o lado, foi obra indireta do regimento imperial. Eles atacaram uma aldeia de índios no baixo da serra, no fundo do abismo, há cerca de três semanas. Os bugres são selvagens, não diferenciam imperial de republicano, pra eles é tudo branco. O que viste foi uma vingança à moda bugre.

O capitão assentiu com eles, aceitou a comida que lhe ofereceram, mas recusou-se a ficar com eles alegando que buscava a guerra. Foi-se pelo curso do rio atentando-se a vestígios humanos e obras desumanas. No caminho lutou com o ódio de si mesmo, por não saber quem era e quem deixava de ser. Sentiu um gosto amargo nos campos, como se a solidão do ermo o tivesse desgastando, oxidando, lhe tirando forças. Trazia dalgum lugar um sentimento de revolta que crescia assustadoramente. Foi então que encontrou um acampamento.

Dizimados por canibais, desta vez o regimento imperial teve a sorte que semeou e recebeu o troco dos bugres. O capitão riu-se ao ver os corpos fardados sem carne, com ossos a mostra, entranhas entumecidas e expostas ao sol. Roubou-lhes moedas e uma nova sela de cavalo. Acampou nas imediações durante a noite e temeu que os bugres novamente passassem por ali e o fizessem morto a frechadas tal os coitados que por ali fediam. É certo que houveram estranhos sons na madrugada e um ronronar ressoante que pôde ser ouvido longe dali. Mas era a madrugada e os seus mistérios. O mundo não devia estar cheio de imperiais. Eles certamente se escondiam muito bem e o capitão sabia também se ocultar na mata, conhecimento que herdou do pouco tempo com os trentinos, além dum passado oculto sobre o nevoeiro que rondava o acampamento.

Durante este período de erro, o capitão passou por colinas, florestas, fazendas e até chegou a passar a noite numa caverna. Dizem que lá ele teve assustadores pesadelos e que saiu de lá dizendo que havia uma tribo que vivia debaixo da terra. Não foram tão infundadas as declarações do capitão, pois quando ele saiu de dentro da caverna, saiu muito machucado, como se tivesse brigado com uma dúzia de cachorros e disseram que ele só sobreviveu graças a espada dos trentinos que estimulou algum tipo de temor nos aborigenes. Mas o ponto alto dessa estranha e heróica história se inicia quando ele encontra o grupo de guerreiros revolucionários e, reconhecendo-o, eles o convidam a liderá-los. Sem titubear, ante uma batalha eminente, o capitão aceitou e foi numa noite de terça-feira, com um lunar azul e crescente sobre os campos, que as tropas se dirigiram na espreita para uma batalha que decidiria o domínio daquelas terras ermas.

De manhã, no entanto, os campos onde o general do império mantinha guarda, amanheceram desertos e nada além do vento andava por aquele vale. O tenente, cujo nome também não se sabe, mandou que andassem mais dois quilômetros campo a dentro até que dessem com os sinais de ocupação demarcados pelo Império. Mas por mais que conhecessem aquela região, eles não imaginavam que naquele campo vazio e sem viva alma, tivessem erigido uma capela sobre a colina. E como se ela guardasse a floresta atrás dela e os mortos a protegessem no cemitério em seu derredor, a capela ostentava uma alta torre com um sino grande e negro dentro dela.

À porta, os soldados bradavam por alguém que os recebesse. Na certa abandonava-se no meio do descampado, devido algum ataque castelhano das décadas passadas, pois parecia muito mal cuidada. Mas era estranho e o capitão nunca tinha visto nada igual. Uma capela em meio do nada, sem casas na volta, só o cemitério a impor-lhe o silêncio. Sabia que igrejas só emergiam à sombra de povoados fundados por abonados senhores que as mandassem construir, depois de plantarem uma figueira e a batizassem de praça central.

Bateram na porta com toda a força até que uma voz assustada e sufocada implorou-lhes paciência. Era um padre baixo e esguio, muito velho, com o cabelo branco como algodão. Tinha a pele muito branca e olhos azuis. Disse solenemente:

Aqui é a casa de Deus e não há lugar para desordeiros. Mas se o que querem é orar por seus pecados e confessar-se com o Senhor, posso interceder por suas almas junto ao Pai.

Vimos pedir que deixe a capela, padre, disse um dos que vestiam farrapos a contemplar a torre e as vigias. Os imperiais estão às voltas e não terão piedade do senhor se estiver em terreno de batalha. Sua casa de Deus servirá de esconderijo ao inimigo e vosmecê será posto neste cemitério.

O velho largou um sorriso no rosto.

Ora, filho, nenhum de nos deve temer a guerra, uma vez que aqui estão protegidos pela graça do Senhor. Eles não podem entrar aqui. Também são filhos de Deus, cristãos como nós.

O capitão então pareceu zangar-se com o vigário.

Eles não têm piedade nem de velhos como o senhor. Na guerra não há lugar para religião. O senhor está no lugar errado, a não ser que tenha o seu Deus o poder de abrandar a nossa fúria e a insensatez dos regimentados.

O tenente pareceu contagiado pelas palavras do capitão.

Terá ele o poder, além disso, de proclamar, com força de exércitos, a República dos Mortos, qual vivemos, onde o terrível poder do império seja varrido por nossos ventos para fora dessa terra para sempre?

O vigário moveu-se lentamente abrindo as portas da capela e, com um gesto a convidar todos, disse:

Eu vos convido a abrigarem-se neste santuário divino. Lembre-se, meu filho, este é um lugar sagrado.

De repente, como se alguém munido de mal agouro quisesse contradizer as palavras do padre, um estrondo correu sobre os céus e uma explosão ouviu-se diante da capela. Todos flexionaram os joelhos ao mesmo tempo e o padre foi rapidamente até a janela olhar o que sucedia. Sai daí, padre, gritou um dos farrapos. Outra explosão e o trote de cavalos.Uma trombeta zombeteira pareceu declarar a impotência dos farrapos, pois eles não conseguiam ver de que lado vinham os canhões.

A batalha na Capela de São Pedro ficou famosa entre os que conhecem a lenda do Capitão. Naquela batalha, o tenente farrapo comandou um grupo que subiria a torre. Outro pequeno grupo, liderado pelo capitão, sustentaria o combate na porta e janelas da igreja. O padre, como bom cristão, foi orar no confessionário e só saiu de lá morto. Os farrapos logo ficaram encurralados quando os guardas entraram, à força de canhões, pela porta e deram inicio ao combate corpo a corpo. Neste o capitão sofreu alguns ferimentos, mas enfim percebeu que ali dentro não haveria como ganhar aquela peleja. Foi então que ordenou que todos fossem para o cemitério às voltas a fim de ganhar a floresta que dominava os fundos da capela já em chamas. Como o capitão previu, os guardas regimentados e portando seus estandartes imperiais, invadiram a floresta com seus cavalos e não tardou para que muitos se atolassem no lamaçal ou se enroscassem nos cipós e barbas de pau, galhos espinhosos cujo perigo o capitão e os outros conheciam a distancia. Alguns foram surpreendidos por farrapos enquanto lutavam com os galhos secos em que os seus cavalos se prendiam, outros até pereceram na própria lama ou atacados por pumas, cujas tocas invadiram sem conhecer. Até mesmo os farrapos liderados pelo capitão se admiraram do perigo que aquela floresta nativa representava para os que não a conheciam.

A batalha da capela de São Pedro, que a chama fulminou até as fundações, trouxe ao capitão a lembrança dos trentinos e do tempo que passou na floresta e, ao lembrar das palavras do velho vigário, imaginou se seria correto chamar uma construção, erigida pelas mãos do homem, de sagrada. Uma construção por mãos que só semeiam a destruição e que pode ser facilmente destruída por elas. E a floresta que lhes havia salvado dos imperiais seria verdadeiramente um mundo fantástico e sagrado. O capitão dava-se conta, aos poucos, dos detalhes de tudo aquilo que lhe vinha acontecendo. A capela perdida no meio do nada, a floresta das sombras. Tudo aquilo parecia-se com um sonho. Mas não era um sonho. Era a terra do sul que, aos seus olhos, formava-se de esplendores jamais vistos antes. Foi preciso perder a memória para que percebesse o quão onírica era aquela paisagem do outono austral.

Mais adiante, as tropas da horda imperial acabaram por encontrar os farrapos numa batalha campal que seria, antes de tudo, premeditada. O velho Servari, dos trentinos, havia falado sobre os presságios que afligem-nos as corujas. E o capitão lembrou-se disso quando olhou o alto da araucária naquela manhã em que ouvia, de quando em quando, o trotar de cavalos numerosos e a trombeta insistente do outro lado das colinas onde os imperiais preparavam-se para o embate. Por muito tempo, questão de horas, os preparativos causavam alaridos entre os farrapos que afiavam facões, espadas, adagas, faziam lanças e, tomados duma sedenta e doentia alegria, engraxavam botas, lavavam os encarnados lenços e lustravam até reluzirem ao sol, aquelas espadas crioulas que se encontravam tingidas do sangue imperial, de castelhanos e de tantas guerras que empreenderam. De pouca pólvora dispunham, de modo que o exército farrapo era, em verdade, um exército de armas brancas. O que não lhes atemorizava os ânimos, pois uns muitos já bradavam ao alto teor do vinho e das cachaças que guardavam nas barricas, à honra reconquistada sobre o sangue dos estrangeiros, tal chamavam aqueles bandeirantes. O capitão isolava-se daquela festa, pois temia por sua vida. Ou algo ainda pior que não sabia bem o que era. Teve uma impressão de repetição quando viu no alto da colina uma daquelas corujas do outono novamente a lhe dizer com os olhos. E pensou no que havia de ter deixado para trás, mulher, filhos, sabe lá. Não lembrava de nada.

Finalmente, ao toque duma trombeta que diferia das outras, um toque que agudava em fina e trêmula insistência, sentiu que aquela era a primeira trombeta. A que daria inicio á guerra. Não mais temia. Seus sentidos tomaram-se pela avermelhada fúria da guerra e ele puxou para si a garrafa de cachaça da mão dum farrapo gordo. Vamos tingir os campos de vermelho, disse o outro. Isso, respondeu. Vamos encarnar o campo. E de inicio uma correria, um trotar que fazia a terra tremer. O general imperial era de longe o mais ostentoso e glorioso dos soldados. Via-se lá de baixo da colina, a sua postura ereta de bandeirante. Tinha mais de cinqüenta anos e dava pra ver as cicatrizes no rosto.

A julgar pelo número, os farrapos estavam em clara desvantagem. Ainda os muitos problemas que lhes afligia, como a falta de armas de fogo, trouxeram grandes tormentos e horrores no inicio da peleja que se restringia em combate de cavalaria. Os muitos canhoneiros deram problemas ao capitão quando este tentou aproximar-se da colina a qual eles se acastelavam. Enrodilhados por cavaleiros exímios, os imperiais não creram na sua aparente decaída e nas baixas sucessivas que ocorreram num determinado momento. Mas havia por iniciar as baixas também do lado dos farrapos que começaram a cair acavalados como peças de dominó. Na última das fileiras houveram lanceiros farrapos que derrubaram enormes colunas humanas dos bandeirantes imperiais. No entanto, as poderosas bombas lançadas pelos canhões chegavam a derrubar uma ou duas dúzias de ginetes. Por força deles, porém, muitas estruturas de canhões sofreram quebras em suas rodas e os impedia de chegar mais perto. Isso possibilitou uma retirada estratégica, novamente amparados pela floresta. Desta vez, no entanto, não foram todos os imperiais que os seguiram guiados pelo calor da batalha. Alguns pareciam temer as florestas e entravam à custa de muitas ordens e gritarias que faziam no campo.

Nem bem os imperiais amontoavam-se sobre a lama do pântano, envolvidos por espinheiros e cipós, os soldados apressavam-se a varar-lhes com espadas e lanças fazendo-os afundarem como troncos pesadamente. Alguns até se apropriaram das armas de fogo dos imperiais e isso trouxe substancial avanço às tropas do capitão. Mas os olhos do capitão estavam bem acima daquela colina que reinava no horizonte tremulo. O general. Alguns podiam pensar que o capitão fugia da batalha. Enrolou-se no pala que atava ao cavalo, trespassou a floresta, desembainhou a espada de prata, presente dos trentinos. Voava como o vento e com o vento. Achava-se num mar de campos repleto de mortos, de cadáveres, de almas. Podia ver-lhes o espírito. No correr do vento, o capitão sentiu que via os mortos andarem pelo campo ainda a guerrearem sem darem-se conta de que haviam morrido. Fazia tempo que os estava vendo. Não percebia. Mas ainda preso aos olhos do general, tão longe, alvo certo que havia de perfurar com a espada, via estilhaços zunirem em seu redor. Balas vazavam a terra e estouravam em fumaça nos estampidos costumeiros. Pouco podia ver. Mas corria já mais que o vento. Pouco mais de três metros do general, levantara a espada. O trotar o confundia a visão. O torpor e a fúria o embaciava os sentidos, os muitos tiros, até que o chão o atingiu. Caiu de borco sobre corpos empapados de sangue. Pensou ter apenas caído do cavalo, mas havia sido atingido e sangrava. Levantou-se e encontrou o rosto do general na sua frente. As cicatrizes eram reais assim como as via na distancia e na sua mente enlouquecida. Em roda dele, os soldados ameaçavam com as baionetas o pescoço do capitão e o general aproximou-se sorrateiro e risonho.

Tens muita sorte de ter conseguido chegar ao meu encalço, capitão desertor. O capitão cerrava os olhos, tentava visualizar o que se passava. Estás mal!, disse o general. Tens uma ferida grande na barriga. O capitão então juntou forças e disse: O meu fim não vai terminar com essa guerra, nem fazê-lo avançar sobre este campo.

Não lembras de mim, capitão?, disse o general aproximando-se. O outro alardeou os olhos e os sentidos, aquele homem o conhecia. O poderia dizer quem era, descobrir seu passado.

Lembro de ti, disse o capitão a fim de que o homem desse novas pistas a seu respeito. Se soubesse da perda de memória, o faria morrer sem saber.

Então deves saber que não vou mandar que te libertem novamente, dizia o general dando-lhe as costas. E virara-se mais uma vez. Serás meu prisioneiro até que entendas que não há refúgio simples aos que revolucionam a terra do Santo Império.

Espere, ainda gritou o capitão.

Mas o general não deu ouvidos.

Naquele descampado atingido pela guerra, havia somente sangue pelo chão e o capitão percebeu que os seus homens haviam sido também aprisionados. A batalha chegara ao fim, o Sul e o deserto seriam julgo dos senhores imperiais e do exército de seus dragões, enforquilhados em cavalos fantasmagóricos, tal os seus rivais mortos em tempo de guerras, sem dar conta da própria morte, por tanto tempo vagando pelos campos. Aquela havia sido uma batalha pós-morte. O trote, o alarido e as trombetas não puderam ser ouvidos por ninguém.

Foi levado novamente ao acampamento da prisão e por lá foi ficando. Sentia aquela assustadora agonia de não lembrar-se quem era nem de quem deixara para trás. Achou que aquela incerteza duraria séculos, milênios. Às tardes, permitiam que tomasse o seu chimarrão com os companheiros aprisionados e assim o capitão permaneceu por longo tempo. Compreendeu o recado da coruja outonal e viu que às voltas da prisão, havia uma mulher com o filho no colo, um padre esguio e farrapos com ferimentos mortais.

Naqueles meses em que vagou sem destino, com a única idéia de encontrar os inimigos, ele já era como todos que encontrou no caminho. Meras almas sem nome, tocadas pelo vento dos campos.




 

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