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Cyber prosa poetica

Jose Manoel Ribeiro

::08/02/2008 ::

 

 

1. O EPISÓDIO

O ar estava incrivelmente seco. As gotículas de saliva pareciam petrificadas em sua boca como grãos. Os lábios colados por um grude pálido resistiam aos movimentos. A irradiação de domínio em sua face vinculava-se aos seus tímpanos. Os olhos vendados por uma corroída flanela remoíam-se como dois frutos amargos. De joelhos, agora, esperava a morte plúmbea atravessando-lhe: os segundos mais ridículos e perniciosos que vivera; os instantes mais caóticos e simples. A morte. A voz escarnecedora vinha rufando pela fronte. Um suspiro de satisfação lhe ventilava a nuca. O arrastar otimista vinha da esquerda, os passos fumegantes à direita. Dois a dois, sincrônicos. Uma imagem tracejada e disforme sugava a sua mente. Eram torres humanas se movimentando como escorpiões. O fremir dos dedos eram ventanias carnais. Metalizadas.Como tochas livres em mármore eles são apontados de oriente a ocidente pela âncora dos braços. Dois disparos irmanados e uníssonos. Dois corpos desenhando estrelas imperfeitas no espaço azul. E um vermelho gotejante. Gotejante.O pivô contorce seu tronco levitando as hélices musculosas. Agora norte e sul. Mais dois disparos entre os hemisférios. Os olhos das vítimas recusam-se a acreditar e esvaecem lentamente antes dos créditos finais. Quatro mortos. E outro tipo de falência. Uma espécie rosa dos ventos e dos pesadelos. Era o sinal da cruz desenhada numa superfície estéril. Na superfície estéril de uma grande tela: bandidos e mocinhos todos mortos.

2. ENTRADA PROIBIDA

Os cabelos dela tinham inúmeras cores sobrepostas. De azul petróleo à rosa claro. Quando ela os balançava era possível ver as lentes violetas pinçadas pela fluorescência do abajur. O nariz perdera a delicadeza desde o primeiro piercing. E já haviam chegado a quatro. As orelhas eram detalhes para os múltiplos adornos de metal. Estava sobre a cama com ele. Ele. Produzira no cabelo curtíssimo, como caminhos infindáveis de ratos, a frase youth against the facism. Da ponta do olho esquerdo, até o centro do queixo, fixara eternamente uma tatuagem tribal. Os caninos originais foram substituídos por caninos de ouro. Nos punhos, braceletes de couro. Nos dedos, enormes anéis com caveiras forjadas. Olhava para os outros espalhados no carpete. Os outros. Jovens e não tão jovens. Repetições das mesmas imagens, com poucas variações. Talvez uma ou outra tatuagem a mais. Talvez uma ou outra tonalidade de tinta diferente nos cabelos. Ouviam, extasiados, a música vinda da sala. A música. Eletrônica. Metálica. Reverberava por todos os cômodos e transpassava os tímpanos dos convidados. Os convidados. Desde um Office-boy pichador até um médico depressivo. Desde uma estudante ginasial grávida de gêmeos até um advogado (divorciado) que acompanhava o filho (viciado). Divertiam-se com as bebidas. As bebidas. Latas e mais latas de cerveja uruguaia. Garrafas e mais garrafas de uísque nacional. Quatro ou cinco litros de tequila. Dois ou três vasilhames de cachaça mineira trazidos por um policial civil. O policial. Fora atacado pelos cães de guarda quando entrava na casa com os vasilhames. Matou dois deles. Os cães. Três filas brasileiros, um pit bull, um hotvalley e dois pudolls toy. Os pudolls foram os escolhidos. Os corpinhos de felpa permaneceram num canto do muro, do lado externo, próximos aos sacos de lixo. Sob uma placa de aviso pintada à mão: Entrada proibida para pessoas estranhas.

3. DA INSIPIDEZ

As cinco pernas cruzadas sobre as outras cinco davam a impressão de uma enorme dobradura. Papeis de seda. Impermeáveis. Recostadas sobre um sofá de couro escurecido eram o retrato de uma grande mão de palma negra e dedos brancos. O bar. Tentáculo da festa. Único braço mundano capaz de possuí-la. A mesa. Objeto de descanso. Onde mãos, pernas e copos repousavam. Etílicos. Repletos. Vazios. Esmalte, estrias e álcool. Do outro lado e envolta eram olhos. Masculinos e instantâneos. Incontroláveis a ponto de se esbarrarem no ar. Contra a música. Secos a ponto de verterem lágrimas. Evaporadas. Esquecidas. Um se aproxima. Outro. E mais outro. Um a um. Repelidos. Um após outro. E as pernas em espiral. Entrelaçadas. Um utensílio doméstico: estrangulador de homens. Em duas voltagens. Alumínio de osso e carne. Por uma noite. Garantido. Variz oculta. Serão somente pernas? Cabelos de medusa sobre tesoura cega. Até às três da manhã. De domingo. Movimentos dispersos no ovário. E o bar omisso. Exausto. Por passar a noite inteira tentando domar a insipidez: Um animal furtivo. Substantivo feminino. Ainda assim. Ápice dessa cadeia alimentar.

 


Professor, residente na cidade de Jequie, Bahia.


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