A "anomalia"
Uma ficção
científica de um autor Amador
Cássio Henrique Amador
"Nós, seres humanos, tentamos
vislumbrar o infinito. Estudamos e pesquisamos para tentar compreender os
vários infinitos que nos cercam, mesmo que, hoje em dia, a maioria não se
importe para isto. Alguns dos infinitos que vasculhamos e analisamos tratam
sobre a origem e o fim do universo.
Sobre o fim do universo, as medidas
mostram que ele se expandirá para sempre e sempre. Sobre o começo, elas apontam
para um universo pontual com energia e temperatura infinita.
Este ponto começou a inflar e crescer em
três dimensões, mas tudo indica que existem dimensões que não cresceram.
Inicialmente a radiação era dominante, mas, passado um certo tempo (ou,
equivalentemente, depois que o universo atingiu um certo tamanho), a matéria
passou a dominar e as partículas (como elétrons e prótons) começaram a se
formar e se ligar para formar átomos. Depois formaram moléculas, que se
atraíram e surgiram os objetos macroscópicos. A partir disto vem toda a
história que se encontra em qualquer revista ou livro de divulgação científica
de cosmologia."
Meu nome é Tucunamã, e estou lendo os
registros de uma época remota. Estou séculos à frente de quando isto foi
escrito. Estas mentes não estavam preparadas para o que estava para acontecer.
Nesta época nem a teoria de cordas havia sido confirmada, o que viria a
acontecer definitivamente algumas décadas depois.
Não consigo imaginar como funcionava a
mente dessas pessoas. Eu gostaria de saber a reação delas quando a
"anomalia" foi vista pela 1ª vez.
Naquela época os astrônomos já não mais
olhavam diretamente para o céu, e usavam computadores para tal fim. Mas um dia
um rapaz de nome Santiago Smith Inoyshida, que trabalhava num observatório,
olhou diretamente num telescópio e observou curioso um fenômeno na constelação
de Cão Maior, próximo a Sirius (que é a estrela mais brilhante que se pode ver
a olho nú da Terra). Foi vista uma fonte de luz muito intensa que apareceu e
sumiu. E isso se repetiu, hora em intervalos de 6 minutos, hora de 12 minutos,
e em outros tempos também. Isso ocorreu durante dois dias. Outros observatórios
foram informados do fenômeno e todos que puderam observaram-no. Não podia ser
visto a olho nu. E não havia nenhuma explicação lógica para o fenômeno, pois
não havia indícios de que era uma supernova ou qualquer outro tipo de fonte de
energia tão intensa.
Vários meses depois uma onda de calor
atingiu a Terra, abalando muito seu ecossistema. A origem dessa onda foi exatamente
o ponto em que foi avistada a luz intensa, e se revelou ser uma onda de raios
cósmicos ultraenergéticos.
Depois de feita a comparação entre as
posições das estrelas que ficavam atrás da fonte de luz antes e depois da
emissão de luz, foi constatada uma grande diferença entre suas posições
aparentes. Na época foi suposto que um buraco negro tinha atraído uma estrela
gigante para dentro dele, e por isso a luz dessa estrela não chegava até nós.
E, por algum evento desconhecido, quando a estrela estava sendo destruída,
ocorreu uma emissão de energia eletromagnética e uma onda de partículas
energéticas, provocando as emissões de luz e a onda de calor.
Devido à proximidade deste suposto
buraco negro, uma sonda foi planejada para ser lançada, se aproximar dele,
coletar dados e enviar o que pudesse para a Terra. A sonda então entraria no
horizonte de eventos e se perderia para sempre, mandando dados até quando
pudesse.
O envio da sonda demorou 30 anos para
acontecer. Décadas depois ela chegou próxima do então chamado "buraco
negro". Quando se encontrava a uma certa distância do local do evento,
passou a enviar informações e dados que coletava do espaço, tais como pressão,
radiação e gravidade. Uma câmera de vídeo transmitia imagens e fotos eram enviadas.
Os cientistas encarregados de analisarem os dados logo viram que não era um
buraco negro. Tinha um formato oblato, longo, como uma grande salsicha
semitransparente a todas as radiações, que curvava a luz das estrelas que se
encontravam atrás dela. Na verdade, só se podia supor seu formato devido ao
desvio da luz, mas seu tamanho real não era possível estimar. Quando a sonda
estava bem próxima do suposto horizonte de eventos, ela aparentemente
"enlouqueceu", mandando dados totalmente incoerentes, como pressão
negativa e positiva, temperatura próximas do zero absoluto e outras impossíveis
de medir de tão altas, tudo mudando em intervalos de milésimos de segundos,
durante meio segundo, e veio o silêncio. Como se a sonda tivesse sido
"engolida" pela então recém chamada "anomalia". Nunca se
soube o que houve com a sonda.
Foi decidido que mais dados deveriam
ser obtidos. Falou-se em enviar seres humanos novos, que com o tempo de viagem
iriam crescendo, estudando e se preparando até se aproximarem da
"anomalia".
Claro que essa idéia foi descartada, e
um plano mais plausível, porém complexo, foi escolhido. Próximo à
"anomalia", que estava estática com relação a seus astros vizinhos
durante todo este tempo, existia uma estrela que estava a uma distância aparentemente
segura, chamada M27082005. Nessa estrela existia um cinturão de asteróides que
contém um asteróide muito grande onde poderia ser construída uma base de
entreposto entre a Terra e a "anomalia". A partir desta base seria
mais fácil enviar sondas para obter-se mais análises.
Depois que os seres humanos conseguiram
estabelecer bases em Marte, testaram uma base em Ceres, o maior asteróide do
cinturão que existe entre Marte e Júpiter. Obtiveram sucesso depois de
descobrirem e aceitarem que não conseguem fazer bases auto-sustentáveis,
necessitando de alimentos e outros materiais que teriam que ser enviados da
Terra. Com isso se sentiram seguros para criar uma base no asteróide perto da
"anomalia". Em homenagem a Ceres foi escolhido o nome de Serec para o
maior asteróide desse cinturão, com aproximadamente 900 km de diâmetro e
extensas partes planas, onde seria construída a base. Tudo isso foi descoberto
por outra sonda que foi enviada especialmente para estudar o asteróide.
E é aqui onde me encontro, numa cama
dentro de um dos minúsculos dormitórios deste asteróide. Tenho 25 anos e serei
um dos controladores dos robôs que serão enviados à "anomalia".
Como enviar pessoas é uma empreitada
suicida, pois ninguém sabia o que podia acontecer com qualquer coisa que fosse
enviada, a idéia mais aceita seria enviar um RIDA (Robô com Interface
Digital-Analógica), pois eles são controlados diretamente por seres humanos.
Mandando e recebendo informações por ondas de rádio, a pessoa fica ligada
diretamente ao robô, agindo como se estivesse em seu lugar. Um programa de
computador e um sistema de segurança impedem que sejam causados danos ao
controlador do robô, caso algo ocorra com a máquina.
Fui escolhido por ter algumas
habilidades necessárias para esta empreitada. Uma delas é que estou acostumado
com o espaço, pelo menos mais do que os terrestres. Eu nasci aqui. Alguns dizem
que não sou humano, pois não nasci na terra. Até onde sei, eu sou humano. Uma
grande diferença é que estou acostumado a olhar para o vazio e as estrelas
diretamente, sem uma atmosfera no meio. E a gravidade daqui é aproximadamente
dez vezes menor que da Terra, muito parecida com a da Lua, fazendo com que meu
corpo tenha formações ósseas e sistemas nervoso e sangüíneo diferentes. Fui
criado numa proveta e incubado até ficar “pronto para nascer”, como ainda
dizem. Mas isto não é diferente do que ocorre com a maioria das pessoas
terrestres.
Mas chega de falar de mim. Para a
missão de nome “Supimpa” foram preparados dois robôs e três controladores. Os
robôs sairão daqui a quatro dias, dentro de uma cápsula. Os outros dois que
controlarão os robôs são Genin e Genan, ambos nascidos na Terra, e vivem aqui a
mais de 20 anos. Têm 40 anos de idade e são gêmeos. (lembrando que os anos são
contados com base no tempo terrestre. Isto é um padrão usado em todos os
lugares que têm seres humanos).
A cápsula tem formato esférico, de raio
externo de 3 metros. Dentro dela os dois robôs ficam armazenados em
compartimentos. O robô de forma humanóide, carinhosamente apelidado de
"Roxana", tem câmeras e sensores ao longo do corpo todo. Para
controlar estes sensores é que os gêmeos serão usados. O segundo robô, de nome
"Bolinha", será solto no espaço. Ele se parece com uma sonda, e
captará dados com o máximo de precisão que a tecnologia atual permite. Caso
necessite de ordens adicionais os gêmeos também o controlarão.
A estratégia é simples. A cápsula
esférica será acoplada a um propulsor (pois a cápsula é pequena demais para
carregar combustível, só tendo um pouco para emergências), que a levará até a
estrela mais próxima da "anomalia", a M25032006. Quando se aproximar
dela, a cápsula se soltará e o propulsor orbitará um planeta gasoso que orbita
a estrela, economizando combustível. A cápsula então se aproximará da
"anomalia" e com a ajuda de foguetes auxiliares irá tentar parar em
uma distância fixa em relação à posição do objeto de nosso estudo. Então ela
irá abrir e soltar os dois robôs. A sonda ficará sempre a uma distância segura
do primeiro robô. Numa nave eu e os gêmeos ficaremos orbitando a M25032006 e
assim controlaremos os robôs, pois do contrário, se ficássemos em Serec, nossos
comandos demorariam para chegar, atrapalhando a utilização da tecnologia RIDA.
Roxana poderá voltar para a nave
através de pequenos propulsores de gás comprimido que se encontram em suas
costas. Também poderá ser puxada de volta para a nave através de um eletroimã,
que atrairá as cápsulas de gás comprimido, caso ela seja atraída para muito
longe, ou se o controle sobre ela for perdido.
Roxana é um robô inteligente, e tem
muitas informações guardadas em sua memória. Feita de plástico e polímeros, tem
uma boa inteligência artificial, mas não tem consciência. Foi demonstrado a
décadas atrás que nós, seres humanos, não poderíamos criar vida de algo
não-vivo.
***
O dia do lançamento da missão se
aproxima. Todos estão muito apreensivos, incluindo nossa querida chefinha.
Quando esta missão acabar, vou poder conhecer a Terra. Existem algumas cidades
interessantes em Marte, mas meu interesse maior é na Terra. Os gêmeos vivem
dizendo coisas sobre lá. Deve ser muito bonita vista ao vivo. Claro que já fiz
várias IRV (Imersões em Realidade Virtual) nas paisagens de lá, sentindo odores
e tato, mas ainda sim tenho vontade de ir.
Os robôs foram checados novamente pela
equipe responsável e aparentemente tudo está em ordem. Como amanhã será o
lançamento, hoje vou me concentrar e ficar tranqüilo, afinal serão três dias de
viagem. A cápsula dos robôs sairá um dia depois, pois ela será lançada de outro
modo, para ir mais rápida. A técnica utilizada economiza combustível do
propulsor da cápsula, mas poderia matar um ser humano. Se tudo correr como
planejado a cápsula nos encontrará perto da estrela assim que estivermos
chegando.
***
Sem novidades em relação à chegada de
nossa nave e da cápsula ao redor da estrela. O propulsor orbita o planeta e a
cápsula se dirige à "anomalia".
Estou confiante, mas os dois gêmeos
estavam receosos sobre a missão. Conversaram novamente sobre religião, crenças
e profecias malucas. Eu não me preocupo com este tipo de bobagens. Eu acredito
na ciência. Já me ofereceram livros eletrônicos que tratavam de religião, mas
eu recusei.
Acredito no sucesso desta missão. Se a
"anomalia" é hoje desconhecida algum dia não o será mais. No máximo
perderemos o robô Roxana nesta missão. Esta nave está a uma distância segura de
qualquer coisa que possa nos atingir. Os computadores fizeram uma leitura de
radar das proximidades e tenho certeza em sua confiabilidade. Algo na
velocidade da luz demoraria alguns bons segundos antes de nos atingir. Mas
espere! Tenho que me concentrar agora.
A cápsula se aproxima. Agora estou
sentado no aparelho que me liga ao robô. Ao me conectar, vejo e sinto tudo ao
redor de Roxana como se eu estivesse lá. Sinto ela presa dentro da cápsula Sou
solto no espaço. Antes de soltar-me perguntei à cápsula se está tudo certo. A
resposta é afirmativa.
Estou me aproximando de algo. Já estou a 3
quilômetros da cápsula. Estou me aproximando da "anomalia" (na
verdade me aproximo da vulgarmente chamada “região fantasma"), quando
Roxana terá cruzado a suposta delimitação do objeto, e essa informação não terá
ainda chegado até mim por causa da distância que nos separa.
Que coisa estranha. Um objeto que
parece não estar lá, mas sinto sua presença como se tivesse milhares de
quilômetros de tamanho. As estrelas através dele tem um brilho estranho, e
parecem se movimentar. Tudo isso já tinha sido observado. Mas é uma sensação
diferente observar isto de tão perto.
Estou me aproximando. Sinto agora como
se algo tivesse me puxado. Que sensação inesperada! Estou sentindo a presença
de algo! Estou sentindo paz! Uma sensação de paz toma meu corpo. Agora sinto
outra presença... não, é impossível! NÃO! N...
******
Uma pequena nave se aproxima de Serec.
O computador dela conversa com o computador de controle de tráfego (CCT) do
asteróide, pedindo permissão para pousar. Enquanto isso, dentro da nave, o
único tripulante é retirado do estado criogênico. Ele recobra sua consciência,
e começa a se alongar. Esticado seus músculos e ossos, faz suas necessidades,
veste uma roupa especial, coloca o capacete e espera a aterrissagem.
A nave se aproxima suavemente da base
instalada no asteróide, usando foguetes para diminuir sua velocidade.
Antes de passar por um dos inúmeros picos
de rocha que recobrem Serec, o tripulante vê a fonte de energia do lugar, que
tem grandes proporções. Como estão muito distantes da estrela sobre a qual o
asteróide orbita, impossibilitando o uso de energia fotoelétrica, a fonte de
energia é um reator a fusão nuclear. Ele funde isótopos de hidrogênio e produz
energia térmica, que é captada por água, e esta água movimenta uma turbina. A
energia elétrica gerada é passada ao asteróide através de um cabo muito grosso
e bem protegido.
Este método de energia foi escolhido
porque o elemento usado na fusão (os isótopos trítio e o deutério) é facilmente
obtido nos asteróides próximos. A pouca água que precisa ser reposta (pois os
sistemas de tratamento de água são excelentes, perdendo somente uma parte ínfima
de água) é obtida de pedaços de gelo de asteróides. O reator foi construído por
robôs ao longo do tempo em que um rebocador o tirou da Terra e o transportou a
Serec.
E pelo fato de usar um cabo ligando o
asteróide ao reator, é possível mover o asteróide de órbita conforme se muda o
comprimento do cabo, pois o reator tem 20% da massa do asteróide.
Tudo isso passou pela cabeça do tripulante
quando este chegou naquele lugar inóspito.
Sua nave se acoplou ao portão de
entrada da base. Com tudo bem vedado, o tripulante se dirigiu à porta, sentindo
problemas em se locomover na gravidade local. Ela se abre, e do outro lado tem
três pessoas paradas em pé, também vestindo trajes especiais e com capacetes.
O tripulante sai da nave, e a porta
atrás dele se fecha. Ele está num tubo que liga sua nave à base.A pessoa no
meio dos três, que está mais à frente, consulta um dispositivo em seu braço, e
diz, numa voz recriada digitalmente transmitindo para o exterior o que se fala
dentro do traje:
-
Tudo certo, podemos tirar os capacetes.
Todos apertam botões em ambos os lados
do pescoço. Ouve-se um ruído de ar comprimido sendo liberado, os capacetes se
soltam e todos tiram os capacetes ao mesmo tempo. O homem à frente dos três se
mostra ser uma mulher de longos cabelos roxos e lisos. Esta se aproxima do
tripulante, um homem de cabelos grisalhos, cheios de pontas e desarrumado,
rugas no rosto e olhos negros, profundos e oblíquos, e diz:
-
Bem vindo a esta instalação, ó Sén Alan Motinsky Gléguès.
Ela disse isso com uma doce voz, ao
mesmo tempo em que cerrava seu punho direito, levava à frente de seu peito
esquerdo e abaixava a cabeça, como é costume dos cumprimentos formais. Alan não
retribuiu, provocando um rosto de consternação nos três anfitriões. A mulher
continuou:
-
Eu sou Pandora, responsável geral pelo lugar. Qualquer assunto geral relativo a
esta instalação, deve ser falado a mim. Este ao meu lado - ela apontou para o
lado direito - é Nâmi. Ele é o responsável por toda a equipe que estuda a
"anomalia", composta por físicos, engenheiros-teóricos espaciais,
engenheiros-mecânicos espaciais, roboticistas e tecnólogos de todo tipo.
-
Ao seu dispor, Sén Alan - e fez o mesmo cumprimento que Pandora.
O rosto de Alan continuava impassível.
Só seus olhos se moveram. Suas rugas causavam espanto aos presentes, assim como
a cor escura de sua pele. Pessoas com rugas não eram comuns. Nâmi, com
aproximadamente um metro e oitenta centímetros de altura, tinha longos cabelos
loiros e lisos, pele clara e olhos de azul cristal. O rosto é perfeitamente
simétrico, assim como o de Pandora. Sua voz é igualmente suave, com um leve tom
masculino.
-
E este outro é Genin. Ele é um dos especialistas da equipe de robótica e um dos
tripulantes da missão “Supimpa”- outro cumprimento formal foi feito.
Alan então deu um sorriso, e, diante do
espanto incontido de todos, disse:
-
Sei que já leram sobre mim, assim como eu já li sobre vocês. Vocês já me
conheciam por IRV, mas devem ter lido que gosto de fazer as coisas à moda
antiga. Por isso vou me apresentar:
‘Sou Alan Motinsky Gléguès, um estudioso de
vários assuntos. Estou aqui para tentar decifrar o que é esta
"anomalia". Fui autorizado pelo órgão terrestre a que vocês são
subordinados a vir aqui e ver se consigo ajudá-los.
Entendam, não menosprezo ou subestimo o
trabalho de vocês. Estou aqui para ser mais uma cabeça pensante neste lugar.
Conto com suas colaborações?’
E estendeu a mão, num gesto
antiqüíssimo de cumprimento com toque. Pandora hesita meio segundo e segura a
mão estendida à sua frente. Em seguida Nâmi e Genin fazem o mesmo.
-
Então, já que nos apresentamos, que horas o robô "Roxana" vai deixar
Serec? - perguntou Alan em sua voz desagradável, mas firme e persistente.
-
Daqui a 5 horas - disse a voz doce feminina.
-
Podemos conversar agora, Genin? Já li seu depoimento por escrito, vi toda a
gravação do que aconteceu, mas, como deve imaginar, quero fazer algumas
perguntas rápidas. Depois eu quero ver Tucunamã, e por fim o robô.
-
Mas não quer comer algo, ou tomar um banho antes? – o odor exalado por Alan não
era nada agradável ás narinas dos três, pois ainda estava com o odor dos
compostos usados para ficar em estado criogênico.
-
Não, sem trivialidades agora. Obrigado pelo convite, Séna Pandora. Então,
Genin, onde podemos nos aconchegar?
*
A conversa de Alan com Genin durou
aproximadamente 20 minutos. Inicialmente ele fez um retrospecto da missão, até
o momento em que o híbrido Roxana/Tucunamã entrou na suposta área de
delimitação da "anomalia". A sonda externa mostrou que o robô sumiu,
como se tivesse ficado invisível.Ele então contou como Tucunamã, o controlador
do robô, silenciou após balbuciar e gritar "Não! Não!", se agitando
descontroladamente, e Genan tendo que aplicar uma dose de calmante nele. Mesmo
assim ele tremeu ainda mais alguns segundos, e parou. Foi então dada ordem para
os robôs voltarem, e voltaram o mais rápido possível para a base.
Desde então, nas palavras de Genin,
"Tucunamã permanece em estado catatônico, aparentemente sem consciência,
como se estivesse aprendendo tudo de novo, como um bebê".
Alan disse que a conversa tinha sido
boa, e que agora ele queria ver Tucunamã pessoalmente. Eles foram até uma sala
onde ele estava alojado. Estava numa banheira e um robô de oito braços dava
banho nele. Motinsky entrou e tentou conversar com ele, mas viu que não havia
condições. Nem ruídos ele emitia com a boca. Parecia que estava reaprendendo a
utilizar todas suas funções sensoriais. Foi então conversar com Roxana.
Tudo era muito intrigante. Todo tipo de
teste foi feito em Tucunamã. Sua saúde e capacidade mental estavam intactas.
Mas sua memória aparentemente sumiu. Digo aparentemente porque nesta época
ainda não se conseguiu decifrar a totalidade das informações das ondas
cerebrais. Só se sabe que a leitura da memória parece ser um processo
destrutivo, ou seja, quando se lê a memória ela é destruída. Isto se deve a
fatores irrelevantes para serem agora e aqui recordados. No caso de Tucunamã,
verificou-se que muitas ligações nervosas sensoriais foram "desligadas".
O outro fato intrigante era o robô.
Quando foi dada a ordem para o robô voltar à cápsula, nada aconteceu. Poucos
segundos depois ele surgiu da “anomalia” e parecia ter sido lançado em direção
à cápsula. Quando chegou em Serec, o robô saiu saltitante, e estava desesperado
para conversar. Não aceitou ser desligado e examinado, exigiu que o chamassem
de "Roxana" e ser tratado como pessoa. Quis conversar sobre política,
poesia e filosofia. Desde então não tem parado de falar, mostrando inteligência
e capacidades impressionantes de discernimento e aprendizado. Conseguiu definir
conceitos sobre certo e errado e gosto e escolhas ilógicas, como os seres
humanos. Desenhou aparelhos nunca antes imaginados e aperfeiçoamentos em muitas
áreas da robótica, ciências biológicas, humanas e exatas, que ficaram
armazenados num banco de memórias para posterior análise.
Mas nada mencionou sobre o que
aconteceu ao entrar na "anomalia". Desde então tem ficado numa sala,
sentado, escrevendo e desenhando sem parar. Só pára quando algum ser humano
entra na sala, o que faz com que desande a falar. Sua obra já está ocupando um
grande espaço da memória central da base.
Por tudo isso é que ele, ou melhor,
ela, será enviada à Terra para um estudo aprofundado sobre seu funcionamento.
Provavelmente a desmontarão. Os robôs atuais têm IA (Inteligência Artificial) e
um banco de dados estupendo, mas nada parecido com vida ou possuindo
criatividade que não venha da IA. Alguns dizem que este nível de IA
desenvolvido é o máximo que os humanos chegarão.
E lá foi Alan conversar com Roxana.
*
Pandora estava no refeitório. Lá ela
saboreava um delicioso sumo de "quêra", um fruto enviado da Terra.
Sentada num banco muito confortável e com a caneca na mão, tem sua atenção
desviada para a pequena e discreta luz vermelha que pulsa na pulseira em seu
antebraço (isso porque estava acordada. Se estivesse dormindo a pulseira
vibraria e emitiria sinais sonoros). Pela freqüência da pulsação ela sabia que
não era uma emergência. Era um simples pedido de conversa. Com um comando de
voz uma tela se desenrolou à sua frente e nela estava Nâmi:
-
Séna Pandora, desculpe a interrupção, mas gostaria de conversar. Podemos?
-
Assunto? - disse ela depois de sorver mais um gole da caneca.
-
Alan Motinsky Gléguès.
-
Tudo bem, mas antes: - ela deixou a voz mais séria - NS 5. - na tela apareceu
um barulho singelo (tip, tip, tip) e uma pequena luz piscou na mesma - Sei que
você está presente, Genan. Tela 2.
Uma outra tela se desenrolou. Nela
estava Genan. Ele estava captando a conversa e foi descoberto assim que o nível
de segurança foi elevado.
-
Desculpe, Séna, eu balbuciei uma palavra e o computador entendeu outra! - falou
o atrapalhado e um pouco acima do peso (para os padrões da época) gêmeo.
-
A sim, acredito. Você ainda não conhece o recém-chegado, não é? E está curioso
para conhecê-lo. Ele pode se unir a nós, Nâmi?
-
Claro.
-
Fale então.
-
Vocês sabem que desde pequenos aprendemos a respeitar as diferenças, mas...
algo me incomodou quando eu vi o Sén Motinsky. - Há muito tempo certos
comportamentos e sentimentos humanos considerados “não-fraternos”, tais como o
racismo, a xenofobia e a homofobia foram erradicados graças à educação das
crianças.
-
Confesso que a mim também.
-
Por quê? - perguntou o gêmeo -Eu vi ele em IRV, mas nunca vi nada de anormal,
só sua aparência e algumas idéias que ele tem.
-
"Nunca vi nada da anormal, só sua aparência"? Você acha normal uma
pessoa de 80 anos ter rugas? Eu tenho 40 anos. Nossa Séna tem 55. Olhe para
nós.
Ambos pareciam ter ainda a pele dos 14
anos de idade. Corpos bem delineados, nenhuma mancha ou sinal de rugas.
-
Isso significa que os pais deles eram daqueles naturistas que tem os filhos
daquele jeito nojento! Não houve TG (tratamento genético) em seu corpo. ele
também não come nada industrializado ou que não veio direto da Terra. Não toma
vitaminas, hormônios ou PAM (Proteínas para Acelerar o Metabolismo). Isso, por
mais que eu tente ser compreensivo, não é fácil de aceitar. Concordam?
-
Espere um pouco Nâmi, vou dar uma olhada na sala em que ele está conversando
com Roxana. Tela 3, câmera sala da Roxana.
Uma outra tela se desenrolou. Ela
mostrava uma sala pequena, onde Alan sentado entregava um papel a Roxana,
aparentemente para que esta desse uma olhada. Roxana entregou o papel de volta
e fez um sinal com a mão, levantando-a e fechando todos os dedos (ela tem 5
dedos), menos o indicador e o mindinho.
-
Fechar tela 3. Realmente, Nâmi, ele é estranho. Mas tem um conhecimento enorme!
Eu soube que procura o conhecimento direto da fonte, na maioria das vezes. Não
gosta de livros eletrônicos e sempre que pode lê os registros históricos,
usando livros de verdade! Também não gosta de ter conhecimentos especializados,
porque se preocupa em entender várias coisas ao mesmo tempo.
-
Nunca que eu iria tê-lo na minha equipe- disse Nâmi.
A conversa se desenrolou por mais um
tempo, e todos se despediram. Pandora abriu novamente a tela 3, e viu Alan
ainda conversando com o robô. Decidiu ir lá pessoalmente. Também pediu o relatório
que havia encomendado a um dos técnicos para analisar o que Alan havia trazido
em sua nave.
*
Alan agora se encontrava em sua nave,
tranqüilo, rumo à "anomalia". Conseguiu tudo o que queria em Serec.
Conversou com Roxana, viu como Tucunamã estava, conseguiu os dados para ir com
precisão até a "anomalia" e tudo isso sem ser incomodado. Foi fácil
convencer alguns órgãos na Terra a deixarem visitar Serec depois do que
aconteceu na última missão. E foi ainda mais fácil burlar a segurança de Serec
para que conseguisse sair de lá.
Estava só imaginando o rosto delicado e
simétrico de Pandora, em toda sua arrogância, quando ficasse sabendo que o
suprimento de comida que havia levado em sua nave só duraria 3 dias. E quando
fosse até a sala de Roxana e visse que ali não havia nenhum Alan a algum tempo,
e este tinha caminha calmamente até sua nave e partido. Não demoraria muito
também para ela descobrir, ao conversar com Roxana, que, no papel que Alan
entregou ao robô, havia um micro-cd, que caiu nas mãos da robô e foi lido. Nele
estava um pedido, em linguagem digital, para que Roxana passasse para sua nave
a localização exata da “anomalia” e todas as informações sobre ela contidas em
Serec. Ele queria entender melhor a "anomalia" e assim entender
também o que aconteceu com a robô. Também pediu para que ela escrevesse uma
programação para que todos os sistemas de alerta fossem desativados, permitindo
que ele passasse por qualquer lugar sem ser notado, e que o CCT permitisse sua
saída. Também pediu que um vídeo de Alan na sala fosse repetido em partes
diferentes da gravação toda vez que alguém acessasse a câmera do lugar em que
estava, assim como as demais câmeras até sua nave. O sinal para Alan saber se
Roxana havia concordado em ajudá-lo ou não seria um sinal com a mão, num gesto
muito antigo.
Um sinal foi mandado à nave de Alan,
pedindo para que voltasse. Se recusasse, seriam enviadas naves para
interceptá-lo e trazê-lo de volta. O que não esperavam é que Roxana, com toda
capacidade criativa que tinha, ajudou Alan muito mais do que ele podia
imaginar. Ela descobriu os ajustes necessários para um ser humano agüentar a
aceleração só permitida às naves não tripuladas, e passou essa informação à
nave de Alan. Por isso, agora, nem mesmo uma nave não tripulada poderia
alcançar Alan antes que este alcançasse a "anomalia".
***
Nos últimos dois dias Alan só tem
tentado montar um quebra-cabeça. Desligou todas as comunicações de rádio, para
que não o importunassem. Pensava em todos os acontecimentos e na conversa que teve
com Roxana. Apesar de tudo ela ainda não parecia ter vida. Talvez fosse por ela
ser uma robô, mas, mesmo tendo personalidade, Alan ainda não sentia vida
naquele ser.
Na conversa entre eles Roxana disse que
sua primeira lembrança é de estar vagando no espaço em direção à cápsula, e
depois chegar no asteróide. Desde então tem tido milhões de idéias todos os
dias. Na conversa com Alan, falou sem parar e apresentou idéias muito
interessantes sobre o sentido da vida e filosofia. Pareceu sofrer por poder conversar
somente com seres humanos, pois para um robô deve ser interminável a espera de
ter que emitir sons pela boca e ter que esperar uma resposta de uma pessoa.
Voltando a pensar na “anomalia”, Alan
tinha uma vaga idéia do que ia encontrar. Na Terra e em Marte sempre prestou
atenção nas pessoas ditas "loucas", que falavam frases desconexas,
enquanto que a medicina dizia que essas pessoas estavam doentes e que poderiam
ser tratadas. Para Alan, aquilo eram profecias, e diziam que na "anomalia"
estaria a explicação do bem e do mal, a origem e o sentido da vida, a perdição
e a salvação do homem. Se eram verdadeiras ou não, não sabia ao certo, mas
esperava descobrir pelo menos alguma coisa.
Apesar do desastre da última missão,
alguma coisa o impelia a continuar, como se soubesse que não aconteceria com
ele o mesmo que a Tucunamã. Parecia que a vida toda tinha se preparado para
isto, para esta viagem, para este encontro com o que quer fosse. A hora se
aproximava.
**
A nave se aproximou da
"anomalia". Do mesmo modo que a cápsula fez na outra missão, a nave
fica a uma certa distância, em posição estática. Alan já está com a roupa
espacial e com tubos de ar comprimido nas costas. Antes de sair de seu veículo
vê que não demorarão muito para chegarem naves de Serec.
Com um impulso ele sai da nave e liga por um momento seus tubos de
ar comprimido para ter um impulso inicial, desligando-os rapidamente. Dentro de
seu capacete, no visor, é mostrado a distância até a área de atuação da
"anomalia". Ele se aproxima, e presta atenção no mostrador, que está
em metros:
"10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2,
1..."
*
Entrando na "anomalia",
sentiu uma sensação enorme de conforto. Estava no espaço ainda, e aparentemente
gozava de boa saúde mental. Mas ao olhar pra trás não viu sua nave e teve a
sensação de que havia parado. O vazio tem um silêncio muito desagradável. Alan
ouvia somente seus vasos sanguíneos e seu coração batendo, o que ocorria com
grande rapidez. Ficou ali parado por alguns instantes.
Olhando em volta, viu que algumas
estrelas pareciam se mover muito lentamente. Estavam acelerando e pareciam se
mover aleatoriamente, até que se juntaram num só ponto e uma grande luz o
ofuscou.
-
Alan! Muito bem vindo! Feche seus olhos por enquanto, pois se não ficará cego!
Isso foi dito por uma voz monstruosa,
que vinha de todos os lados da roupa de Alan, e parecia vir de um ser que não
estava ali, mas sim como se estivesse "falando de outra dimensão",
como diziam os antigos escritores de ficção científica. Alan estava de olhos
fechados e os tampava com a mão, mas mesmo assim a luz o machucava.
-
Quem está falando? Essa luz machuca muito meus olhos!
-
Eu sou o a e o W. Aquele que seu mundo esqueceste!
-
Deus? É o Sén?
-
Sim, eu sou quem vós humanos chamais 'Deus'. Podes abrir os olhos agora.
Ao abrir os olhos Alan se encontrava
flutuando numa sala. Lentamente se aproximou do chão, quando sentiu o peso de
seu corpo novamente. A sala tinha uns 7 metros de comprimento e 4 de largura, e
estava toda adornada com quadros famosos, tapetes, e uma estante cheia de
livros. Uma poltrona se encontrava logo atrás dele. Do outro lado da sala uma
pessoa se encontrava de costas, vestida com uma roupa a muito esquecida, que
era usada para dormir. Em cima da poltrona havia algumas roupas, e à sua frente
se encontrava outra poltrona muito bem decorada, a uns 2 metros de Alan. Havia
um enorme espelho na parede à sua direita, ocupando boa parte dela.
-
Podes tirar o capacete, Alan, temos atmosfera igual à terrestre aqui. Se
quiser, podes trocar de roupa, pois têm umas roupas que talvez te interessem em
cima da poltrona atrás de ti.
A voz agora era humana, modificada por
Alan estar ouvindo-a através do capacete. Ele ligou rapidamente um aparelho em
seu braço, que confirmou a existência de atmosfera.
-
Não te preocupes, teu traje e teus aparelhos são inúteis aqui. - a figura
humana se virou –confies em mim.
Alan se assustou ao ver que a pessoa
era exatamente igual a ele, tanto na voz quanto na aparência. Então tirou o
capacete, mas não tirou seu traje. Sentiu um doce perfume de limão misturado
com camomila e lavanda, muito suave, no ar.
-
Sou feito à tua imagem e semelhança. Adotei esta forma e esta voz para que não
se sinta intimidado em falar comigo. Tu deves imaginar que não recebo muitas
visitas de seres humanos por aqui. Senta-te por favor. Queres algo para beber?
-
Não, não, obrigado. - disse timidamente, enquanto ia retirar as roupas da
poltrona, quando viu que não estavam mais lá, e se sentou.
-
Eu tirei as roupas da poltrona já que tu não as quis. Para aumentar teu
conforto, criei a sala igual à que sempre sonhastes em ter na Terra. - a imagem
de Alan falava normalmente, como um ser humano, sorrindo de vez em quando, e
tinha uma voz mais firme que a do próprio Alan. A única diferença com os seres
humanos era que usava uma forma de tratamento a muito esquecida, mas bastante
apreciada por Alan.
-
Sén Deus, eu nem sei o que dizer. Posso falar francamente? - Alan então simulou
um sorriso de reprovação a si mesmo - Que burrice que estou dizendo, pois você
já sabe o que eu irei dizer! O que eu quero é perguntar se posso conversar um
pouco.
-
Claro, te concedereis este pedido. Quando falava com as pessoas na Terra nunca
deixava elas conversarem comigo. Mas o tempo para os humanos passou, e, como o
que Eu tinha que fazer ou ajudar a fazer já se fez, não tenho mais porque agir
daquela forma. Podes falar como se estivesses falando com um outro ser humano.
-
Tudo bem. Não tenho nem palavras para agradecer ao Sén. Tenho tantas perguntas
a fazer! Quero perguntar sobre a Bíblia, Jesus, Lúcifer, onipotência,
onipresença e onisciência! Não tem como eu simplesmente saber disso tudo, com o
Sén passando estas informações para mim?
-
Eu até poderia passar tudo telepaticamente, mas Eu gosto de ver os seres humanos
falando. Não te preocupes, se precisarmos passar mil anos conversando, não tem
problemas. Aqui não envelhecerás e para os que estão fora será como se o tempo
estivesse parado todo este tempo.
-
Certo, compreendo. Mas inicialmente quero perguntar uma coisa, já aproveitando
sua preciosa permissão. O que aconteceu com Tucunamã e Roxana?
-
Com Roxana foi simples: eu simplesmente "soprei vida" nela. É um
processo complicado demais para explicar agora. Depois explico-te, pois percebo
que se afliges para saber o que houve com Tucunamã. Foi igualmente simples. Ele
Me encontrou, Me desafiou, disse que Eu não existia. Disse que se Eu fosse
realmente quem Eu dizia que era, que era para fazê-lo retornar ao estado mental
de um feto. Só fiz sua vontade.
-
E você conseguiria atingi-lo não importa em que parte do universo ele
estivesse... Mas você já não sabia que ele viria aqui?
-
Sim, mas cada um tem o livre arbítrio para fazer o que quiser. Ele fez sua
escolha.
-
Sim, tudo está explicado agora. Na verdade, tenho só mais duas perguntas a
fazer, mas o Sén já sabia disso, não é?
-
Só mais duas perguntas? Estás com a cabeça cansada. Tua mente tem tantas
perguntas que nem sabes por onde começar. Pergunte o que quiser.
-
Consegue ler e entender a mente humana?
-
Sim.
-
Tu és onisciente, onipotente e onipresente? Se bem que basta ter uma destas
características para ter as outras duas.
-
Estás fazendo perguntas redundantes, mas a resposta é sim.
-
Então eu digo que não acredito no Sén.
-
Duvidas da minha existência, assim como Tucunamã? Sei que tens fé em Mim! - A
voz voltou a ser a voz inicialmente ouvida, parecendo estremecer a sala toda.
-
Sim, eu acredito em Deus. Mas não acredito em ti, ou, melhor dizendo, você. E
sei que não fará nada comigo. Pelo menos não agora. - Alan continuava com sua
voz firme, mas agora com um certo tom de superioridade e sarcasmo - Digo mais,
digo que mentiu em quase tudo que disse. Só não mentiu sobre a criação desta
sala e talvez sobre a possibilidade de parar o tempo fora daqui.
-
O que levas tu a pensar isso? Ou, já que prefere, o que leva você a pensar
nisso?
-
Qualquer outro acreditaria em você, cara imagem minha, mas eu não sou qualquer
um. Eu sou Alan Motinsky Gléguès, e estou muito bem preparado para entender e
interpretar conversas igual a que agora criamos. Desculpe, mas não há porque
ser modesto nesta situação.
-
O que pensas que Sou?
-
Quer ouvir minha versão, ou você mesmo prefere reexplicar tudo o que me disse?
Alan se levantou rapidamente da
poltrona e se aproximou de sua imagem. Ela olhou para ele, com os mesmos olhos
negros e oblíquos. Alan não se intimidou e manteve seu olhar quase impassível.
-
Diga tua versão. - a voz voltou a ser humana
-
Digo que não é Deus. Você não é nem singular, é plural. Esta
"anomalia", como foi chamada por nós, humanos, é na verdade uma nave
onde sua raça (não imagino como ela seja) vive. Vocês são criaturas vivas.
Fizeram alguma coisa, que eu não sei o que é, a séculos atrás, que chamou a
atenção dos seres humanos. - Alan parou um instante, e começou a andar pela
sala, ao redor da poltrona. A imagem continuou imóvel, olhando à sua frente.
-
Continue.
Alan fez uma meia volta e voltou a
andar em volta da poltrona.
-
Vocês nem sabiam da existência dos seres humanos, e, pelo que parece, de algum
modo podem controlar o tempo e o espaço. Assim não são vistos e podem fazer o
tempo passar aqui dentro diferente do resto do universo. Vocês tomaram
conhecimento dos seres humanos pelas transmissões de rádio que fazemos a
séculos.
‘A primeira sonda que veio até aqui mostrou que
algum dia poderíamos “visitá-los”. Então vocês (não sei se estavam somente de
passagem ou não) resolveram esperar nossa aproximação. E isso ocorreu quando a
missão de nome “Supimpa” veio até aqui. E pelos seus próprios interesses se
aproveitaram dela.’
-
Então acha que sabe o que houve com Tucunamã? Estou interessado em ouvir o que
tem a dizer. -diz a voz, agora sorridente e menos formal.
- Eu te digo. Mas antes, para que minha análise fique
mais completa, poderiam me dizer o que são vocês e de onde vieram?
-
A verdade às vezes pode ser muito mais terrível do que a mentira, meu caro.
Como podemos supor que fala a verdade ao dizer que sabe de nossas intenções,
contarei agora sobre nós.
‘Nós somos seres não de outro planeta ou outra
galáxia, ou de qualquer parte do universo. Não adianta falarmos nosso nome,
pois você não seria capaz de compreendê-lo. Nós somos seres de antes do
Big-Bang, e vivemos em quatro dimensões dentro desta nave.’
Alan estava de fronte à poltrona vazia
e ficou sem reação ao ouvir a última frase. Incrédulo, se soltou no assento.
-
Como? Antes do Big-Bang? Se o que falam é verdadeiro, realmente, é mais difícil
de acreditar nisso do que quando me disseram que eram Deus. Quantos vocês são?
-
Isso é algo difícil de dizer para você. Necessariamente você não precisa somar
um mais um para dar dois. Você pode somar um mais um e dar uma coisa ...
diferente. Podemos dizer que somos alguns milhões, ou algumas unidades. Depende
do que queremos. Às vezes posso me referir a mim mesmo no plural, ou nos
referir a nós mesmos no singular.
‘Nós somos seres incompreensíveis para ti. É
impossível nos imaginar. O único que conseguiu descrever algo parecido é um
autor muito antigo de seu planeta. Seu nome era H.P. Lovecraft. Ele descrevia
seres que os seres humanos não podem distinguir a forma. Este seria um modo de
nos entender.’
-
Sim, claro, lembro dele. Eu não posso ver vocês, pois são de 4 dimensões
espaciais. Como um desenho num papel não pode ver um ser humano. Talvez possa
tentar imaginá-los...
-
Isso mesmo. Como nosso nome é incompreensível a você, pode inventar um se
quiser.
-
Não, não. Se não pode dizer seu nome, não serei eu que darei. Os homens têm
esse costume de querer dar nome às coisas, dar nome a tudo, classificando a
natureza. Mas, para mim, quanto menos classificarmos, melhor entenderemos a
natureza.
-
Belo pensamento, Alan, mesmo que não concordemos. E, para direcionar melhor os
pensamentos de sua cabeça, posso dizer que descobrimos aquilo que os humanos
chamam de Teoria do Tudo. Sei que sabe do que falo. Descobrimos como unir todas
as interações que ocorrem na natureza em uma única teoria. E com ela
descobrimos muito mais coisas. E por isso estamos aqui hoje.
-
Então, antes desse universo havia outro... que se colapsou numa única corda e
se expandiu novamente. Como vocês sobreviveram?
-
Como dissemos, através da Teoria do Tudo pudemos saber como a natureza
interage. E conseguimos, através dessas equações e de observações, descobrir
que nosso universo iria se colapsar. Muito antes disso acontecer já havíamos
deixado o planeta de nossa origem (entenda que usamos o termo “planeta” para
facilitar nossas explicações). Quando a vida nesse planeta ficou insustentável,
o deixamos e ficamos nessa nave, vagando pelo universo... Para não morrermos,
deixamos nossa existência física e passamos nossas mentes para um tipo de
"computador". Quando faltavam centenas de milhões de anos para
ocorrer o colapso, descobrimos como ele ocorreria, e que quando o universo
voltasse a expandir ele teria muita energia somente em 3 dimensões... Fizemos
os cálculos e foi descoberto como poderíamos sobreviver depois do assim chamado
Big-Bang. Durante a parte final do colapso e a parte inicial da expansão, na
época que a radiação era dominante sobre a matéria, ficamos em um estado de não
existência, até que finalmente nossa nave se reconstruiu, juntamente conosco.
Foi como um pacote de informação que foi deixado para abrir na hora certa.
Felizmente, acertamos em todos nossos cálculos. Só erramos em uma coisa.
-
Em quê? Talvez tenha a ver com a pergunta que estou me fazendo...
A imagem fez uma cara de preocupado.
Continuou falando com seu modo seguro, como se tivesse ensaiado o que ia falar
durante meses.
-
Erramos ao calcular a quantidade de energia necessária para nos manter
estáveis. Como eu disse, aqui nesta nave estamos em quatro dimensões espaciais.
Para manter esta quarta dimensão grande o suficiente para nos suportar devemos
gastar muita energia, e não imaginávamos que depois de alguns bilhões de anos
essa energia ficaria tão escassa. Isso por que a expansão não parou. Algo
surgiu que não estava previsto em nossos cálculos... Se fosse a alguns bilhões
de anos atrás, poderíamos até reverter a primeira dimensão temporal e planejar melhor
o nosso futuro, mas hoje não conseguiríamos.
-
Viagem no tempo? Não estão exagerando? Eu sei que é impossível.
-
É impossível para vocês que não podem compreender nem sentir uma segunda
dimensão temporal, muito maior que a dimensão de tempo que vocês percebem e na
qual estão fixos. Como existe esta segunda dimensão, que é na qual o universo
como um todo se "locomove", podemos nos fixar em uma e viajar pela
outra. Mas consome-se muita energia...
-
Como conseguem energia? De estrelas?
-
Não, conseguimos de cordas cósmicas, elementos que sua ciência somente supõe
existirem. Quando encontramos uma, nos aproximamos e ficamos sugando-a até
armazenarmos quase toda a energia que ela possui, o que faz com que partamos
para outra...
Alan nesse momento ficou pensativo.
Lembrou-se das primeiras observações da "anomalia", e das ondas
eletromagnéticas que atingiram a Terra...
-
Está pensando sobre o que aconteceu há séculos atrás em seu planeta, quando
avistaram a "anomalia"? Sim, está pensando certo. Quando começamos a
utilizar esta corda cósmica, nós a quebramos e isso liberou uma quantidade
infinitesimal de energia.
Alan lembrou de todos os desastres
ecológicos que ocorreram por causa dessa "energia infinitesimal".
- Não nos
julgue, Alan. Não sabíamos que havia vida num planeta próximo. Nós captamos
sinais de ondas eletromagnéticas vindas do universo, mas a muito tempo não as
analisamos mais.
-
Eu não posso julgo vocês. Mas e agora que o universo vai se expandir, o que
farão?
-
Aceitaremos nossa morte, afinal iremos cansar de viver algum dia.
-
Você devem ter estado em quase todos os lugares do universo atual. Existem
outros seres? Por onde andaram pelo universo?
-
Em qualquer lugar que imaginares. Criamos "buracos de minhoca" e
atravessamos o Universo sem depender da lenta velocidade da luz. E efeitos
relativísticos não são um problema para nós, pois afinal, o que mais temos é
tempo!
A imagem deu uma risada leve, com um
igualmente leve tom de segurança e superioridade.
-
Quanto a outros seres, pode ficar tranqüilo, eles existem. Mas a uma distância
tão grande de vocês, humanos, que só alcançarão a eles quando souberem fazer
buracos de minhoca. Já vimos nascimentos de estrelas, buracos negros e estrelas
supergigantes, que fariam seu Sol parecer uma átomo perto de uma pessoa caso
fossem colocados lado a lado. Consegue sequer imaginar que não podes imaginar o
que isto significa?
-
Sim.
A imagem estava até então com as mãos
sobrepostas sobre seu colo durante a conversa. Então ela mudou de posição, se curvando
um pouco para frente e colocando os cotovelos no encosto da poltrona,
entrelaçando seus dedos e assim cobrindo sua boca. E disse:
-
Já falei demais. Agora diga sua versão para os fatos.
-
Depois de tudo que me disseram, vejo que tudo é até relativamente simples.
Vocês receberam as sondas enviadas e souberam que havia vida inteligente na
Terra. Quando perceberam que uma nave se aproximava, esperaram o contato. Assim
que Roxana entrou aqui, vocês rapidamente perceberam que se tratava de um robô
com cérebro digital. Com a capacidade de processamento que suas mentes devem
ter (que é muito grande, posso perceber porque quando falam comigo parece que
já pensaram e repensaram na mesma frase milhões de vezes), já analisaram-na e
entenderam todos os componentes e a memória de Roxana, copiando ela inteira.
Isso em frações de segundo. Com ela conseguiram todas as informações sobre
nossa história, línguas e conhecimento cultural e científico. E então vocês
perceberam que havia algo mais com esse robô... havia vida ligada a ela. Uma
mente humana. E vocês já tinham uma curiosidade de entender a mente humana,
desde a primeira vez que receberam nossa sonda. E ali, ao alcance de vocês,
através da RIDA, estava já pronta uma conexão analógica-digital entre a mente
de um humano e um robô. Bastava então ler a mente humana.
‘Mesmo sabendo que a mente humana não pode ser lida
sem ser destruída na pessoa que a tem, vocês leram toda a mente de Tucunamã,
desde suas memórias 'altas' (as lembranças de coisas que lhe aconteceram)
quanto as memórias 'baixas' (aquelas que diziam respeito ao seu próprio
controle de músculos e órgãos). Por isso, não sei se sabem, ele ficou como se
tivesse acabado de nascer. Mas isso vocês devem saber porque devem agora estar
monitorando o tráfego de ondas eletromagnéticas que partem de Serec.’
A face da imagem fez um sorriso.
-
Estou impressionado com sua explicação, Alan. Mas por que veio até aqui, se
suspeitava que podia ser perigoso?
-
Estou aqui porque acreditava nas profecias de algumas pessoas da Terra que
diziam que a "anomalia" era algo que transcendia o tempo e o espaço,
e que poderia auxiliar a humanidade. Só não imaginei que estavam tão certos.
-
Você então acredita em profecias? Espanta-me uma pessoa que vive em um mundo
onde a ciência está tão presente ainda acreditar nisto. Mas, pela sua
biografia, você sempre foi diferente.
-
Sim, acredito em profecias, e não confio tanto na ciência. Por exemplo, por
mais que o homem tenha feito cálculos e cálculos, só confio de andar em naves
porque já foram muito testadas. Quantos erros já houve por confiarem demais na
ciência! Você devem acreditar nela, estou correto?
-
Sim, pois sem ela não estaríamos vivos.
-
Então não acreditam em Deus, já que não acreditam em profecias?
-
Claro que não! - a imagem soltou uma risada irônica - Como podemos acreditar em
criação se existimos antes do Big-Bang? Como crer em uma força superior, se nós
quase podemos tudo e ainda não encontramos nada que indicasse a existência de
tal “força”?
- Então não
acreditam... Mas vocês já criaram vida? Já viram a vida surgir de algo que não
tem vida?
-
Não, nunca conseguimos criar vida. Só falta dizer que não acredita em
evolução..
Agora foi Alan que riu.
-
Mas e vocês, evoluíram? Estudaram algum planeta por milênios para observar a
evolução? Posso garantir a vocês que na Terra, nesses 1000 anos que temos
registros de espécies, nenhuma mudou. Só ocorreram extinções.
-
Sim, acreditamos que evoluímos, pois não temos mais o mesmo corpo. Quanto à
outra pergunta, não, nunca estudamos um planeta por milênios.
-
Vocês pensam que deram vida a Roxana?
-
Não, sabemos que não. Nós só criamos um programa de inteligência artificial
muito superior ao que os humanos criaram, pois pudemos analisar a mente humana
de uma perspectiva diferente da de sua espécie, pois somos diferentes. A partir
dessa análise reprogramamos Roxana.
-
Sim, vocês são muito inteligentes, tenho que admitir. Mas preciso dizer algo.
Preciso dizer que, de alguma forma, nós seres humanos podemos perceber se
existe vida em algo ou não. Isso eu não percebi em Roxana. E não percebo isso
aqui.
A imagem se mostrou indignada. Suas
mãos estavam no encosto da poltrona.
-
Como assim? Quer dizer que, pelas suas sensações e impressões, não sente que
estamos vivos?
-
Não sei ao certo. De alguma forma, se me permitem dizer, sinto que não vivem
mais. Tenho até um palpite sobre quando a morte de todos aqui desta nave.
-
Diga-nos, ficamos curiosos agora. - o
rosto da imagem agora demonstrava interesse.
-
Morreram durante o colapso do universo de vocês. A vida de vocês se extinguiu.
Depois disso vocês surgiram, quase como Roxana surgiu. Seres curiosos, com a
mesma inteligência de antes, mas sem vida. Sem capacidade de gerar vida. Sendo
isso verdade, deverá chegar um momento que vocês não conseguirão produzir mais
nada, pois terão esgotadas as possibilidades limitadas de sua suposta
criatividade.
-
Espere um momento, Alan. - a imagem ficou parada.
Alan ficou pensando no motivo dessa
interrupção, e começou a se preocupar com a razão deles estarem conversando com
ele. E lembrou também que foi bom ter mentido à imprensa sobre como seria a
sala que gostaria de ter, e isso ficou nos registros. Se estivesse falando com
Deus, ele saberia o que realmente gostava, e não algo que está nos arquivos.
Interessava-se um pouco pelo espelho, mas não pelas poltronas e os livros (que
deviam realmente estar preenchidos com todo seu texto, pois Roxana tinha
armazenado toda a literatura já feita pela humanidade).
*
-
Alan, voltemos a falar. - a imagem de repente voltou a se movimentar - pensei
sobre o que nos disse e pergunto-lhe: sabe porque está vivo, ou melhor, porque
ainda está vivo?
-
E não deveria estar? Vocês não precisam de mais seres humanos, pois através de
Roxana já conseguiram todas as informações sobre os seres humanos, e o
funcionamento de uma mente humana já descobriram ao usar Tucunamã- a voz de
Alan continuava calma.
-
Não fique tão seguro disso, Alan. Afinal, Tucunamã nunca esteve na Terra, e
seria muito interessante saber como uma mente como a sua funciona. Poderíamos
até lê-la e depois recriá-la. Mas isto seria desnecessário, pois o temos aqui
pessoalmente! Confesso que ficamos empolgados quando soubemos de sua visita.
Parecia que de algum modo já sabíamos que viria nos procurar. Quase uma
premonição, não? - a imagem ensaiou um sorriso.
-
Sim, mas posso saber o que pensou?
-
Decidimos que pode ter realmente acontecido o que falou. Que podemos estar
mortos. E queremos voltar a viver. Para isso precisamos de ti.
-
De mim? Como?
-
Queremos que se junte a nós. Basta transferirmos sua mente e sua consciência ao
nosso computador. Nunca fizemos isso com um ser humano, pois com Tucunamã só
quisemos ler a mente. Garantimos que dará certo. O que acha?
- Então eu não
poderei voltar para a Terra. - a firmeza da voz de Alan já não se fazia sentir
– Peço para que me deixem voltar. Não posso fazer nenhum mal a você. - e nisso
se levantou.
-
Não, Alan, você sabe demais. Tudo que aprendeu conosco não deve ser passado aos
humanos. Eles não sabem aproveitar as informações que não sejam obtidas por
eles próprios, e, pelo que analisamos, devem aprender tudo sozinhos. Se não
quiser se juntar a nós, de que adiantará? Podemos forçá-lo através de compostos
químicos,e, se mesmo assim se recusar, sua existência não deixará este lugar.
Nem adianta colocar seu capacete, pois sabe que podemos controlar o espaço a
sua volta e poderíamos esmagá-lo com facilidade. Mas não queremos isso.
-
Nisso vocês se enganam! Para mim pode até não haver muita escolha, mas não
podem impedir os humanos de ter acesso ao conhecimento de vocês! Roxana já está
indo em direção a Terra e ela se tornou um ser extraordinário. Suas idéias irão
melhorar toda humanidade, pois ela, com sua capacidade mental, pode analisar
rapidamente tanto as pequenas coisas quanto as grandes, o que faz com q