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 A "anomalia"
:: 01-02-2008 ::

A "anomalia"

 

Uma ficção científica de um autor Amador

 

Cássio Henrique Amador[1]

 

 

 

         "Nós, seres humanos, tentamos vislumbrar o infinito. Estudamos e pesquisamos para tentar compreender os vários infinitos que nos cercam, mesmo que, hoje em dia, a maioria não se importe para isto. Alguns dos infinitos que vasculhamos e analisamos tratam sobre a origem e o fim do universo.

         Sobre o fim do universo, as medidas mostram que ele se expandirá para sempre e sempre. Sobre o começo, elas apontam para um universo pontual com energia e temperatura infinita.

Este ponto começou a inflar e crescer em três dimensões, mas tudo indica que existem dimensões que não cresceram. Inicialmente a radiação era dominante, mas, passado um certo tempo (ou, equivalentemente, depois que o universo atingiu um certo tamanho), a matéria passou a dominar e as partículas (como elétrons e prótons) começaram a se formar e se ligar para formar átomos. Depois formaram moléculas, que se atraíram e surgiram os objetos macroscópicos. A partir disto vem toda a história que se encontra em qualquer revista ou livro de divulgação científica de cosmologia."

 

         Meu nome é Tucunamã, e estou lendo os registros de uma época remota. Estou séculos à frente de quando isto foi escrito. Estas mentes não estavam preparadas para o que estava para acontecer. Nesta época nem a teoria de cordas havia sido confirmada, o que viria a acontecer definitivamente algumas décadas depois.

Não consigo imaginar como funcionava a mente dessas pessoas. Eu gostaria de saber a reação delas quando a "anomalia" foi vista pela 1ª vez.

         Naquela época os astrônomos já não mais olhavam diretamente para o céu, e usavam computadores para tal fim. Mas um dia um rapaz de nome Santiago Smith Inoyshida, que trabalhava num observatório, olhou diretamente num telescópio e observou curioso um fenômeno na constelação de Cão Maior, próximo a Sirius (que é a estrela mais brilhante que se pode ver a olho nú da Terra). Foi vista uma fonte de luz muito intensa que apareceu e sumiu. E isso se repetiu, hora em intervalos de 6 minutos, hora de 12 minutos, e em outros tempos também. Isso ocorreu durante dois dias. Outros observatórios foram informados do fenômeno e todos que puderam observaram-no. Não podia ser visto a olho nu. E não havia nenhuma explicação lógica para o fenômeno, pois não havia indícios de que era uma supernova ou qualquer outro tipo de fonte de energia tão intensa.

         Vários meses depois uma onda de calor atingiu a Terra, abalando muito seu ecossistema. A origem dessa onda foi exatamente o ponto em que foi avistada a luz intensa, e se revelou ser uma onda de raios cósmicos ultraenergéticos.

Depois de feita a comparação entre as posições das estrelas que ficavam atrás da fonte de luz antes e depois da emissão de luz, foi constatada uma grande diferença entre suas posições aparentes. Na época foi suposto que um buraco negro tinha atraído uma estrela gigante para dentro dele, e por isso a luz dessa estrela não chegava até nós. E, por algum evento desconhecido, quando a estrela estava sendo destruída, ocorreu uma emissão de energia eletromagnética e uma onda de partículas energéticas, provocando as emissões de luz e a onda de calor.

         Devido à proximidade deste suposto buraco negro, uma sonda foi planejada para ser lançada, se aproximar dele, coletar dados e enviar o que pudesse para a Terra. A sonda então entraria no horizonte de eventos e se perderia para sempre, mandando dados até quando pudesse.

         O envio da sonda demorou 30 anos para acontecer. Décadas depois ela chegou próxima do então chamado "buraco negro". Quando se encontrava a uma certa distância do local do evento, passou a enviar informações e dados que coletava do espaço, tais como pressão, radiação e gravidade. Uma câmera de vídeo transmitia imagens e fotos eram enviadas. Os cientistas encarregados de analisarem os dados logo viram que não era um buraco negro. Tinha um formato oblato, longo, como uma grande salsicha semitransparente a todas as radiações, que curvava a luz das estrelas que se encontravam atrás dela. Na verdade, só se podia supor seu formato devido ao desvio da luz, mas seu tamanho real não era possível estimar. Quando a sonda estava bem próxima do suposto horizonte de eventos, ela aparentemente "enlouqueceu", mandando dados totalmente incoerentes, como pressão negativa e positiva, temperatura próximas do zero absoluto e outras impossíveis de medir de tão altas, tudo mudando em intervalos de milésimos de segundos, durante meio segundo, e veio o silêncio. Como se a sonda tivesse sido "engolida" pela então recém chamada "anomalia". Nunca se soube o que houve com a sonda.

         Foi decidido que mais dados deveriam ser obtidos. Falou-se em enviar seres humanos novos, que com o tempo de viagem iriam crescendo, estudando e se preparando até se aproximarem da "anomalia".

         Claro que essa idéia foi descartada, e um plano mais plausível, porém complexo, foi escolhido. Próximo à "anomalia", que estava estática com relação a seus astros vizinhos durante todo este tempo, existia uma estrela que estava a uma distância aparentemente segura, chamada M27082005. Nessa estrela existia um cinturão de asteróides que contém um asteróide muito grande onde poderia ser construída uma base de entreposto entre a Terra e a "anomalia". A partir desta base seria mais fácil enviar sondas para obter-se mais análises.

         Depois que os seres humanos conseguiram estabelecer bases em Marte, testaram uma base em Ceres, o maior asteróide do cinturão que existe entre Marte e Júpiter. Obtiveram sucesso depois de descobrirem e aceitarem que não conseguem fazer bases auto-sustentáveis, necessitando de alimentos e outros materiais que teriam que ser enviados da Terra. Com isso se sentiram seguros para criar uma base no asteróide perto da "anomalia". Em homenagem a Ceres foi escolhido o nome de Serec para o maior asteróide desse cinturão, com aproximadamente 900 km de diâmetro e extensas partes planas, onde seria construída a base. Tudo isso foi descoberto por outra sonda que foi enviada especialmente para estudar o asteróide.

         E é aqui onde me encontro, numa cama dentro de um dos minúsculos dormitórios deste asteróide. Tenho 25 anos e serei um dos controladores dos robôs que serão enviados à "anomalia".

         Como enviar pessoas é uma empreitada suicida, pois ninguém sabia o que podia acontecer com qualquer coisa que fosse enviada, a idéia mais aceita seria enviar um RIDA (Robô com Interface Digital-Analógica), pois eles são controlados diretamente por seres humanos. Mandando e recebendo informações por ondas de rádio, a pessoa fica ligada diretamente ao robô, agindo como se estivesse em seu lugar. Um programa de computador e um sistema de segurança impedem que sejam causados danos ao controlador do robô, caso algo ocorra com a máquina.

         Fui escolhido por ter algumas habilidades necessárias para esta empreitada. Uma delas é que estou acostumado com o espaço, pelo menos mais do que os terrestres. Eu nasci aqui. Alguns dizem que não sou humano, pois não nasci na terra. Até onde sei, eu sou humano. Uma grande diferença é que estou acostumado a olhar para o vazio e as estrelas diretamente, sem uma atmosfera no meio. E a gravidade daqui é aproximadamente dez vezes menor que da Terra, muito parecida com a da Lua, fazendo com que meu corpo tenha formações ósseas e sistemas nervoso e sangüíneo diferentes. Fui criado numa proveta e incubado até ficar “pronto para nascer”, como ainda dizem. Mas isto não é diferente do que ocorre com a maioria das pessoas terrestres.

         Mas chega de falar de mim. Para a missão de nome “Supimpa” foram preparados dois robôs e três controladores. Os robôs sairão daqui a quatro dias, dentro de uma cápsula. Os outros dois que controlarão os robôs são Genin e Genan, ambos nascidos na Terra, e vivem aqui a mais de 20 anos. Têm 40 anos de idade e são gêmeos. (lembrando que os anos são contados com base no tempo terrestre. Isto é um padrão usado em todos os lugares que têm seres humanos).

         A cápsula tem formato esférico, de raio externo de 3 metros. Dentro dela os dois robôs ficam armazenados em compartimentos. O robô de forma humanóide, carinhosamente apelidado de "Roxana", tem câmeras e sensores ao longo do corpo todo. Para controlar estes sensores é que os gêmeos serão usados. O segundo robô, de nome "Bolinha", será solto no espaço. Ele se parece com uma sonda, e captará dados com o máximo de precisão que a tecnologia atual permite. Caso necessite de ordens adicionais os gêmeos também o controlarão.

         A estratégia é simples. A cápsula esférica será acoplada a um propulsor (pois a cápsula é pequena demais para carregar combustível, só tendo um pouco para emergências), que a levará até a estrela mais próxima da "anomalia", a M25032006. Quando se aproximar dela, a cápsula se soltará e o propulsor orbitará um planeta gasoso que orbita a estrela, economizando combustível. A cápsula então se aproximará da "anomalia" e com a ajuda de foguetes auxiliares irá tentar parar em uma distância fixa em relação à posição do objeto de nosso estudo. Então ela irá abrir e soltar os dois robôs. A sonda ficará sempre a uma distância segura do primeiro robô. Numa nave eu e os gêmeos ficaremos orbitando a M25032006 e assim controlaremos os robôs, pois do contrário, se ficássemos em Serec, nossos comandos demorariam para chegar, atrapalhando a utilização da tecnologia RIDA.

         Roxana poderá voltar para a nave através de pequenos propulsores de gás comprimido que se encontram em suas costas. Também poderá ser puxada de volta para a nave através de um eletroimã, que atrairá as cápsulas de gás comprimido, caso ela seja atraída para muito longe, ou se o controle sobre ela for perdido.

         Roxana é um robô inteligente, e tem muitas informações guardadas em sua memória. Feita de plástico e polímeros, tem uma boa inteligência artificial, mas não tem consciência. Foi demonstrado a décadas atrás que nós, seres humanos, não poderíamos criar vida de algo não-vivo.

 

***

 

         O dia do lançamento da missão se aproxima. Todos estão muito apreensivos, incluindo nossa querida chefinha. Quando esta missão acabar, vou poder conhecer a Terra. Existem algumas cidades interessantes em Marte, mas meu interesse maior é na Terra. Os gêmeos vivem dizendo coisas sobre lá. Deve ser muito bonita vista ao vivo. Claro que já fiz várias IRV (Imersões em Realidade Virtual) nas paisagens de lá, sentindo odores e tato, mas ainda sim tenho vontade de ir.

         Os robôs foram checados novamente pela equipe responsável e aparentemente tudo está em ordem. Como amanhã será o lançamento, hoje vou me concentrar e ficar tranqüilo, afinal serão três dias de viagem. A cápsula dos robôs sairá um dia depois, pois ela será lançada de outro modo, para ir mais rápida. A técnica utilizada economiza combustível do propulsor da cápsula, mas poderia matar um ser humano. Se tudo correr como planejado a cápsula nos encontrará perto da estrela assim que estivermos chegando.

 

***

 

         Sem novidades em relação à chegada de nossa nave e da cápsula ao redor da estrela. O propulsor orbita o planeta e a cápsula se dirige à "anomalia".

         Estou confiante, mas os dois gêmeos estavam receosos sobre a missão. Conversaram novamente sobre religião, crenças e profecias malucas. Eu não me preocupo com este tipo de bobagens. Eu acredito na ciência. Já me ofereceram livros eletrônicos que tratavam de religião, mas eu recusei.

         Acredito no sucesso desta missão. Se a "anomalia" é hoje desconhecida algum dia não o será mais. No máximo perderemos o robô Roxana nesta missão. Esta nave está a uma distância segura de qualquer coisa que possa nos atingir. Os computadores fizeram uma leitura de radar das proximidades e tenho certeza em sua confiabilidade. Algo na velocidade da luz demoraria alguns bons segundos antes de nos atingir. Mas espere! Tenho que me concentrar agora.

         A cápsula se aproxima. Agora estou sentado no aparelho que me liga ao robô. Ao me conectar, vejo e sinto tudo ao redor de Roxana como se eu estivesse lá. Sinto ela presa dentro da cápsula Sou solto no espaço. Antes de soltar-me perguntei à cápsula se está tudo certo. A resposta é afirmativa.

Estou me aproximando de algo. Já estou a 3 quilômetros da cápsula. Estou me aproximando da "anomalia" (na verdade me aproximo da vulgarmente chamada “região fantasma"), quando Roxana terá cruzado a suposta delimitação do objeto, e essa informação não terá ainda chegado até mim por causa da distância que nos separa.

         Que coisa estranha. Um objeto que parece não estar lá, mas sinto sua presença como se tivesse milhares de quilômetros de tamanho. As estrelas através dele tem um brilho estranho, e parecem se movimentar. Tudo isso já tinha sido observado. Mas é uma sensação diferente observar isto de tão perto.

         Estou me aproximando. Sinto agora como se algo tivesse me puxado. Que sensação inesperada! Estou sentindo a presença de algo! Estou sentindo paz! Uma sensação de paz toma meu corpo. Agora sinto outra presença... não, é impossível! NÃO! N...

 

 

******

 

 

         Uma pequena nave se aproxima de Serec. O computador dela conversa com o computador de controle de tráfego (CCT) do asteróide, pedindo permissão para pousar. Enquanto isso, dentro da nave, o único tripulante é retirado do estado criogênico. Ele recobra sua consciência, e começa a se alongar. Esticado seus músculos e ossos, faz suas necessidades, veste uma roupa especial, coloca o capacete e espera a aterrissagem.

         A nave se aproxima suavemente da base instalada no asteróide, usando foguetes para diminuir sua velocidade.

Antes de passar por um dos inúmeros picos de rocha que recobrem Serec, o tripulante vê a fonte de energia do lugar, que tem grandes proporções. Como estão muito distantes da estrela sobre a qual o asteróide orbita, impossibilitando o uso de energia fotoelétrica, a fonte de energia é um reator a fusão nuclear. Ele funde isótopos de hidrogênio e produz energia térmica, que é captada por água, e esta água movimenta uma turbina. A energia elétrica gerada é passada ao asteróide através de um cabo muito grosso e bem protegido.

         Este método de energia foi escolhido porque o elemento usado na fusão (os isótopos trítio e o deutério) é facilmente obtido nos asteróides próximos. A pouca água que precisa ser reposta (pois os sistemas de tratamento de água são excelentes, perdendo somente uma parte ínfima de água) é obtida de pedaços de gelo de asteróides. O reator foi construído por robôs ao longo do tempo em que um rebocador o tirou da Terra e o transportou a Serec.

         E pelo fato de usar um cabo ligando o asteróide ao reator, é possível mover o asteróide de órbita conforme se muda o comprimento do cabo, pois o reator tem 20% da massa do asteróide.

Tudo isso passou pela cabeça do tripulante quando este chegou naquele lugar inóspito.

         Sua nave se acoplou ao portão de entrada da base. Com tudo bem vedado, o tripulante se dirigiu à porta, sentindo problemas em se locomover na gravidade local. Ela se abre, e do outro lado tem três pessoas paradas em pé, também vestindo trajes especiais e com capacetes.

         O tripulante sai da nave, e a porta atrás dele se fecha. Ele está num tubo que liga sua nave à base.A pessoa no meio dos três, que está mais à frente, consulta um dispositivo em seu braço, e diz, numa voz recriada digitalmente transmitindo para o exterior o que se fala dentro do traje:

 

- Tudo certo, podemos tirar os capacetes.

 

         Todos apertam botões em ambos os lados do pescoço. Ouve-se um ruído de ar comprimido sendo liberado, os capacetes se soltam e todos tiram os capacetes ao mesmo tempo. O homem à frente dos três se mostra ser uma mulher de longos cabelos roxos e lisos. Esta se aproxima do tripulante, um homem de cabelos grisalhos, cheios de pontas e desarrumado, rugas no rosto e olhos negros, profundos e oblíquos, e diz:

 

- Bem vindo a esta instalação, ó Sén Alan Motinsky Gléguès.

 

         Ela disse isso com uma doce voz, ao mesmo tempo em que cerrava seu punho direito, levava à frente de seu peito esquerdo e abaixava a cabeça, como é costume dos cumprimentos formais. Alan não retribuiu, provocando um rosto de consternação nos três anfitriões. A mulher continuou:

 

- Eu sou Pandora, responsável geral pelo lugar. Qualquer assunto geral relativo a esta instalação, deve ser falado a mim. Este ao meu lado - ela apontou para o lado direito - é Nâmi. Ele é o responsável por toda a equipe que estuda a "anomalia", composta por físicos, engenheiros-teóricos espaciais, engenheiros-mecânicos espaciais, roboticistas e tecnólogos de todo tipo.

 

- Ao seu dispor, Sén Alan - e fez o mesmo cumprimento que Pandora.

 

         O rosto de Alan continuava impassível. Só seus olhos se moveram. Suas rugas causavam espanto aos presentes, assim como a cor escura de sua pele. Pessoas com rugas não eram comuns. Nâmi, com aproximadamente um metro e oitenta centímetros de altura, tinha longos cabelos loiros e lisos, pele clara e olhos de azul cristal. O rosto é perfeitamente simétrico, assim como o de Pandora. Sua voz é igualmente suave, com um leve tom masculino.

 

- E este outro é Genin. Ele é um dos especialistas da equipe de robótica e um dos tripulantes da missão “Supimpa”- outro cumprimento formal foi feito.

 

         Alan então deu um sorriso, e, diante do espanto incontido de todos, disse:

 

- Sei que já leram sobre mim, assim como eu já li sobre vocês. Vocês já me conheciam por IRV, mas devem ter lido que gosto de fazer as coisas à moda antiga. Por isso vou me apresentar:

   ‘Sou Alan Motinsky Gléguès, um estudioso de vários assuntos. Estou aqui para tentar decifrar o que é esta "anomalia". Fui autorizado pelo órgão terrestre a que vocês são subordinados a vir aqui e ver se consigo ajudá-los.

   Entendam, não menosprezo ou subestimo o trabalho de vocês. Estou aqui para ser mais uma cabeça pensante neste lugar.

   Conto com suas colaborações?’

 

         E estendeu a mão, num gesto antiqüíssimo de cumprimento com toque. Pandora hesita meio segundo e segura a mão estendida à sua frente. Em seguida Nâmi e Genin fazem o mesmo.

 

- Então, já que nos apresentamos, que horas o robô "Roxana" vai deixar Serec? - perguntou Alan em sua voz desagradável, mas firme e persistente.

 

- Daqui a 5 horas - disse a voz doce feminina.

 

- Podemos conversar agora, Genin? Já li seu depoimento por escrito, vi toda a gravação do que aconteceu, mas, como deve imaginar, quero fazer algumas perguntas rápidas. Depois eu quero ver Tucunamã, e por fim o robô.

 

- Mas não quer comer algo, ou tomar um banho antes? – o odor exalado por Alan não era nada agradável ás narinas dos três, pois ainda estava com o odor dos compostos usados para ficar em estado criogênico.

 

- Não, sem trivialidades agora. Obrigado pelo convite, Séna Pandora. Então, Genin, onde podemos nos aconchegar?

 

*

 

         A conversa de Alan com Genin durou aproximadamente 20 minutos. Inicialmente ele fez um retrospecto da missão, até o momento em que o híbrido Roxana/Tucunamã entrou na suposta área de delimitação da "anomalia". A sonda externa mostrou que o robô sumiu, como se tivesse ficado invisível.Ele então contou como Tucunamã, o controlador do robô, silenciou após balbuciar e gritar "Não! Não!", se agitando descontroladamente, e Genan tendo que aplicar uma dose de calmante nele. Mesmo assim ele tremeu ainda mais alguns segundos, e parou. Foi então dada ordem para os robôs voltarem, e voltaram o mais rápido possível para a base.

         Desde então, nas palavras de Genin, "Tucunamã permanece em estado catatônico, aparentemente sem consciência, como se estivesse aprendendo tudo de novo, como um bebê".

         Alan disse que a conversa tinha sido boa, e que agora ele queria ver Tucunamã pessoalmente. Eles foram até uma sala onde ele estava alojado. Estava numa banheira e um robô de oito braços dava banho nele. Motinsky entrou e tentou conversar com ele, mas viu que não havia condições. Nem ruídos ele emitia com a boca. Parecia que estava reaprendendo a utilizar todas suas funções sensoriais. Foi então conversar com Roxana.

         Tudo era muito intrigante. Todo tipo de teste foi feito em Tucunamã. Sua saúde e capacidade mental estavam intactas. Mas sua memória aparentemente sumiu. Digo aparentemente porque nesta época ainda não se conseguiu decifrar a totalidade das informações das ondas cerebrais. Só se sabe que a leitura da memória parece ser um processo destrutivo, ou seja, quando se lê a memória ela é destruída. Isto se deve a fatores irrelevantes para serem agora e aqui recordados. No caso de Tucunamã, verificou-se que muitas ligações nervosas sensoriais foram "desligadas".

         O outro fato intrigante era o robô. Quando foi dada a ordem para o robô voltar à cápsula, nada aconteceu. Poucos segundos depois ele surgiu da “anomalia” e parecia ter sido lançado em direção à cápsula. Quando chegou em Serec, o robô saiu saltitante, e estava desesperado para conversar. Não aceitou ser desligado e examinado, exigiu que o chamassem de "Roxana" e ser tratado como pessoa. Quis conversar sobre política, poesia e filosofia. Desde então não tem parado de falar, mostrando inteligência e capacidades impressionantes de discernimento e aprendizado. Conseguiu definir conceitos sobre certo e errado e gosto e escolhas ilógicas, como os seres humanos. Desenhou aparelhos nunca antes imaginados e aperfeiçoamentos em muitas áreas da robótica, ciências biológicas, humanas e exatas, que ficaram armazenados num banco de memórias para posterior análise.

         Mas nada mencionou sobre o que aconteceu ao entrar na "anomalia". Desde então tem ficado numa sala, sentado, escrevendo e desenhando sem parar. Só pára quando algum ser humano entra na sala, o que faz com que desande a falar. Sua obra já está ocupando um grande espaço da memória central da base.

         Por tudo isso é que ele, ou melhor, ela, será enviada à Terra para um estudo aprofundado sobre seu funcionamento. Provavelmente a desmontarão. Os robôs atuais têm IA (Inteligência Artificial) e um banco de dados estupendo, mas nada parecido com vida ou possuindo criatividade que não venha da IA. Alguns dizem que este nível de IA desenvolvido é o máximo que os humanos chegarão.

         E lá foi Alan conversar com Roxana.

 

*

 

         Pandora estava no refeitório. Lá ela saboreava um delicioso sumo de "quêra", um fruto enviado da Terra. Sentada num banco muito confortável e com a caneca na mão, tem sua atenção desviada para a pequena e discreta luz vermelha que pulsa na pulseira em seu antebraço (isso porque estava acordada. Se estivesse dormindo a pulseira vibraria e emitiria sinais sonoros). Pela freqüência da pulsação ela sabia que não era uma emergência. Era um simples pedido de conversa. Com um comando de voz uma tela se desenrolou à sua frente e nela estava Nâmi:

 

- Séna Pandora, desculpe a interrupção, mas gostaria de conversar. Podemos?

 

- Assunto? - disse ela depois de sorver mais um gole da caneca.

 

- Alan Motinsky Gléguès.

 

- Tudo bem, mas antes: - ela deixou a voz mais séria - NS 5. - na tela apareceu um barulho singelo (tip, tip, tip) e uma pequena luz piscou na mesma - Sei que você está presente, Genan. Tela 2.

 

         Uma outra tela se desenrolou. Nela estava Genan. Ele estava captando a conversa e foi descoberto assim que o nível de segurança foi elevado.

 

- Desculpe, Séna, eu balbuciei uma palavra e o computador entendeu outra! - falou o atrapalhado e um pouco acima do peso (para os padrões da época) gêmeo.

 

- A sim, acredito. Você ainda não conhece o recém-chegado, não é? E está curioso para conhecê-lo. Ele pode se unir a nós, Nâmi?

 

- Claro.

 

- Fale então.

 

- Vocês sabem que desde pequenos aprendemos a respeitar as diferenças, mas... algo me incomodou quando eu vi o Sén Motinsky. - Há muito tempo certos comportamentos e sentimentos humanos considerados “não-fraternos”, tais como o racismo, a xenofobia e a homofobia foram erradicados graças à educação das crianças.

 

- Confesso que a mim também.

 

- Por quê? - perguntou o gêmeo -Eu vi ele em IRV, mas nunca vi nada de anormal, só sua aparência e algumas idéias que ele tem.

 

- "Nunca vi nada da anormal, só sua aparência"? Você acha normal uma pessoa de 80 anos ter rugas? Eu tenho 40 anos. Nossa Séna tem 55. Olhe para nós.

 

         Ambos pareciam ter ainda a pele dos 14 anos de idade. Corpos bem delineados, nenhuma mancha ou sinal de rugas.

 

- Isso significa que os pais deles eram daqueles naturistas que tem os filhos daquele jeito nojento! Não houve TG (tratamento genético) em seu corpo. ele também não come nada industrializado ou que não veio direto da Terra. Não toma vitaminas, hormônios ou PAM (Proteínas para Acelerar o Metabolismo). Isso, por mais que eu tente ser compreensivo, não é fácil de aceitar. Concordam?

 

- Espere um pouco Nâmi, vou dar uma olhada na sala em que ele está conversando com Roxana. Tela 3, câmera sala da Roxana.

 

         Uma outra tela se desenrolou. Ela mostrava uma sala pequena, onde Alan sentado entregava um papel a Roxana, aparentemente para que esta desse uma olhada. Roxana entregou o papel de volta e fez um sinal com a mão, levantando-a e fechando todos os dedos (ela tem 5 dedos), menos o indicador e o mindinho.

 

- Fechar tela 3. Realmente, Nâmi, ele é estranho. Mas tem um conhecimento enorme! Eu soube que procura o conhecimento direto da fonte, na maioria das vezes. Não gosta de livros eletrônicos e sempre que pode lê os registros históricos, usando livros de verdade! Também não gosta de ter conhecimentos especializados, porque se preocupa em entender várias coisas ao mesmo tempo.

 

- Nunca que eu iria tê-lo na minha equipe- disse Nâmi.

 

         A conversa se desenrolou por mais um tempo, e todos se despediram. Pandora abriu novamente a tela 3, e viu Alan ainda conversando com o robô. Decidiu ir lá pessoalmente. Também pediu o relatório que havia encomendado a um dos técnicos para analisar o que Alan havia trazido em sua nave.

 

*

 

         Alan agora se encontrava em sua nave, tranqüilo, rumo à "anomalia". Conseguiu tudo o que queria em Serec. Conversou com Roxana, viu como Tucunamã estava, conseguiu os dados para ir com precisão até a "anomalia" e tudo isso sem ser incomodado. Foi fácil convencer alguns órgãos na Terra a deixarem visitar Serec depois do que aconteceu na última missão. E foi ainda mais fácil burlar a segurança de Serec para que conseguisse sair de lá.

         Estava só imaginando o rosto delicado e simétrico de Pandora, em toda sua arrogância, quando ficasse sabendo que o suprimento de comida que havia levado em sua nave só duraria 3 dias. E quando fosse até a sala de Roxana e visse que ali não havia nenhum Alan a algum tempo, e este tinha caminha calmamente até sua nave e partido. Não demoraria muito também para ela descobrir, ao conversar com Roxana, que, no papel que Alan entregou ao robô, havia um micro-cd, que caiu nas mãos da robô e foi lido. Nele estava um pedido, em linguagem digital, para que Roxana passasse para sua nave a localização exata da “anomalia” e todas as informações sobre ela contidas em Serec. Ele queria entender melhor a "anomalia" e assim entender também o que aconteceu com a robô. Também pediu para que ela escrevesse uma programação para que todos os sistemas de alerta fossem desativados, permitindo que ele passasse por qualquer lugar sem ser notado, e que o CCT permitisse sua saída. Também pediu que um vídeo de Alan na sala fosse repetido em partes diferentes da gravação toda vez que alguém acessasse a câmera do lugar em que estava, assim como as demais câmeras até sua nave. O sinal para Alan saber se Roxana havia concordado em ajudá-lo ou não seria um sinal com a mão, num gesto muito antigo.

         Um sinal foi mandado à nave de Alan, pedindo para que voltasse. Se recusasse, seriam enviadas naves para interceptá-lo e trazê-lo de volta. O que não esperavam é que Roxana, com toda capacidade criativa que tinha, ajudou Alan muito mais do que ele podia imaginar. Ela descobriu os ajustes necessários para um ser humano agüentar a aceleração só permitida às naves não tripuladas, e passou essa informação à nave de Alan. Por isso, agora, nem mesmo uma nave não tripulada poderia alcançar Alan antes que este alcançasse a "anomalia".

***

 

         Nos últimos dois dias Alan só tem tentado montar um quebra-cabeça. Desligou todas as comunicações de rádio, para que não o importunassem. Pensava em todos os acontecimentos e na conversa que teve com Roxana. Apesar de tudo ela ainda não parecia ter vida. Talvez fosse por ela ser uma robô, mas, mesmo tendo personalidade, Alan ainda não sentia vida naquele ser.

         Na conversa entre eles Roxana disse que sua primeira lembrança é de estar vagando no espaço em direção à cápsula, e depois chegar no asteróide. Desde então tem tido milhões de idéias todos os dias. Na conversa com Alan, falou sem parar e apresentou idéias muito interessantes sobre o sentido da vida e filosofia. Pareceu sofrer por poder conversar somente com seres humanos, pois para um robô deve ser interminável a espera de ter que emitir sons pela boca e ter que esperar uma resposta de uma pessoa.

         Voltando a pensar na “anomalia”, Alan tinha uma vaga idéia do que ia encontrar. Na Terra e em Marte sempre prestou atenção nas pessoas ditas "loucas", que falavam frases desconexas, enquanto que a medicina dizia que essas pessoas estavam doentes e que poderiam ser tratadas. Para Alan, aquilo eram profecias, e diziam que na "anomalia" estaria a explicação do bem e do mal, a origem e o sentido da vida, a perdição e a salvação do homem. Se eram verdadeiras ou não, não sabia ao certo, mas esperava descobrir pelo menos alguma coisa.

         Apesar do desastre da última missão, alguma coisa o impelia a continuar, como se soubesse que não aconteceria com ele o mesmo que a Tucunamã. Parecia que a vida toda tinha se preparado para isto, para esta viagem, para este encontro com o que quer fosse. A hora se aproximava.

 

**

 

         A nave se aproximou da "anomalia". Do mesmo modo que a cápsula fez na outra missão, a nave fica a uma certa distância, em posição estática. Alan já está com a roupa espacial e com tubos de ar comprimido nas costas. Antes de sair de seu veículo vê que não demorarão muito para chegarem naves de Serec.

          Com um impulso ele sai da nave e liga por um momento seus tubos de ar comprimido para ter um impulso inicial, desligando-os rapidamente. Dentro de seu capacete, no visor, é mostrado a distância até a área de atuação da "anomalia". Ele se aproxima, e presta atenção no mostrador, que está em metros:

         "10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1..."

 

*

 

         Entrando na "anomalia", sentiu uma sensação enorme de conforto. Estava no espaço ainda, e aparentemente gozava de boa saúde mental. Mas ao olhar pra trás não viu sua nave e teve a sensação de que havia parado. O vazio tem um silêncio muito desagradável. Alan ouvia somente seus vasos sanguíneos e seu coração batendo, o que ocorria com grande rapidez. Ficou ali parado por alguns instantes.

         Olhando em volta, viu que algumas estrelas pareciam se mover muito lentamente. Estavam acelerando e pareciam se mover aleatoriamente, até que se juntaram num só ponto e uma grande luz o ofuscou.

 

- Alan! Muito bem vindo! Feche seus olhos por enquanto, pois se não ficará cego!

 

         Isso foi dito por uma voz monstruosa, que vinha de todos os lados da roupa de Alan, e parecia vir de um ser que não estava ali, mas sim como se estivesse "falando de outra dimensão", como diziam os antigos escritores de ficção científica. Alan estava de olhos fechados e os tampava com a mão, mas mesmo assim a luz o machucava.

 

- Quem está falando? Essa luz machuca muito meus olhos!

 

- Eu sou o a e o W. Aquele que seu mundo esqueceste!

 

- Deus? É o Sén?

 

- Sim, eu sou quem vós humanos chamais 'Deus'. Podes abrir os olhos agora.

 

         Ao abrir os olhos Alan se encontrava flutuando numa sala. Lentamente se aproximou do chão, quando sentiu o peso de seu corpo novamente. A sala tinha uns 7 metros de comprimento e 4 de largura, e estava toda adornada com quadros famosos, tapetes, e uma estante cheia de livros. Uma poltrona se encontrava logo atrás dele. Do outro lado da sala uma pessoa se encontrava de costas, vestida com uma roupa a muito esquecida, que era usada para dormir. Em cima da poltrona havia algumas roupas, e à sua frente se encontrava outra poltrona muito bem decorada, a uns 2 metros de Alan. Havia um enorme espelho na parede à sua direita, ocupando boa parte dela.

 

- Podes tirar o capacete, Alan, temos atmosfera igual à terrestre aqui. Se quiser, podes trocar de roupa, pois têm umas roupas que talvez te interessem em cima da poltrona atrás de ti.

 

         A voz agora era humana, modificada por Alan estar ouvindo-a através do capacete. Ele ligou rapidamente um aparelho em seu braço, que confirmou a existência de atmosfera.

 

- Não te preocupes, teu traje e teus aparelhos são inúteis aqui. - a figura humana se virou –confies em mim.

 

         Alan se assustou ao ver que a pessoa era exatamente igual a ele, tanto na voz quanto na aparência. Então tirou o capacete, mas não tirou seu traje. Sentiu um doce perfume de limão misturado com camomila e lavanda, muito suave, no ar.

 

- Sou feito à tua imagem e semelhança. Adotei esta forma e esta voz para que não se sinta intimidado em falar comigo. Tu deves imaginar que não recebo muitas visitas de seres humanos por aqui. Senta-te por favor. Queres algo para beber?

 

- Não, não, obrigado. - disse timidamente, enquanto ia retirar as roupas da poltrona, quando viu que não estavam mais lá, e se sentou.

 

- Eu tirei as roupas da poltrona já que tu não as quis. Para aumentar teu conforto, criei a sala igual à que sempre sonhastes em ter na Terra. - a imagem de Alan falava normalmente, como um ser humano, sorrindo de vez em quando, e tinha uma voz mais firme que a do próprio Alan. A única diferença com os seres humanos era que usava uma forma de tratamento a muito esquecida, mas bastante apreciada por Alan.

 

- Sén Deus, eu nem sei o que dizer. Posso falar francamente? - Alan então simulou um sorriso de reprovação a si mesmo - Que burrice que estou dizendo, pois você já sabe o que eu irei dizer! O que eu quero é perguntar se posso conversar um pouco.

 

- Claro, te concedereis este pedido. Quando falava com as pessoas na Terra nunca deixava elas conversarem comigo. Mas o tempo para os humanos passou, e, como o que Eu tinha que fazer ou ajudar a fazer já se fez, não tenho mais porque agir daquela forma. Podes falar como se estivesses falando com um outro ser humano.

 

- Tudo bem. Não tenho nem palavras para agradecer ao Sén. Tenho tantas perguntas a fazer! Quero perguntar sobre a Bíblia, Jesus, Lúcifer, onipotência, onipresença e onisciência! Não tem como eu simplesmente saber disso tudo, com o Sén passando estas informações para mim?

 

- Eu até poderia passar tudo telepaticamente, mas Eu gosto de ver os seres humanos falando. Não te preocupes, se precisarmos passar mil anos conversando, não tem problemas. Aqui não envelhecerás e para os que estão fora será como se o tempo estivesse parado todo este tempo.

 

- Certo, compreendo. Mas inicialmente quero perguntar uma coisa, já aproveitando sua preciosa permissão. O que aconteceu com Tucunamã e Roxana?

 

- Com Roxana foi simples: eu simplesmente "soprei vida" nela. É um processo complicado demais para explicar agora. Depois explico-te, pois percebo que se afliges para saber o que houve com Tucunamã. Foi igualmente simples. Ele Me encontrou, Me desafiou, disse que Eu não existia. Disse que se Eu fosse realmente quem Eu dizia que era, que era para fazê-lo retornar ao estado mental de um feto. Só fiz sua vontade.

 

- E você conseguiria atingi-lo não importa em que parte do universo ele estivesse... Mas você já não sabia que ele viria aqui?

 

- Sim, mas cada um tem o livre arbítrio para fazer o que quiser. Ele fez sua escolha.

 

- Sim, tudo está explicado agora. Na verdade, tenho só mais duas perguntas a fazer, mas o Sén já sabia disso, não é?

 

- Só mais duas perguntas? Estás com a cabeça cansada. Tua mente tem tantas perguntas que nem sabes por onde começar. Pergunte o que quiser.

 

- Consegue ler e entender a mente humana?

 

- Sim.

 

- Tu és onisciente, onipotente e onipresente? Se bem que basta ter uma destas características para ter as outras duas.

 

- Estás fazendo perguntas redundantes, mas a resposta é sim.

 

- Então eu digo que não acredito no Sén.

 

- Duvidas da minha existência, assim como Tucunamã? Sei que tens fé em Mim! - A voz voltou a ser a voz inicialmente ouvida, parecendo estremecer a sala toda.

 

- Sim, eu acredito em Deus. Mas não acredito em ti, ou, melhor dizendo, você. E sei que não fará nada comigo. Pelo menos não agora. - Alan continuava com sua voz firme, mas agora com um certo tom de superioridade e sarcasmo - Digo mais, digo que mentiu em quase tudo que disse. Só não mentiu sobre a criação desta sala e talvez sobre a possibilidade de parar o tempo fora daqui.

 

- O que levas tu a pensar isso? Ou, já que prefere, o que leva você a pensar nisso?

 

- Qualquer outro acreditaria em você, cara imagem minha, mas eu não sou qualquer um. Eu sou Alan Motinsky Gléguès, e estou muito bem preparado para entender e interpretar conversas igual a que agora criamos. Desculpe, mas não há porque ser modesto nesta situação.

 

- O que pensas que Sou?

 

- Quer ouvir minha versão, ou você mesmo prefere reexplicar tudo o que me disse?

 

         Alan se levantou rapidamente da poltrona e se aproximou de sua imagem. Ela olhou para ele, com os mesmos olhos negros e oblíquos. Alan não se intimidou e manteve seu olhar quase impassível.

 

- Diga tua versão. - a voz voltou a ser humana

 

- Digo que não é Deus. Você não é nem singular, é plural. Esta "anomalia", como foi chamada por nós, humanos, é na verdade uma nave onde sua raça (não imagino como ela seja) vive. Vocês são criaturas vivas. Fizeram alguma coisa, que eu não sei o que é, a séculos atrás, que chamou a atenção dos seres humanos. - Alan parou um instante, e começou a andar pela sala, ao redor da poltrona. A imagem continuou imóvel, olhando à sua frente.

 

- Continue.

 

         Alan fez uma meia volta e voltou a andar em volta da poltrona.

 

- Vocês nem sabiam da existência dos seres humanos, e, pelo que parece, de algum modo podem controlar o tempo e o espaço. Assim não são vistos e podem fazer o tempo passar aqui dentro diferente do resto do universo. Vocês tomaram conhecimento dos seres humanos pelas transmissões de rádio que fazemos a séculos.

‘A primeira sonda que veio até aqui mostrou que algum dia poderíamos “visitá-los”. Então vocês (não sei se estavam somente de passagem ou não) resolveram esperar nossa aproximação. E isso ocorreu quando a missão de nome “Supimpa” veio até aqui. E pelos seus próprios interesses se aproveitaram dela.’

 

- Então acha que sabe o que houve com Tucunamã? Estou interessado em ouvir o que tem a dizer. -diz a voz, agora sorridente e menos formal.

 

- Eu te digo. Mas antes, para que minha análise fique mais completa, poderiam me dizer o que são vocês e de onde vieram?

 

- A verdade às vezes pode ser muito mais terrível do que a mentira, meu caro. Como podemos supor que fala a verdade ao dizer que sabe de nossas intenções, contarei agora sobre nós.

‘Nós somos seres não de outro planeta ou outra galáxia, ou de qualquer parte do universo. Não adianta falarmos nosso nome, pois você não seria capaz de compreendê-lo. Nós somos seres de antes do Big-Bang, e vivemos em quatro dimensões dentro desta nave.’

 

         Alan estava de fronte à poltrona vazia e ficou sem reação ao ouvir a última frase. Incrédulo, se soltou no assento.

 

- Como? Antes do Big-Bang? Se o que falam é verdadeiro, realmente, é mais difícil de acreditar nisso do que quando me disseram que eram Deus. Quantos vocês são?

 

- Isso é algo difícil de dizer para você. Necessariamente você não precisa somar um mais um para dar dois. Você pode somar um mais um e dar uma coisa ... diferente. Podemos dizer que somos alguns milhões, ou algumas unidades. Depende do que queremos. Às vezes posso me referir a mim mesmo no plural, ou nos referir a nós mesmos no singular.

‘Nós somos seres incompreensíveis para ti. É impossível nos imaginar. O único que conseguiu descrever algo parecido é um autor muito antigo de seu planeta. Seu nome era H.P. Lovecraft. Ele descrevia seres que os seres humanos não podem distinguir a forma. Este seria um modo de nos entender.’

 

- Sim, claro, lembro dele. Eu não posso ver vocês, pois são de 4 dimensões espaciais. Como um desenho num papel não pode ver um ser humano. Talvez possa tentar imaginá-los...

 

- Isso mesmo. Como nosso nome é incompreensível a você, pode inventar um se quiser.

 

- Não, não. Se não pode dizer seu nome, não serei eu que darei. Os homens têm esse costume de querer dar nome às coisas, dar nome a tudo, classificando a natureza. Mas, para mim, quanto menos classificarmos, melhor entenderemos a natureza.

 

- Belo pensamento, Alan, mesmo que não concordemos. E, para direcionar melhor os pensamentos de sua cabeça, posso dizer que descobrimos aquilo que os humanos chamam de Teoria do Tudo. Sei que sabe do que falo. Descobrimos como unir todas as interações que ocorrem na natureza em uma única teoria. E com ela descobrimos muito mais coisas. E por isso estamos aqui hoje.

 

- Então, antes desse universo havia outro... que se colapsou numa única corda e se expandiu novamente. Como vocês sobreviveram?

 

- Como dissemos, através da Teoria do Tudo pudemos saber como a natureza interage. E conseguimos, através dessas equações e de observações, descobrir que nosso universo iria se colapsar. Muito antes disso acontecer já havíamos deixado o planeta de nossa origem (entenda que usamos o termo “planeta” para facilitar nossas explicações). Quando a vida nesse planeta ficou insustentável, o deixamos e ficamos nessa nave, vagando pelo universo... Para não morrermos, deixamos nossa existência física e passamos nossas mentes para um tipo de "computador". Quando faltavam centenas de milhões de anos para ocorrer o colapso, descobrimos como ele ocorreria, e que quando o universo voltasse a expandir ele teria muita energia somente em 3 dimensões... Fizemos os cálculos e foi descoberto como poderíamos sobreviver depois do assim chamado Big-Bang. Durante a parte final do colapso e a parte inicial da expansão, na época que a radiação era dominante sobre a matéria, ficamos em um estado de não existência, até que finalmente nossa nave se reconstruiu, juntamente conosco. Foi como um pacote de informação que foi deixado para abrir na hora certa. Felizmente, acertamos em todos nossos cálculos. Só erramos em uma coisa.

 

- Em quê? Talvez tenha a ver com a pergunta que estou me fazendo...

 

         A imagem fez uma cara de preocupado. Continuou falando com seu modo seguro, como se tivesse ensaiado o que ia falar durante meses.

 

- Erramos ao calcular a quantidade de energia necessária para nos manter estáveis. Como eu disse, aqui nesta nave estamos em quatro dimensões espaciais. Para manter esta quarta dimensão grande o suficiente para nos suportar devemos gastar muita energia, e não imaginávamos que depois de alguns bilhões de anos essa energia ficaria tão escassa. Isso por que a expansão não parou. Algo surgiu que não estava previsto em nossos cálculos... Se fosse a alguns bilhões de anos atrás, poderíamos até reverter a primeira dimensão temporal e planejar melhor o nosso futuro, mas hoje não conseguiríamos.

 

- Viagem no tempo? Não estão exagerando? Eu sei que é impossível.

 

- É impossível para vocês que não podem compreender nem sentir uma segunda dimensão temporal, muito maior que a dimensão de tempo que vocês percebem e na qual estão fixos. Como existe esta segunda dimensão, que é na qual o universo como um todo se "locomove", podemos nos fixar em uma e viajar pela outra. Mas consome-se muita energia...

 

- Como conseguem energia? De estrelas?

 

- Não, conseguimos de cordas cósmicas, elementos que sua ciência somente supõe existirem. Quando encontramos uma, nos aproximamos e ficamos sugando-a até armazenarmos quase toda a energia que ela possui, o que faz com que partamos para outra...

 

         Alan nesse momento ficou pensativo. Lembrou-se das primeiras observações da "anomalia", e das ondas eletromagnéticas que atingiram a Terra...

 

- Está pensando sobre o que aconteceu há séculos atrás em seu planeta, quando avistaram a "anomalia"? Sim, está pensando certo. Quando começamos a utilizar esta corda cósmica, nós a quebramos e isso liberou uma quantidade infinitesimal de energia.

 

         Alan lembrou de todos os desastres ecológicos que ocorreram por causa dessa "energia infinitesimal".

 

- Não nos julgue, Alan. Não sabíamos que havia vida num planeta próximo. Nós captamos sinais de ondas eletromagnéticas vindas do universo, mas a muito tempo não as analisamos mais.

 

- Eu não posso julgo vocês. Mas e agora que o universo vai se expandir, o que farão?

 

- Aceitaremos nossa morte, afinal iremos cansar de viver algum dia.

 

- Você devem ter estado em quase todos os lugares do universo atual. Existem outros seres? Por onde andaram pelo universo?

 

- Em qualquer lugar que imaginares. Criamos "buracos de minhoca" e atravessamos o Universo sem depender da lenta velocidade da luz. E efeitos relativísticos não são um problema para nós, pois afinal, o que mais temos é tempo!

 

         A imagem deu uma risada leve, com um igualmente leve tom de segurança e superioridade.

 

- Quanto a outros seres, pode ficar tranqüilo, eles existem. Mas a uma distância tão grande de vocês, humanos, que só alcançarão a eles quando souberem fazer buracos de minhoca. Já vimos nascimentos de estrelas, buracos negros e estrelas supergigantes, que fariam seu Sol parecer uma átomo perto de uma pessoa caso fossem colocados lado a lado. Consegue sequer imaginar que não podes imaginar o que isto significa?

 

- Sim.

 

         A imagem estava até então com as mãos sobrepostas sobre seu colo durante a conversa. Então ela mudou de posição, se curvando um pouco para frente e colocando os cotovelos no encosto da poltrona, entrelaçando seus dedos e assim cobrindo sua boca. E disse:

 

- Já falei demais. Agora diga sua versão para os fatos.

 

- Depois de tudo que me disseram, vejo que tudo é até relativamente simples. Vocês receberam as sondas enviadas e souberam que havia vida inteligente na Terra. Quando perceberam que uma nave se aproximava, esperaram o contato. Assim que Roxana entrou aqui, vocês rapidamente perceberam que se tratava de um robô com cérebro digital. Com a capacidade de processamento que suas mentes devem ter (que é muito grande, posso perceber porque quando falam comigo parece que já pensaram e repensaram na mesma frase milhões de vezes), já analisaram-na e entenderam todos os componentes e a memória de Roxana, copiando ela inteira. Isso em frações de segundo. Com ela conseguiram todas as informações sobre nossa história, línguas e conhecimento cultural e científico. E então vocês perceberam que havia algo mais com esse robô... havia vida ligada a ela. Uma mente humana. E vocês já tinham uma curiosidade de entender a mente humana, desde a primeira vez que receberam nossa sonda. E ali, ao alcance de vocês, através da RIDA, estava já pronta uma conexão analógica-digital entre a mente de um humano e um robô. Bastava então ler a mente humana.

‘Mesmo sabendo que a mente humana não pode ser lida sem ser destruída na pessoa que a tem, vocês leram toda a mente de Tucunamã, desde suas memórias 'altas' (as lembranças de coisas que lhe aconteceram) quanto as memórias 'baixas' (aquelas que diziam respeito ao seu próprio controle de músculos e órgãos). Por isso, não sei se sabem, ele ficou como se tivesse acabado de nascer. Mas isso vocês devem saber porque devem agora estar monitorando o tráfego de ondas eletromagnéticas que partem de Serec.’

 

         A face da imagem fez um sorriso.

 

- Estou impressionado com sua explicação, Alan. Mas por que veio até aqui, se suspeitava que podia ser perigoso?

 

- Estou aqui porque acreditava nas profecias de algumas pessoas da Terra que diziam que a "anomalia" era algo que transcendia o tempo e o espaço, e que poderia auxiliar a humanidade. Só não imaginei que estavam tão certos.

 

- Você então acredita em profecias? Espanta-me uma pessoa que vive em um mundo onde a ciência está tão presente ainda acreditar nisto. Mas, pela sua biografia, você sempre foi diferente.

 

- Sim, acredito em profecias, e não confio tanto na ciência. Por exemplo, por mais que o homem tenha feito cálculos e cálculos, só confio de andar em naves porque já foram muito testadas. Quantos erros já houve por confiarem demais na ciência! Você devem acreditar nela, estou correto?

 

- Sim, pois sem ela não estaríamos vivos.

 

- Então não acreditam em Deus, já que não acreditam em profecias?

 

- Claro que não! - a imagem soltou uma risada irônica - Como podemos acreditar em criação se existimos antes do Big-Bang? Como crer em uma força superior, se nós quase podemos tudo e ainda não encontramos nada que indicasse a existência de tal “força”?

 

- Então não acreditam... Mas vocês já criaram vida? Já viram a vida surgir de algo que não tem vida?

 

- Não, nunca conseguimos criar vida. Só falta dizer que não acredita em evolução..

 

         Agora foi Alan que riu.

 

- Mas e vocês, evoluíram? Estudaram algum planeta por milênios para observar a evolução? Posso garantir a vocês que na Terra, nesses 1000 anos que temos registros de espécies, nenhuma mudou. Só ocorreram extinções.

 

- Sim, acreditamos que evoluímos, pois não temos mais o mesmo corpo. Quanto à outra pergunta, não, nunca estudamos um planeta por milênios.

 

- Vocês pensam que deram vida a Roxana?

 

- Não, sabemos que não. Nós só criamos um programa de inteligência artificial muito superior ao que os humanos criaram, pois pudemos analisar a mente humana de uma perspectiva diferente da de sua espécie, pois somos diferentes. A partir dessa análise reprogramamos Roxana.

 

- Sim, vocês são muito inteligentes, tenho que admitir. Mas preciso dizer algo. Preciso dizer que, de alguma forma, nós seres humanos podemos perceber se existe vida em algo ou não. Isso eu não percebi em Roxana. E não percebo isso aqui.

 

         A imagem se mostrou indignada. Suas mãos estavam no encosto da poltrona.

 

- Como assim? Quer dizer que, pelas suas sensações e impressões, não sente que estamos vivos?

 

- Não sei ao certo. De alguma forma, se me permitem dizer, sinto que não vivem mais. Tenho até um palpite sobre quando a morte de todos aqui desta nave.

 

- Diga-nos, ficamos curiosos agora. -  o rosto da imagem agora demonstrava interesse.

 

- Morreram durante o colapso do universo de vocês. A vida de vocês se extinguiu. Depois disso vocês surgiram, quase como Roxana surgiu. Seres curiosos, com a mesma inteligência de antes, mas sem vida. Sem capacidade de gerar vida. Sendo isso verdade, deverá chegar um momento que vocês não conseguirão produzir mais nada, pois terão esgotadas as possibilidades limitadas de sua suposta criatividade.

 

- Espere um momento, Alan. - a imagem ficou parada.

 

         Alan ficou pensando no motivo dessa interrupção, e começou a se preocupar com a razão deles estarem conversando com ele. E lembrou também que foi bom ter mentido à imprensa sobre como seria a sala que gostaria de ter, e isso ficou nos registros. Se estivesse falando com Deus, ele saberia o que realmente gostava, e não algo que está nos arquivos. Interessava-se um pouco pelo espelho, mas não pelas poltronas e os livros (que deviam realmente estar preenchidos com todo seu texto, pois Roxana tinha armazenado toda a literatura já feita pela humanidade).

 

*

 

- Alan, voltemos a falar. - a imagem de repente voltou a se movimentar - pensei sobre o que nos disse e pergunto-lhe: sabe porque está vivo, ou melhor, porque ainda está vivo?

 

- E não deveria estar? Vocês não precisam de mais seres humanos, pois através de Roxana já conseguiram todas as informações sobre os seres humanos, e o funcionamento de uma mente humana já descobriram ao usar Tucunamã- a voz de Alan continuava calma.

 

- Não fique tão seguro disso, Alan. Afinal, Tucunamã nunca esteve na Terra, e seria muito interessante saber como uma mente como a sua funciona. Poderíamos até lê-la e depois recriá-la. Mas isto seria desnecessário, pois o temos aqui pessoalmente! Confesso que ficamos empolgados quando soubemos de sua visita. Parecia que de algum modo já sabíamos que viria nos procurar. Quase uma premonição, não? - a imagem ensaiou um sorriso.

 

- Sim, mas posso saber o que pensou?

 

- Decidimos que pode ter realmente acontecido o que falou. Que podemos estar mortos. E queremos voltar a viver. Para isso precisamos de ti.

 

- De mim? Como?

 

- Queremos que se junte a nós. Basta transferirmos sua mente e sua consciência ao nosso computador. Nunca fizemos isso com um ser humano, pois com Tucunamã só quisemos ler a mente. Garantimos que dará certo. O que acha?

 

- Então eu não poderei voltar para a Terra. - a firmeza da voz de Alan já não se fazia sentir – Peço para que me deixem voltar. Não posso fazer nenhum mal a você. - e nisso se levantou.

 

- Não, Alan, você sabe demais. Tudo que aprendeu conosco não deve ser passado aos humanos. Eles não sabem aproveitar as informações que não sejam obtidas por eles próprios, e, pelo que analisamos, devem aprender tudo sozinhos. Se não quiser se juntar a nós, de que adiantará? Podemos forçá-lo através de compostos químicos,e, se mesmo assim se recusar, sua existência não deixará este lugar. Nem adianta colocar seu capacete, pois sabe que podemos controlar o espaço a sua volta e poderíamos esmagá-lo com facilidade. Mas não queremos isso.

 

- Nisso vocês se enganam! Para mim pode até não haver muita escolha, mas não podem impedir os humanos de ter acesso ao conhecimento de vocês! Roxana já está indo em direção a Terra e ela se tornou um ser extraordinário. Suas idéias irão melhorar toda humanidade, pois ela, com sua capacidade mental, pode analisar rapidamente tanto as pequenas coisas quanto as grandes, o que faz com que tenha uma inventividade numa velocidade que pode até se equiparar à capacidade de raciocínio de vocês. Ela sabe tudo sobre a humanidade, e pode usar tudo ao mesmo tempo, coisa que um ser humano é incapaz de conseguir.

 

- Não seja tão tolo, Alan. – disse a imagem com uma voz de triunfo - Ela está saindo de Serec em direção à Terra, correto? Numa nave com Pandora. Podemos facilmente atingi-las daqui, pois podemos controlar pequenas porções do espaço externo.

 

- Não, não façam isso! Não as destrua!

 

- Não iremos destruí-las, pelo menos não à Pandora. Atingiremos somente à Roxana. Não adianta pensar mais nisso. Só pense agora se vai ou não se unir a nós.

 

- Já que essas são suas palavras finais e vejo que não mudarão de posição, peço três coisas. A primeira é um tempo para decidir o que farei, pois não sei ainda se me compensa ter uma vida de sabedoria e conhecimento e deixar a humanidade com todos seus problemas. A segunda é que, não importando minha decisão, enviem meu corpo de volta à minha nave, pois devem estar me procurando. Quanto à terceira...

 

- Diga a terceira, pois aceitamos as outras duas...

 

- A terceira é que me permitam orar antes de fazerem qualquer coisa a Roxana. Já que não acreditam em Deus devem achar inútil eu fazer isso, mas ainda tenho fé e vou orar pedindo para que a humanidade não perca a chance de obter tão grande conhecimento.

 

         A imagem deu ombros, indiferente.

 

- Tudo bem Alan. Pode orar.

 

         Alan se ajoelhou e murmurou algumas palavras, pedindo entre outras coisas o aproveitamento da capacidade de Roxana para ajudar a humanidade. Sua oração durou menos de um minuto. Quando se levantou, disse:

 

- Façam o que quiserem com Roxana! Tenho fé de que minhas preces foram ouvidas!

 

- Sinto desapontá-lo ou abalar suas crenças, mas assim que acabou sua última frase já a destruímos. Te daremos 1 dia para dar sua resposta quanto a se juntar a nós ou não. Tudo que precisar nesse tempo lhe será dado. Decida sabiamente...

 

***

 

         Um dia depois que Alan entrou na "anomalia" chegou uma nave com Genin e Genan para capturá-lo. Como não avistarem o homem, ficaram preocupados e decidiram esperar mais um tempo. Enquanto isso ficaram analisando sua nave. Quando tudo estava pronto, o radar apontou um objeto se aproximando. Era o corpo de Alan, com o capacete colocado na cabeça. Recolheram o corpo, tristes com mais esta tragédia, e voltaram. Enviaram a notícia tanto para a Terra quanto para Serec.

         No caminho de volta, receberam um comunicado dizendo que inexplicavelmente Roxana havia sido desligada e as análises mostravam que havia perdido toda a memória. Seus sistemas foram danificados, e seus cabos todos se soltaram e se misturaram, impedindo qualquer forma de saber como estavam antes. Foi perdida pra sempre.

         Devido ao que ocorreu com Alan, a "anomalia" não mais foi visitada por humanos, sendo mandada sondas esporádicas até ela, os teóricos tentando descobrir o que ela era. Serec se tornou uma base de estudos e lançamento de naves, mas era proibido se aproximar da "anomalia".

         A “anomalia” parou de analisar as transmissões dos humanos.

         Passado um certo tempo, em todas as bases humanas, a vida começou a se modificar. Tudo devido a um robô, Rossana, cópia exata de Roxana. Ela foi feita por uma ordem de Pandora, quando Roxana ainda estava em Serec.

         Depois de Alan ter saído e a chefe de Serec saber o que houve, finalmente teve uma conversa com Roxana de um modo normal, como se fosse humana. E só então percebeu o quão importante e especial ela poderia ser, e pediu a Nâmi para este fazer uma cópia da robô. Sem informar suas verdadeiras intenções a ninguém, ela inventou uma desculpa para atrasar o envio da robô à Terra, pois os preparos para se realizar a cópia demorariam um tempo. Esta cópia seria muito difícil, pois não só a memória deveria ser copiada, mas também todos seus circuitos, não podendo ficar nenhuma parte sem ser reproduzida, pois ainda não sabiam como ela funcionava. Ou seja, tinham que reproduzi-la inteiramente, pois uma única parte que faltasse não permitiria seu funcionamento.

 

         A oração de Alan não fez com que Roxana fosse salva, mas, por acaso, durou o tempo necessário para que as últimas partes da robô fossem copiadas, antes dela ser destruída...



[1] cassioamador@yahoo.com.br

Cássio Henrique Amador nasceu em 8 de dezembro de 1983, em Curitiba, e sempre gostou de pensar e analisar o mundo a sua volta. Cria histórias a muitos anos, e têm alguns contos incompletos, todos com temas de ficção fantástica. Aos 10 anos foi para a cidade de Londrina, e é graduado em Física pela Univerisade Estadual de Londrina, no Paraná, curso que sempre quis fazer por acreditar que a Física tenta entender melhor a natureza. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde faz mestrado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. O conto 'A "anomalia"' foi sugerido por sua mente a dois anos e meio, quando assistia a uma palestra, tendo sua forma escrita feita em julho de 2005, e algumas correções foram feitas em março de 2006.


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