Para Vini, aquele era o primeiro dia de férias de verdade.
O dia anterior não valera, embora tivesse sido diferente dos dias de sempre. Interessante nos primeiros quilômetros, cansativo e aborrecido lá pela metade e muito chato da metade para o fim, tanto, que chegara a dormir. Mamãe bem que tentara mantê-lo entretido com aquela história de contar os carros brancos que passavam, enquanto Douglas mantinha os olhos fixos no pára-brisas, resmungando por causa das barbeiragens dos outros motoristas. Mas Vini não se interessava por carros brancos e o único que brincou daquilo foi o idiota do Zeca, aliás, José Carlos, o filho de Douglas. Zeca era de lascar. Não havia quem o aturasse e o idiota vivia fazendo de tudo para chamar a atenção, sobretudo a atenção de Ana Cláudia, a mãe de Vini. De uma certa maneira, Zeca lembrava a Vini um vira-latas pulguento que fizera parte de sua vida uma vez, quando papai ainda não tinha ido embora e todos levavam a Vida Perfeita na Maravilhosa Casa Com Jardim, em Caxias do Sul. Agora moravam num apartamento abafado no centro de São Leopoldo, não havia jardim, não havia cachorro e não havia papai, a não ser dois finais de semana por mês. Tampouco havia placas na estrada porque a via estava em obras, de modos que Vini não pudera sequer experimentar seu conhecimento sobre o assunto, o que lhe dava um certa superioridade sobre Zeca, que inventava nome de marca de carro só para se exibir, mas não distinguia uma informação de tráfego da outra.
Tinha sido uma longa viagem, de fato, mas agora, quando entraram na área de piscinas do hotel, seus olhos brilharam de animação. Oh, sim, aquele era de fato o primeiro dia de férias de verdade!
Mamãe, posso ir na pisicina grande? perguntou, puxando a mão que o segurava com força na direção desejada. A piscina grande não só era grande e aparentava ser maravilhosamente funda, como ainda por cima tinha uma cascata que emergia de uma estrutura, um jorro líquido achatado que começava lembrando uma chapa de vidro, virava um rugido na metade do caminho e terminava em uma explosão convidativa.
Oh, Deus, iam ser umas férias maravilhosas!
Ei, ei, meu chapa, ei! fez Douglas agarrando sua mão livre. Vinicius parou, olhando para o namorado da mãe que abaixava-se para ficar do seu tamanho. Chapa! Sem noção! Douglas era o cara mais antiquado que o menino conhecia, definitivamente. Ninguém dizia meu chapa, na escolhinha! Olha, vem cá. Tá vendo aquela placa ali? Sabe o que ela diz?
Vini dedicou seu olhar número trinta e oito para o companheiro da mãe. Era óbvio que via a placa, não era cego, e era óbvio que não sabia o que ela dizia, porque ainda não aprendera a ler frases inteiras. Douglas, de fato, era o maior sem noção que o menino conhecia. O homem sorriu, tentando ser simpático, mas a cara redonda de Zeca apareceu por cima do ombro dele e Vini teve de controlar-se ao máximo para não mostrar a língua para ambos.
Ali diz proibido a entrada de crianças com menos de seis anos, mesmo na companhia de adultos. Lamento, meu chapa, mas você não pode ir na piscina grande.
Então eu posso ir, não posso, pai? Posso? gritou Zeca por trás do homem. Douglas virou-se para o filho e sorriu:
Bom, você já fez seis anos... concordou.
Tio Douglas, vou fazer seis anos daqui duas semanas, avisou Vini, que vinha contando os dias em um calendário que ganhara de presente da avó para o caso de Douglas achar que ele era um bobalhão completo, ou para o caso de Douglas ser um bobalhão completo e não saber contar.
Lamento, meu chapa. Você vai ficar na piscina pequena, certo? Eu e sua mãe só podemos vigiar um de cada vez e o Zeca já é serviço completo... resmungou o homem levantando-se e olhando ao redor com um ar satisfeito. O mais velho soltou um grito selvagem de prazer e vitória.
É querido, eu lamento, comentou a mãe puxando Vini delicamente para uma das mesas ainda vazias. Mas, olha só, tem uma piscina só para gente do seu tamanho.
É! E na piscina para crianças tem escorregador, coisa que não tem na piscina para adultos. Acho que vou reclamar com a gerência, brincou Douglas levantando-se. Vini dedicou uma olhadela para a piscina infantil e calculou, pelo menino que estava brincando dentro dela, que a água daria, no máximo, em sua cintura. Suspirou, triste. Pelo menos, de fato, a piscina tinha escorregador. Mas não tinha cascata. Ele é que estava pensando em reclamar com a gerência, fosse isso o que fosse.
Em todo o caso, dez minutos depois ele já estava dentro da água, travando relações muito amigáveis com o escorregador e com um garotinho que se chamava Edu e as promessas de grandes férias começaram a ser cumpridas quase imediatamente. Houve um certo estremecimento em sua certeza por volta de uma da tarde, quando sua mãe decidiu que estava na hora de almoçar na escolhinha era a mesma coisa: era só a brincadeira chegar na melhor parte, para que os adultos chamassem para alguma bobagem, como comer ou dormir, mas como seu novo amigo também foi arrastado para fora da piscina, Vini obedeceu. O legal foi que Douglas convenceu mamãe a almoçar ali mesmo, e o menino não precisou por chinelos, camiseta, nem pentear o cabelo. Além do mais, tiveram de buscar Zeca na piscina grande o que valeu ao garoto um puxão de orelhas. Bem feito! Às vezes o Douglas podia ser muito legal, reconheceu o pequeno mastigando uma batata frita e olhando o pátio do hotel, agora quase vazio, excetuando algumas garotas de biquíni minúsculo que torravam ao sol e um bando de gente que cozinhava na água da piscina, de chapéu e óculos de sol, conversando e de vez em quando espirrando água uns nos outros.
O pátio das piscinas era um lugar muito bonito e agradável. Havia a piscina para crianças, uma ainda mais rasa para bebês, pensou Vini com um certo desprezo e ao mesmo tempo aliviado por ter uma opção de criaturas ainda menores do que ele e um pouco mais atrás, outra, coberta, na qual Douglas prometera levar os dois meninos caso chovesse naquela semana. Ao redor, mesas com guarda-sóis amarelos e cadeiras e espreguiçadeiras de plástico branco. O chão era de uma pedra amarelada, que cintilava um pouco sob o sol. Havia dois arbustos enormes, que no momento não faziam sobra alguma, e algumas palmeiras que demarcavam o fim do calçamento e o início da área dos jardins do hotel. Douglas contara que mais para lá havia canchas de tênis e de bocha, lugares para fazer churrasco e até um pavilhão, para tomar chá, tudo interligado por caminhos labirínticos. Do outro lado da ala nova do hotel, a que estava sendo construída, havia um tabuleiro de xadrez desenhado no chão como o do primeiro Harry Potter, lembra?, perguntara Douglas, e mamãe o lembrara que Vini costumava pegar no sono na metade do filme e jamais vira o final. Zeca achou a idéia um estouro e foi burro o suficiente para perguntar se poderia montar no cavalo do jogo, como Rony fazia no filme, só para se exibir. Daquele lado também ficava o Jardim Japonês, mas ninguém pareceu muito interessado nisso.
A decoração do pátio das piscinas era completada pelos chuveirões, quatro potentes duchas instaladas entre as duas estruturas das cascatas artificiais que alimentavam os tanques azuis com a água mineral térmica Douglas contara alguma coisa sobre vulcões, quando tinham deixado a BR101 e dobrado à esquerda num trevo também em obras. Vini passara os últimos quilômetros da viagem esperando ver alguma cratera que, pelo menos, soltasse fumaça, mas não vira nada além de uma serra ondulada e verde e um campo marcado por arbustos, córregos, cercas e gado. Ele tinha sérias suspeitas que Douglas às vezes inventava coisas só para agradar os dois meninos, mas ficara bastante impressionado com as vacas. Por último, havia latões de lixo em forma de palhaço. Eram todos iguais, as barrigas amarelas, as mãos em relevo como se segurassem o colete pintado de azul celeste sobre o corpo e as cabeças sobre o tonel, exibindo duas caras sorridentes e um chapéu cônico. Até que eram bonitinhos. As bocas, debruadas de vermelho, eram as aberturas por onde se jogava o lixo dentro do receptáculo e como havia uma de cada lado, dava para ver a paisagem através do sorriso. De vez em quando uma brisa suave penteava as palmeiras, quase fresca, e sussurrava nos lábios de fibra de vidro, como se eles falassem.
Sssiiii...
Depois do almoço, mamãe decidiu que estava na hora de dormir. Ninguém protestou, porque desta vez ela tinha razão e Vini e Zeca estavam quase cabeceando de sono, por causa da modorra deliciosa de depois da comida. Os homens da casa seguiram a rainha do lar, mais segura do que nunca de seus atributos de soberana, e, obedientes, roncaram feito sanfonas até às quatro. Às cinco, estavam de volta ao calor, ao sol e às pisicinas. Oh, férias que prometem e cumprem, oh, sim!
Houve um momento hilário por volta das seis, quando pegaram o Edu fazendo pipi dentro da piscina, e mamãe, com uma cara de nojo muito engraçada, chamou Vini, empurrou-o para baixo do chuveirão e depois o levou para comer um lanche. Desta vez Douglas foi realmente legal, e deixou os meninos escolherem eles mesmos o seu lanche e Vini escolheu, é claro, o chocolate líquido que havia visto na geladeira do bar, quando tinham vindo. Zeca pediu um refrigerante. Mamãe não gostou nada do cardápio, comentou alguma coisa sobre a caipirinha que Douglas estava tomando e ele encolheu os ombros, pagando o garçom. Então ela levantou-se, majestosa, e disse que ia para o quarto, tomar uma ducha e fazer palavras cruzadas, porque não estava disposta a pegar um câncer de pele, no momento. Vini não disse nada, mas sabia que quando mamãe ia fazer palavras cruzadas, era porque estava zangada com alguém, e Douglas também não disse nada, porque parecia muito mais interessado em olhar o mundo com um sorriso estúpido e óculos de sol tão escuros que Vini nunca sabia para onde ele estava olhando. Zeca já havia acabado seu refri e agora corria feito um maluco para a piscina.
Quando terminou o chocolate, Vinícius ficou um instante sentado, ainda, sacudindo as pernas na cadeira de plástico. Discretamente, desceu da cadeira, disposto a voltar para a água, quando Douglas chamou.
Ei, meu chapa...
Vini franziu o nariz e voltou-se.
Se terminou seu lanche, ponha a embalagem no lixo, certo?
A carranca do pequeno aumentou.
O Zeca deixou a latinha dele, protestou apontando para a prova do crime sobre a mesa.
É eu estou vendo. Depois eu levo um papo sério com ele. Mas agora me faça o favor de levar a sua caixinha até o lixo. E a latinha do refri também.
Vini ficou um instante olhando para o homem como se estivesse se perguntando até que ponto ele estava falando sério, depois suspirou, agarrou a caixinha e caminhou distraído na direção do palhaço mais próximo, pensando num tal de parque-aquático ali perto, de que Edu tinha falado. Um tico-tico deu uma rasante sobre o ombro dele, assustando-o e assustando-se do pulo que Vini deu para o lado. Com uma guinada, o bicho desviou-se e embicou na direção do latão de lixo para passar pelas aberturas, através das quais se jogava as embalagens.
Chomp!
Vini parou imóvel, fixando com os olhos arregalados a boca de fibra de vidro, pintada com um encarnado berrante. Fechada.
Não ousou mover-se por longos instantes, hipnotizado pelo que vira, sabendo de antemão que se gritasse como um garotinho pequeno, se gritasse pela mãe, pelo pai, por Douglas, por qualquer adulto que conhecia, diriam que estava imaginando coisas. Por que as crianças tem uma imaginação incrível, não têm?
O menino olhou para um lado e para o outro. Risos, gritos, alguém se atirou na piscina, espirrando água para todos os lados e acertando o lixo-palhaço ao lado da piscina. O instrutor da hidroginástica estava posicionando o equipamento de som para começar sua aula aqui nesta piscina, pessoal! e no caminho esbarrou no lixo-palhaço que aguardava ao lado de um dos arbustos grandes, que agora emprestavam sombra para algumas mesas. Do outro lado do pátio, uma mulher atirou um copo em outra boca de fibra e por pouco não errou. O garotinho olhou de novo para o palhaço diante de si.
Eles estavam por todas as partes e eram todos iguais. Todos.
Se tivesse piscado no instante em que o pássaro se atirava pela abertura do lixo, Vinícius não teria visto a boca de fibra fechar-se certeira sobre o bicho. Dos lábios fechados, agora emergia uma perninha que estremecia, na tentativa inútil de livrar-se. Depois a perna ficou imóvel. No ar, descendo suavemente até o chão diante da barriga pintada em amarelo, com botões azuis, duas plumas marrons.
Vini continuou parado, sem saber o que fazer. Finalmente, obrigou-se a dar dois passos. Mais um. Estava muito perto do palhaço, tentando decidir se ia dar a volta ou buscar outro latão de lixo, quando ouviu um barulho desagradável vindo de dentro do tambor que era a barriga dele, um ruído de ossinhos triturados, líquido sugado e couro rasgado, e então os lábios do lixo entreabriram-se, aumentando a fenda lentamente, como uma borracha que se distendesse pouco a pouco. A perninha que estivera presa soltou-se, oscilou como se o passarinho fosse surgir de repente, e então escorregou e caiu aos pés de Vini. Só a perna e um pouco de sangue.
O que foi isso?
Ele deu um passo hesitante para trás.
E se eu tivesse chegado ao latão antes?
Deu outro passo para trás. Olhou o palhaço que sorria, a boca voltando lentamente para a posição original.
E se fosse a minha mão?
Alguém passou por ele correndo, empurrou-o com força e ele voou de encontro à barriga de fibra de vidro pintada de amarelo, de encontro às mãos que seguravam um colete azul celeste, o nariz muito próximo da boca aberta que sorria e cheirava à carne podre. Deu um grito assustado e empurrou com força o latão, soltando o que tinha nas mãos. A latinha caiu no chão de pedras com um tinido e a cabeça oscilou sobre ele, perigosamente, inclinando-se para fitá-lo com os enormes olhos esbugalhados.
Ssssiiimm... a sssua mão... já pensssou?
Vini gritou e empurrou o latão com força. A cabeça que enfeitava a abertura soltou-se e rolou para um lado, o latão desequilibrou-se de vez e rolou para o outro espalhando parte de seu conteúdo. Vini não ficou para ver o que havia dentro restos de sanduíche meio podres, papel, garrafas pech, embalagens, uma camisinha usada, uma asa de passarinho, meia maçã, um copo de cerveja com um pouco dentro, peninhas, uma cabecinha mastigada. O cardápio de sempre, Vini, quer lanchar comigo? . Antes que as pessoas mais próximas se dessem conta do que havia acontecido, o menino tinha desaparecido de circulação, daquele jeito rápido e competente que só as crianças tem.
Quando desceram para jantar, o incidente estava, decididamente, superado. Encontrara o caminho para o quarto com certa facilidade e submetera-se ao sermão que tinha como tema você precisa avisar o Douglas antes de sumir, enquanto escutava atentamente seu coração voltar ao ritmo de sempre e punha as idéias em ordem. Vini era, evidentemente, uma criança muito prática. A convivência com diferentes escolhinhas infantis desde que se conhecia por gente, ensinara-lhe que tudo na vida tem uma regra. Cumprir regras, geralmente significava manter-se fora de encrencas e ali a regra parecia ser manter-se fora da boca do latão-palhaço. Vini achava que era muito lógico que palhaços de fibra de vidro com a boca escancarada lanchem um passarinho distraído, mas tremendamente burro pensar que uma coisa sem rodas ou pés fosse correr atrás dele pelos corredores do hotel. Assim sendo, quando passaram pela galeria envidraçada que dava para as piscinas dedicou uma olhada para os latões. Constatou que não haviam se mexido do lugar e observou o zelador das piscinas trocar o saco plástico de um deles. O rapaz parava ao lado do tonel, arrancava a cabeça pelo chapéu, pegava o saco plástico sem olhar muito lá dentro, fechava com um nó, o puxava para fora e o socava num carrinho que tinha atrás de si. Pegava um saco plástico novo de um gancho do carrinho, o sacudia, o punha dentro da barriga do palhaço sem cabeça, prendia as laterais, abaixava-se, agarrava a cabeça e a colocava sobre o tonel, acertando o sorriso para que ficasse alinhado com o colete, e partia para o próximo palhaço, tudo com a prática do cotidiano.
Estava na cara que ele fazia aquilo todo santo dia e que nunca lhe acontecera nada, pensou Vini com um sorriso e então voltou-se para acompanhar sua mãe. Dois passos além, seus olhos voltaram por acaso para o tonel que vira o rapaz limpar.
A cabeça do palhaço voltara-se sobre o ombro de fibra e olhava diretamente para ele.
Oláááá menino... vocccê não essstá com fome? Eu essstou...
Tudo bem, pensou Vini, tudo bem. Se você vier até aqui eu chuto a sua cabeça para a China. Que tal essa?
Voccccê é um menino muito sssabido Vini... muito sssabido!
Seguiu a mãe, Douglas e Zeca para o restaurante e não pensou mais no assunto. Depois do primeiro martini Ana Cláudia voltou a sorrir e Douglas convidou todo mundo para o jogo do bingo marcado no salão de recreação depois do jantar. Foram. Zeca ganhou uma bola e uma echarpe rosa, que deu de presente para Ana Cláudia. Céus, aquele Zeca era um puxa-saco de marca maior!
Ninguém mais ganhou nada no resto da noite. Vini adormeceu no meio do último jogo e quando acordou, estava numa cama macia, num quarto limpo e cheiroso. Virou-se para o lado e ferrou no sono. Sonhou o resto da noite com o sorriso do palhaço e com o abraço de Zeca deu em Ana Cláudia ou presentear-lhe o pano cor-de-rosa.
Acordou de mau-humor, talvez por causa de tanto sonho ruim, mas depois de café da manhã, o bom humor voltou: de saída, Zeca derramou todo o suco de uva sobre o calção branco e novo, que pretendia estrear naquele dia, e abriu o berreiro feito uma menina. Hilário! Além do mais, francamente, ninguém podia ficar aborrecido ao ver Douglas sumindo com o filho rumo ao quarto, para trocá-lo. Teve mamãe só para ele durante todo o café da manhã! Maravilha!
Depois de um dia praticamente perfeito na piscina com os adultos não há maneira, já se sabe, comer, dormir, tomar banho de chuveiro, essas coisas, além de vigiar de longe se mamãe resolvia largar algo na bocarra aberta do palhaço, ou se algum outro passarinho ia virar refeição veio a tardezinha. No crepúsculo cintilante e quente só parecia faltar uma coisa indizível e essa coisa foi a notícia que correu entre a criançada do hotel, grandes e pequenos:
Caçada ao tesouro!
Vini achou que ia delirar.
Como em Piratas do Caribe? indagou animado. Adorara o filme, mas tinha um pouco de medo do tal macaco que aparecia de vez em quando.
Exatamente! proclamou Douglas.
Posso participar, posso, mamãe?
Ana Cláudia estava preocupada em pedir um martini para o garçom que passava ali perto. Por um momento pareceu não ouvir e o deixou o filho em suspenso, à espera aflita de uma palavra sua, a palavra mágica:
Pode...
Uma pausa. Vini repuxou o nariz. Sabia que aquela pausa tinha um significado e que geralmente não gostava nada do que vinha depois dela.
Pode, se o Zeca for junto.
O rosto de Vini, a máscara da decepção.
Ah, mas por quê? lamentou voltando-se para o outro garoto, que sugava uma guaraná com energia. Qualquer um via o resultado de tanto refrigerante nas bochechas fartas e na barriguinha cada vez mais proeminente do menino, qualquer um, menos Douglas.
Escuta, meu filho, lembra do que combinamos para estas férias? Você e Zeca iam fazer um esforço para ser amigos. Lembra disso? indagou a mãe sorrindo para ele. Um esforço, Vini? Pode fazer isso por mim?
Vinícius suspirou, aborrecido. Concordou com a cabeça.
Além do mais, disse Zeca com um arroto homérico, eu sou mais velho. Vou cuidar de você. Venha, vamos.
E saltou da cadeira de plástico, deixando abandonada sobre a mesa, a latinha de refrigerante. Ana Cláudia suspirou aliviada, sorriu para Douglas, que retribuiu o sorriso, ansioso por um momento a sós com ela. Voltou-se para o menino de novo.
Anda Vini, vai lá caçar o tesouro. E tenha juízo, meu filho.
O menino estremeceu como se atingido por um choque. Depois olhou para Douglas, olhou para a mãe, pensou na caça ao tesouro. Com um pouco de sorte, conseguiria se manter longe do mais velho. Desceu da cadeira, pegou a latinha e caminhou depressa até o lixo-palhaço. Se tivesse certeza de que Douglas ia pô-la fora, teria deixado onde estava. Mas, não, ele não tinha certeza. Parou a uma distância que achou segura e atirou a latinha dentro dele. A embalagem bateu nos cantos da abertura, quicando nos lábios vermelhos, ameaçando cair para fora e obrigá-lo a aproximar-se do lixo, ajuntar a latinha e jogar de novo.
Clipe. Clape. Dentro.
Vini sentiu o coração bater com força no peito, a adrenalina espalhando-se rapidamente, o corpo todo relaxando de alívio. A brisa sussurrou em torno dele.
Da próxxxima vezzz, chegue maisss perto...
Pois sim!, pensou, voltando-se para o saguão onde os grupos da caça ao tesouro estavam sendo organizados e correu para lá.
Se Piratas do Caribe não fosse mesmo seu filme predileto, Vinícius teria desistido quando os dois grupos foram definidos. De um lado os Marujos. Do outro os Piratas. O garoto deu sorte e ficou no segundo Zeca ficou no primeiro. Mas deu azar, porque o gordinho conseguiu convencer a recreacionista a passá-lo para os Piratas. Na verdade, o grupo inteiro de Marujos queria ser pirata e ela teve de ameaçar por todo mundo a ferros na sala de televisão assistindo Barby e o Quebra-Nozes para que os ânimos se acalmassem. Algumas meninas até ponderaram a opção, mas os meninos não quiseram nem ouvir.
O caso é que estando no mesmo grupo, Vinícius não ia ter o prazer de poder contar depois que tinha vencido Zeca ele acreditava piamente na superioridade de qualquer grupo em que estivesse, desde que Zeca estivesse no outro. Além do mais, ele logo percebeu que estar no mesmo grupo do menino era ter um fardo para carregar. Um nutricionista recomendaria um forte regime para o garoto, caso tivesse a oportunidade de examiná-lo, e as razões para que estivesse bem acima de seu peso não se resumiam a um consumo absurdo de refrigerante, mas também de uma vida sedentária, dedicada ao consumo de salgadinhos diante do console dos jogos, coisa que Ana Cláudia pretendia mudar, naquele ano. Sua resistência, portanto, estava abaixo da média para sua idade. Além do mais, Zeca fora super-protegido a maior parte de seus seis anos e alguns meses de vida. Assim que tinha medo de tudo: folhas, galhos, moscas, minhocas, qualquer coisa que parecesse estranho o deixava muito assustado. Vini passou a maior vergonha quando o gordinho foi incapaz de pegar o envelope com pistas que encontrou em um tronco, e que a maioria do grupo buscava ardentemente para poder seguir na caça. Ele chamou o chefe do grupo e o garoto ficou um precioso instante olhando para Zeca, tentando entender qual era o problema de enfrentar o besouro sentado sobre o envelope. Por causa disso, os Marinheiros passaram na frente, naquela rodada.
A vergonha tinha ficado por conta do fato de que Zeca adorava dizer para todo mundo que Vini era seu irmão. Quase nada do que o menino dizia ou fazia irritava tanto Vinícius quanto aquela história de irmão, nem o fato de ter de ficar para trás no grupo para esperar Zeca, nem o medo do garoto para tudo, nem aquela história de mais velho. Não. Era aquele papo de irmão que o aborrecia e vexava profundamente. Vini tinha certeza de poucas coisas na vida, mas de uma coisa, estava absolutamente seguro: se tivesse um irmão, ele com certeza não seria José Carlos!
A caçada já ia para o final, com os dois grupos ziguezagueando pelos meandros dos jardins do hotel, correndo em torno das piscinas, pela quadra de tênis, pelo palyground de madeira que parecia um forte apache, ou um castelo, ou uma obra de arte da última bienal, despendendo do ângulo que se olhasse, zanzando pela portaria, pelo Jardim Japonês e pela área das churrasqueiras. No crepúsculo cada vez mais cinzento, cada pista era comemorada com gritos de guerra e a leitura do texto que levava à próxima caçada era cheia de ansiedade. O tesouro estava perto, cada grupo podia senti-lo na pele. Ninguém se perguntava o que seria: a verdade é que o importante era a brincadeira e não os dobrões, balas ou pedras preciosas que havia no final dela. Os Marinheiros estavam na frente, mas perderam uma rodada, porque custaram muito para decifrar um texto particularmente enigmático e os Piratas ganharam uma pequena vantagem. Depois a situação inverteu-se e então inverteu-se novamente. E então, veio aquela pista que deixou todo mundo quebrando a cabeça, sob a luz da lanterna que usavam para iluminar o caminho: A última pista está na cabeça do homem sorridente.
Quem? estranhou Leonardo, o chefe do grupo.
Homem sorridente? Caramba, só se for o meu pai, depois do almoço! disse uma menininha de cachos louros completamente descabelada.
Quem é o seu pai? perguntou Vinícius.
Aquele senhor gordo do calção verde, que vimos hoje pela manhã, explicou Zeca, e então lembrou: Ah, esqueci! Você tem que ficar na piscina pequena.
Vários olhares se voltaram para Vinícius, que sentiu a face queimando. Ainda bem que já estava escuro e a luz mais próxima mal iluminava o local!
Ah, é que o meu irmão ainda é pequeno, explicou Zeca com um sorriso de felicidade. A gente tem só seis meses de diferença, rosnou Vini. E eu vou fazer aniversário daqui duas semanas. Não sou tão pequeno assim!
Não, é claro, zombou Leonardo parando ao lado dele. Era meio corpo mais alto que Vinícius.
Seis meses de diferença? estranhou a lourinha, que já aprendera que os bebês levam nove meses para nascer. Como é que ele pode ser seu irmão?
Ele não é meu irmão! começou Vini, mas então Leonardo deu um salto e gritou resolvendo o enigma:
O Buda! A estátua do Buda do Jardim Japonês! É um homem sorridente! É lá que está a última pista! Vamos! Vamos!
O grupo inteiro saltou como um só e os Piratas correram feito doidos. Subiram a escada que dava ao espaço das piscinas agora deserto, pela enésima vez, gritando, possessos. Mas na metade da subida, Zeca parou, ofegando.
Vini! chamou ao ver o menor ganhando os últimos degraus. Vinícius parou um instante e olhou para baixo. Zeca estava pálido, o rosto coberto de suor. Espera por mim?
Anda Zeca! irritou-se Vini olhando de novo na direção do grupo que se perdia pela porta mais próxima, voando para o Jardim Japonês. Anda!
Zeca veio subindo, devagar, devagar. Quando chegou no alto da escada, estavam sozinhos. O grupo desaparecera. Do outro lado do pátio, o zelador das piscinas apareceu com o aparelho de jato dágua, que instalou com prática. Depois desceu a escada da piscina mais próxima, que já estava vazia, ligou o motor e começou a limpar o tanque. Zeca sentou-se num murinho.
Tô cansado, explicou. Vini ainda quis correr atrás dos companheiros, mas desistiu. Se a pista estava de fato na cabeça do Buda, àquela altura o grupo já devia ter chegado no Jardim Japonês. Pôde imaginar Leonardo pegando a última pista, triunfante, abrindo-a, lendo-a. O tesouro está... Onde estaria? Olhou para Zeca de soslaio. Diabos, porque lhe coubera aquele trouxa para carregar? Estava cheio de Zeca. Farto! Aquele gordo mentiroso dizendo que era seu irmão. Tenha dó! Zeca tinha acabado com o seu jogo. E andava ameaçando roubar sua mãe com aquela mania de dar presentinhos. Estava por aqui, ó, por aqui, mesmo!
Estou achando, começou, sem saber ao certo onde aquilo ia dar. Estou achando que eles estão errados. Duvido que a última pista esteja na cabeça do tal de Buda.
E daí? resmungou Zeca. Vamos jogar videogame? Aposto que ganho de você.
Vini sorriu. Não, pensou, dessa vez não.
Sabe o que eu acho? Que a tal da pista está aqui pertinho. Perto da piscina. Perto de nós.
Zeca olhou-o aborrecido. Vini continuou, sorrindo ainda mais:
Já pensou se a pista não estiver no Buda? Já pensou se a gente achar a pista e eles não?
Um silêncio. O olho de Zeca já começara a brilhar de entendimento.
Podemos pegar o tesouro só para a gente. Me disseram que é uma caixa de bombons. Já pensou?
Não gosto de bombons, resmungou Zeca.
Mas a minha mãe gosta. Você pode dar para ela. Eu deixo. Dou até a minha parte. O que você acha?
Zeca abriu um sorriso. Nossa, como ele queria chamar Ana Cláudia de mãe! Mas ele desconfiava que isso ia dar a maior bronca com Vini, por isso ainda não se atrevera e por isso dava tantos presentes para ela. Será que ela sabia que ele queria muito que ela fosse de fato a sua mãe? Tomara que seu pai e ela casassem logo de uma vez. Tudo o que sempre quisera estava ali: ter de novo uma mãe e ainda por cima um irmão pequeno! Gente, que maravilha!
Onde está a pista?
Vinícius sorriu de novo, macio como um gato.
Onde você está vendo um homem sorridente, por aqui? perguntou. Zeca olhou, olhou, demorou um pouco.
Mas viu.
O palhaço! A pista está na cabeça do palhaço! gritou correndo para o latão de lixo mais próximo. Parou junto dele e olhou para cima desconfiado, mas não cogitou em nenhum momento que havia mais de um homem sorridente no pátio.
Mas aqui não tem nenhum envelope, protestou. Vini aproximou-se puxando uma das cadeiras com esforço. Olhou onde estava o zelador da piscina. O homem continuava lá dentro do tanque, passando o jato dágua nas paredes azul-celestes.
Está na cara que eles não iam deixar o envelope do lado de fora, né, Zeca? perguntou pondo a cadeira diante do lixo. Ia ficar muito fácil. A pista está aí dentro. A gente vai ter de enfiar a mão e puxar.
Zeca ficou pálido de repente. Gemeu:
Enfiar a mão? Aí dentro?
Vini estremeceu. Será que Zeca ia morder o anzol? E se ele tivesse de meter a mão lá dentro? Olhou para o palhaço. A luz e as sombras faziam estranhas coisas na cara de fibra de vidro. Estranhas coisas nos seus olhos. Como se o palhaço ouvisse e soubesse.
Sssim...
Mordeu as bochechas. A cadeira estava ali na frente deles.
É. Eu posso tentar, murmurou olhando para a cabeça sorridente, branca, vermelha, preta e amarela, como quem admira o pico distante de uma montanha. Mas você é o maior. É você quem tem de fazer isso.
Zeca pensou, olhou. Talvez tivesse visto algo. Talvez cheirasse algo restos de sanduíche, uma perna de passarinho, o cardápio de sempre, sabe como é...
Tá bem, disse e subiu na cadeira. Vini cambaleou um passo para trás, pálido. Esteve a ponto de gritar saia daí! para o irmão que não era irmão, mas que naquele momento, por um instante, poderia ser.
Zeca abaixou-se um pouco para espiar dentro da boca do boneco, porque de pé sobre a cadeira ficava um pouco mais alto do que a abertura.
Aqui dentro? perguntou, a voz ecoando dentro do tonel de fibra de vidro, a cabeça quase dentro da abertura.
Vini recuou mais um pouco, ofegante. Depois parou. Ouviu o motor do jato de água ecoando duro pelas paredes da piscina, atentamente. Olhou para as janelas que davam para o pátio. Nenhum adulto à vista. Encheu o peito de ar e disse, suavemente, com os lábios entreabertos numa cópia do sorriso do palhaço, os olhos presos nos olhos de fibra, nos cantos vermelhos da boca que se expandia lentamente para dar mais espaço para a cabeça do menino sobre a cadeira:
É Zeca. Está aí. Olha lá dentro, que você vai encontrar.