Existem mundos onde nem tudo é possível, mas há
lugares onde os tempos se encontram além dos limites conhecidos...
Entre
nós existem sombras, que fogem dos focos de luz à procura das
trevas.............., mas, as sombras escondem bem mais do que meras
projeções estranhas. Uma sinistra criatura paira inerte, um foco negro
que reluta em partir, aferrando-se à ausência de claridade. Num ponto
escondido, onde ele acredita ninguém o encontrara jamais; um dia, alguém
o encontra......
Bárbara
era uma garotinha sardenta, sapeca e alegre quando chegou à nova casa.
Bárbara era loirinha como sua mãe, e tinha o rosto chamuscado de sardas
como o pai. Ela tinha menos de um ano quando tudo aconteceu, e naqueles
seus primeiros tempos de vida arrastava consigo a inseparável amiga, a
boneca Mariana, tão sardenta quanto ela. Seu deselegante cabelo curto
amarelo-palha, as feições enceradas e inteiramente inexpressivas. Assim
como os de Mariana, os olhos de Bárbara moviam-se inconstantes, buscando
sempre diferentes lugares. Embora seus pais não fossem capazes de
perceber, Bárbara, assim como Mariana olhos-de-vidro, eram astutas demais
para os segredos do lugar. Nada podia escapar-lhes, sobretudo na idade em
que as fronteiras adultas entre os mundos, entre os tempos, apenas
existem.
Nos
primeiros tempos da nova casa parecia que as coisas se ajeitavam. Papai e
mamãe não gritavam como de costume, como era na casa antiga e feia;
papai passara até a chegar mais cedo depois do trabalho, e deixou de lado
aos sábados a turma do dominó, no bar da antiga rua. Até a cachaça
ficara de lado, e mamãe passara a se arrumar um pouco, esperá-lo nos
primeiros dias sem cheiro de fritura, unhas limpas e pintadas, banho
tomado e roupa lavada. Num piscar, tudo voltou a sua rotina.
Bárbara
e Mariana, as duas juntas, aprenderam a caminhar poucos meses mais tarde
de terem chegado ao novo lar, numa tarde abafada e sonolenta de domingo em
que papai e mamãe beberam demais, e depois se deixaram despencar num sono
pesado mesmo antes dos cinco minutos de amor semanal. As duas
inseparáveis amigas, espertas e curiosas como qualquer um nesta idade,
moveram-se sem temor, exibindo mesmo certa graciosidade, por sobre as
ripas de madeira do berço adornado por um mosquiteiro de babados e
detalhes em rosa. Bárbara exultante, Mariana expectante. Papai roncava, e
sua enorme barriga, que parecia ocultar uma grande melancia, subia,
parava, descia, e tornava a parar. Um uivo parcelado podia ser escutado
durante as descidas; um trovão convulso ecoava nas subidas. Ele não
respirava nos períodos intermediários. Sustentava-se entre aqui e o
outro lado até retornar, normalmente empurrado por uma crise de tosse que
jamais perturbava seu sono. Bárbara olhava com ar surpreso, num misto de
graça e preocupação. Mariana manteve o mesmo olhar gelado durante toda
a etapa de observação. A mãe dormia de lado, como de hábito, pois ela
tinha gases (estou sempre inchada, mas quando pressiono aqui melhora), e
embora seu sono fosse silencioso, de vez em quando ruídos em tons
variados escapavam por entre as fibras gastas dos calções de algodão
estampados. Calcinhas frouxas e esgarçadas pendiam, ficando não
raramente abaixo do calção. Nesta época ela já voltara a usar as
antigas roupas, e se comportava como no tempo do antigo apartamento.
Enquanto Bárbara olhava para os dois, mamãe não fez barulho algum.
Mariana aguardava sem piscar, ligeiramente inclinada, suspensa pelos
cabelos por sua comparsa de aventuras.
Alguns
momentos mais tarde, deixando para trás todas as possibilidades sonoras
que se mantiveram distantes, Bárbara começou arrastar-se pelo chão,
Mariana seguindo-a; as duas se afundaram sem pressa em direção a outras
partes menos povoadas da casa. Ao longe um ruído familiar: era mamãe
fazendo jus ao cozido de domingo. À medida que as duas seguiram o curso
natural da curiosidade infantil, o corredor foi ganhando proporções e
reduzindo espaços, como se as paredes e o teto ganhassem vida pulsante, e
o lugar como um todo foi se adensando em torno das duas jovens. Ambas eram
ainda inconscientes de tal fato, pois em suas cabeças apenas havia lugar
para fantasias inocentes, descobertas fascinantes e coloridas; nenhuma das
duas sabia ainda aquilo que as aguardava em silêncio. A pequena Bárbara
arrastava o bumbum rechonchudo de lado (seu modo peculiar de engatinhar),
colorido pela fralda com detalhes de ursinhos amarelos; um volume pequeno
arrastando outro menor ainda pelo assoalho frio. Parou no meio daquele
extenso e quase infinito corredor. Muitas eram as possibilidades dali em
diante, pois aquele era um ponto estratégico no reconhecimento geral.
Portas, portas e mais portas que geravam bastantes alternativas, aberturas
que conduziam a diferentes mistérios de ambos lados do corredor. Os
olhinhos de Bárbara exultavam com tantas possibilidades, e algo em seu
interior se acendia. Seu pequenino coração batia acelerado. Mariana
parecia menos exultante, como se já estivesse acostumada. Apenas um
semblante catatônico que sugeria paciência pela seqüência dos
acontecimentos.
Depois
dos instantes de espera, as duas reiniciaram a marcha. Pontos descascados
na parede exibiam um amarelo envelhecido por debaixo do atual branco-sujo,
cruzando sem ganhar a atenção devida de Bárbara. Mariana apenas fitava
o teto branco-gelo, única paisagem disponível naquele instante. Bárbara
não dava a mínima para a pintura, apenas mais um dos pormenores
deprimentes da vida daquela casa; seus pontos de interesse eram os portais
que conduziam aos novos mundos. Tudo, exclusivamente tudo, eram
possibilidades de novos e excitantes conhecimentos; seu coração desejava
aquilo. Depois de uma primeira tentativa frustrada, uma das portas
entreaberta acabou cedendo a sua vontade; olhou por alguns segundos com
atenção, até concluir que ali dentro não haviam interesses
suficientes. Deixou para trás a cozinha, e prosseguiu adiante. A porta
voltou a fechar-se lentamente atrás das duas, produzindo um som de luz
esmaecida; três dobradiças enferrujadas gemeram espalhando o canto
enfeitiçado pelo silêncio de uma tarde mumificada, embora ninguém tenha
se dado pelo fato. Pouco depois, quando os ecos haviam se fundido com o
infinito, as duas voltavam a estar cercadas pelo profundo silêncio
perturbador; os ruídos familiares já não as alcançavam mais onde se
encontravam. No limiar...........
A
marcha das desbravadoras viu-se subitamente interrompida. Sombras se
remexeram sobressaltadas, à procura dos cantos mais ocultos do lugar. A
tarde adensou-se, ainda quente, ainda opressiva....... Uma brisa morna
soprava lá fora, pesada e macia demais para agitar as cortinas da sala.
Dois urubus de cabeça pelada, empoleirados no para-peito do terraço do
edifício, aproveitavam a sombra da caixa d'água. Quente demais até para
os carniceiros. Um cheiro de mirra deixava no ar um aroma agradável -
restos do incenso que terminava seu ciclo - detalhes destoantes numa
situação de inversa luz.
Os
olhos de Bárbara se espicharam para dentro do banheiro. Mariana, agora
deitada de lado, também olhou com curiosidade. O sorriso de Bárbara era
radiante, fascinante...... As duas concordaram, o mundo ali era movido
pelas possibilidades, pois tudo parecia ter vida em seu interior.
Mas
nem tudo que se move espalha vida......
Tudo
lá dentro era tão reluzente que de certo modo lembrava as historinhas
que papai sempre queria começar a contar, sem jamais ter passado da
primeira página. Papai podia estar cansado, bêbado, de mau humor. Eram
grandes os argumentos. O brilho era sedutor, maravilhoso, e Bárbara
sorria ainda mais intensamente, como se estivesse pronta para todas as
novas verdades daquele ambiente. Mariana mostrava-se distraída. Enquanto
a dona admirava as louças e espelhos, a boneca mantinha sua mirada inerte
num ponto único......Bárbara foi virando a cabecinha, deslizando os
olhinhos vivos sobre os detalhes, os cachos movendo-se balançantes ao
sabor de seu giro, e o brilho homogêneo do novo mundo refletido em seus
cristalinos foi quebrado repentinamente.
O
vulto negro no canto do box do chuveiro.
Ali
estava ele. O endereço da escuridão. Era "o ponto escuro",
para onde toda luz parecia dirigir-se, e de onde toda esta mesma luz
parecia jamais retornar. Acocorado, uma imensa túnica negra envolvendo o
corpo encolhido, retorcido, envelhecido. A visão perturbou o semblante de
Bárbara, assim como de Mariana. As suas expectativas haviam sofrido um
revês, e ainda assim eram alfinetadas pela irmã curiosidade.
Ahh!
Sempre a curiosidade.....
A
pequena apoiou-se na parede, ergueu o seu pequeno corpo e o da amiga. Caiu
no chão de bunda, puxada para baixo pela âncora volumosa que carregava
os ursinhos amarelos. Estes não gostavam do que sentiam. Era como se o
seu faro tivesse ganho vida, e absorvesse cada centímetro do terror que
se ocultava sob aquela túnica. Mas, eles sim eram voz passiva..... O
vulto remexeu-se. Inquieto, pareceu não gostar de suas próprias
sensações. A pequena levantou novamente, pernas arqueadas e bambas. Os
pés descalços e rechonchudos careciam de base para dar firmeza plena.
Mariana suspensa parcialmente pelos cabelos ainda sustinha o mesmo olhar
vago, e uma expressão cada vez menos de acordo. Viviam o momento sob
diferentes pontos de observação, embora ambas houvessem chegado a um
consenso: queriam conhecer o outro membro da casa.
Foi
justo nesse instante de transição entre tempos, entre mundos, entre
dimensões....... entre luz e trevas....... que os primeiros passos
titubeantes da loirinha de rosto salpicado se deram em solitário. O lado
negro estremeceu. Cabeça ainda baixa, algo semelhante a uma respiração
silenciosa intensificou o movimento das costas arqueadas. Bárbara já
caminhava, Mariana também; mamãe iria adorar conhecer uma das novidades,
talvez não a outra. As duas apoiavam-se; Bárbara na esquadria de
alumínio frio da porta do box, Mariana na amiga. As duas encarando com
sentimentos diversos o estranho volume cada vez mais agitado. A tensão
disfarçada preenchia o banheiro. Os dois carniceiros no topo do prédio
pressentiram o encontro dos mundos, e abriram o leque de plumas negras
reluzentes levantando vôo..... O sol escaldante os abraçou sem piedade.
O
Vulto, vindo de outro tempo, perdido de sua época, cruzando os portais
que separam uns dos outros, ergueu seu corpo...... Alto, muito alto.....
Pareceu muito alto......Muito magro..... Temível, muito temível..... Uma
corcova assomando sob a túnica. Os olhos, dois profundos poços sem luz,
sem cor, eram como grandes buracos negros em meio a um rosto pálido,
esquálido. As crianças muito tempo atrás temiam o grande e magro Elbert.
Ele era inofensivo, mas mesmo assim era temido por muitos. As crianças
temiam o jovem Elbert, e assim ele foi para as montanhas. Ele refugiou-se
em solitário no coração das montanhas, mas ainda assim muitos foram lá
para incomodá-lo. Alguns, nunca mais voltaram, mas o agora velho Elbert
não tinha culpa. Ainda assim nunca acreditaram nele. O velho Elbert
serviu para aplacar muita fúria. O velho Elbert foi sacrificado numa
enorme e quente fogueira. Torrado, tostado e depois, cinzas..... Isto
agora era parte de um passado distante, embora Elbert não tenha se dado
conta. Imaginava-se ainda no lugar que fora seu refúgio, e os mundos
infantis voltavam agora para ameaçá-lo. Elbert, o magro, o alto e
esquálido, fitava com terror no semblante as duas ameaças que o
encaravam assombradas também. Um terrível conflito de interesses estava
estabelecido, e, dadas às circunstâncias, a solução final parecia ser
uma única. Elbert moveu-se, muito lentamente, deixando o refúgio de seu
canto secular. Um vapor denso pareceu flutuar atrás de si. Fora
descoberto; as crianças precisavam ser caladas, pois do contrário os
homens de grandes tochas nas mãos chegariam aos berros, como animais
loucos, para machucá-lo. Elbert deu um, depois outro passo. Bárbara não
gostava daquele estranho. Tampouco Mariana. Mariana era um peso, assim foi
largada para trás. Ficou caída na entrada do box. Os olhos de cera
fitavam mais uma vez o teto. Bárbara achou mais seguro e rápido mover-se
ao velho estilo. Aos poucos uma sombra foi crescendo sobre Mariana, que
sem poder reagir substituiu o branco-gelo pelo negro-total; uma enorme
densidade de tons escuros mergulhou sobre a boneca, e pouco depois a jovem
Mariana desapareceu inteiramente num outro mundo; sem cor, sem qualquer
sinal de vida.....
Bárbara
não gostara do que vira, e agora seu arrastar era impulsionado pelo
desespero, pelo choramingo que ecoava no silêncio...... ela se movia com
rapidez, e com lentidão.... o banheiro era coisa deixada para trás,
contornava a portalada; o corredor pareceu-lhe mais comprido que na
ida...... algo se moveu dentro do banheiro, e por primeira vez Ele
sobre-passou os limites do box. Sentindo novamente as perturbações
esquecidas num momento remoto, seguiu para outros lugares.... farejava
cada milímetro da agônica fuga de Bárbara...... mas, Ele tinha que
detê-la, antes que avisasse os demais..... eles vinham, sempre estavam de
volta com aquelas terríveis tochas......não!! positivamente, Ele não
gostava de fogo, o fogo ardia na pele - um tempo longo demais até a dor
desaparecer. Por uma razão ignorada, Elber não gostava de fogo. O vulto
se movia, um pequenino ponto crescia a sua frente. A pequena Bárbara,
chorosa...... o cheiro do medo chegava fácil até Ele. Alegria, Ele
estava praticamente lá.... Duas mãos de dedos compridos, longos e
pontudos, brancos como a neve, flutuavam a procura da pequena. Bárbara,
estática, aterrorizada...... O vulto apoderava-se de tudo, da pequenina,
de tudo......quando mamãe surgiu.....alienada, alheia a qualquer fato,
apenas apanhou em seus braços a pequena Bárbara, a das fraldas com
ursinhos......soluçante, num choro convulso, aferrou-se ao pescoço da
mãe fortemente. Escondeu a cabecinha no pescoço materno, que sustinha um
cheiro ranço, e apertou os olhos o mais forte que pôde. O vulto moveu-se
de volta, para seu lugar, amedrontado, apavorado........ os grandes
estavam lá, e logo eles voltariam para fazer-lhe mal.......
Duas
noites depois, quase completamente esquecida de tudo, Bárbara estava de
volta ao seu quarto. Quando chegou lá, e mamãe a colocou para dormir,
ela quase poderia jurar, caso falasse claramente, que tudo fora um
pesadelo. Mesmo Mariana continuava lá, esparramada sobre a cadeira de
vime, o mesmo olhar paralisado de cada dia. Quando mamãe partiu, deixando
apenas a luz do corredor acessa, Bárbara fechou os olhos. Mariana não;
eles brilhavam de forma diferente agora.... na penumbra, seu olhar
adquiriu um tom rubro, e seu rosto uma expressão.........o vulto enfim
abandonara seu antigo refúgio....... precisava evitar que os grandes
chegassem com suas tochas....... o fogo que matava precisava ser
impedido....... Não sabia o porquê, mas sempre odiara o fogo...... ardia
na pele, a alma parecia queimar antes que o corpo.
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