Rio, 05 de maio de 2007

Bárbara, Mariana, e o Vulto

Jorge Plá Cid

Existem mundos onde nem tudo é possível, mas há lugares onde os tempos se encontram além dos limites conhecidos...

 

Entre nós existem sombras, que fogem dos focos de luz à procura das trevas.............., mas, as sombras escondem bem mais do que meras projeções estranhas. Uma sinistra criatura paira inerte, um foco negro que reluta em partir, aferrando-se à ausência de claridade. Num ponto escondido, onde ele acredita ninguém o encontrara jamais; um dia, alguém o encontra......

 

Bárbara era uma garotinha sardenta, sapeca e alegre quando chegou à nova casa. Bárbara era loirinha como sua mãe, e tinha o rosto chamuscado de sardas como o pai. Ela tinha menos de um ano quando tudo aconteceu, e naqueles seus primeiros tempos de vida arrastava consigo a inseparável amiga, a boneca Mariana, tão sardenta quanto ela. Seu deselegante cabelo curto amarelo-palha, as feições enceradas e inteiramente inexpressivas. Assim como os de Mariana, os olhos de Bárbara moviam-se inconstantes, buscando sempre diferentes lugares. Embora seus pais não fossem capazes de perceber, Bárbara, assim como Mariana olhos-de-vidro, eram astutas demais para os segredos do lugar. Nada podia escapar-lhes, sobretudo na idade em que as fronteiras adultas entre os mundos, entre os tempos, apenas existem.

Nos primeiros tempos da nova casa parecia que as coisas se ajeitavam. Papai e mamãe não gritavam como de costume, como era na casa antiga e feia; papai passara até a chegar mais cedo depois do trabalho, e deixou de lado aos sábados a turma do dominó, no bar da antiga rua. Até a cachaça ficara de lado, e mamãe passara a se arrumar um pouco, esperá-lo nos primeiros dias sem cheiro de fritura, unhas limpas e pintadas, banho tomado e roupa lavada. Num piscar, tudo voltou a sua rotina.

Bárbara e Mariana, as duas juntas, aprenderam a caminhar poucos meses mais tarde de terem chegado ao novo lar, numa tarde abafada e sonolenta de domingo em que papai e mamãe beberam demais, e depois se deixaram despencar num sono pesado mesmo antes dos cinco minutos de amor semanal. As duas inseparáveis amigas, espertas e curiosas como qualquer um nesta idade, moveram-se sem temor, exibindo mesmo certa graciosidade, por sobre as ripas de madeira do berço adornado por um mosquiteiro de babados e detalhes em rosa. Bárbara exultante, Mariana expectante. Papai roncava, e sua enorme barriga, que parecia ocultar uma grande melancia, subia, parava, descia, e tornava a parar. Um uivo parcelado podia ser escutado durante as descidas; um trovão convulso ecoava nas subidas. Ele não respirava nos períodos intermediários. Sustentava-se entre aqui e o outro lado até retornar, normalmente empurrado por uma crise de tosse que jamais perturbava seu sono. Bárbara olhava com ar surpreso, num misto de graça e preocupação. Mariana manteve o mesmo olhar gelado durante toda a etapa de observação. A mãe dormia de lado, como de hábito, pois ela tinha gases (estou sempre inchada, mas quando pressiono aqui melhora), e embora seu sono fosse silencioso, de vez em quando ruídos em tons variados escapavam por entre as fibras gastas dos calções de algodão estampados. Calcinhas frouxas e esgarçadas pendiam, ficando não raramente abaixo do calção. Nesta época ela já voltara a usar as antigas roupas, e se comportava como no tempo do antigo apartamento. Enquanto Bárbara olhava para os dois, mamãe não fez barulho algum. Mariana aguardava sem piscar, ligeiramente inclinada, suspensa pelos cabelos por sua comparsa de aventuras.

Alguns momentos mais tarde, deixando para trás todas as possibilidades sonoras que se mantiveram distantes, Bárbara começou arrastar-se pelo chão, Mariana seguindo-a; as duas se afundaram sem pressa em direção a outras partes menos povoadas da casa. Ao longe um ruído familiar: era mamãe fazendo jus ao cozido de domingo. À medida que as duas seguiram o curso natural da curiosidade infantil, o corredor foi ganhando proporções e reduzindo espaços, como se as paredes e o teto ganhassem vida pulsante, e o lugar como um todo foi se adensando em torno das duas jovens. Ambas eram ainda inconscientes de tal fato, pois em suas cabeças apenas havia lugar para fantasias inocentes, descobertas fascinantes e coloridas; nenhuma das duas sabia ainda aquilo que as aguardava em silêncio. A pequena Bárbara arrastava o bumbum rechonchudo de lado (seu modo peculiar de engatinhar), colorido pela fralda com detalhes de ursinhos amarelos; um volume pequeno arrastando outro menor ainda pelo assoalho frio. Parou no meio daquele extenso e quase infinito corredor. Muitas eram as possibilidades dali em diante, pois aquele era um ponto estratégico no reconhecimento geral. Portas, portas e mais portas que geravam bastantes alternativas, aberturas que conduziam a diferentes mistérios de ambos lados do corredor. Os olhinhos de Bárbara exultavam com tantas possibilidades, e algo em seu interior se acendia. Seu pequenino coração batia acelerado. Mariana parecia menos exultante, como se já estivesse acostumada. Apenas um semblante catatônico que sugeria paciência pela seqüência dos acontecimentos.

Depois dos instantes de espera, as duas reiniciaram a marcha. Pontos descascados na parede exibiam um amarelo envelhecido por debaixo do atual branco-sujo, cruzando sem ganhar a atenção devida de Bárbara. Mariana apenas fitava o teto branco-gelo, única paisagem disponível naquele instante. Bárbara não dava a mínima para a pintura, apenas mais um dos pormenores deprimentes da vida daquela casa; seus pontos de interesse eram os portais que conduziam aos novos mundos. Tudo, exclusivamente tudo, eram possibilidades de novos e excitantes conhecimentos; seu coração desejava aquilo. Depois de uma primeira tentativa frustrada, uma das portas entreaberta acabou cedendo a sua vontade; olhou por alguns segundos com atenção, até concluir que ali dentro não haviam interesses suficientes. Deixou para trás a cozinha, e prosseguiu adiante. A porta voltou a fechar-se lentamente atrás das duas, produzindo um som de luz esmaecida; três dobradiças enferrujadas gemeram espalhando o canto enfeitiçado pelo silêncio de uma tarde mumificada, embora ninguém tenha se dado pelo fato. Pouco depois, quando os ecos haviam se fundido com o infinito, as duas voltavam a estar cercadas pelo profundo silêncio perturbador; os ruídos familiares já não as alcançavam mais onde se encontravam. No limiar...........

A marcha das desbravadoras viu-se subitamente interrompida. Sombras se remexeram sobressaltadas, à procura dos cantos mais ocultos do lugar. A tarde adensou-se, ainda quente, ainda opressiva....... Uma brisa morna soprava lá fora, pesada e macia demais para agitar as cortinas da sala. Dois urubus de cabeça pelada, empoleirados no para-peito do terraço do edifício, aproveitavam a sombra da caixa d'água. Quente demais até para os carniceiros. Um cheiro de mirra deixava no ar um aroma agradável - restos do incenso que terminava seu ciclo - detalhes destoantes numa situação de inversa luz.

Os olhos de Bárbara se espicharam para dentro do banheiro. Mariana, agora deitada de lado, também olhou com curiosidade. O sorriso de Bárbara era radiante, fascinante...... As duas concordaram, o mundo ali era movido pelas possibilidades, pois tudo parecia ter vida em seu interior.

Mas nem tudo que se move espalha vida......

Tudo lá dentro era tão reluzente que de certo modo lembrava as historinhas que papai sempre queria começar a contar, sem jamais ter passado da primeira página. Papai podia estar cansado, bêbado, de mau humor. Eram grandes os argumentos. O brilho era sedutor, maravilhoso, e Bárbara sorria ainda mais intensamente, como se estivesse pronta para todas as novas verdades daquele ambiente. Mariana mostrava-se distraída. Enquanto a dona admirava as louças e espelhos, a boneca mantinha sua mirada inerte num ponto único......Bárbara foi virando a cabecinha, deslizando os olhinhos vivos sobre os detalhes, os cachos movendo-se balançantes ao sabor de seu giro, e o brilho homogêneo do novo mundo refletido em seus cristalinos foi quebrado repentinamente.

O vulto negro no canto do box do chuveiro.

Ali estava ele. O endereço da escuridão. Era "o ponto escuro", para onde toda luz parecia dirigir-se, e de onde toda esta mesma luz parecia jamais retornar. Acocorado, uma imensa túnica negra envolvendo o corpo encolhido, retorcido, envelhecido. A visão perturbou o semblante de Bárbara, assim como de Mariana. As suas expectativas haviam sofrido um revês, e ainda assim eram alfinetadas pela irmã curiosidade.

Ahh! Sempre a curiosidade.....

A pequena apoiou-se na parede, ergueu o seu pequeno corpo e o da amiga. Caiu no chão de bunda, puxada para baixo pela âncora volumosa que carregava os ursinhos amarelos. Estes não gostavam do que sentiam. Era como se o seu faro tivesse ganho vida, e absorvesse cada centímetro do terror que se ocultava sob aquela túnica. Mas, eles sim eram voz passiva..... O vulto remexeu-se. Inquieto, pareceu não gostar de suas próprias sensações. A pequena levantou novamente, pernas arqueadas e bambas. Os pés descalços e rechonchudos careciam de base para dar firmeza plena. Mariana suspensa parcialmente pelos cabelos ainda sustinha o mesmo olhar vago, e uma expressão cada vez menos de acordo. Viviam o momento sob diferentes pontos de observação, embora ambas houvessem chegado a um consenso: queriam conhecer o outro membro da casa.

Foi justo nesse instante de transição entre tempos, entre mundos, entre dimensões....... entre luz e trevas....... que os primeiros passos titubeantes da loirinha de rosto salpicado se deram em solitário. O lado negro estremeceu. Cabeça ainda baixa, algo semelhante a uma respiração silenciosa intensificou o movimento das costas arqueadas. Bárbara já caminhava, Mariana também; mamãe iria adorar conhecer uma das novidades, talvez não a outra. As duas apoiavam-se; Bárbara na esquadria de alumínio frio da porta do box, Mariana na amiga. As duas encarando com sentimentos diversos o estranho volume cada vez mais agitado. A tensão disfarçada preenchia o banheiro. Os dois carniceiros no topo do prédio pressentiram o encontro dos mundos, e abriram o leque de plumas negras reluzentes levantando vôo..... O sol escaldante os abraçou sem piedade.

O Vulto, vindo de outro tempo, perdido de sua época, cruzando os portais que separam uns dos outros, ergueu seu corpo...... Alto, muito alto..... Pareceu muito alto......Muito magro..... Temível, muito temível..... Uma corcova assomando sob a túnica. Os olhos, dois profundos poços sem luz, sem cor, eram como grandes buracos negros em meio a um rosto pálido, esquálido. As crianças muito tempo atrás temiam o grande e magro Elbert. Ele era inofensivo, mas mesmo assim era temido por muitos. As crianças temiam o jovem Elbert, e assim ele foi para as montanhas. Ele refugiou-se em solitário no coração das montanhas, mas ainda assim muitos foram lá para incomodá-lo. Alguns, nunca mais voltaram, mas o agora velho Elbert não tinha culpa. Ainda assim nunca acreditaram nele. O velho Elbert serviu para aplacar muita fúria. O velho Elbert foi sacrificado numa enorme e quente fogueira. Torrado, tostado e depois, cinzas..... Isto agora era parte de um passado distante, embora Elbert não tenha se dado conta. Imaginava-se ainda no lugar que fora seu refúgio, e os mundos infantis voltavam agora para ameaçá-lo. Elbert, o magro, o alto e esquálido, fitava com terror no semblante as duas ameaças que o encaravam assombradas também. Um terrível conflito de interesses estava estabelecido, e, dadas às circunstâncias, a solução final parecia ser uma única. Elbert moveu-se, muito lentamente, deixando o refúgio de seu canto secular. Um vapor denso pareceu flutuar atrás de si. Fora descoberto; as crianças precisavam ser caladas, pois do contrário os homens de grandes tochas nas mãos chegariam aos berros, como animais loucos, para machucá-lo. Elbert deu um, depois outro passo. Bárbara não gostava daquele estranho. Tampouco Mariana. Mariana era um peso, assim foi largada para trás. Ficou caída na entrada do box. Os olhos de cera fitavam mais uma vez o teto. Bárbara achou mais seguro e rápido mover-se ao velho estilo. Aos poucos uma sombra foi crescendo sobre Mariana, que sem poder reagir substituiu o branco-gelo pelo negro-total; uma enorme densidade de tons escuros mergulhou sobre a boneca, e pouco depois a jovem Mariana desapareceu inteiramente num outro mundo; sem cor, sem qualquer sinal de vida.....

Bárbara não gostara do que vira, e agora seu arrastar era impulsionado pelo desespero, pelo choramingo que ecoava no silêncio...... ela se movia com rapidez, e com lentidão.... o banheiro era coisa deixada para trás, contornava a portalada; o corredor pareceu-lhe mais comprido que na ida...... algo se moveu dentro do banheiro, e por primeira vez Ele sobre-passou os limites do box. Sentindo novamente as perturbações esquecidas num momento remoto, seguiu para outros lugares.... farejava cada milímetro da agônica fuga de Bárbara...... mas, Ele tinha que detê-la, antes que avisasse os demais..... eles vinham, sempre estavam de volta com aquelas terríveis tochas......não!! positivamente, Ele não gostava de fogo, o fogo ardia na pele - um tempo longo demais até a dor desaparecer. Por uma razão ignorada, Elber não gostava de fogo. O vulto se movia, um pequenino ponto crescia a sua frente. A pequena Bárbara, chorosa...... o cheiro do medo chegava fácil até Ele. Alegria, Ele estava praticamente lá.... Duas mãos de dedos compridos, longos e pontudos, brancos como a neve, flutuavam a procura da pequena. Bárbara, estática, aterrorizada...... O vulto apoderava-se de tudo, da pequenina, de tudo......quando mamãe surgiu.....alienada, alheia a qualquer fato, apenas apanhou em seus braços a pequena Bárbara, a das fraldas com ursinhos......soluçante, num choro convulso, aferrou-se ao pescoço da mãe fortemente. Escondeu a cabecinha no pescoço materno, que sustinha um cheiro ranço, e apertou os olhos o mais forte que pôde. O vulto moveu-se de volta, para seu lugar, amedrontado, apavorado........ os grandes estavam lá, e logo eles voltariam para fazer-lhe mal.......

Duas noites depois, quase completamente esquecida de tudo, Bárbara estava de volta ao seu quarto. Quando chegou lá, e mamãe a colocou para dormir, ela quase poderia jurar, caso falasse claramente, que tudo fora um pesadelo. Mesmo Mariana continuava lá, esparramada sobre a cadeira de vime, o mesmo olhar paralisado de cada dia. Quando mamãe partiu, deixando apenas a luz do corredor acessa, Bárbara fechou os olhos. Mariana não; eles brilhavam de forma diferente agora.... na penumbra, seu olhar adquiriu um tom rubro, e seu rosto uma expressão.........o vulto enfim abandonara seu antigo refúgio....... precisava evitar que os grandes chegassem com suas tochas....... o fogo que matava precisava ser impedido....... Não sabia o porquê, mas sempre odiara o fogo...... ardia na pele, a alma parecia queimar antes que o corpo.

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Contato com o autor: jorge.cid@bol.com.br.

Meu nome é Jorge Plá Cid. Nasci em Barcelona, Catalunya, em 17-04-67. Moro desde 1976 no Brasil, sendo também naturalizado. Escrevo sobre qualquer coisa que me dê prazer. Escrevo de acordo com a minha fase. Escrevo como forma de fuga. Escrevo pelo ar da minha alma. É por isso que escrevo. Autores favoritos: H. P. Lovecraft, Conan Doyle, Allan Poe, Dostoievski.....

 

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