| Rio, 05 de
maio de 2007 O
Homem de Preto Gaston
Stefani
Seu nome era Samuel. Ele estava em apuros. Naquela
noite escura, alguém o perseguia e desejava matá-lo. Sua vida corria
risco, o
tempo corria contra ele. Qualquer movimento em falso e seu destino
seria
irreversível. O desespero tomava conta de seus sentidos.
E agora, o que fazer?
Para onde ir? Ele, simplesmente, não sabia nem ao menos se estaria vivo
no minuto
seguinte. Tudo o que queria era que seu coração se acalmasse.
O tempo estava passando e
o cansaço começou a dominá-lo. Suas pernas já não reagiam mais da mesma
forma.
E, pouco a pouco, ele foi diminuindo o ritmo. Teria chegado seu fim? A
morte o
levaria naquela noite? Não, Samuel não queria pensar no pior. Ele ainda
poderia
fugir. Queria que o pesadelo acabasse. Já não tinha mais forças para
correr.
Foi quando o avistou.
Saiu do meio da escuridão e escondeu-se entre as sombras. Samuel
gritou.
Entretanto, quem ouviria seus gritos naquele inferno? Não havia para
onde
fugir. Eram apenas eles dois.
Lembrou-se, então, do
revólver que portava na cintura. Não tinha mais balas, mas se
conseguisse
dar-lhe uma coronhada, ele o deixaria inconsciente e conseguiria
escapar.
Virou-se e não viu ninguém. Para onde teria ido? Como desaparecera?
O medo se apoderava de
Samuel. A morte estava cada vez mais perto. Ele não tinha mais fôlego
para
continuar correndo. Tentava encontrar um lugar seguro, mas seria em
vão, não
havia nenhum daquele lado da cidade. Não tinha ninguém para ajudá-lo.
Sua vida
dependeria apenas dele mesmo.
Continuou correndo e,
finalmente, aproximou-se de um prédio abandonado. Agora, poderia
refletir sobre
o que estava acontecendo. Nada fazia sentido. Por que aquela estranha
figura
sob um manto preto o perseguia? O que queria? Quem era ele?
Pela janela do corredor,
avistava-se o mar. No entanto, não era mais azul. Estava tingido de
sangue.
Samuel viu centenas de corpos boiando. Mortos. Seria o Dia do Juízo
Final?
...e
foi lançado no mar, como um grande monte ardendo em fogo, e se tornou
em sangue
a terça parte do mar. E a terça parte das criaturas que viviam no mar
morreu...
A Bíblia mencionava o
Apocalipse. Não, não poderia ser verdade. Ele não queria acreditar. Por
que
tudo aquilo estaria acontecendo? E qual a relação entre o mar e aquele
estranho
homem que o perseguia?
Ouviu um barulho – havia
alguém ali. Ele poderia estar errado. Melhor não se descuidar. Caminhou
em
direção ao som, abriu rapidamente a porta e viu um rato correr. Avistou
mais um
corpo. Mas não apenas um. Havia outros em volta. O lugar cheirava à
carne podre. Cada vez
tudo parecia fazer menos sentido.
O mar. Os mortos. O
estranho sob um manto negro. A cidade destruída. Teria chegado a hora
que o
Homem pagaria por tanta insensatez? Afinal, estávamos nos destruindo
uns aos
outros, acabando com o planeta. Os humanos haviam se esquecido de amar.
Um novo barulho chamou
sua atenção. Seria aquele homem de preto? Sim, era ele. Podia vê-lo
escondido
em meio às sombras. O homem sob o manto preto começou a caminhar em sua
direção. Agora, ele não iria conseguir escapar. Mais alguns metros e
ele o
alcançaria. Seu coração acelerou. Sentiu um frio no estômago. Ele foi
tomado
pelo medo. Agora não poderia mais correr. Foi então que o vulto saiu
das
sombras e se revelou. Ele estava agora bem à sua frente. O homem sob o
manto
preto tinha um rosto desfigurado. Não havia qualquer expressão nele.
Seus olhos
eram os de um psicopata que não hesitaria matar, se precisasse. Ele se
aproximou, tirando um facão ensangüentado que trazia preso à perna.
Samuel, por
sua vez, tirou a arma do coldre, e apontou-a em direção a ele, que
erguera o
braço para desferir o golpe final. E o inesperado aconteceu.
O estranho seguiu em frente
e deu um talho em um dos corpos entre as centenas de mortos à sua
volta.
Fazendo um corte longitudinal, o homem tirou um pedaço de carne e
começou a
devorá-lo.
Samuel sentiu uma
sensação de alívio mesclada a um forte enjôo provocado por aquela cena
grotesca.
Tudo agora fazia mais sentido – era apenas um homem tentando sobreviver
em meio
àquele caos:
A voz ouvida do pássaro insólito, sobre
a chaminé da lareira: tão alto subirão os alqueires de trigo, que
o homem devorará o homem.
Ele recordou essa quadra
de Nostradamus, escrita há muitos séculos, que dizia que a fome no
mundo
chegaria a tal ponto que os homens se devorariam uns aos outros. Samuel
agora
compreendera tudo. A destruição não viria dos céus, mas dos homens. O
Homem concretizara
seu legado de morte, dando fim à própria raça.
Durante a explosão, dois
dias antes, Samuel batera a cabeça contra uma parede e ficara
desacordado por
algum tempo. Na véspera, ouvira boatos sobre o início da Terceira
Guerra
Mundial. Não eram boatos. Todos haviam morrido por causa disso. Tudo
aconteceu
tão rápido que não percebera. Ao acordar, não conseguia se lembrar de
nada. Foi
quando o pesadelo começou. Um pesadelo real e assustador que ele
preferia
jamais tivesse começado. Queria ter morrido naquele instante para não
assistir
à tamanha desgraça. Não havia o que fazer a não ser fugir e rezar para
não ser
devorado pelo homem de preto ou, até mesmo, por outro sobrevivente.
Imprimir
esta página
 Gaston Stefani
*Livro
contos da escuridão, lançado em 2000 pela Editora Writers, *Participação
no livro Pagando micros nanoliteratura , Gang edições, 2005, *Participação
no livro Mais, Gang edições, 2006, *
Participação no livro I concurso carioca de poesia, com prêmio de
melhor intérprete, Editora Contemporânea, 2006, *
Participação no livro A ponte (antologia) na
III olimpíada cultural – 500 anos da língua portuguesa no Brasil ,
clube amigo das letras, *
Menção honrosa com o poema Fantasiando você no II concurso literário
Poesia sem fronteiras |