Rio, 05 de maio  de 2007

Solidão

Rubens Fetzer

    Pedrito olhou ao redor. Estava escuro. As luzes tinham se apagado há algum tempo. Ele não se lembrava há quanto tempo, não tinha registrado o fato, não se importou. Mesmo sem as luzes ainda podia ver claramente. Estava de pé, parado, no restaurante da nave. Dezenas de mesas espalhavam-se ao seu redor. Tudo estava deserto. As mesas estavam arrumadas. Pratos, talheres e copos esperando convidados que nunca viriam. Sentou-se a uma mesa próxima e olhou mais uma vez para o amplo salão.

    Lembrou-se da última vez que vira o salão repleto de gente, borbulhando de vida. As pessoas conversavam animadamente. Os garçons andavam apressados de um lado para o outro. Um rapaz animava o ambiente cantando e tocando um violão. Mas o mais importante desta recordação é que ela estava ali, olhando-o com aqueles lindos e faiscantes olhos castanhos. Fernanda, a razão de sua existência. Aquela pequena criatura de apenas nove anos que aquecia sua alma. Lembrou-se de sua insistência em pedir batatas fritas em todas as refeições, até mesmo no café da manhã e, de sua alegria quando ele não conseguia resistir aos seus pequenos olhos suplicantes.

    Dirigiu-se até a entrada do restaurante, parando de fronte ao largo corredor. Ficou indeciso por alguns segundos. Olhou para os dois lados. Tudo deserto, escuro, silencioso. Foi para a direita, seguindo até a cúpula de observação.

    A cúpula era uma sala enorme, em forma de anfiteatro, repleta de confortáveis poltronas, onde o espetáculo era uma descomunal vigia que permitia observar o exterior da nave, o espaço, as estrelas. Havia outras três salas como aquela na nave, todas idênticas. Pedrito nunca entendeu porque, mas aquela era a preferida de Fernanda. Inúmeras vezes ela arrastou-lhe até ali para ficar observando as estrelas e viajando em seus pensamentos. Aproximou-se da vigia e olhou para fora por algum tempo. Para ele não passavam de pequenos pontinhos de luz. Nunca entendeu qual seria a graça em se passar horas obervando os tais pontinhos. Caminhou até uma poltrona que ficava exatamente de frente ao centro da vigia. Era o lugar preferido dela. Na verdade era o único que ela gostava. As vezes, quando iam a cúpula, alguma pessoa desavisada havia inadvertidamente usurpado seu lugar e, sempre sobrava para Pedrito literalmente implorar para o que o usurpador encontrasse outro lugar e entregasse aquele ao seu legítimo proprietário.

    Voltou para o corredor, praticamente arrastando-se. Depois de algum tempo estava novamente na cabina que dividira com Fernanda.  Sentou-se na beirada da cama e lentamente passou os olhos pelo ambiente, fixando-se na pequena pulseira de ouro que estava sobre o travesseiro. Pegou a pulseira cuidadosamente e observou-a mais de perto. Era formada por uma pequena plaquinha de ouro, incrustada de brilhantes, e uma delicada correntinha. Virou a pulseira para poder olhar o outro lado da plaquinha. Não que não soubesse o que estava escrito, já tinha lido-a incontáveis vezes. "Fernanda, feliz aniversário! Papai"

    Lembrou-se então daquele fatídico dia em que separara-se de Fernanda. Ela havia retirado a pulseira, que ficava um pouco larga em seu pequenino pulso, para poder praticar um pouco de natação. Tinha medo de perdê-la. Estavam quase chegando na piscina quando a nave deu uma grande sacudida. Fernanda quase caiu mas, Pedrito conseguiu ser o rápido o suficiente para ampará-la antes. Lembrou-se do sorriso de agradecimento que ela lhe dera, apesar do olhar assustado. Luzes vermelhas começaram então a piscar, acompanhadas de um estridente sinal sonoro. Pessoas começaram a correr desordenadamente para todos os lados. Fernanda agarrou-se fortemente ao seu corpo, procurando proteção. O aviso sonoro foi substituído por uma mensagem que se repetia: "Abandonar a nave! Dirijam-se todos para os casulos de fuga! Abandonar a nave!..."

    Um dos tripulantes da nave tentava colocar alguma ordem na fuga, aos berros:

    — Todos para os casulos de fuga. Não corram. Tem espaço para todos.

Alguém, impossível de se indentificar no meio daquela multidão, gritou para o tripulante:

    — O que esta acontecendo?

    — Fomos atingidos por um asteróide. Estamos perdendo todo o oxigênio — Respondeu o tripulante aos berros

Pedrito pegou Fernanda no colo e saiu apressado para os casulos de fuga, tentando abrir caminho entre a multidão apavorada.

    — Estou com medo — disse Fernanda agarrando ainda mais forte seu pescoço.

    — Tudo vai terminar bem, eu vou te proteger — Respondeu Pedrito, finalmente alcançando os casulos de fuga.

Dirigiu-se para o casulo mais próximo mas, foi impedido de entrar por um oficial da nave.

    — Só humanos! — disse o oficial em tom ríspido, enquanto estendia os braços para apanhar Fernanda.

Pedrito recuou um pouco e segurou firme na menina, que se agarrou ainda mais fortemente.

    — Eu preciso cuidar dela — disse Pedrito.

    — Entregue a menina — disse o oficial. — não temos muito tempo.

    Pedrito não obedeceu e recuou mais um pouco.

    — Eu sou responsável por ela — disse.

    ---Se não entregá-la logo ela vai morrer! Você quer ser responsável por isso? — disse o oficial, impaciente com a teimosia do robô.

    Pedrito hesitou um pouco e então, delicadamente, se desvencilhou do abraço de Fernanda, entregando-a ao oficial.

    — Pedrito ! — Gritava Fernanda, desesperadamente. — Pedrito, não me deixe .

    Diante da gritaria da menina, o oficial explicou, tentando convencê-la a colaborar:

    — Os robôs não precisam de ar, depois que as pessoas estiverem a salvo, uma nave vira resgatar seu amigo. Ele ficará bem.

    Fernanda se acalmou e disse, ainda aos berros, para ter certeza que Pedrito a escutaria enquanto era carregada para dentro do casulo de fuga pelo oficial:

    — Eu vou voltar para te buscar, Pedrito! Não tenha medo, eu vou voltar. — E a porta do casulo se fechou.

    Desde então Pedrito tem esperado por Fernanda. Esperou até que a nave se transformasse em um bloco de gelo mas, ele não sofria nem um dano com o frio. Esperou até que as baterias nucleares da nave se esgotassem e as luzes se apagassem mas, ele não precisava de luz para ver. Esperou até que seu relógio interno lhe informou que havia se passado cem anos, então, num ato de rebeldia e desespero, desligou seu relógio interno. Desde então não sabia quanto tempo tinha se passado. De algum modo, não saber mais quanto tempo havia passado ajudou a tornar um pouco mais tolerável seu sofrimento e saudade. E então ele continuava lá, esperando por Fernanda.


Imprimir esta página

Rubens Fetzer

Nascido em 1975, mais precisamente no dia 18 de outubro, em são paulo capital. Resido em santa catarina desde pequeno, primeiramente no municipio de Caçador, que considero como minha verdadeira terra natal, e atualmente em Florianopolis. 

Queremos saber o que achou do conto
 correio-eletrônico para:cartas@scarium.cjb.net

 topo da página

[ capa | não ficção on line | ficção on_line | Scarium E-book]