Rio, 29 de abril de 2007

Imortais

Ângelo Roncalle

Parte I

Quando a minha consciência começou a retornar, foi bem lentamente, era como se eu estivesse entrando e saindo de um sonho. Via imagens difusas se formando, uma sala iluminada por velas coloridas que logo depois desaparecia na escuridão, exatamente como se a realidade estivesse sendo mergulhada várias vezes em uma água escura e poluída.

A princípio, parecia mesmo que eu estava no meio de um sonho ruim, até que as imagens permaneceram e finalmente se estabilizaram. Eu estava definitivamente em uma sala ampla de uma casa em estilo colonial, a lareira acesa, grandes móveis de desenho rústico em madeira trabalhada e toda iluminada por muitas velas. Havia velas coloridas por todo o aposento. Vermelhas, azuis, verdes, roxas, amareladas.

Antes que eu pudesse concluir toda a observação do lugar, senti as dores nos braços como relâmpagos e só então percebi que estava totalmente amarrado a uma cadeira, com muitas voltas de corda. Comecei a tentar me lembrar de como fui parar ali ou de qualquer coisa antes disso. Isso também era difícil, o entorpecimento ainda embriagava até o eventual medo que começava a surgir devagar.

Respirei fundo. Dores no abdômen fortemente apertado.

Quase ouvi mentalmente as palavras do meu instrutor Renée, da academia de polícia: “agora vamos ficar calmos e raciocinar com clareza”. Agora, aquelas palavras pareciam fazer mais sentido do que quando estava em treinamento de situações-limite na academia. Certo, havia me formado investigador há menos de um ano e morava sozinho em um apartamento barato, isso eu podia lembrar. 

“Pois bem, qual é a última coisa de que você se lembra?”, as palavras do Renée continuavam a se articular em minha cabeça como uma forma de fuga mental, mas a verdade era que a minha memória recente parecia ter sido apagada, como uma borracha apaga frases em lápis. E o pânico estava chegando.

Subitamente, lembrei de alguns casos que estivera investigando recentemente junto com outros colegas da delegacia onde trabalhava. Um furto de laptop na faculdade de engenharia, um assassinato (aparentemente passional) de uma mulher em um condomínio da periferia onde morava com o novo namorado, uma nova seita satânica que estava ganhando cada vez mais adeptos pela internet... Bem, deixe-me lembrar em que ponto estava essa investigação...

Haviam chegado algumas denúncias na 18ª D.P. sobre assassinatos de jovens cometidos por essa nova seita. Como se já não bastassem as dezenas de casos que estavam sob minha responsabilidade, o delegado Calazanas insistiu que eu devia dar uma atenção a mais a esse bando de lunáticos.

– Nem há indícios de que as pessoas foram mortas, elas simplesmente desapareceram, segundo os relatos – tentei argumentar com ele.

– Não tem problema, George, uma nova seita de fanáticos é sempre uma ameaça e eu acredito em se cortar o mal pela raiz. Aqui estão as informações que nós temos até agora – jogou uma pasta na mesa. – Junte mais provas e boa sorte.

Depois disso, li várias baboseiras sobre rituais cabalísticos ridículos no site da seita, a “Legião do Sangue Imortal”, e solicitei ajuda a técnicos de software para tentar localizar os administradores do site.

Havia conseguido pouco progresso nessa direção quando a policial Kelly me tirou da frente do computador em uma manhã de novembro:

– George, é você que está com aquele caso da seita?

– Infelizmente, linda. Você vai me dar os pêsames?

– Então é pra você – mostrou-me o fone.

Era uma garota adolescente cuja voz soava aborrecida, e também um pouco amedrontada. Queria passar informações sobre a “Legião”. Pedi que nos encontrássemos para conversarmos pessoalmente, já que ao telefone não seria seguro (era um blefe, eu queria encontrá-la cara a cara).

Ela era uma típica adolescente gótica. As roupas, cabelos, batom e unhas eram pretos. Havia piercings no seu nariz e nas orelhas e não devia ter mais de 16 anos. No banco da pequena praça da cidade, à tarde, ela não parecia à vontade. Preferiu não dizer o seu nome, mas queria falar algumas coisas. Fumava cigarros como se substituísse algum outro tipo de fumo mais interessante e ilegal. Olhava o chafariz no centro da praça enquanto procurava as palavras. Deixei que tivesse todo o tempo de que precisasse.

– Sei que arrisquei demais o meu pescoço ligando para a delegacia... – começou, olhando o movimento das crianças nos brinquedos. – E estou me arriscando ainda mais agora, falando com você. Eles são perigosos e meio doidos. Acho que isso tem que parar.

– O que tem que parar? O que estão fazendo?

Eu estava intrigado. O site da "Legião" falava de atingir a imortalidade por meio de  rituais macabros, mas sem maiores detalhes. Pediam cadastramento e a aprovação em várias fases de iniciação antes que abrissem tudo ao novato.

– Eu havia entrado para a “Legião” seguindo aquele lunático do meu namorado. Ele estava tão empolgado... Mas não consegui passar por toda a iniciação, sabe, eles são muito nojentos.

Se existia alguma coisa nojenta demais para aquela garota, então aqueles caras eram mesmo bons...

– Então eles me desligaram do grupo – continuou. – Aquele cretino do meu namorado preferiu ficar com eles e nem me dirigiu a palavra, quando eu saí... 

A garota mostrava os dentes como um gato que vê uma serpente. Nada como o rancor de uma mulher desprezada para destruir impérios. 

– Mas sei que estão fazendo coisas mais terríveis. Vi dois deles trazendo um estudante estrangeiro dopado uma vez. Como era uma iniciante, não me deixaram ver o que iam fazer. Fui retirada da sala e depois ouvi gritos abafados atrás da porta.

– Você correu muito risco lá, garota... Onde foi isso? Onde eles se reúnem?

– Na verdade, escolhem lugares diferentes para cada reunião. Os membros são avisados no dia anterior, por celular ou e-mail – acendeu outro cigarro na ponta do anterior.

– Você tem como saber onde e quando será o próximo encontro? Tem algum contato com seu ex-namorado? Isso é muito importante e talvez a única forma de pegá-los.

– Bem, a única coisa que sei com certeza é que a próxima reunião será no dia 24 de dezembro. Sim, na véspera de Natal... eles me falaram, poucos dias antes de eu ser desligada, que essa será a reunião final e a mais importante de todas. Aquele escroto do meu ex falou que é quando eles vão atingir o clímax dos rituais e chegar à... Bah, que baboseira! – aspirou o cigarro com determinação. – Tudo bem, vou tentar descobrir o local...

Pedi algum número para contato, mas ela se recusou a me fornecer. Disse que ligaria quando tivesse mais informações. Isso foi por volta do dia 05 de dezembro. Desde então não soube mais dela e voltei a me concentrar nos outros casos. Conseguimos desvendar o furto do laptop, o culpado era um funcionário da universidade. Mas depois disso não conseguia me lembrar de mais nada... Até acordar aqui, amarrado numa cadeira.

Com o canto dos olhos, percebi um movimento à direita. Vi um vulto escuro se movendo entre as velas, alguém usando manta e capuz marrom-escuros. A figura esgueirou-se andando lentamente até o outro canto da sala, parando onde havia um enorme pinheiro, ali dentro do aposento. Era uma árvore de Natal. Eu não tinha sequer notado aquela árvore, afinal, eu ainda não havia olhado tudo ao meu redor. Claro, era uma comemoração de Natal e eu era o convidado de última hora. Não sabia que dia era, mas podia apostar que era 24 de dezembro.

A figura encapuçada, inesperadamente, riscou um fósforo e a enorme árvore começou a arder. Fechei os olhos ofuscados com o forte clarão. Aquela comemoração seria realmente inusitada.

De súbito, achei que aquela pessoa de manta e capuz era a garota gótica com quem conversei na praça. Aquela piranha enganadora... Depois daquele encontro, ela me seguira para saber onde eu morava, e daí fora fácil armar uma emboscada...

Logo me dei conta que estava enganado. Portas duplas se abriram à direita e entraram mais doze figuras, também encapuçadas. Eu não conseguia distinguir se eram homens ou mulheres, velhos ou jovens. Quatro deles estavam trazendo um caixão fechado e a garota gótica estava amarrada e amordaçada sobre a tampa. Ela estava ofegante e gemia de vez em quando. Depositaram o caixão no chão, no centro da sala. O encapuzado que ateara fogo à árvore aproximou-se da moça e agachou-se.

– Eu tentei fazer com que eles não te ferissem, Sarah – o tom de voz era paternal, quase afável. – Eu até gostava um pouquinho de você. Mas você foi tola demais, não soube aproveitar a liberdade que te concedemos... Você procurou a polícia... – ele virou a cabeça lentamente para mim. A luz do fogo da árvore iluminou uma parte do seu rosto e eu vi um garoto de olhos claros e arregalados, meio catatônico, com ar tresloucado.

– Você acordou, George! Bem-vindo à nossa humilde casa... – disse, e o tom já não era tão paternal. – O tranqüilizante que te demos fez efeito direitinho, você acordou bem na hora – ele levantou e aproximou-se um pouco. – Todos nós entendemos que é seu trabalho bisbilhotar a vida dos outros, mas compreenda, George... também é nossa função não deixar que outros atrapalhem a nossa missão. Por isso foi trazido para cá. Mas, antes que a gente se livre de você, vai ter o enorme privilégio de ser o único a testemunhar o grande feito que vamos alcançar hoje. E então, está bem confortável?

Eu não podia me dar ao luxo de retrucar qualquer coisa, as coisas pareciam bastante graves sem que eu fizesse gracinhas. Estava suando.

– Vamos fazer o seguinte: deixem a garota fora disso, está bem? - resolvi tentar argumentar. – Ela não precisa se machucar...

– Ah não, George, ela tem uma função especial hoje. E por favor, não me obrigue a te amordaçar ou te matar antes que a sessão comece.

– Felipe, está quase na hora – um dos outros o chamou. Eles não estavam se preocupando em esconder nomes, sinal de que pretendiam mesmo me matar.

– Já estou indo, não precisa me lembrar, Fred.

– Confesso que fiquei curioso quando comecei a investigar o seu grupo, Felipe - tentei ganhar tempo. – Vocês são mesmo um desafio para qualquer departamento de polícia. Afinal, você permite que eu saiba pelo menos o que fizeram com os garotos desaparecidos?

– E por que não, George? Eles estão bem ali – apontou para a enorme árvore em chamas. – As partes dos corpos que não nos interessam devem ir para a purificação – olhei de novo e consegui divisar pedaços de pernas, mãos e crânios no meio do fogo, espalhados ao longo do enorme pinheiro. Comecei a suar mais, sentia gotas deslizando pela minha testa e ao longo do rosto.

– As partes que nos interessam realmente estão ali – apontou para o caixão fechado. – Seus corações, George. Estão todos ali, mergulhados no sangue que vai ser ativado. – Imaginei pedaços disformes de carne boiando em uma sopa vermelha dentro do caixão. – Serão treze corações reunidos conforme a tradição... e Sarah será o último sacrifício que trará o Senhor da Eternidade para a Terra e nos dará a dádiva de ser imortais – essas últimas palavras foram quase sussurradas. Seus olhos estavam esbugalhados.

Finalmente, voltou para junto dos outros, que começavam a formar um círculo ao redor do caixão com Sarah sobre ele. Felipe havia me contado mais do que eu gostaria de saber.

Um dos encapuzados abriu um livro velho e pesado, e começou a ler em voz alta, numa língua estranha. As chamas das velas pareciam faiscar e oscilar, mesmo sem nenhum vento.

Comecei a me remexer na cadeira, procurando qualquer folga nas amarras. Estava realmente apertado. Se houvesse algum momento de fazer alguma coisa, seria esse. Minhas mãos estavam atadas aos braços da cadeira com várias voltas de corda e eles com certeza haviam tirado tudo que estava comigo; arma, celular, carteira, distintivo...

Outro encapuzado saíra do círculo e se aproximava de Sarah com uma adaga à frente do corpo, voltada para baixo. A lâmina brilhava refletindo as luzes das velas. O primeiro continuava recitando o ritual do livro. As chamas das velas estavam dançando loucamente agora.

Estava suando também nas mãos, o que as deixou escorregadias. Com muito esforço, consegui deslizar a mão esquerda para fora das cordas. Ainda não tinha muita autonomia com a mão livre, mas pude tocar minha perna na altura do bolso da calça. Havia alguma coisa ali. Eles haviam esquecido de retirar alguma coisa do meu bolso.

 

Parte II

Giulia Moon

Já lhes disse que sou religioso? Não? Pois é. Não sou. Mas minha mãezinha é... Desde que eu era menino ela tinha a mania de costurar um pequeno crucifixo por dentro do forro das minhas roupas, uma simpatia esquisita que aprendeu com a minha bisavó, uma velhota assustadora de verruga na testa e sotaque eslavo. Foi esse crucifixo que eu apalpei naquele momento, pensando se aquilo não era mais uma ironia do destino do que propriamente um sinal de sorte. Mas não tive muito tempo para pensar.

– Grande Mestre da Maldição! Senhor da Eternidade! - berrava o tal de Felipe. – Receba agora o 13, o número da Morte e da Transformação... São teus apóstolos que te saúdam!

Nunca me esquecerei dos olhos da garota. Passarão anos, décadas. Eu passarei como carne, e depois ossos e pó. Mas os olhos de Sarah jamais sairão da minha mente. Eu já vira cadáveres, mas nunca havia presenciado a morte de alguém. A garota berrou e gritou sob a mordaça, até mastigar todo o tecido que haviam enfiado na boca dela. Fixou os seus olhos desesperados sobre mim numa súplica tão comovente que amaldiçoei cada um daqueles filhos da mãe enlouquecidos do fundo da minha alma. Enquanto a faca penetrava na carne sob as roupas negras da garota, eu me perguntava... Sim, eu me perguntava como alguém podia fazer aquilo. Pois aqueles fanáticos estavam retirado o coração da garota ainda viva! 

Depois de longos minutos de agonia, Sarah estava morta. Ouvi o som do seu corpo sendo jogado ao chão. Abri os olhos, que havia cerrado sem perceber no momento final de sua agonia, e vi o corpo da jovem retalhado, grosseiramente desprovido de uma parte de seu tórax. Felipe erguia, triunfante, o coração da ex-namorada nas mãos. Era o décimo-terceiro coração que tanto queriam. Ao seu sinal, os demais encapuçados levantaram a tampa do caixão, e o fanático seguidor da Legião do Sangue Imortal depositou com delicadeza o órgão recém-conquistado na esquife, que foi fechada em seguida. Imediatamente , os demais elevaram as suas vozes num coro, que recitava em uníssono uma espécie de reza, ininteligível para mim.

De repente, de dentro do caixão, um som começou a se fazer ouvir. Alguém raspava a tampa com unhas ou algo parecido. Os seguidores da seita aproximaram-se, não escondendo a curiosidade e a impaciência. Então, com um estrondo, a tampa do caixão foi jogada para longe.

– Meu Deus!

Eu não era religioso. Nem um pouco. Mas a visão daquilo me fez gritar pelo auxílio divino. Puro reflexo de infância, das mulheres da casa murmurando preces, dos santos de gesso pendurados nas paredes da lojinha de meu pai. Se não fosse por isso, talvez tivesse pedido o auxílio do próprio Inferno, pois estava apavorado demais para perder tempo escolhendo a quem recorrer. Eu não tirava os olhos da criatura no caixão. Primeiro as garras surgiram pelas beiradas da esquife. Depois, o resto do corpo assomou como uma visão infernal. Uma forma semelhante a uma mulher, constituída de uma matéria pegajosa e liquefeita, totalmente vermelha. Uma criatura feita de sangue... Uma besta que nascia na mesma data que o Filho de Deus.

-- Uma... mulher? –  ouvi Felipe murmurar.

A criatura voltou-se para ele, que chamara com a sua voz a atenção para si. Seus olhos sem pálpebras fixaram-se no encapuçado. Depois, uma fenda correu pelo rosto sem forma esculpida em sangue, abrindo-se em algo semelhante a uma boca. Aterrorizado, eu vi uma espécie de riso formar-se naquele orifício. Palavras surgiram na minha mente. Palavras, que eu sabia, todos aqueles seguidores fanáticos da Legião também estavam ouvindo.

"Treze corações sacrificados pela Deusa. Treze vidas para impelir o feto feito de sangue à vida."

Olhei para os encapuçados. Os rostos dos monges demoníacos pareciam em transe. Murmuravam baixinho frases de adoração à besta que trouxeram do Inferno. Mais palavras surgiam na minha mente, como se uma voz rouca e profunda sussurrasse no meu ouvido. 

"O feto feito recém-nascido precisa de alimento. Treze fontes do alimento rubro para saciar a fome da Deusa. Treze servos para oferecerem seu sangue à Escolhida."

Acho que as escrituras que esses sujeitos estúpidos consultaram nada diziam sobre essa parte do ritual. Do contrário, não teriam corrido para todas as direções, do jeito que correram quando a besta segurou Felipe com as garras e arrancou a sua cabeça.  O sangue espirrou como um chafariz. Nunca pensei que saísse com tanta força de um corpo. O monstro banhou-se nesse chuveiro vermelho soltando um guincho de satisfação. O líquido escorria sobre o seu corpo e penetrava nos seus poros, até que em segundos todo o sangue derramado desaparecera, incorporado no corpo bizarro da criatura. 

Eu havia me sacudido tanto, ainda preso na minha cadeira, que havia tombado de lado. A minha mão esquerda estava machucada pelas cordas, mas quase livre. Lá, do chão, pude ver os encapuçados amontoados sobre a porta, com certeza tentando abrí-la. Que idiotas... Trancaram as saídas para que suas vítimas não pudessem escapar. Agora, essas mesmas trancas os impediam de fugir. Vi de relance Fred, manuseando de forma desajeitada um molho de chaves. Logo alguém arrancou as chaves de suas mãos e tentou achar, por sua vez, a chave certa. Ao mesmo tempo, outros tentavam puxar o molho, cada qual convicto de que poderia encontrar mais rápido a chave para destrancar a porta, mas só conseguindo atrapalhar os esforços uns dos outros. Todos estavam fora de si, histéricos com a aproximação dela... Sim, ela, a besta, estava, passo a passo, encaminhando-se para eles.

"Seres inferiores, sirvam a sua Deusa!"

A voz ordenara. De repente, vi a criatura voar sobre o primeiro dos encapuçados. O seu capuz caiu sobre os seus ombros, libertando mechas de cabelos loiros. Percebi que era uma mulher. Fiquei atônito ao constatar que a conhecia. Kelly!!! A policial que sempre me trazia bolinhos de canela após o almoço... Por Deus, eu gostava bastante da filha-da-mãe... Ela atendera a ligação de Sarah à delegacia. Fora ela, então, quem armara tudo e contara aos fanáticos sobre a traição da ex-namorada de Felipe. Mas nem tive tempo de sentir raiva. Em instantes, a cabeça de Kelly voava. E o seu sangue juntava-se à massa disforme que formava o corpo da besta.

E assim foi. Um a um, homens, mulheres, velhos e adolescentes, foram decapitados pela criatura. O último foi Fred, que se escondera atrás de mim, tremendo e se cagando inteiro de pavor. Quando a besta se aproximou, tentou me empurrar ao encontro dela, esperando que ela me matasse, ao invés dele. Grande idiota. Até eu sabia que não havia salvação para os treze acólitos da seita. O tal ritual tinha que ser cumprido até o fim. A imortalidade que tanto buscavam era essa, afinal. Viver para sempre dentro do corpo da besta. Não é o que acontece o tempo todo? A toda hora consumimos outras criaturas para o nosso próprio sustento. E as matérias de que são feitas perpetuam-se em nós e depois em outras criaturas, em outras, outras... Somos todos imortais, ao final. A alma? Bem, a alma já é outra história, pois a minha, perdi naquele dia, num dia 24 de dezembro qualquer.

Depois de acabar com Fred, o último dos fanáticos da seita, a besta finalmente me notou. Lembram-se do crucifixo costurado no meu bolso? Consegui arrancá-la com a minha mão esquerda, finalmente livre. Quando ela se aproximou, a bocarra aberta e as garras prontas para me picar em pedacinhos, eu mostrei-lhe a pequena peça de metal barato, comprada de algum fabricante ateu de quinquilharias por meu pai. Havia milhares dessas coisinhas na loja da família, ao lado da catedral. Então ela parou. Começou a resfolegar e a se contorcer até cair no chão. O meu medo foi tão forte nessa hora que consegui me livrar das cordas, arrebentando algumas, já frouxas, e saí aos trancos e barrancos em direção da porta. Mas, como os outros, me vi impedido de sair pelas malditas trancas. Enquanto eu tentava arrombar a porta com os meus ombros, senti alguém atrás de mim. Eu estava aterrorizado e mal conseguia segurar-me sobre os joelhos. Tremendo que nem vara verde, resolvi finalmente me virar. E vi, na minha frente, a besta.

O meu queixo caiu. Era uma menininha de uns seis anos, cujas feições assemelhavam-se demais com a garota gótica sacrificada. Seus olhos estavam cheios de lágrimas que, ao me ver, irromperam num choro convulsivo. O corpo pequeno tremia, coberto de sangue. Os cabelos negros estavam empapados pelo líquido rubro. Ali, abandonada, chorando que nem um bichinho perdido, a besta já não parecia uma fera assassina. Eu não sou nenhum santo, mas não consegui deixar pra lá, entendem? Vamos lá, qualquer um teria feito o mesmo... Tirei a camisa que usava e a coloquei sobre os seus ombros. Então ela se atirou sobre mim e me abraçou tão forte que, por um momento, achei que tentava me enforcar.

Não pude abandoná-la. Ela era muda, ou simplesmente não queria falar, pois nunca ouvi o som de sua voz. Era em tudo igual a uma menina comum, a não ser por uma coisa, que percebi logo após dar-lhe um banho e cobrí-la com uma camiseta que encontrei entre as coisas dos fanáticos na casa. Eu estava absorto, mergulhado em meus pensamentos, enquanto a ajudava a colocar a camiseta enorme. Então ela tomou o meu rosto nas mãos e olhou-me nos olhos. Senti um arrepio, mas não tive medo. Eu sabia de alguma forma que ela não queria me fazer mal. Foi só uma fisgadinha no pescoço, podem acreditar. Ela sugou o meu sangue naquele dia de Natal. E tem sugado todos os dias desde então. Eu deixo, sim, eu permito... Eu sei, bem dentro do meu coração, que eu estou fazendo algum tipo de bem para a Humanidade.

É isso que eu penso quando a vejo agora, sentadinha ao meu lado na minha barraca de santinhos em frente à catedral. Tão bonita e delicada... Quem diria que é uma criatura monstruosa por dentro? O meu trabalho como investigador? Eu pedi demissão logo depois daquele Natal. Tinha coisas mais importantes a fazer... 

Eu cuido dela e a observo dia e noite. Uma vampira? Não, senhor. Ela anda de dia, não voa ou coisa parecida. Mas bebe meu sangue. E, se não o fizer, bebe de outras pessoas. Eu desconfio que algo em meu sangue, ou talvez em mim... quem sabe, talvez na minha roupa cheia de crucifixos, a deixa assim, humana. Mantém a sua natureza de besta sob controle. 

Tantas histórias por aí dão conta de Anti-Cristos, de demônios e de maldições. Eu gostaria de entender mais a respeito para explicar a mim mesmo o que aconteceu. Mas não posso... Tenho que vigiá-la. E amá-la com todas as minhas forças. Quem sabe, dessa forma consigo mantê-la assim. Tão linda!

Volto a mim com uma mulher de meia-idade perguntando o preço de um crucifixo. Falo o preço e ela se vai, sem comprar. Minha Sarah dá um leve esgar hostil em direção da mulher que se afasta. Eu afago a cabeça da minha garota e acalmo a sua fúria... Ela está salva mais uma vez.

Já é quase noite. Olho para as torres da catedral, recortadas sob um céu avermelhado, quase sanguíneo. Sarah brinca com o crucifixo costurado sob o forro do seu vestido. E eu, cansado, espero a noite chegar...

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