Parte
I
Quando
a minha consciência começou a retornar, foi bem lentamente, era como se
eu estivesse entrando e saindo de um sonho. Via imagens difusas se
formando, uma sala iluminada por velas coloridas que logo depois
desaparecia na escuridão, exatamente como se a realidade estivesse sendo
mergulhada várias vezes em uma água escura e poluída.
A
princípio, parecia mesmo que eu estava no meio de um sonho ruim, até que
as imagens permaneceram e finalmente se estabilizaram. Eu estava
definitivamente em uma sala ampla de uma casa em estilo colonial, a
lareira acesa, grandes móveis de desenho rústico em madeira trabalhada e
toda iluminada por muitas velas. Havia velas coloridas por todo o
aposento. Vermelhas, azuis, verdes, roxas, amareladas.
Antes
que eu pudesse concluir toda a observação do lugar, senti as dores nos
braços como relâmpagos e só então percebi que estava totalmente
amarrado a uma cadeira, com muitas voltas de corda. Comecei a tentar me
lembrar de como fui parar ali ou de qualquer coisa antes disso. Isso também
era difícil, o entorpecimento ainda embriagava até o eventual medo que
começava a surgir devagar.
Respirei
fundo. Dores no abdômen fortemente apertado.
Quase
ouvi mentalmente as palavras do meu instrutor Renée, da academia de polícia:
“agora vamos ficar calmos e raciocinar com clareza”. Agora, aquelas
palavras pareciam fazer mais sentido do que quando estava em treinamento
de situações-limite na academia. Certo, havia me formado investigador há
menos de um ano e morava sozinho em um apartamento barato, isso eu podia
lembrar.
“Pois
bem, qual é a última coisa de que você se lembra?”, as palavras do
Renée continuavam a se articular em minha cabeça como uma forma de fuga
mental, mas a verdade era que a minha memória recente parecia ter sido
apagada, como uma borracha apaga frases em lápis. E o pânico estava
chegando.
Subitamente,
lembrei de alguns casos que estivera investigando recentemente junto com
outros colegas da delegacia onde trabalhava. Um furto de laptop na
faculdade de engenharia, um assassinato (aparentemente passional) de uma
mulher em um condomínio da periferia onde morava com o novo namorado, uma
nova seita satânica que estava ganhando cada vez mais adeptos pela
internet... Bem, deixe-me lembrar em que ponto estava essa investigação...
Haviam
chegado algumas denúncias na 18ª D.P. sobre assassinatos de jovens
cometidos por essa nova seita. Como se já não bastassem as dezenas de
casos que estavam sob minha responsabilidade, o delegado Calazanas
insistiu que eu devia dar uma atenção a mais a esse bando de lunáticos.
–
Nem há indícios de que as pessoas foram mortas, elas simplesmente
desapareceram, segundo os relatos – tentei argumentar com ele.
–
Não tem problema, George, uma nova seita de fanáticos é sempre uma ameaça
e eu acredito em se cortar o mal pela raiz. Aqui estão as informações
que nós temos até agora – jogou uma pasta na mesa. – Junte mais
provas e boa sorte.
Depois
disso, li várias baboseiras sobre rituais cabalísticos ridículos no
site da seita, a “Legião do Sangue Imortal”, e solicitei ajuda a técnicos
de software para tentar localizar os administradores do site.
Havia
conseguido pouco progresso nessa direção quando a policial Kelly me
tirou da frente do computador em uma manhã de novembro:
–
George, é você que está com aquele caso da seita?
–
Infelizmente, linda. Você vai me dar os pêsames?
–
Então é pra você – mostrou-me o fone.
Era
uma garota adolescente cuja voz soava aborrecida, e também um pouco
amedrontada. Queria passar informações sobre a “Legião”. Pedi que
nos encontrássemos para conversarmos pessoalmente, já que ao telefone não
seria seguro (era um blefe, eu queria encontrá-la cara a cara).
Ela
era uma típica adolescente gótica. As roupas, cabelos, batom e unhas
eram pretos. Havia piercings no seu nariz e nas orelhas e não devia ter
mais de 16 anos. No banco da pequena praça da cidade, à tarde, ela não
parecia à vontade. Preferiu não dizer o seu nome, mas queria falar
algumas coisas. Fumava cigarros como se substituísse algum outro tipo de
fumo mais interessante e ilegal. Olhava o chafariz no centro da praça
enquanto procurava as palavras. Deixei que tivesse todo o tempo de que
precisasse.
–
Sei que arrisquei demais o meu pescoço ligando para a delegacia... –
começou, olhando o movimento das crianças nos brinquedos. – E estou me
arriscando ainda mais agora, falando com você. Eles são perigosos e meio
doidos. Acho que isso tem que parar.
–
O que tem que parar? O que estão fazendo?
Eu
estava intrigado. O site da "Legião" falava de atingir a
imortalidade por meio de rituais
macabros, mas sem maiores detalhes. Pediam cadastramento e a aprovação
em várias fases de iniciação antes que abrissem tudo ao novato.
–
Eu havia entrado para a “Legião” seguindo aquele lunático do meu
namorado. Ele estava tão empolgado... Mas não consegui passar por toda a
iniciação, sabe, eles são muito nojentos.
Se
existia alguma coisa nojenta demais para aquela garota, então aqueles
caras eram mesmo bons...
–
Então eles me desligaram do grupo – continuou. – Aquele cretino do
meu namorado preferiu ficar com eles e nem me dirigiu a palavra, quando eu
saí...
A
garota mostrava os dentes como um gato que vê uma serpente. Nada como o
rancor de uma mulher desprezada para destruir impérios.
–
Mas sei que estão fazendo coisas mais terríveis. Vi dois deles trazendo
um estudante estrangeiro dopado uma vez. Como era uma iniciante, não me
deixaram ver o que iam fazer. Fui retirada da sala e depois ouvi gritos
abafados atrás da porta.
–
Você correu muito risco lá, garota... Onde foi isso? Onde eles se reúnem?
–
Na verdade, escolhem lugares diferentes para cada reunião. Os membros são
avisados no dia anterior, por celular ou e-mail – acendeu outro cigarro
na ponta do anterior.
–
Você tem como saber onde e quando será o próximo encontro? Tem algum
contato com seu ex-namorado? Isso é muito importante e talvez a única
forma de pegá-los.
–
Bem, a única coisa que sei com certeza é que a próxima reunião será
no dia 24 de dezembro. Sim, na véspera de Natal... eles me falaram,
poucos dias antes de eu ser desligada, que essa será a reunião final e a
mais importante de todas. Aquele escroto do meu ex falou que é quando
eles vão atingir o clímax dos rituais e chegar à... Bah, que baboseira!
– aspirou o cigarro com determinação. – Tudo bem, vou tentar
descobrir o local...
Pedi
algum número para contato, mas ela se recusou a me fornecer. Disse que
ligaria quando tivesse mais informações. Isso foi por volta do dia 05 de
dezembro. Desde então não soube mais dela e voltei a me concentrar nos
outros casos. Conseguimos desvendar o furto do laptop, o culpado era um
funcionário da universidade. Mas depois disso não conseguia me lembrar
de mais nada... Até acordar aqui, amarrado numa cadeira.
Com
o canto dos olhos, percebi um movimento à direita. Vi um vulto escuro se
movendo entre as velas, alguém usando manta e capuz marrom-escuros. A
figura esgueirou-se andando lentamente até o outro canto da sala, parando
onde havia um enorme pinheiro, ali dentro do aposento. Era uma árvore de
Natal. Eu não tinha sequer notado aquela árvore, afinal, eu ainda não
havia olhado tudo ao meu redor. Claro, era uma comemoração de Natal e eu
era o convidado de última hora. Não sabia que dia era, mas podia apostar
que era 24 de dezembro.
A
figura encapuçada, inesperadamente, riscou um fósforo e a enorme árvore
começou a arder. Fechei os olhos ofuscados com o forte clarão. Aquela
comemoração seria realmente inusitada.
De
súbito, achei que aquela pessoa de manta e capuz era a garota gótica com
quem conversei na praça. Aquela piranha enganadora... Depois daquele
encontro, ela me seguira para saber onde eu morava, e daí fora fácil
armar uma emboscada...
Logo
me dei conta que estava enganado. Portas duplas se abriram à direita e
entraram mais doze figuras, também encapuçadas. Eu não conseguia
distinguir se eram homens ou mulheres, velhos ou jovens. Quatro deles
estavam trazendo um caixão fechado e a garota gótica estava amarrada e
amordaçada sobre a tampa. Ela estava ofegante e gemia de vez
em quando. Depositaram
o caixão no chão, no centro da sala. O encapuzado que ateara fogo à árvore
aproximou-se da moça e agachou-se.
–
Eu tentei fazer com que eles não te ferissem, Sarah – o tom de voz era
paternal, quase afável. – Eu até gostava um pouquinho de você. Mas
você foi tola demais, não soube aproveitar a liberdade que te
concedemos... Você procurou a polícia... – ele virou a cabeça
lentamente para mim. A luz do fogo da árvore iluminou uma parte do seu
rosto e eu vi um garoto de olhos claros e arregalados, meio catatônico,
com ar tresloucado.
–
Você acordou, George! Bem-vindo à nossa humilde casa... – disse, e o
tom já não era tão paternal. – O tranqüilizante que te demos fez
efeito direitinho, você acordou bem na hora – ele levantou e
aproximou-se um pouco. – Todos nós entendemos que é seu trabalho
bisbilhotar a vida dos outros, mas compreenda, George... também é nossa
função não deixar que outros atrapalhem a nossa missão. Por isso foi
trazido para cá. Mas, antes que a gente se livre de você, vai ter o
enorme privilégio de ser o único a testemunhar o grande feito que vamos
alcançar hoje. E então, está bem confortável?
Eu
não podia me dar ao luxo de retrucar qualquer coisa, as coisas pareciam
bastante graves sem que eu fizesse gracinhas. Estava suando.
–
Vamos fazer o seguinte: deixem a garota fora disso, está bem? - resolvi
tentar argumentar. – Ela não precisa se machucar...
–
Ah não, George, ela tem uma função especial hoje. E por favor, não me
obrigue a te amordaçar ou te matar antes que a sessão comece.
–
Felipe, está quase na hora – um dos outros o chamou. Eles não estavam
se preocupando em esconder nomes, sinal de que pretendiam mesmo me matar.
–
Já estou indo, não precisa me lembrar, Fred.
–
Confesso que fiquei curioso quando comecei a investigar o seu grupo,
Felipe - tentei ganhar tempo. – Vocês são mesmo um desafio para
qualquer departamento de polícia. Afinal, você permite que eu saiba pelo
menos o que fizeram com os garotos desaparecidos?
–
E por que não, George? Eles estão bem ali – apontou para a enorme árvore
em chamas. – As partes dos corpos que não nos interessam devem ir para
a purificação – olhei de novo e consegui divisar pedaços de pernas, mãos
e crânios no meio do fogo, espalhados ao longo do enorme pinheiro.
Comecei a suar mais, sentia gotas deslizando pela minha testa e ao longo
do rosto.
–
As partes que nos interessam realmente estão ali – apontou para o caixão
fechado. – Seus corações, George. Estão todos ali, mergulhados no
sangue que vai ser ativado. – Imaginei pedaços disformes de carne
boiando em uma sopa vermelha dentro do caixão. – Serão treze corações
reunidos conforme a tradição... e Sarah será o último sacrifício que
trará o Senhor da Eternidade para a Terra e nos dará a dádiva de ser
imortais – essas últimas palavras foram quase sussurradas. Seus olhos
estavam esbugalhados.
Finalmente,
voltou para junto dos outros, que começavam a formar um círculo ao redor
do caixão com Sarah sobre ele. Felipe havia me contado mais do que eu
gostaria de saber.
Um
dos encapuzados abriu um livro velho e pesado, e começou a ler em voz
alta, numa língua estranha. As chamas das velas pareciam faiscar e
oscilar, mesmo sem nenhum vento.
Comecei
a me remexer na cadeira, procurando qualquer folga nas amarras. Estava
realmente apertado. Se houvesse algum momento de fazer alguma coisa, seria
esse. Minhas mãos estavam atadas aos braços da cadeira com várias
voltas de corda e eles com certeza haviam tirado tudo que estava comigo;
arma, celular, carteira, distintivo...
Outro
encapuzado saíra do círculo e se aproximava de Sarah com uma adaga à
frente do corpo, voltada para baixo. A lâmina brilhava refletindo as
luzes das velas. O primeiro continuava recitando o ritual do livro. As
chamas das velas estavam dançando loucamente agora.
Estava
suando também nas mãos, o que as deixou escorregadias. Com muito esforço,
consegui deslizar a mão esquerda para fora das cordas. Ainda não tinha
muita autonomia com a mão livre, mas pude tocar minha perna na altura do
bolso da calça. Havia alguma coisa ali. Eles haviam esquecido de retirar
alguma coisa do meu bolso.
Parte
II
Já
lhes disse que sou religioso? Não? Pois é. Não sou. Mas minha mãezinha
é... Desde que eu era menino ela tinha a mania de costurar um pequeno
crucifixo por dentro do forro das minhas roupas, uma simpatia esquisita
que aprendeu com a minha bisavó, uma velhota assustadora de verruga na
testa e sotaque eslavo. Foi esse crucifixo que eu apalpei naquele momento,
pensando se aquilo não era mais uma ironia do destino do que propriamente
um sinal de sorte. Mas não tive muito tempo para pensar.
–
Grande Mestre da Maldição! Senhor da Eternidade! - berrava o tal de
Felipe. – Receba agora o 13, o número da Morte e da Transformação...
São teus apóstolos que te saúdam!
Nunca
me esquecerei dos olhos da garota. Passarão anos, décadas. Eu passarei
como carne, e depois ossos e pó. Mas os olhos de Sarah jamais sairão da
minha mente. Eu já vira cadáveres, mas nunca havia presenciado a morte
de alguém. A garota berrou e gritou sob a mordaça, até mastigar todo o
tecido que haviam enfiado na boca dela. Fixou os seus olhos desesperados
sobre mim numa súplica tão comovente que amaldiçoei cada um daqueles
filhos da mãe enlouquecidos do fundo da minha alma. Enquanto a faca
penetrava na carne sob as roupas negras da garota, eu me perguntava...
Sim, eu me perguntava como alguém podia fazer aquilo. Pois aqueles fanáticos
estavam retirado o coração da garota ainda viva!
Depois
de longos minutos de agonia, Sarah estava morta. Ouvi o som do seu corpo
sendo jogado ao chão. Abri os olhos, que havia cerrado sem perceber no
momento final de sua agonia, e vi o corpo da jovem retalhado,
grosseiramente desprovido de uma parte de seu tórax. Felipe erguia,
triunfante, o coração da ex-namorada nas mãos. Era o décimo-terceiro
coração que tanto queriam. Ao seu sinal, os demais encapuçados
levantaram a tampa do caixão, e o fanático seguidor da Legião do Sangue
Imortal depositou com delicadeza o órgão recém-conquistado na esquife,
que foi fechada
em seguida. Imediatamente
, os demais elevaram as suas vozes num coro, que recitava em uníssono uma
espécie de reza, ininteligível para mim.
De
repente, de dentro do caixão, um som começou a se fazer ouvir. Alguém
raspava a tampa com unhas ou algo parecido. Os seguidores da seita
aproximaram-se, não escondendo a curiosidade e a impaciência. Então,
com um estrondo, a tampa do caixão foi jogada para longe.
–
Meu Deus!
Eu
não era religioso. Nem um pouco. Mas a visão daquilo me fez gritar pelo
auxílio divino. Puro reflexo de infância, das mulheres da casa
murmurando preces, dos santos de gesso pendurados nas paredes da lojinha
de meu pai. Se não fosse por isso, talvez tivesse pedido o auxílio do próprio
Inferno, pois estava apavorado demais para perder tempo escolhendo a quem
recorrer. Eu não tirava os olhos da criatura no caixão. Primeiro as
garras surgiram pelas beiradas da esquife. Depois, o resto do corpo
assomou como uma visão infernal. Uma forma semelhante a uma mulher,
constituída de uma matéria pegajosa e liquefeita, totalmente vermelha.
Uma criatura feita de sangue... Uma besta que nascia na mesma data que o
Filho de Deus.
--
Uma... mulher? – ouvi Felipe
murmurar.
A
criatura voltou-se para ele, que chamara com a sua voz a atenção para
si. Seus olhos sem pálpebras fixaram-se no encapuçado. Depois, uma fenda
correu pelo rosto sem forma esculpida em sangue, abrindo-se em algo
semelhante a uma boca. Aterrorizado, eu vi uma espécie de riso formar-se
naquele orifício. Palavras surgiram na minha mente. Palavras, que eu
sabia, todos aqueles seguidores fanáticos da Legião também estavam
ouvindo.
"Treze
corações sacrificados pela Deusa. Treze vidas para impelir o feto feito
de sangue à vida."
Olhei
para os encapuçados. Os rostos dos monges demoníacos pareciam
em transe. Murmuravam
baixinho frases de adoração à besta que trouxeram do Inferno. Mais
palavras surgiam na minha mente, como se uma voz rouca e profunda
sussurrasse no meu ouvido.
"O
feto feito recém-nascido precisa de alimento. Treze fontes do alimento
rubro para saciar a fome da Deusa. Treze servos para oferecerem seu sangue
à Escolhida."
Acho
que as escrituras que esses sujeitos estúpidos consultaram nada diziam
sobre essa parte do ritual. Do contrário, não teriam corrido para todas
as direções, do jeito que correram quando a besta segurou Felipe com as
garras e arrancou a sua cabeça. O
sangue espirrou como um chafariz. Nunca pensei que saísse com tanta força
de um corpo. O monstro banhou-se nesse chuveiro vermelho soltando um
guincho de satisfação. O líquido escorria sobre o seu corpo e penetrava
nos seus poros, até que em segundos todo o sangue derramado desaparecera,
incorporado no corpo bizarro da criatura.
Eu
havia me sacudido tanto, ainda preso na minha cadeira, que havia tombado
de lado. A minha mão esquerda estava machucada pelas cordas, mas quase
livre. Lá, do chão, pude ver os encapuçados amontoados sobre a porta,
com certeza tentando abrí-la. Que idiotas... Trancaram as saídas para
que suas vítimas não pudessem escapar. Agora, essas mesmas trancas os
impediam de fugir. Vi de relance Fred, manuseando de forma desajeitada um
molho de chaves. Logo alguém arrancou as chaves de suas mãos e tentou
achar, por sua vez, a chave certa. Ao mesmo tempo, outros tentavam puxar o
molho, cada qual convicto de que poderia encontrar mais rápido a chave
para destrancar a porta, mas só conseguindo atrapalhar os esforços uns
dos outros. Todos estavam fora de si, histéricos com a aproximação
dela... Sim, ela, a besta, estava, passo a passo, encaminhando-se para
eles.
"Seres
inferiores, sirvam a sua Deusa!"
A
voz ordenara. De repente, vi a criatura voar sobre o primeiro dos encapuçados.
O seu capuz caiu sobre os seus ombros, libertando mechas de cabelos
loiros. Percebi que era uma mulher. Fiquei atônito ao constatar que a
conhecia. Kelly!!! A policial que sempre me trazia bolinhos de canela após
o almoço... Por Deus, eu gostava bastante da filha-da-mãe... Ela
atendera a ligação de Sarah à delegacia. Fora ela, então, quem armara
tudo e contara aos fanáticos sobre a traição da ex-namorada de Felipe.
Mas nem tive tempo de sentir raiva. Em instantes, a cabeça de Kelly
voava. E o seu sangue juntava-se à massa disforme que formava o corpo da
besta.
E
assim foi. Um a um, homens, mulheres, velhos e adolescentes, foram
decapitados pela criatura. O último foi Fred, que se escondera atrás de
mim, tremendo e se cagando inteiro de pavor. Quando a besta se aproximou,
tentou me empurrar ao encontro dela, esperando que ela me matasse, ao invés
dele. Grande idiota. Até eu sabia que não havia salvação para os treze
acólitos da seita. O tal ritual tinha que ser cumprido até o fim. A
imortalidade que tanto buscavam era essa, afinal. Viver para sempre dentro
do corpo da besta. Não é o que acontece o tempo todo? A toda hora
consumimos outras criaturas para o nosso próprio sustento. E as matérias
de que são feitas perpetuam-se em nós e depois em outras criaturas, em
outras, outras... Somos todos imortais, ao final. A alma? Bem, a alma já
é outra história, pois a minha, perdi naquele dia, num dia 24 de
dezembro qualquer.
Depois
de acabar com Fred, o último dos fanáticos da seita, a besta finalmente
me notou. Lembram-se do crucifixo costurado no meu bolso? Consegui arrancá-la
com a minha mão esquerda, finalmente livre. Quando ela se aproximou, a
bocarra aberta e as garras prontas para me picar em pedacinhos, eu
mostrei-lhe a pequena peça de metal barato, comprada de algum fabricante
ateu de quinquilharias por meu pai. Havia milhares dessas coisinhas na
loja da família, ao lado da catedral. Então ela parou. Começou a
resfolegar e a se contorcer até cair no chão. O meu medo foi tão forte
nessa hora que consegui me livrar das cordas, arrebentando algumas, já
frouxas, e saí aos trancos e barrancos em direção da porta. Mas, como
os outros, me vi impedido de sair pelas malditas trancas. Enquanto eu
tentava arrombar a porta com os meus ombros, senti alguém atrás de mim.
Eu estava aterrorizado e mal conseguia segurar-me sobre os joelhos.
Tremendo que nem vara verde, resolvi finalmente me virar. E vi, na minha
frente, a besta.
O
meu queixo caiu. Era uma menininha de uns seis anos, cujas feições
assemelhavam-se demais com a garota gótica sacrificada. Seus olhos
estavam cheios de lágrimas que, ao me ver, irromperam num choro
convulsivo. O corpo pequeno tremia, coberto de sangue. Os cabelos negros
estavam empapados pelo líquido rubro. Ali, abandonada, chorando que nem
um bichinho perdido, a besta já não parecia uma fera assassina. Eu não
sou nenhum santo, mas não consegui deixar pra lá, entendem? Vamos lá,
qualquer um teria feito o mesmo... Tirei a camisa que usava e a coloquei
sobre os seus ombros. Então ela se atirou sobre mim e me abraçou tão
forte que, por um momento, achei que tentava me enforcar.
Não
pude abandoná-la. Ela era muda, ou simplesmente não queria falar, pois
nunca ouvi o som de sua voz. Era em tudo igual a uma menina comum, a não
ser por uma coisa, que percebi logo após dar-lhe um banho e cobrí-la com
uma camiseta que encontrei entre as coisas dos fanáticos na casa. Eu
estava absorto, mergulhado em meus pensamentos, enquanto a ajudava a
colocar a camiseta enorme. Então ela tomou o meu rosto nas mãos e
olhou-me nos olhos. Senti um arrepio, mas não tive medo. Eu sabia de
alguma forma que ela não queria me fazer mal. Foi só uma fisgadinha no
pescoço, podem acreditar. Ela sugou o meu sangue naquele dia de Natal. E
tem sugado todos os dias desde então. Eu deixo, sim, eu permito... Eu
sei, bem dentro do meu coração, que eu estou fazendo algum tipo de bem
para a Humanidade.
É
isso que eu penso quando a vejo agora, sentadinha ao meu lado na minha
barraca de santinhos em frente à catedral. Tão bonita e delicada... Quem
diria que é uma criatura monstruosa por dentro? O meu trabalho como
investigador? Eu pedi demissão logo depois daquele Natal. Tinha coisas
mais importantes a fazer...
Eu
cuido dela e a observo dia e noite. Uma vampira? Não, senhor. Ela anda de
dia, não voa ou coisa parecida. Mas bebe meu sangue. E, se não o fizer,
bebe de outras pessoas. Eu desconfio que algo em meu sangue, ou talvez em
mim... quem sabe, talvez na minha roupa cheia de crucifixos, a deixa
assim, humana. Mantém a sua natureza de besta sob controle.
Tantas
histórias por aí dão conta de Anti-Cristos, de demônios e de maldições.
Eu gostaria de entender mais a respeito para explicar a mim mesmo o que
aconteceu. Mas não posso... Tenho que vigiá-la. E amá-la com todas as
minhas forças. Quem sabe, dessa forma consigo mantê-la assim. Tão
linda!
Volto
a mim com uma mulher de meia-idade perguntando o preço de um crucifixo.
Falo o preço e ela se vai, sem comprar. Minha Sarah dá um leve esgar
hostil em direção da mulher que se afasta. Eu afago a cabeça da minha
garota e acalmo a sua fúria... Ela está salva mais uma vez.
Já
é quase noite. Olho para as torres da catedral, recortadas sob um céu
avermelhado, quase sanguíneo. Sarah brinca com o crucifixo costurado sob
o forro do seu vestido. E eu, cansado, espero a noite chegar...
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