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Rio,
28 de abril de 2007
A
Máscara da Vida e da Morte
Jean
Canesqui
Roteirista de quadrinhos e audiovisual e editor da revista Kaos!
http://www.revistakaos.com.br
jeancanesqui@yahoo.com.br
Eliana acordou cedinho. Uma hora antes. Oh, ansiedade! Afinal,
não é especial o dia de morrer?
Limpou a casa e se sentiu orgulhosa de suas habilidades domésticas. A
auto-admiração se estendeu para as fotos dos porta-retratos mapeando sua
ultima existência pela sala. Os
filhos terminaram faculdades de status, estavam engatados num futuro
promissor e ambos se preparavam para casar com boas moças de famílias católicas
do mesmo calibre social da sua. Segurou o retrato do marido, que estava no
sul na gerência da transportadora, e suspirou aquela saudade de sexo de
mulher ociosa e sozinha. Ele voltaria para casa em uma semana. Pena. Não
estaria mais lá.
Foi uma boa vida, mas chegou a época de abraçar a noite. Só um pouco, na
verdade.
Despiu-se na frente do espelho e se admirou da própria musculatura - raríssima
numa dona de casa com mais de 50 anos, difícil em se esquivar de admitir.
Nunca esqueceu a areté. O corpo e a alma, suas armas, sempre prontos
para a peleja contra o destino. Ultimamente, adicionou técnicas mais
orientais em seu repertório de guerra e não guerra, mas tudo se resumia no
equilíbrio do corpo como espírito a habitá-lo de um modo muito além da
imaginação dos periódicos femininos
Teve de desenvolver saídas para
se exercitar e praticar o manejo do bastão e da corrente
e ler escritos estrangeiros sem chamar atenção dos parentes, e em
especial do marido. Os filhos cresceram ao lado de suas manias e nunca
questionaram, até aderiram aos hábitos físicos e os dois são belos rapagões
de muita força. Com o marido, pensou, seria complicado. Arnaldo é um homem
nascido nos anos trintas e educado para a engenharia mais masculina e
positiva. Jamais, realmente, estabeleceria uma investigação profunda do
espírito de sua conjugue. O momento de maior intimidade com a esposa estava
restrito a simples penetração do regaço entre suas pernas.
Eliana se chocou, apesar do conhecimento intestinal dos homens e mulheres
quando um está diante do outro. Indiferença desconfortável, porém útil,
soube bem se usar dela.
Desceu nua a escada para o porão. Uma das suas exigências quando vieram
para cidade era comprar uma casa com porão. Não um porão de teto baixo,
sem luz, apenas para acumular tranqueira,
mas um cômodo no subsolo
suficientemente amplo e largo para se fazer uma adega. O marido atendeu o
capricho conformado. Acreditava ser a função das esposas interferir nas
preocupações sérias dos maridos ocupados com caprichos tolos.
Sendo a única pessoa de
interesse no subsolo, ninguém estranhou quando Eliana fez o chaveiro para
colocar as três fechaduras na porta de acesso, a qual manteve fechada sem
questionamentos pois os homens da casa só se interessavam pelas coisas da
superfície.
Ela girou chave por chave com a calma típica e adentrou no calabouço
particular.
O prisioneiro dormia o sono dos narcóticos amarrado na cadeira. Nu, seu
corpo jovem de 26 anos era bem talhado, mais por motivos estéticos do que
militares, mal dessa geração, lamentava. Porém, era
melhor que no começo dessa vida de Eliana.
Não se deve repetir os
erros. O corpo flácido da mulher, acostumado a rotina sem penalidades desse
fim de século, mostrou-se relutante em se adequar à nova disciplina.
Demorou dois anos para se sustentar de cabeça para baixo sobre base do
indicador. Isso levava sempre menos de 0ito meses.
Agora, mesmo em toda perfeição de sua carne, questionava sua
capacidade de estrangular e montar no tempo seguro...
Não mais. Dessa vez faria um esforço especial para não perder as coisas
úteis .
Era uma característica da morte manter a alma e perder o corpo. Preço não
muito caro se souber como se planejar.
E a peça do seu plano de
vida dormitava sem sonhos a sua frente.
***
Bairro tranqüilo. Área verde. Cidade Jardim. Casinhas sem muro, carros do
ano, paraísos de filme
americano. Sem pretos para lhe assaltar na rua, só nas guaritas para lhe
proteger. O cooper era tão importante quanto fazer sexo. Correr de manhã,
academia a noite. Diogo conseguiu que seu pai liberasse da empresa depois
das 16. Não sabe porque não o veio ranha tanto. Não fez a facul? Não era
administrador? O diploma não jazia triunfante sobre a lareira sempre
inativa nessa merda de país tropical? O papo de levar adiante o negócio
estava resolvido. Corrida ganha! Só
não ia virar velho barrigudo que nem ele. Só correr
e colher os frutos...
_ Oi! Tudo bem!?
Diogo tentava ser como se deve ser, indiferente aqueles que não lhe convém
interesse. Ele sempre passava frente à casa e a tiazinha estava lá.
Primeiro, só olhava. Todo dia no mesmo horário. O tesão da coroa não
secou e o maridão não devia dar conta. Até era enxuta, mas ele merecia
coisa melhor. Mulher mais velha é uma droga. Trepa demais, porémpensa na
mesma medida.
Depois ela passou a
cumprimentá-lo. Diogo ignorava, a mulher, no entanto, não lhe deu
descanso. Toda manhã estava lá para lhe dizer oi. Não era tesão, era
doideira de velha mesmo. Ai não tem pinto que resolva.
O rapaz incomodado poderia ter desviado o caminho, entretanto, não
conseguia muito se fixar em pessoas irrelevantes. Esquecia a mulher quando
chegava em casa, cumpria o ritual da marcha diária na outra manhã e só se
lembrava da criatura quando se deparava
com a saudação, a qual respondia com desdém.
Um dia, porém, fez-se o inverno paulistano. Poluição. O celestial
cobertor de chumbo. Faixa cinza sobre a cidade. Ar seco. Calor. Diogo, na
sua política de só se importar com coisas legais, ignorou o clima e foi
correr. Cansou-se mais rápido. O bairro era residencial, não havia bares e
nem ambulantes onde pudesse comprar uma água. E mesmo sendo lugar mais
fresco devido à vegetação privilegiada, o pecado da civilização
industrial pesou sobre seus joelhos.
Estava morto quando passou frente a casa da
tia doida, quem sem deixar transparecer suspeitas se fez
providencial.
_ Moço! Moço! O senhor tá
bem? O Senhor quer água?
Ia fazer que não era com
ele, mas a sede universal superou a educação familiar. Acenou que sim. E
ela prontamente trouxe um copo de água cristalina. Desconfiado, o rapaz
perguntou:
_ É mineral?
_ É e é Francesa, viu?
Ele bebeu num gole só. Estranhou.
Seria a água mineral na França amarga, com certo gosto de remédio?
Provavelmente era de filtro de barro sujo e a velha tirou da cara dele.
Sorte não estar envenenada. Vai saber. Agradeceu, devolveu o copo e,
recuperado, reiniciou a corrida.
O cansaço voltou. Na forma da vertigem. A tonteira abalou o ritmo e a própria
capacidade de ficar
em pé. Apoiou-se
num poste. O mundo ia para frente e para trás. Dejavu
de chapação. Lata de benzina e baseado kingsize no centro acadêmico. Boca
mole. Sono assaltante. O mundo ficou leitoso. Cegueira de magnésio.
Procurou ajuda. Sem controle. Rua deserta. Sem segurança. Nenhuma guarita.
Sem resposta. Voltou-se.
Pelo caminho que viera, lá
estava a tiazinha.
Tentou pedir ajuda, mas a propriedade da fala não mais
lhe pertencia. Gesticulando nervoso era um macaco prego imitando a
humanidade. A mulher só olhava. Parada. Cinematográfica. Vegetal vampiro
de almas.
Os olhos não tinham mais aquela doce idiotia. Só a terrível decisão.
Que explodiu rumo a Diogo,
feito um impiedoso grego nu, de elmo e espada, deslocado de qualquer
sentido, tempo e motivo, investindo
uma formidável porrada, cujo belo pugilato escorraçou a luz do dia das órbitas
do almofadinha.
***
A dor é característica tanto dos primeiros momentos da morte como da vida.
Eliana sabia bem disso. Comprovou em cada parto que teve como mulher, em
cada perda que teve como ser amante e em cada falecimento e nascimento que
passou como sobrevivente. Recuperou
a indesejável nostalgia de toda uma corrente de vidas encadeadas pelo
sofrimento.
A agulha perfurava a nova pele, ainda quente, e encontrava a sua, a qual
penetrava também a ponta de aço, unindo as duas dermes, estranhas entre
si, pelo fio de ponto cirúrgico. Repetia
o movimento até dar trilha a costura da nova vida sobre a velha.
Enquanto isso, Diogo acordou sem sentir nada demais. Tudo embaçado. Gelo
seco de sonho emoldurando o mundo. Não se movia. A anestesia lhe tirava a
sensação das cordas que o prendiam totalmente despido na sólida cadeira
de madeira de lei.
Olhando para um espelho, de costas para ele, mexendo no rosto como se
maquiasse, que vez ou outra
gemia e mexia os pés ansiosos, estava a mulher nua, com seus músculos e
circunferências a mostra.
Que bundão!
Pensou economicamente.
Tentou se mexer. Não dava. Tentou falar.
Sentia falta de alguma coisa.
Abriu a boca e nada saiu. Tocou seus dentes com língua, mas o toque foi tênue
como se não existisse, o fantasma de sua língua quase não sentiu os
fantasmas de seus lábios ao passar por esses.
O rosto formigava sob o mais forte efeito anestésico já sentido, tão
forte que não tornou a parte dormente um acessório pesado e
morto, como as anestesias dos dentistas. O rosto era leve. Quase
ausente... Como o cheiro de bife que vinha de um fogareiro próximo.
Eliana viu pelo espelho o movimento das mãos de Diogo. Antes, virar-se-ia
sem hesitar, mas dessa vez não. Dessa vez ela era dama bem educada, dessa
vez ela sofria de um misto de
consideração e de covardia pelos seus atos. Sentiu-se roubando perfumes ou
roupas numa loja sob a punga febril das celebridades enfermas de decadência.
Quase estranhou a falta dos flashes dos tablóides.
E para piorar, estava nua. Acostumara-se ficar nua apenas para Arnaldo nas
ultimas décadas.Vexou-se recatada, por mais estúpido que isso lhe
parecesse depois. Cobriu a bunda com
a mão e a virilha com a outra. Virou-se e escondendo os seios. Malditas
sejam as normas de despojo para nascer e morrer.
Houve uma expectativa excitante ao perceber-la se virar. Quase suficiente
para uma ereção. Os olhos buscaram logrados os seios e o triangulo de
pentelhos cobertos pelas mãos e braços. O barulho de fritura atraiu a
mulher e ela foi para o fogareiro ver o que ali fritava.
Na sua tara, o preso não viu o rosto carcereiro, mas sabia haver algo
excepcional além do corpo formoso. Até o momento não se percebera da
situação esdrúxula, apenas estava lá, aquém da revolta ou da frustração,
levava e era levado, indo como um galho pela correnteza do rio.
Sem poder se mexer, viu ela desligar o fogo, jogar o conteúdo da frigideira
num prato e o besuntar com molhos e condimentos.
Eliana voltou e depositou o prato numa mesinha de alumínio junto a
Diogo, até então ignorada. Ele
forçou a vista até identificar a carne vermelha mal passada... E, próximos
ao petisco, ali largados, cruzados um sobre o outro, dois bisturis
sangrentos.
Mesmo podendo encara-la não se atrevia a faze-lo. Não sabia o motivo.
Incapaz de falar, apenas fixara naquele grande naco carnoso irreconhecível.
Perguntou a si numa fome momentânea se era para ele a iguaria (muito
atraente por sinal).
Eliana também procurava o chão. Também era incapaz de encarar a antiface
de Diogo. Com os outros, havia mais coragem, mas ela, essa vez, era muito
delicada. Quase pediu desculpas... bobagem... Não. Foi bom ser delicada por
25 anos, entretanto, é necessário resgatar a ausência da empatia, tão
necessária a sobrevivência do espírito.
Os dois irmanavam no frio estomacal. Eliana ergueu a face e encarou sua vítima.
E Diogo a viu e lhe achou mascarada de espelho, pois portava numa costura rústica
das coisas de couro artesanais seu rosto sobre o dela.
Pasmo.
Uma ultima esperança brotou: era uma mascara sintética que o imitava?
Quem dera ser o abençoado látex... Seja esse um episódio do
Scooby-doo, pelo amor de Deus!
Droga. É. Tratava-se de seu rosto mesmo.
Seccionado de sua cabeça
e costurado nas margens da face daquela vaca desconhecida... Não!
Enfim, reconheceu. A tiazinha doida do copo d´água!
Tentou gritar. Não deu. Também não pode levantar. Estava preso para
sempre naquela cadeira.
Eliana puxou outra cadeira do mesmo conjunto da de Diogo, sentou-se frente a
mesinha, pegou os dois bisturis, as ferramentas da secção, espetou, cortou
e comeu a língua do rapaz.
Mastigou com cuidado para garantir a boa digestão e a posse definitiva de
sua voz.
***
A cabeça de Diogo pendeu para lado, retida somente por seu pescoço e o
pouco que lhe sobrou de vitalidade. A
maior parte dela tinha escorrido na sangria. Ele acompanhou cada gota.
A anestesia não permitiu o fim pelo choque, fazendo dar voltas na
inconsciência.
No chão, jazia Eliana contorcida. Os fios negros dos pontos faciais já
haviam caído e a circunferência torta da mascara de Diogo já desaparecia.
As unhas bem tratadas da dona de casa despencavam sozinhas. Fratura e
restauro. O som dos ossos a estalar na adequação rápida da ossada não
dava tempo a endorfina para amparar o sofrimento. A ela não era permitido
nenhum balsamo químico, natural ou não. Toda agonia
devia ser sentida nas longas
horas que passavam.
A pele precisava ser
arrancada. Não se tinha aquela facilidade das cobras, de se enroscarem nas
pedras e paus, e com o couro preso, simplesmente rastejavam para fora dela.
Os velhos pés e mãos geralmente
saiam como meias e luvas. Os braços e pernas devem ser rasgados até
se acabarem. O tronco e o quadril representavam um problema à parte. Os
seios, sem substitutos, pendem no movimento das frutas maduras, no entanto,
precisam também de ajuda para serem retirados. Adorava quando seus filhos
lhe tiravam as pelinhas de sol, nas descidas a praia das férias. Seria bom
se eles estivessem lá para ajudar com os últimos pedaços das costas, mas
a solidão é a recompensa final para todas as mães.
O couro cabeludo saiu com
facilidade, como a peruca após um show de transformista. O cabelo preto de
Diogo não tinha nenhum fio branco. Um alívio, o ultimo suspiro de sua
terminal vaidade feminina... O novo sexo emergiu de dentro do velho
sensível e dolorido, como todas às vezes quando o novo corpo era de gênero
oposto ao antigo. Qualquer toque no pênis doía e ardia. Precisava de
cuidado para abrir os lábios vaginais, já escuros pelo apodrecimento.
Estava quase completo. Faltavam as memórias.
Havia uma coisa que achou graça quando seus filhos trouxeram para casa o
primeiro computador. Sem contar a ninguém, ela aprendeu antes de todos os
mistérios da informática doméstica e, viu uma coincidência entre a máquina
e ela, criatura única. O aparelho dividia a informação em arquivos dentro
de subdiretórios, dentro diretórios. Cada pasta, um dado diferente. Assim
também era ela. Cada vida vivida, cada memória de cada individuo
que foi, era separado em
recintos específicos no interior de seu cérebro milenar, cuja experiência
poderia acessar quando achasse preciso. Claro que os últimos 50 anos tornou
muito de sua experiência obsoleta diante da novidade de cada dia, mas ainda
estavam lá as andanças sobre quatro quintos desse planeta.
Todavia, tudo que Diogo viveu, sentiu, pensou explodia na cachola. Desde do
útero, anterior ao primeiro nascimento até
a sua primeira morte naquele exato momento.
As lembranças vinham numa tormenta, talvez mais dolorosa que
a costura e a conversão corporal. A bagunça se instalou. O que veio
antes? O que veio depois? Não era possível ler. Era preciso organizar uma
linha cronológica, por mais mentirosa que seja tal construção, pois ela
encontrou-se consigo mesmo, (isso é fato, ela sabe bem!) em um bar
em Buenos Ares
, de trás dos lados simétricos de uma mesa usada às vezes para afazeres
espíritas, ela 30 anos antes com ela 30 anos depois, mesmo corpo vivo e
boquiaberto, isso sempre acontece com aqueles que vivem demais, mas não era
importante, naquele instante era preciso organizar uma linha cronológica
dos eventos de Diogo que começaram com a escuridão da ignorância uterina,
seguida da luz miserável que lhe apresentou os gêmeos da dor e do
desejo...
E onde Eliana morreu, ergueu-se
Diogo.
Pisando nos restos da dona de casa, ele olhou para si mesmo. Amarrado na
cadeira, sem rosto e língua, homem crânio, nu e ilhado pelo próprio
sangue. Normalmente, depois do processo, um mal estar toma conta diante do
novo homem perante o velho homem. Náusea compreensível. Porém, após mais
de mil mortes, mais de mil nascimentos, algo inédito.
Diogo foi até Diogo. A mão segurou a cabeça pêndula pelo maxilar. O vivo
encarou o morto. Os olhos animados
sondavam a própria vida breve
nas órbitas sem sentido do defunto. A decepção o dominou.
Nunca em todas as vidas que foi, inumeráveis, além da sua conta pessoal,
pois não registrara nenhuma contagem dos corpos e das mentes que usou,
encontrou uma existência tão desperdiçada e tão sem propósito a não
ser sorver a fugacidade de prazeres instantâneos.
Ele não procurava comparações entre as cabeças da multidão que
carregava dentro de si, mas é inevitável esse hábito ao colecionador. Não
havia nada mais estúpido do que esses vinte seis anos de Diogo morto.
Matronas queriam procriar. Soldados queriam estupro e glória. Arquitetos,
amantes e sacerdotes chegar aos céus e sentar entre os deuses! Diogo queria
nada, a não ser satisfação do
segundo posterior. Seu credo era a gula.
O culto de um peixe de aquário.
O vivo era grato a mulher morta
por ter morrido em sua casa e nascido de novo dentro dela para outra chance.
Bem aventurados são o ressuscitados cientes de toda merda que fizeram!
Diogo abandonou a cabeça. Ela balançou negando inutilmente o desperdiço
cretino. Limpou e guardou os bisturis em sua maleta preta de médico,
exerceu essa profissão em algum ano do final dos oitocentos, em algum lugar
do noroeste dos EUA, e retirou com
cuidado o velho frasquinho da secreta
e exclusiva variação de fogo grego, adquirida em Trípoli, de um primo da
época, que se meteu com a Seita dos Assassinos.
O líquido negro cai em gotas na boca escancarada. Elas se aglutinaram em
uma esfera brilhosa, uma perola negra de ondulações de coisa viva,
erguendo um apêndice de prontidão. Ao ser ordenado o animalzinho líquido
rasteja pela garganta para as entranhas do falecido.
Diogo guardou o líquido arcano e vestiu as suas roupas de malhação,
cuidadosamente preservadas, e pôs luvas descartáveis para fechar a porta
sem deixar impressões digitais na maçaneta. Já é o outro dia. Ao invés
de correr como todas manhãs, o
jovem, segurando a mala escura, calmamente seguiu contra seu destino improvável.
Ele nunca voltará e nem serão encontrados rastros.
Mais tarde, no crepúsculo,
o cadáver encantado se inflamará e explodirá em labaredas famintas. A
casa de Eliana dará lugar a um pequeno Sol, cuja chama fará o bairro burguês
alvo das manchetes vulgares dos jornais da TV, para o desgosto de seus
moradores de alto nível.
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