Rio, 04 de março de 2006

M. R. O

© João Manuel Santos Silva – 1995, 1998, 2005

 

5 horas e 11 minutos.

Uma rapariga de dezoito anos dormia profundamente no seu leito macio e perfumado. O seu cabelo incrivelmente liso e brilhante cobria a almofada de penas e parte do lençol de seda, estendendo-se assim num magnífico manto dourado. As suas pálpebras uniam-se com uma delicadeza angelical e as longas e recurvadas pestanas entrelaçavam-se ternamente, ocultando uns esplendorosos olhos castanho-escuro tal como uma concha encerra o seu par de pérolas.

De súbito, e de um modo assombroso, teve um arrítmico batimento cardíaco, como um pulsar. O movimento rápido dos seus olhos sob as pálpebras intensificou-se - despertou algo no seu mais recôndito âmago. Foi então que a sua tez rosada começou a desbotar como uma folha caduca que estala à mercê de um sol infernal. Ficou pálida e pálida, como a lua; que brilhava no seu expoente máximo. Então, após um discreto espasmo do seu longo e esbelto corpo, os seus olhos começaram a rolar num delírio febril, parecendo querer saltar das órbitas. As finas pálpebras escureciam agora pigmento por pigmento, até que, de tanto forçadas pelos olhos, se abriram e desvendaram um olhar apático e melancólico, mais característico de um cadáver.

Sentou-se à berma da cama. Os seus pés delicados tocaram timidamente no soalho de mármore fria que, num arrepio doentio, lhe drenou a energia vital do organismo. E, com o calor, pareceu desvanecer também o fogo -- a libertina chama que outrora a iluminara e fortalecera, abandonava-a agora num acto rebelde e frio. Foi triste ver os seus músculos ficarem hirtos como raízes nodosas e a sua pele flácida e seca, onde se abriam brechas tornando possível entrever os rios de lava do Inferno. Ergueu-se num gesto mecânico e, com isso, o sangue pareceu escorrer-lhe como uma vaga ácida pelo corpo abaixo e esvair-se noutra dimensão. O olhar morto, os braços caídos, a curva que o seu espinhaço começava a descrever como uma acha de vime que verga rija e secamente... tudo nela causava dó. A pele esverdeada, sobre a qual se formavam pequenas escamas, tinha-se colado aos ossos, deixando vislumbrar o seu esqueleto corcunda, através do semitransparente tecido da camisa de dormir.

A noite estava gelada e escura, muito escura, mas seca. O silêncio absoluto pairava morbidamente sobre aquela zona da cidade -- um bairro residencial de luxo -- como que uma testemunha desumana. De uma vivenda contornada nas trevas e rasgada pelos galhos nus de uma gigantesca árvore, que pareciam cingi-la como que a mão de um velho, saiu a rapariga seminua -- dir-se-ia ser uma recém sobrevivente do Holocausto. Descreveu três passos... Mas oh!, até uma criança com dois anos o faria com mais segurança. Ela continuou como um nómada no deserto, a quem o hálito da morte chicoteia com vergastadas de areia. Transpôs o portão da vivenda onde habitava, que, ao abrir, lhe serviu de apoio para o contornar. Hesitante e trémula, continuou a sua peregrinação. Arrastou-se imundamente por duas centenas de metros, cabisbaixa, calcando as faixas brancas pintadas no meio da estrada, onde parecia estar gravadas as suas últimas palavras.

Caiu.

Assim, estendida no alcatrão, mais parecia uma vítima de peste abandonada com nojo, prestes a ser arrojada até à vala comum. Entre a gengiva e um dente podre começou a surgir um fiozinho de sangue que depressa veio sujar a estrada. Os joelhos e os calcanhares da rapariga estavam manchados por uma nódoa roxa, cravados de pedrinhas. Das mãos, uma recordação ficava no piso -- a pele esfolada das suas palmas. Agora a rapariga deslocava-se como um quadrúpede. Com as quatro patas no chão caminhava repleta de sofrimento, mas, facto bizarro, julgar-se-ia a cumprir com a sua obrigação e, talvez por isso, não esmorecia. Era como o carregar da sua cruz ao calvário. À medida que debilmente gatinhava as suas mãos iam pisando os seus fracos cabelos hirsutos, que arrancava aquando o avanço do tronco.

Chegou, por fim, a um grande largo, onde diversas correntes de ar frio se pareciam defrontar. Para trás um longo e penoso trilho de manchas de sangue seco e cabelos em decomposição, de que o vento fazia novelos; à sua frente uma grande propriedade cercada por uma vedação. Arrastou-se humildemente até ao muro. Dentro da propriedade estavam construídos dois edifícios distintos: um, o mais alto, tinha quatro pisos e de todos eles emanava uma luz amarela e poderosa através das janelas; do outro, uma espécie de pavilhão de betão armado, que parecia ser a mais sólida edificação do Mundo, nem um feixe de luz escapava através das grades que bloqueavam as poucas aberturas que o arejavam. A rapariga, cá fora, agarrada às grades da vedação, moribunda, olhava o pavilhão fixamente enquanto que uns últimos cabelos lhe eram pilhados pelo vento. Entretanto, por detrás do edifício mais alto, saiu um vulto brilhante e veloz como um relâmpago, que se foi esconder por detrás de uns arbustos, a cerca de dez metros do edifício. E foi por trás deles que se movimentou camuflada com a agilidade de um verme que se desloca sob a areia, enquanto que a outra rapariga começava a longa escalada da grade; encimada por longos e afiados bicos. Trepava com a fragilidade duma aranha que tenta escapar na sua teia ao sopro de um humano impiedoso. Por esta altura, o vulto, que momentos antes estivera coberto pela vegetação, rastejava agora avidamente e a descoberto até à grade, que separava a deambulação mental da realidade por que sofregamente ansiava.

Subiu-a.

Ocorreu então (como é importunante crer) uma situação insólita, mais invulgar que o romper do céu por um cometa, mais rara até que chover e fazer sol simultaneamente, mais extraordinária que a própria Natureza. Estavam duas aparições de branco no cimo de uma grade cinzenta, na tentativa de a transpor… só que em sentidos opostos. Foi então que ambas se avistaram, a alguns metros de distância, sobre aquela gigante mandíbula de crocodilo. Não... Não podia ser real... Se existisse um espelho duplo que reflectisse a imagem com uns minutos de atraso no tempo, ele teria obrigatoriamente que estar colocado perpendicularmente à vedação e entre os dois corpos. Foi com o horror desta visão atroz e alucinante que as duas tombaram, uma para cada lado: a que caiu para fora da propriedade aterrou com a perfeição de um gato, enquanto que a outra ficou pendurada por uma perna num dos muitos espigões, de cabeça para baixo. Parecia um bovino enganchado num açougue, vomitando espuma num acto nauseabundo.

Perante a imobilidade vegetativa desta, a outra nem olhou para trás e correu agilmente sobre a estrada que dividia em dois aquele casal de luxo, usufruindo com enorme voluptuosidade das maravilhas que a brisa morna lhe proporcionava, ao afagar-lhe o corpo desnudado.

A noite, que se tornara limpa, ligeiramente húmida e quente, transmitia agora uma sensação de calma apaziguante e podia quase jurar-se que se ouviam muito apagadamente os trompetes celestiais numa melodia ora aguda ora docemente grave, de aprazível triunfo e esplendor.

A rapariga corria livre e entusiasticamente pela rua. A certa altura optou por desviar-se da estrada principal e enveredar pelas ruas e jardins. De tempos a tempos iam-se formando gotículas de água entre o seu nariz ligeiramente arrebitado e os seus lábios não muito grossos, que a sua língua vermelha e esguia sugava com languidez.

Depois de percorrer algumas centenas de metros, a rapariga tropeçou num emaranhado de cabelo e estatelou-se sobre a pedra provocando um baque falsamente assustador. A sua cabeça martelou o chão pesadamente, acidente que não se limitou à dor e a uma ligeira escoriação...

Amnésia…

 

Foi pois, tendo como álibi o silêncio do despontar da alvorada naquele bairro, que os dois corpos foram recolhidos com intenções muito semelhantes, mas de maneiras bem diferentes. A rapariga amnésica foi embrulhada num robe de seda e protegida do olhar fustigante de um ou outro vizinho madrugador. Não era a primeira vez que os seus pais tinham que a procurar pela rua, deambulando. Acontecera duas ou três vezes há anos… e agora novamente, segundo ficaram a pensar. Uma das vezes até aparecera bastante longe de casa, quase fora daquela freguesia. A mãe ainda se lembrava de ter acordado naquele dia e de ter ouvido o marido perguntar "A tua filha ainda não veio?", sabendo ela que naquela noite ela não tinha saído com os amigos. E depois a busca. Uma procura desenfreada acompanhada por uma reza para que ela estivesse viva… Assim fora.

Quanto à outra rapariga, ela foi recolhida com receio do que pudesse constar sobre aquele manicómio. Foi levada de imediato para a enfermaria (logo após ter sido descoberta pelo jardineiro que, felizmente para a direcção do hospital, entrava de serviço às seis da manhã ) e foi-lhe feito um curativo à perna, não sem antes lhe ser aplicada uma dose de tranquilizante. Os próximos dias seriam passados no «quarto escuro», como assim era chamado pelos doentes, devido à aparente tentativa de fuga do estabelecimento e durante esse tempo ser-lhe-ia administrada uma dose diária de sedativos suficientes para a deixar atordoada quarenta e oito horas por dia. Sim, porque no «quarto escuro» o tempo parecia passar muito mais lentamente. Quando lhe foi possibilitada a saída do quarto e o efeito dos medicamentos começou a decair, tentou, em vão, explicar que não pertencia ali, que morava numa casa, que não se lembrava muito bem da noite anterior, mas que, que… Parecia uma drogada a falar. Uma mulher (que já não parecia uma rapariga) a quem ninguém ligava a mínima importância e à qual bastava injectar uma droga para a obrigar a calar.

Na nova casa, a outra rapariga, deitada num dos sofás da sala e de saco de gelo na cabeça, não se lembrava de quem era, mas não se parecia esforçar muito a tentar recuperar a memória. A mãe desconhecia que a rapariga que tinha à sua frente nunca havia tido uma crise de sonambulismo…

 

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Sobre o Autor

jmss@algos.inesc-id.pt

João Manuel Santos Silva

Dados biográficos:

Nasceu em Lisboa a 9 de Janeiro de 1977 onde sempre viveu e frequentou o Ensino Público, tendo concluído o curso de Electrotecnia na Escola Secundária Marquês de Pombal.

Em 1995 ingressou no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, onde concluiu os cursos de Licenciaura e Mestrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores. É actualmente aluno de Doutoramento em Engenharia Electrotécnica e de Computadores no Instituto Superior Técnico, realizando o seu trabalho de investigação no grupo ALGOS (Algoritmos para Optimização e Simulação) do INESC ID Lisboa (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa).

Os seus interesses extra-curriculares são a Literatura, a Música, o Cinema e a Pintura, sendo que desenvolve alguma actividade criativa nas duas primeiras. Os seus géneros preferidos são Ficção Científica, Horror, Terror, Fantástico, Fantasia, Mistério, Crime e Suspense.

Mais dados podem ser consultados em http://algos.inesc-id.pt/~jmss.

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