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horas e 11 minutos.
Uma rapariga de dezoito anos
dormia profundamente no seu leito macio e perfumado. O seu cabelo
incrivelmente liso e brilhante cobria a almofada de penas e parte do lençol
de seda, estendendo-se assim num magnífico manto dourado. As suas
pálpebras uniam-se com uma delicadeza angelical e as longas e recurvadas
pestanas entrelaçavam-se ternamente, ocultando uns esplendorosos olhos
castanho-escuro tal como uma concha encerra o seu par de pérolas.
De súbito, e de um modo
assombroso, teve um arrítmico batimento cardíaco, como um pulsar. O
movimento rápido dos seus olhos sob as pálpebras intensificou-se -
despertou algo no seu mais recôndito âmago. Foi então que a sua tez
rosada começou a desbotar como uma folha caduca que estala à mercê de um
sol infernal. Ficou pálida e pálida, como a lua; que brilhava no seu
expoente máximo. Então, após um discreto espasmo do seu longo e esbelto
corpo, os seus olhos começaram a rolar num delírio febril, parecendo
querer saltar das órbitas. As finas pálpebras escureciam agora pigmento
por pigmento, até que, de tanto forçadas pelos olhos, se abriram e
desvendaram um olhar apático e melancólico, mais característico de um
cadáver.
Sentou-se à berma da cama. Os
seus pés delicados tocaram timidamente no soalho de mármore fria que, num
arrepio doentio, lhe drenou a energia vital do organismo. E, com o calor,
pareceu desvanecer também o fogo -- a libertina chama que outrora a
iluminara e fortalecera, abandonava-a agora num acto rebelde e frio. Foi
triste ver os seus músculos ficarem hirtos como raízes nodosas e a sua
pele flácida e seca, onde se abriam brechas tornando possível entrever os
rios de lava do Inferno. Ergueu-se num gesto mecânico e, com isso, o sangue
pareceu escorrer-lhe como uma vaga ácida pelo corpo abaixo e esvair-se
noutra dimensão. O olhar morto, os braços caídos, a curva que o seu
espinhaço começava a descrever como uma acha de vime que verga rija e
secamente... tudo nela causava dó. A pele esverdeada, sobre a qual se
formavam pequenas escamas, tinha-se colado aos ossos, deixando vislumbrar o
seu esqueleto corcunda, através do semitransparente tecido da camisa de
dormir.
A noite estava gelada e escura,
muito escura, mas seca. O silêncio absoluto pairava morbidamente sobre
aquela zona da cidade -- um bairro residencial de luxo -- como que uma
testemunha desumana. De uma vivenda contornada nas trevas e rasgada pelos
galhos nus de uma gigantesca árvore, que pareciam cingi-la como que a mão
de um velho, saiu a rapariga seminua -- dir-se-ia ser uma recém
sobrevivente do Holocausto. Descreveu três passos... Mas oh!, até uma
criança com dois anos o faria com mais segurança. Ela continuou como um
nómada no deserto, a quem o hálito da morte chicoteia com vergastadas de
areia. Transpôs o portão da vivenda onde habitava, que, ao abrir, lhe
serviu de apoio para o contornar. Hesitante e trémula, continuou a sua
peregrinação. Arrastou-se imundamente por duas centenas de metros,
cabisbaixa, calcando as faixas brancas pintadas no meio da estrada, onde
parecia estar gravadas as suas últimas palavras.
Caiu.
Assim, estendida no alcatrão,
mais parecia uma vítima de peste abandonada com nojo, prestes a ser
arrojada até à vala comum. Entre a gengiva e um dente podre começou a
surgir um fiozinho de sangue que depressa veio sujar a estrada. Os joelhos e
os calcanhares da rapariga estavam manchados por uma nódoa roxa, cravados
de pedrinhas. Das mãos, uma recordação ficava no piso -- a pele esfolada
das suas palmas. Agora a rapariga deslocava-se como um quadrúpede. Com as
quatro patas no chão caminhava repleta de sofrimento, mas, facto bizarro,
julgar-se-ia a cumprir com a sua obrigação e, talvez por isso, não
esmorecia. Era como o carregar da sua cruz ao calvário. À medida que
debilmente gatinhava as suas mãos iam pisando os seus fracos cabelos
hirsutos, que arrancava aquando o avanço do tronco.
Chegou, por fim, a um grande
largo, onde diversas correntes de ar frio se pareciam defrontar. Para trás
um longo e penoso trilho de manchas de sangue seco e cabelos em
decomposição, de que o vento fazia novelos; à sua frente uma grande
propriedade cercada por uma vedação. Arrastou-se humildemente até ao
muro. Dentro da propriedade estavam construídos dois edifícios distintos:
um, o mais alto, tinha quatro pisos e de todos eles emanava uma luz amarela
e poderosa através das janelas; do outro, uma espécie de pavilhão de
betão armado, que parecia ser a mais sólida edificação do Mundo, nem um
feixe de luz escapava através das grades que bloqueavam as poucas aberturas
que o arejavam. A rapariga, cá fora, agarrada às grades da vedação,
moribunda, olhava o pavilhão fixamente enquanto que uns últimos cabelos
lhe eram pilhados pelo vento. Entretanto, por detrás do edifício mais
alto, saiu um vulto brilhante e veloz como um relâmpago, que se foi
esconder por detrás de uns arbustos, a cerca de dez metros do edifício. E
foi por trás deles que se movimentou camuflada com a agilidade de um verme
que se desloca sob a areia, enquanto que a outra rapariga começava a longa
escalada da grade; encimada por longos e afiados bicos. Trepava com a
fragilidade duma aranha que tenta escapar na sua teia ao sopro de um humano
impiedoso. Por esta altura, o vulto, que momentos antes estivera coberto
pela vegetação, rastejava agora avidamente e a descoberto até à grade,
que separava a deambulação mental da realidade por que sofregamente
ansiava.
Subiu-a.
Ocorreu então (como é
importunante crer) uma situação insólita, mais invulgar que o romper do
céu por um cometa, mais rara até que chover e fazer sol simultaneamente,
mais extraordinária que a própria Natureza. Estavam duas aparições de
branco no cimo de uma grade cinzenta, na tentativa de a transpor… só que
em sentidos opostos. Foi então que ambas se avistaram, a alguns metros de
distância, sobre aquela gigante mandíbula de crocodilo. Não... Não podia
ser real... Se existisse um espelho duplo que reflectisse a imagem com uns
minutos de atraso no tempo, ele teria obrigatoriamente que estar colocado
perpendicularmente à vedação e entre os dois corpos. Foi com o horror
desta visão atroz e alucinante que as duas tombaram, uma para cada lado: a
que caiu para fora da propriedade aterrou com a perfeição de um gato,
enquanto que a outra ficou pendurada por uma perna num dos muitos espigões,
de cabeça para baixo. Parecia um bovino enganchado num açougue, vomitando
espuma num acto nauseabundo.
Perante a imobilidade vegetativa
desta, a outra nem olhou para trás e correu agilmente sobre a estrada que
dividia em dois aquele casal de luxo, usufruindo com enorme voluptuosidade
das maravilhas que a brisa morna lhe proporcionava, ao afagar-lhe o corpo
desnudado.
A noite, que se tornara limpa,
ligeiramente húmida e quente, transmitia agora uma sensação de calma
apaziguante e podia quase jurar-se que se ouviam muito apagadamente os
trompetes celestiais numa melodia ora aguda ora docemente grave, de
aprazível triunfo e esplendor.
A rapariga corria livre e
entusiasticamente pela rua. A certa altura optou por desviar-se da estrada
principal e enveredar pelas ruas e jardins. De tempos a tempos iam-se
formando gotículas de água entre o seu nariz ligeiramente arrebitado e os
seus lábios não muito grossos, que a sua língua vermelha e esguia sugava
com languidez.
Depois de percorrer algumas
centenas de metros, a rapariga tropeçou num emaranhado de cabelo e
estatelou-se sobre a pedra provocando um baque falsamente assustador. A sua
cabeça martelou o chão pesadamente, acidente que não se limitou à dor e
a uma ligeira escoriação...
Amnésia…
Foi pois, tendo como álibi o
silêncio do despontar da alvorada naquele bairro, que os dois corpos foram
recolhidos com intenções muito semelhantes, mas de maneiras bem
diferentes. A rapariga amnésica foi embrulhada num robe de seda e protegida
do olhar fustigante de um ou outro vizinho madrugador. Não era a primeira
vez que os seus pais tinham que a procurar pela rua, deambulando. Acontecera
duas ou três vezes há anos… e agora novamente, segundo ficaram a pensar.
Uma das vezes até aparecera bastante longe de casa, quase fora daquela
freguesia. A mãe ainda se lembrava de ter acordado naquele dia e de ter
ouvido o marido perguntar "A tua filha ainda não veio?", sabendo
ela que naquela noite ela não tinha saído com os amigos. E depois a busca.
Uma procura desenfreada acompanhada por uma reza para que ela estivesse viva…
Assim fora.
Quanto à outra rapariga, ela foi
recolhida com receio do que pudesse constar sobre aquele manicómio. Foi
levada de imediato para a enfermaria (logo após ter sido descoberta pelo
jardineiro que, felizmente para a direcção do hospital, entrava de
serviço às seis da manhã ) e foi-lhe feito um curativo à perna, não sem
antes lhe ser aplicada uma dose de tranquilizante. Os próximos dias seriam
passados no «quarto escuro», como assim era chamado pelos doentes, devido
à aparente tentativa de fuga do estabelecimento e durante esse tempo
ser-lhe-ia administrada uma dose diária de sedativos suficientes para a
deixar atordoada quarenta e oito horas por dia. Sim, porque no «quarto
escuro» o tempo parecia passar muito mais lentamente. Quando lhe foi
possibilitada a saída do quarto e o efeito dos medicamentos começou a
decair, tentou, em vão, explicar que não pertencia ali, que morava numa
casa, que não se lembrava muito bem da noite anterior, mas que, que…
Parecia uma drogada a falar. Uma mulher (que já não parecia uma rapariga)
a quem ninguém ligava a mínima importância e à qual bastava injectar uma
droga para a obrigar a calar.
Na nova casa, a outra rapariga,
deitada num dos sofás da sala e de saco de gelo na cabeça, não se
lembrava de quem era, mas não se parecia esforçar muito a tentar recuperar
a memória. A mãe desconhecia que a rapariga que tinha à sua frente nunca
havia tido uma crise de sonambulismo…