Rio, 04 de março de 2006

O Explorador

Xstranho

Quando recebi a confirmação de que havia sido escolhido para integrar a equipe de Marrie London, como fotógrafo, tive uma das maiores alegrias de toda a minha vida.

Havia sete meses passados que eu tinha mandado meu pedido. Foi quando ouvi um programa na rádio voz da América. Meu velho Motorádio me dera a oportunidade que sempre sonhara.

Não pudera fazer faculdade mas sempre gostei de arqueologia. Muito antes de Indiana Jones aparecer na televisão eu já estivera vivendo como um índio em uma aldeia no sul do Pará. Fiquei quase três anos vivendo e aprendendo com os Urientes, uma tribo descendente dos antigos Tapajós, que se localizava próximo da Serra do cachimbo, entre os rios Curua-Açu e o São Benedito. Com eles descobri muitos segredos sobre as frutas e os vegetais. Mas eu era apenas um curioso. O que guardei dessa convivência trago apenas na memória. Também, eu deveria ter na época 18 ou 17 anos. Jamais pensei sequer em levar uma máquina fotográfica para registrar, ou mesmo um diário, sei lá.... essas coisas que o pessoal costuma usar para registrar os bons momentos da vida.

Com eles aprendi o valor da liberdade, e da lei sem ser preciso ter lei escrita em parte alguma. Eram os últimos 27 Urientes. Eu nunca mais os vi. Faz cinco anos que faleceu o último da tribo. Fiquei sabendo pelos jornais.

Conheci alguma coisa dos seus costumes e rituais. A dança do casamento, a noite da Lua seca, os rituais para os enterros, o corte das plantas medicinais, a extração de raízes afrodisíacas e alucinógenas... e muitas outras coisas que relatei na carta que escrevi para a geóloga Francesa. Acho que isso foi um ponto a meu favor. O outro é que eu conhecia um pouco da lingua dos nativos da região e ainda por cima podia servir como fotógrafo da equipe.

Mas o fator decisivo foi que lhe disse que não precisava me pagar nada, desde que eu ficasse com os negativos das fotos que tirasse e pudesse fazer deles o uso que quisesse. A única ressalva é que eu deveria sempre citar a equipe de exploração.

Tudo acertado rumei para o ponto de encontro na cidade de Tefé, no Amazonas onde eles chegariam de avião. Tefé não era bem uma cidade. N a verdade um pequeno porto de exploradores e seringueiros, localizado a beira do rio Solimões, e mais um manancial de pequenos rios que ali deságuam.

Foi o ponto ideal que o guia da expedição escolheu para pegarmos as previsões e os carregadores da região.

Quando cheguei, depois de quase cinqüenta horas dirigindo em estrada de chão, cheias de lama e buracos que eu imaginava fossem criados por meteoritos dado o tamanho. O meu velho Willis 57 não agüentaria se eu não o tivesse reequipado com molas reforçadas e motor de scania além de ter feito levantamento dos eixos. Mas pouco me importava, depois de ser descartado pela arqueóloga Niede Guidon nas andanças dela pelo interior do Piauí, antes de ser declarado o vale dos dinossauros no Parque da Capivara. Sim, ela não me quis por perto, pois eu não tinha a escolaridade mínima exigida que era o segundo grau. Bolas para o estudo, o Antônio Ermirio se formou depois dos 40 anos, John Major 1º ministro Inglês sucessor de Tacher, nem tinha curso superior, Einstein ganhou título de Doutor depois de já Ter formulado sua descoberta, e muitos outros não precisaram de diploma para mostrarem o quanto sabiam.

Tefé me pareceu uma cidade indiana. Feiras livres em todos os lugares, em todas as ruas as pessoas passavam com alguma coisa para vender; mulheres com frutas dentro de latas que tinham na cabeça; homens com caixas de isopor mostrando enormes e variados peixes; uns vendiam pássaros, outros tartarugas, ainda havia os que vendiam doces, cuias e outros mil objetos.

O atracadouro era uma cais flutuante, feito de bambus e cipós. Parecia que de um momento para outro podia ir para dentro da água. Mas era mais forte que se pensava. Ficava próximo do aeroporto e divisei o pequeno barco que nos levaria até o primeiro contato em terra na região de matas fechadas.

Estavam na embarcação me esperando sete pessoas fora os carregadores. A tal de Marrie London usava um chapéu cáqui e um lenço amarrado na cabeça sobre os cabelos. Tinha um rosto branco e já meia avermelhado devido ao calor. Vestia uma camisa branca de mangas compridas que estavam arregaçadas. Ao seu lado direito um enorme alemão, usando uma bermuda cinza e umas meias que iam até acima do joelho. Calculei que ele deveria ter sido algum lutador de sumô em outra encarnação.

Me perguntei se teria agilidade o suficiente para andar na mata, subir morros, desviar de pedras e cobras ao mesmo tempo. Agachado tirando alguma coisa de dentro de uma caixa uma moça de cabelos pretos levantou-se quando lhe falaram alguma coisa. Uma índia. Foi a primeira impressão que tive. Mas depois a medida que eu chegava mais perto pude ver que não era índia, tinha batom nos lábios e usava roupas demais. Era também a índia mais alta que eu já vira então, se fosse índia. Era a médica da equipe, e o Alemão era o técnico em botânica. Atrás dos três divisei aquele que seria nosso guia. Corpo atlético, perto de 1,75, pele curtida pelo sol, moreno e um pequeno bigode. Usava apenas uma bermuda e uma sandália á moda índia. Devia ser um mestiço, e realmente o era. Eu nunca confiei em mestiços.

Aprendi isso com os Urientes, quando me contaram os ataques que seus ancestrais sofreram onde a maioria da tribo foi abatida. Um mestiço roubou e matou um homem na cidade e foi se esconder entre os Urientes e influenciou dois jovens a estuprarem uma moça das redondezas. Depois quando foi capturado entregou os dois jovens e disse que a tribo ainda praticava o canibalismo.

Marrie me abraçou e para minha surpresa falou em alto e bom português:

---- Então você é Francisco Souto!? Pensei que fosse mais velho!

Todos riram! Sinal que entendiam o português. Um bom sinal, por que meu Francês e inglês sempre foi um lixo.

---- Gente! venham conhecer nosso fotógrafo!

Aos poucos o pessoal foi se acercando e fui cumprimentando um a um.

---- Este é Joseph, nosso biólogo; esta é Marina, tua conterrânea, ela é a médica da equipe; --- eu ia apertando as mãos mecanicamente - Este é Ângelo, nosso guia e condutor- a mão deste era fria e o aperto sem força, mau sinal eu pensei - hei, saiam daí! Venham cá!

E logo mais duas pessoas apareceram de dentro da cabine do barco.

---- Este é Marcos, o operador de rádio e técnico em informática e esta é Cláudia a zoóloga da Unicamp.

---- Prazer! - disse eu a todos os apertos de mão que recebi.

Em pouco tempo, eu já tinha levado todo meu equipamento para dentro do barco.

Um dos meus acompanhantes da estrada, o pequeno Baku, não quis ficar para trás e não tive remédio senão levá-lo comigo. Dei-lhe o nome pelo barulho estranho que fazia quando tinha alguma coisa na boca. E esta sempre estava ocupada roendo alguma castanha.

A zoóloga se apaixonou pelo meu mico. Achou-o diferente. Disse que devia ser produto de algum cruzamento. Eu não sabia. O encontrei no meio da mata quando parei para urinar. Ele entrou no jipe e não quis mais descer. Como era amistoso eu consenti que pegasse uma carona.

O guia me parecia um homem estranho. Apesar de ser mestiço e falar razoavelmente bem o português. Ele era de poucas palavras. Ficava a maior parte do tempo sozinho, olhando para o infinito, como a buscar alguma coisa que só ele podia ver.

Mas quando Marrie precisava de sua ajuda era todo a agilidade. Com rapidez e firmeza ordenava, ao que os outros, carregadores bugres, lhe obedeciam cegamente.

 

No segundo dia partimos de Tefé, depois de tudo pronto e de todos sabermos quem era quem e o que faríamos especificamente.

Para mim não foi um choque, já ouvira falar da expedição do capitão Fawcett, e sabia que existia a tal gruta de três cabeças, pois muitas vezes ouvia os anciões dos Urientes comentarem sobre o segredo que ela escondia.

Quando os bugres ouviram o guia pronunciar o nome "mamocuçabe" notei alguns fazerem cara de mau grado, como se não tivessem gostado muito de ouvir tal coisa.

O barco andava devagar pelas águas calmas e profundas de pequenos rios que surgiam e desaguavam no Solimões. Em dado momento o guia apontou para uma reentrância onde havia uma largura maior e as águas pareciam mais claras. Atracou em uma vila chamada Uraini, onde o pessoal da aldeia nos recebeu muito bem. Eram moradores da mata. Havia ali brancos e índios. Viviam somente da caça e pesca. Tirei algumas fotos e cheguei a me assustar tal o modo como viviam. Existiam homens com aspectos primitivos e seus costumes não eram diferentes. Pais e filhas tinham filhos juntos, e a bigamia era coisa comum entre todas as velhas casas. A médica teve trabalho pois encontrou focos do besouro do barbeiro em várias casas.

Eu tirava fotos das várias peles de onça que havia penduradas nos varais e galhos das árvores. Alguns jovens da aldeia me levaram em gritaria até onde havia uma meia dúzia de cascatas. Eu nunca vira nada de beleza igual. Uma pequena escadaria, de água branca e borbulhante desafiava meus olhos e eu conseguia enxergar o fundo de um lago de quase dez metros de profundidade. Índios e brancos viviam em total harmonia. Crianças brincavam dentro do lago, jogando água uma nas outras. Eu tirei várias fotos ali, me perdendo nas horas, tal a sensação gostosa que sentia. Algumas crianças subiam nos pés de manga que haviam no costado do lago.

Quando voltei até o porto onde o navio atracara todos já estavam prontos para voltarmos a navegar.

Ângelo, o guia, me repreendeu pois disse ele que do jeito que íamos poderíamos passar a noite no meio da água e isso não era bom, pois era mais seguro estarmos em terra seca.

Eu notei que ele parecia realmente preocupado com isso. Mas não dei tanta importância. Os nativos desses lugares geralmente tem muitas crendices e lendas idiotas na cabeça.

Durante a noite os pernilongos começaram a incomodar e eu tive que instalar o mosquiteiro, e como não resolveu, levantei e comecei a passar um óleo que ainda conservava comigo desde os tempos de Uriente. Baku fez um barulho e rolou na pequena caixa de papelão que arrumei como sua cama.

Então ouvi ao longe um canto estranho. Era quase como um choro, um lamento.

Aquele barulho me lembrava quando ventava muito na cidade e do vão entre dois edifícios saia um som fino e longo.

Pé ante pé saí do quarto tomando cuidado de não acordar mais ninguém. Cheguei até a parte de cima e notei junto a amurada do convés, se é que é assim que se chamava aquela parte do barco, o guia. Ele estava sentado, com o dorso nu, olhando para o horizonte negro, onde não havia nada senão água e mais água. Suas pernas pendiam no vazio acima das águas.

---- Fotógrafo não consegue dormir!

Pela primeira vez ele me dirigia a palavra depois que me dera aquele raspa por Ter atrasado a saída do barco.

Já estávamos a três dias juntos e era a primeira vez que tinha oportunidade de estar a sós com aquele homem que era um tanto quanto exótico, para não dizer estranho.

---- Ângelo, eu....

----- Psi.... - fez ele colocando os dedos sobre os lábios.- está ouvindo? - e esticou o pescoço como para ouvir melhor.

Eu prestei atenção e pude então ouvir novamente aquele som distante.

---- O que é isso? - perguntei parado ali, como se fosse prisioneiro de um encanto.

----- é o Uirapuru! Não é lindo!?

Eu concordei. Realmente era algo mágico, encantador.

----- você não está com sono? - perguntei a ele que ainda permanecia na mesma posição. Sentado com as pernas balançando no costado do barco.

----- Durmo depois. Bom ir para cama quando o sono está bem forte. Deita e dorme. Você acredita na história que Dona Marrie contou? – disse ele mudando de assunto.

----- Como assim? Que história está falando?

----- Você branco, mas diferente deles. Eu sinto. Não sei como acredita nessa coisa de Capitão Fawcett. Não viu que é tudo enganação?

----- como? Está me dizendo que a Doutora Marrie London não está indo atrás dos rastros do Capitão Fawcett? Ora, isso é tolice Ângelo.

Então ele, virou-se e rapidamente pulou ao meu lado. Cheguei a me assustar com a rapidez como fez isso.

---- Eles estão atrás do ouro!! É só o que interessa a eles! Marrie London está te enganando!

---- Ora, você está doido! - eu elevara minha voz e ele colocou então sua mão sobre minha boca.

---- Quando o vi chegar pensei que era um deles. Mas depois, lá em Uraini, junto do povo da terra percebi que era diferente. Não é igual eles, se mistura sem medo nem preconceito. Agradou as crianças e isso é importante. As crianças da terra não sabem ficar perto de gente ruim. Tem bom coração e espírito grande. Agora escuta, deixa eu falar.

Tirei sua mão da minha boca e sentei-me junto a ele na beira do barco.

---- Ví os mapas da cabine do comandante do barco. As rotas deles levam longe dentro da mata. Lugares pouco conhecidos. Tem aparelhos, coisa de computador e radar. Isso ser estranho.

---- É estranho nada. Hoje em dia os arqueólogos usam tecnologia para executar o serviço com maior eficácia.

---- Não fala nada pra Dona Marrie. Mas eu acha bom você abrir os olhos.

---- Ok! Vou dormir e acho que você devia fazer o mesmo. Esqueça essas coisas de tramas e dramas. Isso não existe.

---- Vou Escutar Uirapuru! Depois eu dorme. Fotógrafo promete não contar nada pra Dona Marrie?

---- Tudo bem! Agora vou dormir....

Desci para o quarto e me estatelei na rede.

Acordei com gritos no convés. Abri os olhos e a luz forte do sol me cegou por instantes.

Um rebuliço e um trepidar de passos me dizia que algo de grave estava acontecendo.

O barco estava parado no meio do rio. Um rio que já não era mais o Solimões. As águas eram mais claras e calmas. Alguns bugres vinham de canoa trazendo pedaços de bambu na tentativa de desencalhar o barco do banco de areia. O capitão estava desolado a um canto de cabeça baixa enquanto o mestiço lutava com vontade forçando uma estaca contra a lateral do barco e tentando junto a outros bugres mover o barco. Mas o esforço era inútil. Cheguei perto deles e tirei a máquina do meu ombro, jogando-a sobre umas sacas de alimento. Ângelo sorriu quando me viu juntar-se a eles. Depois de meia hora de infrutíferas tentativas o guia teve a idéia de descermos todos e irmos de canoa até a margem. Marrie London e o Alemão biólogo conversavam algo em alguma lingua que não consegui entender. A médica mostrava preocupação no rosto e os demais ocupantes não demonstraram nada além de expectativa.

Nosso guia disse que deveríamos ir todos para a margem e tentarmos então tirar um pouco de peso de dentro do navio. Com ele mais leve poderia ser mais fácil movê-lo.

A preocupação do comandante era a de que o casco tivesse sofrido alguma avaria durante o choque com o banco de areia. Algum tronco ou pedra. Mas depois de uma análise mais cuidadosa verificamos que não havia esse problema.

Eu havia assumido naturalmente um lugar de segundo tenente do guia. No entanto o barco precisaria trocar umas peças que romperam-se com o choque. Um dos carregadores disse que tinha parente na aldeia e conseguiria ir até a cidade mais próxima e voltar em dois dias. Era um atraso considerável. Marrie London não gostou nada daquilo.

Se tivéssemos outra pessoa com capacidade de guiar o barco certamente o bêbado do capitão seria demovido de seu posto. Mas não tínhamos ninguém com esse conhecimento.

Ângelo, o guia, disse que podia ir na frente, junto com mais duas pessoas, para inspecionar o local onde iríamos passar quando o barco estivesse pronto.

Marrie London não entendeu.

---- Rios do sul melhor de navegar. Norte muitas cachoeiras e quedas d´agua. Preciso traçar caminho pra barco não bater. Fotógrafo, bom de cabeça vem comigo. Vocês esperam na aldeia. Fazemos cabana para Dona Marrie dormir e vamos amanhã de manhã.

Disse isso e já punha mãos a obra ordenando que alguns bugres começassem a limpar um lugar para a cabana da expedição. Em menos de cinco horas, com o sol ainda alto, vi surgir uma impressionante choupana onde antes era um pedaço de capim e mato.

Havia espaço suficiente para todos e ainda lugar para guardarmos os mantimentos e equipamentos.

Baku sumira durante o dia, mas á noite retornara para junto de nós. Parecia ter tanto medo da noite na floresta quanto nós humanos.

Os piuns, mosquitos da mata Amazônia, verdadeiros vampiros de bicos, nos infernizaram até que um dos bugres pegou umas madeiras verde e umas folhas de bambu e fez uma fumaça dos diabos. Quase morremos juntos com os tais de piuns.

O biólogo mostrou-se preocupado pois algum inseto lhe mordera a perna por cima das meias e a perna estava ficando arroxeada. Ângelo pediu a uma mulher da aldeia que fritasse dois ovos. Com os ovos ainda quentes, pegou um pedaço de pano e colocou a compressa sobre o local da ferida.

O gigante alemão tremeu como vara verde. Alguns bugres davam risada. No entanto, no meio da noite ele acordou e verificou que as gema dos ovos tinham puxado todo o veneno. Estavam rochas e o aspecto da perna do homem melhorara. Ângelo, sempre atento, lhe disse que assim que amanhecesse pedisse para a mulher fritar mais dois ovos novamente e só tirá-los quando o sol estivesse na cabeça dele. Ou seja, pude entender que devia tirar somente lá pelo meio-dia.

Cansados e extenuados, os bugres se deitavam em cima de folhas de coqueiro enquanto nós dormíamos em redes com mosquiteiros e ainda umas cem dúzias de mãos de óleo pelo corpo. Pois sabíamos do perigos dos anofelinos, e também dos carapanãs, mosquitos que davam medo só pelo tamanho, enquanto os primeiros podiam nos matar, pois se nos picassem nos deixariam com uma herança de impaludismo. Muitos deles, dos bugres, já haviam conseguido anticorpos naturais para essas doenças, devido ao contato quase que diário com esses vermes.

Acordei com Ângelo tocando em meu braço. Aquela desconfiança do primeiro contato havia sido quebrada. Eu agora o via com outros olhos. Parecia ser o único a saber o que fazer por ali.

Marrie estava de pé, uma bota de cano alto, calças e camisa de manga comprida. Roupa que a maioria de nós brancos estávamos usando para nossa proteção, apesar do calor escaldante. Ela se aproximou de nós e nos desejou sorte. Disse que se em três dias não tivesse noticia nossa voltaria até Tefé.

Ângelo garantia que nos veria antes do prazo.

O guia agora trajava uma calça comprida caqui, um chapéu e um facão na cintura. Os bugres também estavam com um facão na cintura. Mas era só o facão sobre a pequena tanga que usavam. Estes usavam roupas antes porque vinham da cidade. Na aldeia a maioria dos bugres andava desnudo do tronco para cima, com apenas essa pequena tanga escondendo seus sexos. E eu sabia que se sentiam mais livres assim.

Achei que Ângelo me chamara para ir junto por que eu era um dos únicos com quem ele podia falar, tanto em português, quando não queria que os bugres soubessem o que dizia, como em tupi, quando não queria que o pessoal da exploração soubesse.

Ele deve ter sentido que eu entendia tudo o que falava, mesmo quando tentava usar um dialeto dos kaigangs.

Na pequena canoa embarcamos eu, Ângelo, dois bugres e o pequeno Baku, que não se desgrudou um minuto de mim. Com a sugestão de uma mulher da aldeia, no dia anterior havia feito uma espécie de cesta, que presa ás costas, o pequeno animal podia ir comigo aonde quisesse. Bastava se enfiar na cesta.

Ângelo sorria vendo as caretas que o pequeno símio fazia. Mas eu não gostava do olhar que dirigia ao animal. Imaginei se ele não estava pensando em comer o pequeno animal.

Nós quatro nos revezávamos nos remos. No primeiro turno, remavam Ângelo e Tucoiman, depois eu e Maraoni.

Aos poucos vimos as pequenas casas feitas de tapê irem se perdendo na distancia.

As margens do rio não eram tão largas. Ângelo me explicou que enquanto os rios afluentes do amazonas da esquerda estão na vazante, os da direita estão na enchente e que a época da chuva tem início do sul para o norte e á medida que os rios da direita do amazonas vão recebendo água em suas cabeceiras, os da esquerda vão secando, deixando ao sol pedras e galhos. Mas tarde acontece o reverso.

Disse-me ainda que "Dona Marrie" queria seguir o curso dos rios da esquerda o que era muito difícil conseguir com barco grande. Com canoas é mais fácil, visto que existem muitas cachoeiras e pedras nos cursos daqueles rios.

Então entendi o porque dele ir na frente. Queria traçar uma espécie de mapa. Pois sabia que em muitas partes os rios parecem paliteiros de gigantes, dado o número de galhos e árvores em seu seio.

Remávamos e volta e meia um bugre jogava uma linha no rio na tentativa de pegar algum peixe. Falavam muito do tal de pirarucu. Eu já ouvira falar, mas confessei que nunca vira um de perto.

Depois de cada turma ter remado duas vezes por incontáveis distancias dentro daquela água meio barrenta, Ângelo apontou uma barranca onde descansaríamos um pouco. Disse que logo chegaríamos a um rio por onde teríamos que entrar. Tucoiman amarrou a corda em uma arvore ribeirinha e Maraoni nos ajudou a puxar a canoa até a margem.

Ângelo falou para não sairmos dali que ele e Maraoni iriam caçar. Eu me assustei. Caçar!? Ali?! no meio daquela mata fechada? Tucoiman me explicou enquanto os outros dois sumiam entre as árvores que eu devia fazer um pequeno mapa do percurso que já havíamos feito. Com a ajuda do bugre tracei um mal desenhado mapa, mas que depois poderia ser muito útil. O sol começava a cair, e eu ouvia barulhos assustadores vindo da mata. Já ouvira barulhos assim na aldeia, mas eram em menor intensidade. Nada como aquilo. Os predadores se aproximavam de nós disse Tucoiman, mas não devia me preocupar pois era isso que Ângelo e Maraoni estavam esperando.

Mal ele acabara de falar isso ouvi um tiro, que no silêncio da mata parecia mais um canhão sendo disparado. Ato pronto o bugre, meu acompanhante, começou a pegar pedaços de madeira e folhas para fazer uma fogueira. Os malditos mosquitos já começavam a incomodar. Então vi Tucoiman pronunciar um nome esquisito: "tsegolara", que significava Cobra grande. Olhei então para a barranca do rio onde ele apontava e vi passando próxima ao nosso bote uma enorme sucuri. Se ele não dissesse tratar-se de cobra eu diria que um tronco de árvore estava ao lado da canoa. Olhando melhor vi o movimento sinuoso e silencioso que o enorme réptil fazia em torno da nossa embarcação.

Fiz menção de pegar a carabina, mas o bugre segurou minha mão;

---- Não! Dá azar! Só mata bicho pra comer ou se defender! Ela vai embora!

E era verdade. Em poucos minutos aquela espécie de tronco descia rio abaixo junto com o vermelho do sol indo dormir.

 

Ouvi barulho na mata ao lado e apontei para o local. O bugre também armou-se e esperamos alguns minutos. Nisso caindo do céu alguma coisa escura espatifou-se aos nossos pés.

Baku ficou histérico e começou a pular e guinchar na cestinha que eu tinha nas costas.

Então eu percebi o porque.

Aos nossos pés jazia um macaco de quase um metro. Na verdade um metro ele tinha de mãos e pernas. O tronco era pequeno. Um balaço lhe varara a cabeça que agora era uma massa disforme e esbranquiçada.

---- E então? gostaram da nossa janta? - disse Maraoni sorrindo quando saiu da mata junto com Ângelo.

---- Mas....mas...é um macaco! - disse eu quando pude falar.

Ângelo deu de ombros.

---- Carne boa fotografo! Devemos agradecer! Foi único bicho que encontramos! Pele dele pode servir para espantar outros bicho!

Baku ainda guinchava, mas agora com menos fervor. Antes chegara mesmo a arranhar meu coro cabeludo, com suas unhas que a zoóloga cortara cuidadosamente.

Dito isso, Ângelo e Maraoni começaram a tirar a pele do animal. Eu me senti um pouco mal vendo aquilo, mas lembrando-me dos Urientes que comiam cavalos criei um pouco de força.

Meia hora depois eles fizeram mais quatro pequenas fogueiras e colocaram em cada uma delas uma espécie de espeto com um pedaço de pele de macaco. O cheiro era horroroso. O guia me disse que os animais sentiam o cheiro de carne queimada e isso os mantinha distante. Pois segundo uma lenda o macaco era considerado um animal sagrado na floresta e os outros animais respeitavam quem pudesse levar a melhor sobre esse animal.

O que eu sei é que até mesmo os mosquitos pareciam entender isso. Foi a melhor noite que já havia passado no mato. Sorte minha pois não havíamos levado mosquiteiro algum, e a maior parte do repelente havia sido gasto na noite anterior, então o pouco que sobrou ficou com o pessoal que ficou no barco. Estendemos as redes no chão e dormimos. Todos nós com a mão em alguma arma. Eu não desgrudava da minha carabina. Nas poucas vezes em que acordei vi que os outros também dormiam com a mão ocupada.

Na manhã seguinte Ângelo saiu pelo mato, costeando o rio, enquanto eu e os outros dois bugres íamos o seguindo de dentro do rio. Por várias vezes não o enxergávamos e apreensivos aguardávamos sua presença próxima para nos indicar que estava tudo bem.

Logo ele fez sinal para nós da margem. Encostamos e ele entrou na canoa.

Disse que tinha sinais de que havia uma aldeia próxima. Talvez não fossem amistosos. Eu devia ficar calado enquanto eles conversavam com os moradores.

Afinal muitos índios odiavam os brancos. Os tinham como causadores de suas desgraças. O que não era de todo mentira.

Me deixaram na canoa e foram, os três até onde Ângelo imaginava fosse a aldeia. Da barranca eu os espiava, até que em dado momento não os vi mais.

Os bugres haviam amoitado a canoa em meio a uns galhos e árvores que estavam caídos dentro da água, na margem. Mas quando vi que eles demoravam eu resolvi sair para ver o que acontecia.

Desamarrei a canoa e lentamente fui descendo com ela costeando a margem.

Já fazia quase duas horas que eles haviam saído e desde então mil coisas me passavam pela cabeça. Sabia, pelo pouco que estudara da região, que tribos ribeirinhas geralmente são pacíficas, pois estão em contato quase que diário com

pescadores e outras embarcações. No entanto Tucoiman dissera que já havia muito tínhamos saído das rotas normais de navegação. Me lembro que antes de apoitarmos ele disse que poucos aventureiros tinham entrado pelas águas que nós estávamos navegando.

Pensando nisso nem percebi o perigo que corria até que uma lança zuniu junto a mim.

Baku guinchou e mostrou-se nervoso.

Olhei para trás e vi na barranca quatro índios totalmente nús, empunhando arco e flecha. Mirando-me. Levantei os braços, afinal não podia fazer nada. Dois deles pularam dentro da água e pegaram a corda da canoa levando-a até a margem. Eu permaneci o tempo todo em silêncio. Na verdade sua lingua não era de toda desconhecida por mim, no entanto também não o era de todo conhecida. Era uma mistura muito grande de tupi com Xingu, Oakle com Caraíba, Bororós com Tapajós e alguma línguas mais que não consegui decifrar. Parecia coisa arcaica. Notei os pingentes que traziam nos narizes e nas orelhas. No nariz um osso em forma de lua e nos lóbulos me parecia um dente de algum animal, só que com uma diferença, brilhava demais.

Ficaram curiosos com a cesta e com o pequeno animal dentro desta. Parecia terem medo de Baku.

Eu o peguei no colo e eles abriram os enormes olhos como se eu tivesse feito coisa de outro mundo. Mas isso durou apenas alguns instantes, um deles, o que parecia líder o grupo. Apontou com a lança para a frente e eu comecei a caminhar. Ví quando viraram a canoa e pegaram a carne de macaco que Ângelo deixara em uma caixa dentro da canoa durante a noite.

Caminhamos durante uma hora. Eu já estava cansado. Queria parar para descansar as pernas, mas os olhares e as pontas das lanças não eram um incentivo a isso.

Durante todo o tempo eu permanecia calado.

Entramos por um pedaço de mata onde a luz de sol entrava com força mínima. O solo era bem úmido e as folhas no chão formavam quase como um tipo de solo suspenso. Em determinados lugares onde pisava sentia o chão balançar. Lembrei-me das vezes em que ia acampar e subia por cima de raízes que faziam o mesmo efeito, tipo um segundo piso.

Em determinado momentos escutei sons estranhos. Baku pareceu ter ouvido também pois pulou em meu colo assustado. Quando Baku pulou para meu colo percebi que a cesta ainda continha algum peso. Lembrei-me então que Baku levara para dentro do seu ninho minha Nikon 3.2. No momento eu não sabia de que ela poderia me ser útil, mas pensava naqueles hipóteses de que com o flash eles me renderiam homenagem como um Deus, como algo assim.

O certo é que as pontas das lanças tiravam todas as fantasias da minha vista. Por duas ou três vezes sentira uma pontada nas costas quando tentara diminuir a marcha.

Eles, os índios pareciam não se cansar nunca. Ouvira falar de tribos de índios que viviam ainda à parte da civilização e que, segundo relatos, seus homens eram todos de estatura maior que o normal e com corpos bem cuidados, sem gordura. Todavia não deviam ser esses índios de tal tribo. Eram iguais a qualquer homem branco, estatura, cabelos, e com gorduras sim senhor. Para ser verdadeiro em minha declaração, somente o que parecia ser o chefe não tinha barriga alguma. Os outros todos tinham alguma protuberância no abdômen. A diferença neles era seu linguajar, seu comportamento e aqueles penduricalhos que brilham apesar de estarmos em um lugar onde havia pouca luz do sol.

Percebi que os sons se tornavam mais nítidos. Pareciam sons de tambor. Quase uma batucada, sorri ao lembrar que esses índios podiam estar dançando pagode.

Logo um deles subiu em uma árvore e soltou um grito tão forte que pensei que algo de Deus estava em sua garganta. Fizeram-me parar a caminhada e por alguns instantes escutamos o eco repercutindo na floresta. Em seguida outro som vibrou e entendi ser a resposta.

Depois de mais um quarto de hora caminhando ouvi o som de água caindo. Pelo som conclui que estávamos perto de alguma cachoeira. No entanto ainda continuamos caminhando por algum tempo. Então como se estivéssemos no fundo de um túnel, vi a luz ir aparecendo aos poucos.

Um ohh de admiração morreu em meus lábios ao ver a grandiosidade da obra da natureza á minha frente.

Uma cachoeira enorme, devia ter mais de trinta metros de queda com uma largura de no mínimo vinte metros. Um verdadeiro lençol branco jorrando e calando todos os outros sons.

Eu ainda estava extasiado admirando aquela beleza quando de súbito surgiu como que do nada dois índios que pareciam serem vigias e da mesma tribo que meus captores.

Os vi indo na frente e descerem por uma íngreme encosta. Reparando melhor notei que era um caminho que pacientemente fora construído como uma passagem.

O que me assustou foi quando os vi descerem por essa escada de pedras e desaparecerem por detrás da cachoeira. Ali era preciso muito equilíbrio pois um escorregão e a pessoa teria uma queda mortal. Olhando para baixo senti um frio nas costas.

Baku pulou novamente para o cesto nas minhas costas e com a ajuda das pontas de lanças criei coragem e desci pela íngreme e bruta escadaria. A própria umidade que descia da cachoeira era suficiente para fazer perder o equilíbrio. Notei então que havia uma espécie de corrimão feito de cipós que permitia agarrar-se para não cair.

O assombro que senti quando vi a cachoeira não era nada com o sentimento que agora me tomava.

Uma coisa como que impossível. Havia três grutas abaixo da passagem por detrás da queda d´agua e de todas elas saia um brilho que chegava mesmo a cegar.

Penetramos por uma delas e então meus mais secretos sentimentos se tornaram verdade.

Estávamos em outro declive, como que pelo lado de dentro da cachoeira e agora estávamos no avesso daquela entrada, mas não havia queda d'agua apenas uma cidade que se descortinava no vale abaixo de nós. E os telhados e ruas dessa vila refulgiam ao contato do sol. A cidade perdida do Ouro. Não podia acreditar no que meus olhos mostravam.

Então era verdade. Ela realmente existia.

Logo, na descida para a vila, bateram com um pedaço de pau em uma espécie de casco de tartaruga gigante, e um som rouco e abafado anunciou nossa chegada.

Em pouco tempo formou-se uma comitiva indígena para nos receber.

Para meu espanto todos me tratavam bem. Sequer chegavam a me tocar. Pisando naquelas pedras que calçavam as estradas pude perceber que realmente eram de ouro. E os telhados também. Uma massa de barro brilhante com uma cobertura um tanto parecida com as casas dos índios peruanos. Imaginei o que aventureiros e caçadores de fortuna não fariam para ficarem de posse daquela riqueza.

Eu me perguntava o que teria acontecido com Ângelo e os bugres que estavam com ele.

De repente me empurraram para uma cabana e me trancaram lá dentro. Ouvia muitos tambores tocando. Baku gania e fazia barulhos estranhos com os dentes. Não sabia se estava com raiva ou medo. Resolvi lhe tirar a correia que a zoóloga havia lhe posto. Correia esta que estava amarrada á minha cintura. Se eu tivesse que perecer pelo menos que o pobre animal saísse ileso. Não tinha culpa alguma de estar comigo.

Quando o soltei ele começou a dar pulos de alegria e a virar cambalhotas, me divertindo. Chegando mesmo a me fazer esquecer as coisas terríveis que poderiam vir a me acontecer. Sim, pois eu não era burro, e sabia que os índios raramente revelam um segredo. Ainda mais um segredo daqueles. Que faria em coisa de dias aventureiros mil chegarem e destruírem tudo aquilo.

Logo Baku sumiu da cabana, subindo pelo telhado dourado e desaparecendo por uma pequena abertura que havia no alto.

O tempo passava lentamente e com isso minha agonia crescia com o passar dos tempo. A morte era uma certeza e mesmo assim eu nutria esperanças, alguma coisa me dizia que eu me safaria. Eu via os raios de sol irem minguando pouco a pouco pelo vão no alto da cabana por onde meu símio conseguira a liberdade.

Então, acho que pelo cansaço e pelo temor dormi.

Acordei com gritos e barulho. A porta da tenda abriu-se e dois índios apontando suas flechas e lanças me fizeram levantar-me. Fiz isso com algum receio. Estaria minha hora chegando? Consegui entender a palavra "banho" em tupi.

Logo entraram duas lindas índias na cabana. E começaram a me despir. Eu sentia as suas mãos e olhos percorrerem meu corpo. Me senti ridicularizado perante a pujança dos índios e a minha nudez. As índias começaram a dar risadas e eu mordia os lábios de vergonha.

Logo outros dois índios apareceram com uma grande tina cheia de água. Não sabia como poderiam ter uma tina ali, mas provavelmente teriam atacado alguma expedição ou sei lá o quê. O certo é que era uma tina.

Os quatro índios saíram e me deixaram com as duas jovens índias. Uma delas tinha o corpo que qualquer modelo de passarela invejaria, a outra já era de mais idade e suas tetas andavam já um tanto murchas. Em tupi, pedi seus nomes:

Recuaram assustadas, pois provavelmente não pensavam que eu falasse alguma língua indígena.

Acalmei-as e então entrei na tina, mostrando que sabia o que iriam fazer. Meio que assustadas ainda, chegaram perto e começaram a passar-me uma espécie de pasta, era como ensaboar-me. Repeti a pergunta, ao que a mais nova sorriu e mostrou uns dentes perfeitos. Seu nome era Rapodi e a outra era sua irmã, Garapodi. Uma significava filha da luz, e a outra irmã da luz na língua Kaigang.

A mais nova, Rapodi, me parecia meio tímida ainda na minha presença. Falavam da cor da minha pele. Garapodi, falou algo em uma língua que não conhecia. As duas deram risada. Perguntei o que falavam e elas se calaram. Rapodi abaixou a cabeça.

Insisti vendo que elas fraquejavam. Disseram que perguntavam se todo homem branco tinha "itsumi’ pequeno. Merda, antes da morte a perda do orgulho de homem.

Então a porta abriu-se novamente e os dois índios que primeiro haviam estado lá dentro entraram novamente.

As duas índias saíram e os índios me jogaram um cocar e uma tanga. Fingi não entender e através de gestos eles me fizeram entender que era para vestir-me igual a eles. Ou seja, teria que ficar nu. O banho fora proporcionado com algumas ervas que certamente afastavam os insetos visto que apesar de ser noite ainda não sentira mordida ou picadura alguma.

Quando coloquei a cabeça para fora da cabana meus olhos quase cegaram.

Acho que toda a população da vila estava ali. Formavam um corredor por onde indicavam que eu devia seguir. Eu caminhava vacilante e com medo por aquele corredor humano. Um silêncio ameaçador pairava no ar. Dava para ouvir meu coração batendo.

Ao fim do corredor vi alguém sentado em algo que parecia um trono, ao seu lado havia uma outra cadeira, vazia.

Apesar das fogueiras queimando eu mal podia ver seu rosto. O seu cocar indígena era diferente, maior e usava como que uma pele de animal sobre as pernas. Mas aqueles olhos, era como se eu os conhecesse de algum lugar

Conforme eu caminhava ia tentando reconhecer aquele rosto luzidio que adquiria formas tenebrosas nas trevas que o envolviam.

Então subitamente minha mente se abriu.

Ângelo!!! Era Ângelo! Aquele desgraçado! Eu sabia que não devia ter confiado nele.

Ele pareceu saber que finalmente eu o reconheci e então levantou-se com a pose de um rei. A um sinal seu todos sentaram-se sobre as próprias pernas, ou no chão.

Retirou o cocar e o colocou na cadeira ao lado.

Eu via seus olhos me penetrarem e vararem o espaço entre nós.

---- Fotógrafo, vem cá! Ângelo quer falar com você! - disse isso e apontou para a cadeira ao seu lado.

Como que hipnotizado por tudo que vivia eu caminhei em silêncio até o local indicado, onde o outrora guia estava.

Só quando estava a uma distância de menos de cinco metros reconheci Maraoni e Tucoiman ao seu lado, como fieis guardas costas.

---- Quem é você? Que significa tudo isso? - por fim balbuciei.

Pelo tom de voz como disse essas palavras índios mais próximos se levantaram prontos para me atacarem com seus facões, mas um gesto do seu monarca e eles sentaram-se novamente.

---- Sentem-se! Ele é meu amigo!- disse isso em Tupi, para que eu pudesse entender.- Te trouxe até aqui por achei necessário conhecer a verdade sobre a exploração da "Dona Marrie" - disse ele dando risada como se o título a Marrie London fosse uma piada - Sou Tucpac, e minha família é da ordem de TupacAmon, da antiga dinastia Maia. Faço parte da 24ª geração. Essa aldeia existe ha mais de cinco séculos, bem antes dos brancos chegarem aqui.

---- É... é o eldorado?

---- sim...e não...essa é Manôa! A cidade dos meus antepassados. Pizon e outros mais tentaram encontrar mas falharam.

---- Porquê?

---- Porque falharam...ora, eles só queriam o ouro...

---- Não! Digo porque eu? O que vão fazer comigo?

---- Como eu disse você é dos nossos. Não precisa se preocupar. Foi reconhecido logo que chegou na mata.

---- Como assim? Fui reconhecido? Por quem?

---- O pequeno animal que te adotou. Ele é sagrado. Ele te escolheu.

----- Baku!? - eu não acreditava no que ouvia - mas .... ele é só um macaco...

----- Ele sagrado!

------ Mas você matou um outro macaco lá na floresta!

------ Bugio ser comum! Atacar neném índio! E carne boa. Outra raça de mico ser sagrada. Raça Oympo fez cidade junto com ancestral nosso.

----- É brincadeira né! Baku é apenas um mico.

------ lembra doutora falar que era especial? Raça perto extinção. Cadê o mico?

Eu olhei para os lados. Todos pareciam estar ouvindo e sabendo o que falávamos, mesmo falando em português.

Podia ser Baku um Deus para aqueles índios?

---- Não está comigo!

Parecia que tinha dita algo proibido. Ângelo ou TucPac, como queiram, levantou-se e levantou as duas mãos. Os índios levantaram-se. Ele falou algo que não entendi e gritos e hurros varreram a noite.

Algumas lanças foram jogadas aos meus pés.

Nisso ouvi um barulho conhecido. Olhei para cima e vi em um galho de um pinheiro o pequeno Baku.

---- porque? que quer com o animal?

---- Animal precisa ser morto em ritual sagrado. Afastar maus espíritos. Proteger nossa raça. Seu espírito irá nos proteger dos olhos dos aventureiros. Diga onde está?

Eu poderia dizer que ele estava ali, sobre suas cabeças, mas fiquei com pena do pobre animal.

---- Não sei! Acha que se soubesse ficaria escondendo e correndo o risco de ser morto?!

---- Você irá dizer onde está o mico! Xamã!! – Gritou ele e um índio velho e com um caneco na mão se aproximou.

---- Branco diz ter máquina da verdade. Manôa tem poção pra mentiroso dizer verdade.

Dois índios saíram da fila e agarraram meus braços fazendo-me ficar de joelhos perante o mestiço, que não era mestiço. O velho índio agarrou meu nariz, apertou-o com força e me fez abrir a boca na marra. Um liquido viscoso e nojento desceu pela minha garganta. Tentei ainda expelir mas não consegui. Seguraram minha boca fechada durante uns dois ou três minutos forçando-me a engolir. Senti uma espécie de tontura momentânea e no instante seguinte me lembro de ter caído em frente ao líder daqueles selvagens. Entrei em transe e só me lembro de ter acordado tempos depois, já na cabana. Não me lembrava de nada do que havia dito. Será que havia entregue o pequeno mico? Meu Deus e se eles o tivessem pego eu não valeria mais nada para eles.

Logo TucPac veio até a tenda. Estava vestido como quando o encontrei no porto de Tefé. Como um branco, ou melhor, como um mestiço.

---- Fotografo está melhor?

---- Sim! Mas com uma maldita dor de cabeça!

---- Efeitos cola....como se diz mesmo?

---- colaterais seu idiota! É, efeito colateral. Que aconteceu? Pegaram o Mico?

Ele sorriu e sentou-se no chão diante de mim, cruzando as pernas.

----- Animalzinho esperto! Fugiu! mas Xamã disse que ele está por perto. Gostou de

você!

---- Quer dizer que enquanto eu estiver vivo o mico estará por aqui?

----- Ou que podemos usar fotografo pra pegar mico!

Era verdade. Eu tinha me esquecido disso.

---- Façamos um trato, você dá mico e te deixo ir embora.

Ahá...

---- Está pensando que sou besta? Na primeira oportunidade depois de estarem com o Baku vocês me matam. Fincam uma flecha nas minhas costas.

 

---- Você tem que entender! Não há outra maneira de sair daqui. Podemos deixá-lo sair vivo, sem problemas. Pois o espírito do mico nos protegerá. Nada do que falar e fizer poderá nos afetar.

Se fosse realmente verdade o negócio do espírito isso também seria então verdade.

No entanto eu não queria sacrificar o pequeno animal.

---- Amanhã cedo tenho que ter resposta. Xamã não gosta de ter estranhos entre nós. Diz ele que você trará nossa desgraça e ruína. Eu sempre levei a sério as palavras dele. Mas já está ficando meio gagá... como os branco dizem.

Passei a noite com frio, dormindo no chão duro. Vendo os formigões a alguns centímetros do meu rosto e ouvindo a cantilena ininterrupta dos insetos miseráveis. Na aldeia ainda ouvia um barulho danado, como se estivessem comemorando algo.

Acordei com um som de chocalho ao meu lado. Era Baku. Tinha meu cesto e minha máquina fotográfica dentro. Aquilo era uma maravilha.

Tirei uma foto do pequeno mico e ele começou a girar em torno de si, fechando e abrindo os olhos.

Sorri, ignorando o perigo que corria se o pegassem ali. Então comecei a falar com ele como se fosse uma pessoa.

---- Baku, você tem que ir embora! Eles querem te matar! Vaí! saí daqui!- mas o pequeno símio não fazia nada a não ser virar a cabeça, ora pra esquerda, ora pra direita, como a me entender.

---- Vá! Saia daqui! Vamos!- tentei lhe enxotar fazendo gestos com as mãos, então ele pulou para meu colo e pegou a máquina fotográfica. Pulou novamente para o chão e apertou o botão. Um flash instantâneo me cegou momentaneamente.

Quando me recobrei levei um tremendo susto. A minha frente estava um lindo índio. Corpo escultural e de beleza impressionante.

---- Branco, vá embora! Faça o que tem que ser feito! A vida é um ciclo, um fica outro vai! Índios não te encontrarão, use isso.

Novamente um flash da máquina e eu fechei e abri os olhos. O índio havia desaparecido e em seu lugar estava o pequeno Baku! Será que tudo fora uma ilusão?

Baku então tinha nas pequeninas mãos um colar estranho, com duas pedras furadas.

Ele pulou e as colocou sobre minha cabeça.

Nesse instante Ângelo ou TucPac apareceu. Trazia um sorriso enorme em seus lábios.

---- Eu sabia! Sabia que conseguiria! Me dê aqui! --- disse ele e tentou pegar o animal do meu colo.

Eu me afastei rapidamente para o lado e evitei seu contato.

---- tire suas mãos de mim! Seu animal!

---- Animal!? hahahahah.,... animal...ora veja só...então os índios são animais...eu já ouvi isso antes...mas não pensava ouvir isso de você fotografo. Quem trouxe a morte para nós? Quem roubou nossas terras e riquezas? Quem expulsou as outras tribos de suas terras, sem ligar para suas culturas e tradições?

--- ora vá para o diabo com suas teorias e choros nativos. Sabe muito bem do que estou falando.

---- Nossos rituais sempre foram feitos fotografo e estamos agora precisando mais do que tudo do espirito do mico. Afinal você sabe do nosso segredo, sabe o que temos aqui. Precisamos evitar que outros vejam o que viu, que saibam que o que dirá é a pura verdade. E a única maneira de evitarmos isso tudo é com o espírito do mico. Seja compreensivo.

---- A única maneira de pegarem esse animal é sobre o meu....

---- Cadáver?! Fotografo é corajoso, poderíamos fazer isso sim, mas isso não será necessário! Basta nos dar o ...

Joguei Baku para cima na esperança dele agarrar-se ao telhado com suas garras e ir embora. Como o fizera na noite anterior.

Mas o pequeno símio mal grudou-se no teto olhou para mim como a dizer algo de importante. E no instante seguinte pulou para os braços de Ângelo.

---- hahahah.... vejam só! Isso mico! vem comigo vem!... E você fique aí! Vou cumprir minha promessa.

Promessa de mestiço. Sei!

Lembrei-me novamente dos pobres Urientes.

Logo o Xamã apareceu e deu-me de beber de mais uma poção não sei do quê.

.....................................................................................

Acordei não sei quanto tempo depois dentro de uma canoa, sozinho e com um par de remos.. Descobri que era a mesma canoa que servira para que eu e os tres índios remássemos para longe da embarcação de pesquisa. Soube disso quando vi que dentro da canoa havia uma caixa de papelão e dentro desta tinha o que havia sobrado do macaco que Ângelo abatera. Também percebi que os bugres ficaram com minha máquina.

Logo, esgotado, (não tivera coragem de comer novamente a carne de macaco) sem forças e pelo calor caustigante do sol, adormeci novamente.

 

Dessa vez acordei em uma cama, coberto com um lençol. Sentia sede. Uma enorme sede.

---- Teve sorte amigo! Um pescador encontrou sua canoa a deriva perto do Amazonas. Se vai até lá, tchau pro senhor! --- me disse uma enfermeira velha e gorda.

---- Mas...

---- Não faça força! Está muito fraco. Um pescador o encontrou a três dias atrás. Estava com 42 graus de febre. Escapou por pouco. Disseram que tinha carne de macaco dentro da canoa. Carne com veneno de urubiã.

---- Que...

---- è uma espécie de peixe. Mas não serve pra comer. Sua banha os índios usam para passar nas pontas das lanças e flechas.

Fiquei três meses em tratamento, tentando me desinfectar. Quando saí dali, tentei saber notícias da turma de Marrie London e descobri em um jornal a noticia de que toda a expedição fora apanhada em um rodamoinho e que do barco só sobrara madeira. Nenhum sobrevivente. Muito cômodo.

Durante um tempo tentei convencer políticos e policiais sobre o que acontecera. Mas eu não tinha prova alguma. A não ser um velho colar com duas pedras que me tiram o sono volta e meia.

Isso faz mais de cinco anos.

Agora tento organizar outra expedição. Mas algo me diz que será um fracasso. Pois afinal, o espírito de Baku os protege.


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Autor: Xstranho
Pequena Biografia: 37 anos, proprietário de um pequeno sebo, morador de Florianópolis – SC.

Obras publicadas: Dias Difíceis – www.papelvirtual.com.br , outros 04 romances esperam para serem editados.. falta de grana.

O que gosta de ler: T.U.D.O – policiais e ficção científica principalmente... Magazine Isaac Asimov – quanta saudade.

e-mail, : xstranho@pop.com.br

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