Rio, 17 de dezembro  de 2005

O substituto

Simone Saueressig

Era sempre assim: todos os dias, antes de abrir as portas do shopping, Rosana sempre passava todos os detalhes das promoções em revista. E todos os dias, pouco depois de abrir as portas do shopping, sempre havia alguém que vinha com algum detalhe que escapara de sua vista atenta. Às vezes eram coisas mais sérias – como o dia em que um cartaz prometia um desconto de 100% em todas as iguarias da área de alimentação – e outras era um mero detalhe sem nenhuma importância. Quando o assunto era importante, Rosana saltava da sua cadeira com o celular já chamando algum número memorizado, enquanto ela caminhava apressadamente rumo ao problema, sorria profissionalmente para o reclamante e se impacientava com a demora do outro lado da linha.

Mas quando o assunto era um autentica bobagem, normalmente, tudo o que ela fazia era sorrir e prometer:

– Verei isso em seguida, senhor.

O "senhor" no caso presente, franziu de leve as sobrancelhas ruivas e espessas, piscou os imensos olhos azuis, deixou cair um pouco da luminosidade do sorriso amável.

– Imediatamente, eu espero. As crianças já estão circulando pelo saguão – observou ele, sério.

Rosana piscou, olhou para a agenda lotada aberta à direita, para as dezenas de notinhas espalhadas diante da tela do computador e para o telefone que começou a soar insistente. Esperava que o homem fosse bom entendedor e compreendesse que estava atolada de serviço mais importante do que trocar o letreiro junto à árvore de Natal onde se lia "Faltam 2 dias para a chegada do Papai Noel". O correto, afirmava o homem diante de si, seriam "1 dia".

– O mais rápido possível, – ela disse sorridente e estendeu a mão para o telefone.

O homem não era bom entendedor.

– Eu disse que as crianças, minha senhora, já estão circulando pelo saguão do shopping. Algumas delas já viram o letreiro errado. Há um menino que vem aqui todos os dias pela manhã para ver quantos dias faltam para a chegada do Bom Velhinho. Eu lhe asseguro que ele ficou estupefato ao verificar que hoje e ontem se embaralharam de uma maneira incrível em sua cabecinha mimosa. Está pensando se ontem viu mal ou se hoje ainda não nasceu o dia, ou se ele sonhou, ou o que foi que aconteceu.

Debruçou-se, o nariz aquilino e pontudo espetando o ar na direção de Rosana, a voz rouca muito séria, os olhos imensos com uma expressão quase assustadora.

– O garoto, minha senhora, acredita em Papai Noel.

O telefone parou de tocar. Rosana suspirou e relaxou um pouco na cadeira.

– O garoto é seu neto?

O homem endireitou-se e sorriu amistosamente outra vez. Alegremente. Como um glutão diante do bolo predileto.

– Oh, não! Infelizmente não! Eu não tenho netos. Infelizmente!

Ele parou de falar, olhou de novo para ela.

– E então, vai ver o cartaz agora?

Rosana suspirou de novo, levantou-se de um salto. O cliente sempre tem razão, disse-lhe a vozinha do pai lá no fundo da memória.

– Certo. O cartaz. Estou indo lá ver isso. Bom dia.

– Muito bem. Eu me alegro. Adoro ver o ar aflito das crianças diante daquele cartaz. Adoro ver como esticam o pescoço para ver se Papai Noel não está escondido nas sombras da casinha que vocês tão gentilmente construíram para ele se bem que, se me permite a crítica, o seu Bom Velhinho ia rolar de rir se visse o cenário.

O telefone tilintou de novo, Rosana sentou-se bem mais séria do que antes e atendeu-o de imediato.

– Alô? Quem? O Germano da "Personagens de Festa"? Ah, oi Germano. Sim, só um momento, estou concluindo a reclamação de um cliente. Aguarde na linha, sim?

Voltou-se para o ruivo magro de olhos e orelhas saltadas um bocado aborrecida. A decoração de Natal do ano era obra de sua irmã e a última coisa que ela ia querer, naquele momento, era que alguém fizesse uma leitura pós-moderna de uma árvore de Natal tradicional.

– O senhor tem alguma sugestão a fazer para melhorar nossa decoração natalina?

– Bem, não exatamente, – continuou o outro no mesmo tom de voz, como se o telefone, a linha e a pessoa do outro lado simplesmente não existissem. – Só que se Klaus Nicholas, o Papai Noel de verdade, você sabe, o Pelznickel, se ele aparecesse, não ia conseguir sequer entrar ali. Não ia caber. Um homem daquele tamanho, dois metros e três centímetros de altura, mais a mitra e o báculo, pesando quase cento e oitenta quilos, botas, manto e saco... o banquinho de plástico dourado que vocês chamam de "trono" não ia suportar isso tudo, você sabe...

Rosana pesou o que ele disse, depois agarrou o fone e, muito calma, disse:

Nosso Papai Noel é um senhor de aproximadamente um metro de setenta, e não creio que passe dos oitenta quilos, sem a roupa com enchimento.

Seu papai... ah, sim, Augusto Lima, sim, claro. Não se preocupe com ele. Sofreu um acidente ontem à noite e morreu há coisa de duas horas.

A moça empalideceu com violência. Aquilo já tinha passado dos limites.

– Alô, Germano? Olha, estou com um pequeno probleminha aqui, eu ligo mais tarde... em seguida, sim... urgente? O que?

Olhou para o telefone apertando os lábios com força.

– O quê?!

Ouviu em silêncio durante algum tempo. Depois, olhou para o homem que continuava impávido diante dela.

– Sim, estou aqui. Estou ouvindo, sim. Você mandou um substituto para o Papai Noel. Sei, Alto, ruivo, olhos grandes, nariz proeminente. Sim, sei quem é. Acho que está aqui na minha frente.

Pôs a mão sobre o fone e olhou para o homem diante de si.

– Como é seu nome, pois não?

– Pois não: Biglon.

– Sr. Biglon, ahn... posso ver a sua identificação e a carta de apresentação, por favor?

O homem puxou uma carteira grande de couro, de onde tirou uma carta amassada e uma velha carteira de identidade. Rosana observou os dois documentos, sorriu gélida e tornou a falar no telefone:

– Germano? Olha, não precisa se preocupar. Você não vai acreditar, mas o homem está aqui, na minha frente. É. Ta bom. A gente se fala outra hora.

Desligou com um cumprimento seco e fitou o ruivo diante de si, batendo o documento de leve no polegar. Não gostava dele. Não, não gostava nada. Mas, enfim, a carta de recomendação era autêntica e negócios eram negócios. Augusto Lima, o Papai Noel oficial do shopping, sofrera um acidente e morrera. O sr. Biglon era seu substituto, enviado pela mesma empresa que todos os anos chamava o sr. Lima. Rosana não tinha que gostar de Biglon. Biglon tinha de dar conta do recado e isso era tudo.

– Muito bem. Vamos experimentar a roupa...

– Oh, não, não se incomode. Eu tenho meu próprio figurino. Garanto-lhe que ficará satisfeita com o resultado. Por favor, não se incomode.

Sorriu. Uma luz dourada pareceu brotar de seu olhar doce, o ar perfumou-se com o cheiro de amoras silvestres. Encantador. Até Rosana sorriu de volta.

– Abrimos às dez. O senhor deverá estar aqui, no máximo, nove e meia.

– Assim será.

Acenou de leve, virou-se de costas e por um instante Rosana acreditou que seria possível. Então o homem, como se tivesse lembrado de algo no último instante, voltou-se outra vez e com a voz dura, o sorriso congelado, murmurou:

– Quero aquele cartaz trocado até daqui a cinco minutos.

Voltou-se de novo e saiu do escritório. Rosana ficou olhando a porta com um susto. De algum lugar viera um ar glacial que a gelara por inteiro. Ficou olhando o próprio hálito transformar-se em uma nuvenzinha de vapor um momento antes de estremecer.

 

A manhã seguinte amanheceu como se fosse uma ressaca. A cabeça lhe doía, as articulações pareciam desencaixadas e na boca pairava aquele inefável gosto de cabo de guarda-chuva. Enfim, parecia que o corpo pertencia a outra pessoa e talvez Rosana o tivesse cedido de bom grado. Na falta de outra opção, obrigou-se a levantar-se e tomar um banho frio. No meio da ducha, o telefone tocou. Era a mãe, reclamando da artrite e do pesadelo que tivera com as filhas. A moça a ouviu com a paciência curta e tratou de tornar a conversa igualmente curta mas ainda assim atrasou-se e quando chegou o shopping já estava de portas abertas, luzes acesas, clientes circulando e o jingle de Natal repetindo-se ad infinitum pelos corredores. Jorge, o secretário, recebeu-a no escritório da administração com um ar atento e preocupado e um bolo de papéizinhos na mão.

– Ah, que bom que você chegou! A bomba da água do ar condicionado quebrou de novo. Já chamei o Roger, e ele já está trabalhando, mas quer falar com você assim que puder. Parece que vamos ter mesmo de trocar a peça...

– Você chamou o Roger e ele apareceu? Cruzes, hoje chove!

– Seu pai ligou e lembrou do jantar de amanhã a noite...

–T á.

– A Lurdinha passou aqui e queria um vale, então eu emprestei cem reais para ela.

Rosana olhou o secretário com ar descrente.

– Cem reais? Tá louco, Jorge, quando é que você pensa que vai ver a cor do seu dinheiro de volta?

Ele deu de ombros, um pouco corado.

– Ela disse que era um presente para você...

– Nem que fosse para a Madre Tereza de Calcutá. Você sabe muito bem que ela vai terminar gastando tudo no bingo. O nosso Papai Noel já chegou?

Por um instante mínimo, brevíssimo, o suspiro de um anjo, Rosana alimentou a esperança de que o tal sr. Biglon não aparecera, que ela ia poder chamar outro sujeito. Mas Jorge sorriu animado:

– Oh, sim! Sentou-se pontualmente às 10:00 na cadeira do Papai Noel e está "atendendo" desde então. Já faz uma hora e ele nem pediu para ir ao banheiro.

Rosana respirou angustiada. Augusto Lima sofria de incontinência urinária. Saia do seu posto de quinze em quinze minutos no máximo, e corria para o banheiro dos cavalheiros. Às vezes os meninos o seguiam só para conferir que Papai Noel usava o mictório como todo mundo.

– E as crianças? Estão gostando ou temos muito choramingo?

– Elas o adoram! – riu Jorge como se fosse um dos pequenos clientes do velho. – Puxam a barba, riem, cochicham coisas em seu ouvido. Quando ele sentou-se havia apenas dois para fazerem seus pedido. Vinte minutos depois, havia uma fila até a metade do café.

Bem, tudo parecia sob controle. Nada com que se preocupar, além das preocupações corriqueiras. Ela abriu a agenda e consultou os compromissos.

– Claro que... o sr. Biglon fez algumas exigências, – titubeou Jorge.

Rosana levantou os olhos bem devagar.

– Quais?

– Pediu uma garrafa de água.

Ela balançou a cabeça.

– É justo. O que mais?

– Bom... ele... pediu que desligássemos o alto-falante da casinha do Papai Noel. Disse o que o jingle era de muito mau gosto.

Rosana empurrou-se contra o assento da poltrona.

– E...?

– Bom, Rosana, ele fez o pedido de um jeito tão... tão...

– Contundente?

– É... talvez. Em todo o caso, argumentou tão bem, que eu terminei concordando.

–Então a casinha do Papai Noel está sem o jingle que foi escrito para tocar na casinha do Papai Noel e que nos custou os olhos da cara.

– É...

Ela mordeu o lábio, pensativa.

– Certo, vejo isso em seguida.

– Tem mais uma coisa.

Rosana cruzou as mãos sobre a mesa e esperou. Jorge olhou ao redor, confuso.

– Ele não gosta da decoração, você sabe. Disse que não combina com o seu figurino. "Meu traje", foi o que ele disse. Então ele... ele... eu não sei bem como explicar, mas ele mudou a decoração da casinha.

Rosana concordou com a cabeça, bem de leve. Uma ponta de dor de cabeça latejava discretamente sobre a têmpora.

– Muito bem. Vamos ver isso imediatamente. A fila de crianças realmente chegava até a metade do café. Alguns dos pequenos esticavam o pescoço na tentativa de ver o que acontecia lá na frente, e por quê a fila não andava mais depressa, mas nenhum deles fazia qualquer tipo de escândalo. O que era muito bom, sem dúvida alguma. Rosana aproximou-se da árvore de Natal, deu a volta no cercadinho cheio de duendes de fibra e isopor e já de longe percebeu a casinha do Papai Noel. De fato, havia alguma coisa diferente. Alguma coisa que ela não sabia dizer o que era. Era a decoração que a irmã fizera, sem dúvida. Nenhuma panela, copo ou coisa alguma havia sido modificado. Mas ao mesmo tempo tudo estava fora do lugar. Ela olhou para o cenário e piscou.

A luz! O sr. Biglon havia mexido na luz! Devia ter apagado umas quantas lâmpada, porque a casinha antes alegre, iluminada e quase tão ensolarada quando a praça lá fora, que ardia sob um sol de quase trinta e cinco graus, agora estava cheia de sombras inesperadas, invernais. O candeeiro sobre a mesa parecia exalar a luz de um candeeiro de verdade, o cheiro da querosene impregnando o ambiente. O tinteiro destelhava lampejos de chama e cristal, como se dentro dele houvesse tinta de verdade. A boca do fogão, mais atrás, tremulava em laranja e dourado, como se ali dentro alguém de fato tivesse acendido o fogo. A parca iluminação, entretanto, acentuava esplendidamente os tons de cobre das panelas penduradas sobre o chapa do fogão e a chaleira, também de cobre, fumegava de verdade. As teias de aranha pareciam reais, velhas e empoeiradas, e a própria poeira sobre o console da cristaleira do fundo do cenário, esbranquiçada e cintilante, tinha um ar de coisa verdadeira. A criança no colo de Biglon olhava para ele extasida.

Quando Rosana bateu os olhos no traje do homem, o sangue ferveu. Não, aquilo não era roupa de Papai Noel, nem aqui, nem na China! De baixo para cima: chinelos de lã xadrez velhos e felpudos; meias de listras brancas e vermelhas, alternadamente; calça de um tecido de lã marrom, até a metade da canela, segura por um suspensório de couro ricamente trabalhado; camisa de flanela branca, alva de um jeito como ela jamais vira, com botões de madrepérola e dourado; um cachecol vermelho descansando sobre os ombros; a barba do cavanhaque e no bigode ruiva, caprichosamente penteada e terminada em um bico, os cabelos (ruivos) escovados para trás e isso era tudo. Nada de roupa vermelha, barba branca e longa, touca, saco de brinquedos, botas, barriga, nada disso. Era apenas o velho Sr. Biglon, vestido com o que provavelmente o sr. Biglon usava em sua casa durante o inverno, sentado em uma cadeira de madeira (que, Rosana tinha certeza, ele mesmo havia trazido de casa) com uma menina no colo, ambos conversando animadamente, como velhos amigos. Junto ao cordão vermelho que separava a casinha do restante, uma mulher com os olhos úmidos e um sorriso imenso, não cansava de fotografar a cena. Rosana viu que havia algo muito correto e algo muito errado naquilo tudo, e não era a roupa ou a iluminação da casinha. Era algo muito, muito diferente.

– Com licença, senhora, – ela interrompeu o mais amavelmente que pode. – É sua filha?

A mulher piscou, secou uma lágrima.

– Sou sim. A senhora é do shopping? Ah, a senhora não imagina o que significa isso! Não sabe, não imagina! Não tem nem idéia!

Rosana trocou um olhar com Jorge.

– Estamos fazendo uma pequena pesquisa... gostaríamos de saber o que a senhora achou do nosso Papai Noel... mas parece que a senhora gostou...

– Se eu gostei? Se eu gostei? Meu Deus! Não tenho palavras... não, não posso! Sinto muito!

Soluçou, as lágrimas correndo pela face. Rosana olhou ao redor, nervosa. As outras mães, na fila, olhavam para a mulher com apreensão.

– Eu não entendo... só queríamos saber o que achou do sr. Biglon...

A mulher atirou-se nos braços de Rosana, soluçando. A gerente do shopping sorriu amarelo para as demais. Uma loura abraçou protetoramente o filho e afastou-se. No mesmo instante, o menino começou a berrar como se alguém estivesse arrancando seu couro cabeludo.

– O seu Papai Noel é tudo... tudo de bom! É um pouco incomum, sabe, sem a barba branca e tudo o mais – murmurou a mulher quando finalmente conseguiu falar. – A casinha é meio sombria, parece tão suja... mas minha filha... minha filhinha... ela está conversando com ele, tão animada! Tão animada!

O homem tinha jeito com crianças, pensou Rosana cada vez mais de mau humor. Ele realmente tinha jeito com crianças.

– Ela disse... ela chegou aqui e quando ouviu a musiquinha, disse... "mamãe, esta é a música que a neve faz quando cai?". Já pensou? Esta é a música que a neve faz quando cai! Meu Deus, que lindo! E foi correndo falar com o Papai Noel.

– A senhora gostaria de ver um médico? Está tão nervosa... – argumentou Jorge, gentilmente. A mulher olhou para ele como se visse uma assombração.

– Vocês não entendem... como poderiam entender? Fazem oito meses que Anette não diz uma palavra! Oito meses, desde que o pai dela foi enterrado!

Sorriu, encantada.

– E agora, olhem só, olhem para ela! Que tagarela que ela é! Que tagarela!

Rosana afastou-se da mulher devagar. Havia uma música no ar, de fato, mas a dor de cabeça começava a transformar-se em uma enxaqueca das graves e ela não conseguia prestar a atenção em mais nada. Viu quando a menina beijou a bochecha de Biglon e saltou de seu colo com um sorriso iluminado, correndo para a mãe com alegria. A mulher a pegou nos braços e encheu de beijos.

– E então, Neti, o que foi que você pediu? – soluçou. A menina, muito séria e preocupada, passou a mãozinha sobre o rosto dela.

– Você está chorando, mamãe! – protestou.

– Não é nada, meu bem. O que você pediu?

A garotinha fez cara de mistério.

– Ah, não posso contar. Senão, o Papai Noel disse que não acontece.

– Mas como a mamãe vai poder comprar o presente para dar para o Papai Noel dar para você? – protestou a mulher carinhosamente.

– Ah, isso? Isso eu posso dizer: eu pedi para o Papai Noel uma boneca fada.

– Ah, meu anjo! Isso mesmo, isso mesmo! Vamos, lá, correndo, comprar!

As duas afastaram-se alegremente, cheias de espírito natalino. Rosana olhou para a casinha e o sr. Biglon acenou alegremente para ela. Então um menino entrou no campo de visão da moça, subiu no colo do homem e puxou-a a barba com força. Ele gemeu e olhou para o menino com uma expressão carrancuda. Os dedos do homem, dedos longos, fortes, nodosos, de unhas muito longas, bateram na mesa com impaciência e desagrado. O menino encolheu-se e murmurou desculpas.

Era o bastante. Rosana virou-se, tateou o braço de Jorge e murmurou:

– Me leva para o escritório e chama o Dr. Rubens que eu vou precisar.

 

Três dias depois, a segunda-feira raiou promissora. Dezembro inaugurou-se com uma manhã quente e céu de brigadeiro. Rosana conseguiu levantar-se no horário, fazer tudo com calma e sentar-se em sua cadeira antes das nove da manhã. Pediu um café preto e forte a Jorge, consultou a agenda quase com um sorriso nos lábios: de todos os problemas pendentes, os únicos que ainda não estavam bem solucionados era uma discussão em torno da publicidade ousada de uma loja de roupas íntimas e um vaso entupido no closet destinado aos deficientes físicos. De resto, até a bomba d’água do ar condicionado tinha sido substituída e agora funcionava perfeitamente. Era bom demais para ser verdade, por isso ela quase não se espantou quando Jorge bateu na porta discretamente e espiou com um ar que prenunciava chuvas e trovoadas.

– Rosana... hum... tem um sujeito aqui querendo falar com você... ele é... hum...

Virou-se, conversou com alguém.

– Desembucha logo, Jorge, – exigiu a empresária batendo com o canto do lápis que utilizava para anotar detalhes do balanço parcial do mês anterior.

– Bom, o detetive Gilberto da polícia civil quer falar com a senhora.

Detetive? Uma bola fria formou-se na boca do estômago da moça. Era óbvio que em pouco menos de meia hora, a bola fria teria se transformado em uma pequena fornalha.

– Pois diga ao policial que entre, Jorge, e aproveita para me trazer o sal de frutas.

Baixou os olhos um momento, guardando os papéis em uma pasta, perguntando-se que tipo de bobagem Lurdinha havia aprontado agora, ou se o problema teria origem naquele cafajeste do seu ex-marido, e seu eterno pedido de revisão na pensão do filho de ambos e aquele papo insuportável de "você dá mais atenção à esse templo do consumo do que à nós!", que tinha terminado no divórcio há menos de um ano. Era muito cansativo, mas Jonas não se acostumava ao fato de que já não tinham nada que ver um com a vida do outro. Alguém pigarreou e Rosana levantou os olhos.

Se esperava um homenzinho baixo, de cabelos desgrenhados e sobretudo velho e sujo, feito um certo detetive que entretinha as noites de sexta-feira na casa de sua infância, decepcionou-se. O homem diante dela era alto, jovem, cheirando à sabonete e desodorante caros. Tinha enormes olhos negros incrustados em um rosto de ébano, franco e bem humorado.

– Bom dia – disse ele estendendo a mão grande e elegante, que ela apertou com firmeza. – Eu sou o detetive Gilberto e este aqui é o meu assistente, Lucas.

– Oi, – fez um sujeito emergindo de trás do homem e acenando de leve. Parecia alguns anos mais velho do que o superior, mas o certo é que sua careca e os óculos feios contribuíam e muito para essa impressão.

– Puxa, –comentou ela, tentando ser gentil – que prazer ver um policial tão jovem! Sentem-se, por favor. Em que posso ajudá-los?

Jorge entrou trazendo uma bandeja de alumínio onde descansavam três xícaras de cafezinho, o açucareiro, o adoçante, meio copo de água e o envelope de sal de frutas. Rosana não fez cerimônia e serviu-se do primeiro, enquanto os outros dois agradeciam o café.

– Senhora, estamos investigando o desaparecimento de um menino chamado Gino Martinho.

Rosana pensou um pouco e balançou a cabeça.

– Não o conheço.

– Nem eu esperava que a senhora o conhecesse, – declinou Gilberto com delicadeza. – Gino tem sete anos e desapareceu de seu quarto na noite de sábado. Estamos verificando seus últimos contatos, e consta que o menino e seu pai estiveram no shopping no sábado. De acordo com o homem, ambos vieram ao cinema, lancharam na área de alimentação e visitaram várias vitrines para escolher o presente que o Papai Noel traria. Depois foram para casa, e o senhor Martinho, que é separado, colocou o menino na cama. Pela manhã, a criança havia desaparecido. Queremos sua permissão para visitar as lojas onde eles estiveram, conversar com os atendentes, com o pessoal do cinema, das lancherias, essas coisas.

Presente. Papai Noel. Uma campainha buzinou uma advertência na cabeça de Rosana e ela estremeceu. Lucas, o assistente do detetive, achou que era por causa do sal de frutas e do ar condicionado. A mania das pessoas por ar condicionado era uma coisa que ele não entendia direito. Era insuportável. Muito frio. Ou muito quente. Mas, normalmente, muito frio. Horrível!

– Perfeitamente. O senhor tem carta branca da gerência do shopping para interrogar quem quiser. Vai querer uma sala específica para isso?

O detetive sorriu outra vez, um pouco contrariado. Que mania que as pessoas tinham de somar "perguntas" e "polícia" e obter "interrogatório" e "ditadura".

– Senhora, nós não vamos interrogar ninguém. Só queremos conversar com algumas pessoas em seu próprio local de trabalho. Pode, por favor avisar que estaremos passando?

– Sim, claro! É só dar uma lista das lojas que pretendem visitar para o meu assistente, que ele já vai ligar para os gerentes dos respectivos estabelecimentos e avisar da sua... aham... bem, como vamos dizer? Visita?

Gilberto aquiesceu.

– Visita, está correto.

Rosana ficou olhando para ele com um sorriso gelado, enquanto chamava Jorge. Passou as ordens para o rapaz e arrematou, suavemente, enquanto os dois policiais seguiam o rapaz:

– Suponho que podemos contar com a sua discrição. Não é muito agradável para os clientes do shopping imaginar que a polícia anda por aí fazendo perguntas a respeito da vida delas, nem que seja por causa de sua própria segurança. O senhor entenderá: muita gente acha isso uma intromissão em sua intimidade.

O detetive parou junto da porta, voltando-se para ela e dirigindo-lhe outro sorriso iluminado. O pequeno grupo se deteve.

– Seremos discretos, pode deixar. Para dizer a verdade, eu esperava uma resistência bem maior por parte da gerência.

Presentes. Natal. Papai Noel. Rosana achou que aquela dor de cabeça estava querendo aparecer de novo. A azia já se instalara.

– O que é isso, delegado! – ela sorriu outra vez. – Eu não gostaria de ver o nome do shopping envolvido em uma investigação, por isso, seria bom se o senhor descartasse o quanto antes a idéia de que o seqüestrador do menino tenha circulado por nossos corredores. A idéia de que seja alguém que trabalha aqui, então, é simplesmente impensável!

– Detetive, – corrigiu Gilberto balançando a cabeça. – E essa é a atitude mais inteligente que já vi neste caso, desde que começamos a trabalhar nele, ontem à noite. Até logo.

– Até sempre, detetive. Se pudermos ajudar em mais alguma coisa não hesite em me procurar – ofereceu ela, desejando que aquela rasgação de seda terminasse de uma vez.

– Na verdade, – intrometeu-se o ajudante do policial – tem uma coisa que a senhora poderia fazer, na minha opinião.

Todo mundo olhou para o homenzinho que parecia imensamente satisfeito por poder intrometer a sua colher na conversa. Rosana, particularmente, já nem lembrava o nome do sujeito.

– E o que seria?

– Ah, minha senhora, a temperatura do saguão! Pelo amor de Deus, estamos quase no verão, mas assim já é demais! – reclamou o homem aborrecido. – Faz um frio tamanho no saguão, um frio tamanho, que se continuar assim termina nevando de verdade sobre a árvore de Natal.

– Lucas! – ralhou o detetive entredentes.

– Eu só estava tentando ajudar... – balbuciou o outro, enrubescendo até a careca.

Um estremecimento mínimo percorreu Rosana e ela balançou a cabeça.

– Pode deixar, senhor, pode deixar. Em seguida eu vou dar uma volta no shopping e verificar se está tudo funcionando direitinho. Verificarei pessoalmente a temperatura do ar condicionado.

Quando a porta se fechou ela esperou alguns minutos e então ligou para o assistente.

– Estou descendo para ver se está tudo certo, Jorge. Quando você terminar de falar com as lojas, encontre-me junto da árvore de Natal.

Levantou-se, consultou o relógio: passava um pouco das nove e meia.

Já ia saindo, quando algo a fez voltar, abrir o pequeno armário à direita da sua mesa e tirar de lá um casaco pesado, que usava só no inverno, e que sempre ficava no escritório para o caso de alguma emergência.

Suspeitava fortemente que aquela era uma delas.

 

Na decida da escada de serviço, Rosana cruzou com Alonso, o da livraria. O homem usava um bigode enorme, grisalho, tinhas sobrancelhas largas e grandes. Era alto, magro, e as bochechas chupadas, como se sempre estivesse de mau humor, mas era só aparência. Mal viu Rosana, abriu um sorriso bem humorado. Estava sempre atrasado com as taxas de manutenção e limpeza do shopping mas nunca economizava na alegria.

– E então? Teremos um Natal branco, como se fôssemos Londres ou Paris?

Rosana parou no meio do caminho, pensando que o tema da decoração tinha sido estipulado em vermelho e verde, para aquele ano. Nada de branco e prata. Já tinham tido branco e prata há dois anos, será que ele não lembrava?

– O senhor não esteve na reunião sobre a decoração natalina? – perguntou. O sorriso do outro transformou-se em uma careta surpresa.

– Decoração natalina? O que a decoração natalina tem a ver com isso?

– Não está falando da decoração natalina?

– Não. Estou falando da temperatura do saguão – retrucou ele. O sorriso voltou, um pouco forçado. – Eu sei que faz calor, mas isto já é um exagero. Vai afastar os clientes.

Riu, alegre de novo.

– Ou ajudar nas vendas do estoque de inverno da malharia do segundo andar! Eles devem ter ficado com um monte de produtos encalhados neste inverno. Não tivemos inverno de verdade, a senhora sabe, efeito estufa e essas coisas. Meu sobrinho é ambientalista, dá aulas sobre isso. É esse o seu marketing? Se for, me avise. Vou trazer a máquina de café de volta para a livraria e substituí-la pela de sucos!

O ar condicionado. Sim. Rosana estremeceu.

– Vou verificar isso – resmungou – antes de descer.

Deu meia volta e apressou-se a subir.

O último andar do edifício era um espaço amplo, quente e abafado, onde a luz do sol infiltrava-se muito clara pelas aberturas da cumeeira do telhado de amianto. O espaço era usado como estacionamento e o ar condicionado ficava no canto mais afastado e sombrio. Era um trambolho velho e ultrapassado, legado que a gerência anterior tivera a impertinência de definir como "pequeno probleminha térmico". No inverno, não dava conta de aquecer, no verão, não dava conta de resfriar. Vivia dando problemas e a liquidez da atual contabilidade ainda não lhe permitia investir em um aparelho novo. Mas Rosana vinha fazendo grandes progressos na área do empréstimo bancário. Esperava que logo, logo, o gerente da agência do próprio shopping percebesse que trocar o monstro quimérico atrás da grade amarela e da placa "Não passe. Perigo de morte" era imprescindível para o futuro do estabelecimento.

O aparelho enorme, empoeirado e velho, roncava a todo volume, ecoando pelo estacionamento vazio. Quando encontrava-se à poucos passos de lá a coisa emitiu um apito e o que quer que roncasse dentro dela parou de repente de fazer barulho. O aparelho sacudiu-se como um monstruoso cachorro molhado e silenciou. Rosana revirou os olhos e puxou o celular da cintura, mas não chegou a abri-lo. Ouviu alguém praguejando em voz alta. A porta da grande de segurança estava aberta – o que contrariava as normas – e ela entrou no estreito corredor que circundava a máquina, intrigada. Encontrou Adams, o zelador das garagens, empunhando uma chave inglesa e pronto para desferir um golpe na velharia recalcitrante.

– Não se atreva a fazer isso, se não quiser que o conserto dessa coisa saia do seu pagamento! – explodiu Rosana saltando para agarrar a ferramenta.

O homem virou-se assustado e tossiu descontroladamente.

– Dona Rosana! – fez ele, quando conseguiu recuperar o fôlego.

– Eu mesma. Posso saber o que pensa que está fazendo? – gritou ela com as mãos na cintura.

– Estava tentando consertar...

– Batendo nesse troço com uma chave inglesa? Por acaso ninguém lhe ensinou como usa-la? E por falar nisso, que história é essa de estar aqui dentro, mexendo no ar condicionado? Entende do assunto, por acaso?

– Eu queria arrumar... o técnico esteve aqui não faz nem uma semana! – ele gaguejou humildemente. – Foi ele que me disse que se eu precisasse abrir o registro da saída de água, talvez tivesse de dar umas batidinhas com a chave...

– O senhor tem um minuto para sair daqui. Um minuto! E me deixe a chave da grade.

– Dona Rosana, não fique zangada, eu lhe peço. Olha, não vá me deixar na mão, hein? Eu não tive culpa! Nem mesmo encostei nessa coisa! Quando cheguei ele já estava regulado para esquentar! Foi o termostato! Deve estar quebrado! Eu não fiz nada! Nada!

A moça ficou em silêncio, mas estendeu a mão para ele. A súplica do outro caiu para um resmungo tristonho quando separou a chave que ela pedira do molho e depositou-a na mão delicada mas firme.

–S e o técnico verificar qualquer avaria ocasionada por alguma violência, vamos conversar muito seriamente, entendeu? – ela comentou quando ele passou por ela arrastando os pés. O rosto do homem iluminou-se.

– Obrigado, dona Rosana! A senhora é uma santa!

Rosana fitou-o em dúvida e ficou olhando ele sair do recinto gradeado e fechar a porta. Os passos se perderam rapidamente na direção do controle do estacionamento e depois tudo ficou muito, muito quieto. Era um silêncio morto e quente, como se alguém a tivesse empurrado para dentro de um forno aceso e fechado a porta.

Pouco dada à impressões, a moça voltou sua atenção ao maquinário estragado. Havia vários relógios de pressão que não significavam nada para ela. Era como um cacho de olhos brancos e mortos de alguma criatura sombria e pesada, que se acoitava no calor sombrio da garagem superior. Bateu sobre um deles, cujo ponteiro, murcho apontava para o zero e em outro, imóvel, que assinalava "80". Gostaria de saber "80" o quê, pensou ela voltando sua atenção para o termostato, o único que ela reconhecia e do qual conseguia extrair alguma informação. Mesmo que fosse aquela sandice.

O marcador indicava menos cinco.

Franziu o cenho, bateu sobre o mostrador, que não se moveu.

Cinco graus negativos?

Não era de admirar que a máquina pifara. Se o termostado marcava uma temperatura dessas, o mecanismo ajustava-se automaticamente para aquecer. E com o calor que fazia ali em cima, o mínimo que se podia esperar, é que alguma coisa queimasse ou derretesse dentro do aparelho.

Devia estar muito quente, lá em baixo. Ou, pelo menos, todo mundo deveria de estar reclamando de calor, não de frio. O melhor a fazer era chamar Roger e pedir que ele viesse o mais depressa possível.

– Droga! – resmungou ela, puxando o celular.

Não havia sinal.

Verificou a bateria – completa – , sacudiu o aparelho, e nada.

Súbito, alguma coisa dentro do ar condicionado estalou como um tiro e um jato de vapor escaldante jorrou bem à frente dela com um apito inesperado, seguido de um chiado alto. Rosana deu um salto, o coração querendo lhe sair pela boca. O celular voou de suas mãos e foi parar embaixo do monstrengo de lata e filtros velhos.

Irritada, chutou a coisa de metal. Oh, sim, o dia prometia ser infernal!

 

Toda aquela confusão com o ar condicionado havia lhe custado bem mais tempo do que esperava. Quando a gerente chegou ao térreo do shopping e verificou o relógio, faltavam seis minutos para as portas do estabelecimento abrir. Seis minutos não era nada. Rosana passou pela chefe dos seguranças e avisou que deviam retardar a abertura das portas até uma segunda ordem. A mulher a fitou curiosa e Rosana nem sequer se deu ao trabalho de explicar alguma coisa. Caminhou apressada para a área do saguão sentindo, à cada passo, como a temperatura baixava de maneira espantosa e, sem diminuir o passo, vestiu o casaco por cima da roupa suja pela poeira do estacionamento. Continuou andando, zangada demais para sentir frio, apressada demais para prestar atenção nos atendentes dentro das lojas, que espiavam de olhos arregalados, e distraída demais com a dúvida de se Jorge a estava ou não diante da árvore de Natal, como haviam combinado. Esperava que ele estivesse com o telefone celular à mão, para chamar Roger imediatamente. Depois teria de dizer-lhe que pedisse à Adams que recuperasse seu próprio celular de debaixo do ar condicionado, se é que o delicado aparelho que a mãe lhe dera há duas semanas ainda estava em condições de funcionamento. "Canta, dança e sapateia", dissera-lhe a mulher. Ninguém falara nada de impactos e nem de altas temperaturas.

Quando chegou no saguão, parou de repente, confusa.

Por alguns instantes intensos pensou que havia errado de porta e, de alguma maneira que não entendia, atravessado um umbral estranho e maravilhoso que a transportara a algum outro lugar. A pele do rosto contraiu-se debaixo da maquiagem de verão, sob o impacto do frio. Ela sacudiu-se abominavelmente, envolta pela temperatura mais baixa que já sentira. Apertou o casaco em torno de si, esquecendo qualquer resquício de elegância que ainda tivesse sobrevivido e escondeu as mãos sob as axilas, como fazia quando era pequena e morava com o pai e tinha de ir à escola sem agasalho ou luvas. Diante de sua boca entreaberta de espanto, formou-se uma pequena nuvem branca de vapor.

Mas isso era apenas uma parte de tudo.

Percebeu que dentro das lojas, os atendentes encolhidos e próximos uns aos outros, fitavam-na assustados. Havia muita gente refugiada nos restaurantes da área de alimentação, próximos aos balcões de buffet. Rosana supôs que estivessem com as bocas de gás acesas. Na pizzaria de forno à lenha – que nessa época costumava ficar às moscas – uma pequena multidão se aglomerava – entre eles, Jorge, que acenou-lhe aflito. Mas nem um grito se ouviu, nenhum som. O silêncio ali em baixo era ainda maior do que o do estacionamento, embora tão delicado que parecia que qualquer coisa poderia rompê-lo: o suspiro de uma abelha, o vôo de uma libélula, o cintilar de uma estrela. Olhou para a árvore de Natal. Alguma coisa estava diferente – muito diferente. As luzes pareciam mais vivas, embora menos intensas, tremulando como chamas de velas, quentes, macias, acolhedoras. Ela sabia, de alguma maneira que nem pensava em como explicar, que os enfeites – brinquedos vermelhos – agora eram outros. No lugar dos cavalinhos, trombetas, bonecas, todos de plástico, havia agora cavalinhos de madeira, trombetas de metal dourado que emitiriam uma nota aguda, se sopradas, e bonecas de pano de verdade. E as estrelas, as estrelas de cartolina, lantejoulas e lampadazinhas agora brilhavam como se...

... como se as próprias estrelas do céu estivessem presente!

Outro arrepio violento a sacudiu como um vendaval, e Rosana deu um passo para dentro do saguão, como o intuito de dar a volta na árvore e refugiar-se com os demais na pizzaria, enquanto pensava em quem chamar – os bombeiros, talvez? –, mas então deteve-se outra vez, esticando o pescoço para frente, tentando ver o que acontecia ao pé da árvore. Ali havia um azáfama estranho, que não percebera nos dias anteriores. O movimento lento e repetitivo dos duendes mecânicos tinha sido substituído pelo ir e vir intenso e inconstante de uma série de pequenas sombras. Rosana fixou os olhos, saltitando continuamente na tentativa inútil de aquecer-se, mas ainda assim, não conseguia compreender o que era aquilo. A mirada desviou-se lentamente, incrédula, para a chaminé da casinha do Papai Noel, uma casinha maior do que a que tinha sido construída originalmente, como se o cenário tivesse inflado durante a noite. E da chaminé provocante emergia uma fumaça azul acinzentada que espalhava pelo saguão o cheiro bom de madeira crepitando alegre, pão recém tirado do forno e café com leite bem quente. Rosana seguiu a fumaça em sua ascensão com olhos famintos de calor, seguiu-a até a ponta da árvore que parecia viva, parecia crescer e respirar como ela nunca percebera que as árvores faziam, uma árvore com vontade própria.

E justamente ali, entre a balaustrada do segundo e do terceiro andar, a fumaça se perdia em uma nuvem densa, escura, cor de chumbo, uma nuvem que cresceu, condensou-se, iluminou-se com um relâmpago e começou tranqüilamente à nevar, como se isso fosse possível, como se isso não fosse um verbo impessoal. A neve flutuou como mágica ao redor dos galhos verde-escuros, o verde mais escuro e sombrio que Rosana já vira, mesmo em sonhos, um verde em cuja sombra ocultava-se tudo o que assombra a infância e onde brilhava distante e tímido, tudo o que a ilumina: o monstro do armário, o anjo da guarda, o bicho-papão, a fada madrinha, a mão que bate, o abraço carinhoso. A neve caiu na árvore, enquanto as sombras ao pé dela acoitavam-se em seus galhos mais baixos, condensou-se nos ramos e então diminuiu até quase parar. Em seguida a árvore sacudiu-se para livrar-se do excesso, e depois disso as sombras saíram do pé dela, deram-se as mãos em uma roda e puseram-se a pular e correr, enquanto entoavam o canto de Natal mais belo e mais irritante que alguém já ouvira.

Mesmo em sonhos.

Aquilo era, francamente, demais! Rosana avançou para a casinha do Papai Noel a passos duros, deixando momentaneamente de importar-se com o frio, com os olhares dos funcionários das lojas, com as incômodas alterações da árvore de Natal. Ignorou até mesmo as sombras que cantavam e dançavam sob os galhos mais baixos, embora isso fosse um esforço extra. Seus olhos desviaram-se para elas apenas por um momento e o que viu foi o bastante: olhos arregalados, orelhas pontudas, narizes avermelhados. Talvez alguns chapéus de feltro, mas não tinha certeza. O que a fez desistir dos vultos foi a pele verde acinzentada. Parou diante da frente do cenário e praguejou em voz baixa.

Alguém pusera uma parede ali, e na parede havia uma porta e uma janela igual às janelas que adornavam as outras paredes. Porém, inacreditavelmente, era possível ver através da nova parede. Estava ali, era sólida, parecia perfeitamente sólida, mas ali estava a mesa, a cadeira, o abajur, o fogão (com o fogo tremulando em seu interior), as panelas de cobre, as outras janelas e o homem ruivo das calças curtas e chinelos de lã.

Tudo tem um limite, Rosana pensou. Aproximou-se da porta (de muito longe ouviu uma voz gritar seu nome, como se a chamasse através da estepe árida e gelada que enxergou ao espiar sobre o ombro. Talvez o grito viesse do bosque à esquerda, mas resolveu não dar atenção a nada mais a não ser a porta diante de si, não agora, não mais. O bosque e a estepe haviam soprado o shopping para longe e ela perguntou-se, finalmente, o que é que as crianças viam quando iam até a casa do Papai Noel substituto) e então ergueu a mão e bateu com força e determinação.

– Entre, está aberta, – disse o sr. Biglon.

Ela puxou um pedaço da manga do casaco para baixo, meteu a mão protegida por ela na maçaneta (nem por um momento duvidou que deixaria a pele em sua superfície gelada, caso não se precavesse) e entrou.

O calor da casinha a acolheu com um prazer quase brutal. A moça cambaleou na soleira da porta, enregelada, percebendo afinal o quanto estivera próxima a um fim branco. O Sr. Biglon a encarou com os olhos muito azuis e aborreceu-se:

– Pelo amor de Deus, feche essa porta. Está gelado lá fora!

Rosana obedeceu, com uma certa gratidão. De súbito sentiu como a sombra empoeirada da casa a acolhia com seu calor e silêncio, como se ao fechar a porta o tivesse feito sobre uma terrível algazarra de luz e frio. Respirou fundo apoiando a testa na porta de carvalho antigo, sentindo o cheiro de pinheiros e resina desconhecida. Depois endireitou as costas. Aprumou como pode o casaco e a saia, mas não tirou os sapatos encharcados da neve do curto caminho entre o portãozinho do jardim da casa e a portinha – entre o saguão do shopping e o cenário do Papai Noel. Voltou-se. O sr. Biglom a fitava reclinado na poltrona, observando-a, analisando-a, e fumando aquele cachimbo enorme, que emitia uma fumaça dourada.

Rosana piscou. No momento, parecia procurar as palavras adequadas, mas então viu, à sua esquerda, um mural no qual havia vários recortes do jornal da semana. Aproximou-se, leu as manchetes.

"MÃE E FILHA SOFREM ACIDENTE FATAL NA SAÍDA DO SHOPPING"

"PILOTO ENLOUQUECE AO AFIRMAR TER VISTO MENINO VOANDO AO LADO DE BOING"

"UMA ADOLESCENTE EXIBE, NA INTERNET, FOTOS DO INTERIOR DO VESTIÁRIO DO TIME DE FUTEBOL LOCAL LOGO APÓS A PARTIDA DE SÁBADO"

"MENINA DEVORA TODOS OS PRODUTOS DA PADARIA"

"DESAPARECIMENTO DE MENOR CAUSA APREENSÃO"

"MENINA SUPOSTAMENTE DEVORADA POR CÃES"

Rosana franziu o cenho e cruzou os braços. Tinha recomeçado a tremer.

– O que é isto? O senhor coleciona manchetes bizarras de jornais sensacionalistas? – perguntou num fio de voz.

Isto são as manchetes que ilustraram os jornais locais da sua cidade no fim de semana. Em que planeta a senhora vive?

Rosana desviou o olhar das notícias. Em particular, desviou o olhar da primeira e da última delas.

– O que significa isso?

Ele suspirou, irritado.

– Muito bem. Vejo que a senhora, ao fim e ao cabo, não entendeu nada e não pôde deixar de vir de improviso. Percebe que está violando o artigo 25 do contrato firmado? A senhora se arrisca a pagar uma multa.

O calor voltava muito rapidamente à Rosana. Ela apoiou-se na mesa e olhou o homem bem de perto.

– Uma multa? Por quê? – indagou, tentando tomar pé no assunto. Finanças parecia um bom começo: eram feitas de números e contratos e eram, portanto, algo sólido.

– Porque quebrou o artigo 25 do contrato que firmou com a "Personagens de Festa"!

Ele puxou um papel de uma gaveta, ajeitou os óculos sobre o nariz e leu:

– "Artigo 25: o empregador deverá informar qualquer visita de inspeção com pelo menos vinte minutos de antecedência. Caso contrário, se verá sujeito à multa estipulada no artigo 32 do Capítulo IV ‘Das Multas’"... etc.etc. Tenho certeza de que leu o contrato na íntegra antes de assinar. Não se faça de desentendida.

Rosana começou a rir. A situação parecia tão ridícula, depois de tão impossível, que não pode impedir as gargalhadas que a faziam dobrar-se diante da mesa.

– A senhora pode não achar tão engraçado quando nosso advogado a procurar, – observou o sr. Biglon guardando sua via do contrato. O acesso de riso redobrou. Mas, como tudo, depois de alguns minutos, o riso desapareceu. De alma lavada, Rosana sentou-se em uma cadeira puxou um velho maço de cigarros esquecido no bolso do casaco desde o inverno anterior e acendeu um para si.

– Não devia fumar, – observou o outro com um ar carrancudo. – Além do mais, estamos atrasados. Onde estão os clientes do shopping?

– Por que não? O senhor também fuma, – observou Rosana apoiando os pés gelados e molhados em um banquinho diante do fogão. – E estamos atrasados, claro. Os clientes devem estar se perguntando por que diabos o shopping não abre. E o shopping não abre, caro senhor, porque os seguranças tem ordem minha de não fazer nada até segunda ordem. Isso para não contar o pessoal que me viu entrar na sua... casa (ou talvez sumir na estepe, quem sabe?) e deve estar se perguntando porque não saio daqui. E, é claro, temos aqueles dois policiais que estão no meu shopping, fazendo perguntas sobre quem viu pela última vez um garotinho que é, no fim das contas, meu cliente. O senhor sabe do que eu estou falando?

– Sei, – respondeu o sr. Biglon tranqüilo.

Rosana o fitou através da fumaça do cigarro. Por que não estava surpresa?

– Por que não estou surpresa?

Ele balançou os ombros. Ela fez uma careta.

– Quer saber? Acho que foi o pai. O pai o matou e agora fica dizendo que alguém veio à noite e levou seu filho. Ou então ele o levou para um lugar retirado e está se fazendo de vítima... por que está fazendo que não com a cabeça?

– Você está enganada. O pai é inocente. Isso não tem nada a ver com o pai, absolutamente nada, – insistiu o sr. Biglon enchendo o cachimbo de novo. Pegou uma longa vareta que expôs ao fogo vivo do fogão, depois levou a chama até o seu cachimbo e tragou. A fumaça dourada espalhou-se de novo.

– Tem a ver com o quê? – perguntou Rosana, quando viu que ele não ia continuar.

– Ora, com o presente de Natal que ele me pediu.

Ela estremeceu. Sim, era isso, o soubera o tempo todo, desde que o jovem detetive lhe comentara sobre o caso. Embora não conhecesse os detalhes, tinha certeza absoluta de que o menino viera até Biglon e selara seu destino com ele.

– Como assim? – ela perguntou. O sr. Biglon pareceu impaciente. Levantou-se passeou pela saleta, voltou a sentar-se. O cachimbo tinha se apagado.

– Vamos ver, senhora: fui contratado como Papai Noel substituto do shopping. Qual é a minha primeira função?

– Perguntar às crianças como se comportaram no ano – reduziu Rosana, brusca.

– Que tolice! Minha primeira função é ouvi-las. Elas vêm até mim e me pedem o que querem de Natal. Eu ouço e lhes digo: "então, é isso mesmo que você quer?" E se elas me dizem que sim, só então eu verifico se merecem o que estão pedindo. A maioria delas merece, e sabe por quê? Porque a maioria é de gente boa. Não são muitos os que afogam gatos na privada porque gostam de vê-los morrer. A maioria o faz, porque quer saber o que acontece. Bem, acontece que o gato morre, como a senhora sabe por experiência própria.

Rosana percebeu que sua mão tremia ao segurar o cigarro. Como, em nome de Deus, Biglon sabia do gato que ela afogara na privada quando era criança?

– Não é maldade, é curiosidade... – ele continuou. – Lógico que depois do segundo gato, já a coisa muda de figura.

– O que isso tem a ver com a desaparição do menino? – ela interrompeu com a voz um pouco acima do volume que pretendia empregar.

– Tudo! O menino pediu de presente de Natal ir viver em outro planeta, – Biglon sorriu e fez um gesto esquisito com as mãos. – Você sabe, etês e tudo o mais, uuuuuhhh. Mas receio que ele terminará se cansando de ser objeto de experiências biológicas, você sabe. Nossos vizinhos cósmicos não tem muito respeito pelo ser humano. Ele é apenas um objeto de estudo, apenas isto, e lamento dizer que não creio que o garoto sobreviva mais de duas semanas nas mãos deles. Os etês são criaturas muito curiosas, mas carecem de piedade. Lógico, não tem ascendência mamífera...

– Está me dizendo que o garoto foi abduzido? Espera que eu diga isso à polícia e que eles acreditem? – interrompeu Rosana.

O sr. Biglon deu de ombros outra vez.

– Estou lhe dizendo a verdade. O que a senhora dirá à polícia é problema seu.

A moça levantou-se e aproximou-se de Biglon outra vez.

– O senhor é louco? – perguntou com seriedade.

– A senhora viu nevar dentro do seu shopping e atravessou uma estepe nevada situada na praça de alimentação. Acha que estou louco? – rebateu ele, glacial.

Rosana não disse nada por um momento. Ele aproveitou:

– Desculpe pela neve e tudo o mais, mas a sua árvore de Natal era uma piada. A música, horrorosa. A casinha, minúscula. E aqueles enfeites de plástico? Uma afronta! Se Klaus Nicholas visse isso, você ia se arrepender de ter nascido! Tive de tomar uma providência!

– Quem é o senhor?

Biglon piscou, depois sorriu.

– Já viu minha carteira de identidade?

– Já ouviu falar em documento falso? Quem é o senhor? O que é o senhor?

–Não lhe direi meu nome, porque isso não corre na sua conta. Mas vou lhe dizer o que eu sou: sou um dos ajudantes do Papai Noel. Um dos verdadeiros ajudantes do verdadeiro Papai Noel.

Rosana endireitou-se mecanicamente, como se tivesse levado uma bofetada.

– Eu tenho o dom de dar às pessoas aquilo que elas querem. Exatamente aquilo que elas querem mas que não se pode adquirir em uma loja. Aquilo que elas desejam mais do que tudo, mas não tem coragem de admitir para si mesmas. Pelo menos os adultos não têm. Os adultos não tem coragem de sonhar, minha senhora, porque temem demais aos seus próprios pesadelos! Então desistem. Mas as crianças não. As crianças ainda ousam sonhar e desejar!

Levantou-se bruscamente e caminhou até o quadro mural e enquanto falava, ia arrancando do painel as notícias e jogando-as sobre a mesa:

– A menina que passou oito meses sem falar uma palavra por causa do sofrimento que a morte do pai lhe causou, pediu-me para reunir sua família para sempre, para que nunca mais sentissem falta um do outro! Realizado no mesmo dia! O garoto que me pediu para voar demorou um pouco mais. No final, não me pediu para ensiná-lo à aterrissar, de modo que imagino que já esteja um tanto arrependido, mas é tarde demais. A garota de quatorze anos queria ser invisível, para poder visitar o vestiário masculino do seu time predileto depois do jogo. Queria ver os jogadores nus. Já era meio crescida, mas a atendi porque fazia quase um século desde que encontrei uma menina de quatorze anos que realmente acreditava em Papai Noel. E também porque foi sábia: pediu para ficar invisível somente enquanto estava dentro do vestiário. Mereceu cada instante de prazer que teve. E foram muitos. A outra, entretanto, foi tola. Comeu o que havia na padaria e morreu de indigestão. Bem feito! O menino que a trouxe aqui, está há umas doze horas-luz de casa, completamente fora do alcance de qualquer um de vocês. Houveram outros, é claro, esses são os que saíram no jornal.

Virou-se para Rosana e sorriu de um modo especial, doce como mel, dourado como o sol. A cozinha ficou cheia das cores do verão.

– E você, Rosana, o que deseja? O que realmente deseja? Pode pedir. Quer que seu filho deixe seu pai e venha viver com você? Quer herdar o dinheiro da sua mãe? Livrar-se da irmã que é viciada em jogos e está custando todo o salário que você ganha, em dívidas e advogados? Quer ser rainha? Astronauta? Estrela de cinema pornô e levar uma vida muito mais animada do que a que leva agora? O que você quer?

A gerente do shopping olhou para o ele furiosa. Como ele podia saber tudo aquilo sobre ela? Como? Jogou o cigarro no fogo com um gesto brusco.

– E aquela notícia ali? – perguntou apontando com o queixo o último recorte que ainda pendia do mural.

"MENINA SUPOSTAMENTE DEVORADA POR CÃES"

O sr. Biglon pareceu constrangido.

– Bah! – fez ele. – Tolices.

– Estamos jogando o jogo da verdade, sr. Biglon. O senhor acabou de dizer um monte de coisas que são verdadeiras e que me envergonham bastante. E também já me falou de coisas que o orgulham. Agora diga-me algo do qual não se orgulha tanto.

Sentou-se na cadeira de novo, na ponta da cadeira.

– Diga-me, sr. Biglon, o que fez com a menina que foi devorada por cães?

– Você quer saber? – ele vociferou. – Quer mesmo saber? Então bem, eu lhe conto: Klaus Nicholas me despediu porque eu tenho um fraco por crianças, entendeu?

Rosana estremeceu, arrependida por ter perguntado. O rosto de Biglon transformou-se em uma máscara feroz. Os olhos arregalaram-se ainda mais, o azul da íris recortado por um aro externo prateado. As narinas expandiram-se, cheirando o ar. Os cabelos ruivos erigiram-se, a barba hirsuta espetando no ar a ponta afilada. A boca alargou-se, encheu-se de dentes e saliva e a língua de Biglon pendeu longa, pontuda e azulada de sua boca. Parecia um grande cão. Um predador. Rosana ergueu-se e deu um passo para trás agarrando a ferramenta para atiçar o fogo.

– Eu não posso resistir, – uivou a criatura. – Dou-lhes o que me pedem, mas de vez em quando eu pego uma para mim entende? Que droga, não é nada mais do que justo! Lhes dou o que me pedem! Qualquer coisa! É da minha natureza. Então às vezes eu... eu...

Arreganhou os dentes e rosnou de um jeito que Rosana nunca havia visto bicho algum rosnar. Nem mesmo em pesadelos.

– Chega, Biglon! Eu não sei quem você é, nem me interessa! Vou chamar a polícia! – ela ameaçou.

Foi a vez dele rir, mas o som de sua risada era insano, mau. No final de tudo, ladrou como um cão e bateu os dentes afiados uns contra os outros num som medonho.

– Vai usar o quê? Talvez o celular que ficou embaixo do ar-condicionado que ousou me desafiar? O pobre aparelho deu tudo de si hoje pela manhã, mas é claro, eu queria neve, neve de verdade! Foi uma luta e tanto: magia contra máquina! Divertido, não tinha passado por isso ainda. E no final de tudo, eu venci.

Ele avançou para ela sorrindo.

– Eu sempre venço.

Rosana deixou de bancar a heroina: largou o atiçador, deu meia volta a fugiu pela porta. Mergulhou para a luz gelada e branca e o frio a penetrou como mil agulhas. Jamais sentira nada assim. O peito doeu violentamente e ela dobrou-se. Há poucos passos da porta caiu de joelhos. Mas depois levantou-se e correu para o portãozinho e o atravessou na direção da estepe gelada.

Subitamente, estava de volta ao saguão. O frio diminuíra, mas não muito. O peito ainda doía. As pernas não obedeciam. Caiu de joelhos de novo, ofegando, lutando para não perder a consciência. Viu os pés de Biglon ao seu lado dentro do chinelo de lã xadrez. Alguma coisa pingava lá de cima, cristalino e pegajoso. Ela não levantou os olhos. Só soube que, com todo o coração, desejava que ele fosse embora. Ele e sua árvore de Natal, os vultos verde-acinzentados e sua capacidade de realizar desejos.

– Vá embora! Vá embora com suas coisas e nos deixe em paz! É isso que eu quero, é isso que eu desejo! Prefiro a mentira de um presente comprado! Prefiro os enfeites de plástico, o jingle horroroso e a neve de isopor! Você disse que ia realizar o meu pedido de Natal! Pois estou pedindo!

Ouviu um resfolegar aborrecido. Logo, Biglon agachou-se junto dela e murmurou junto ao seu ouvido com um hálito velho e podre, os lábios arreganhados numa careta do mais profundo desprezo:

– É por isso que os adultos perderam o Natal. É por isso que você perdem os enfeites, as árvores de Natal de verdade, cheias de neve verdadeira, é por isso que vocês não escutam mais o canto das fadas, dos duendes e das árvores. Vocês não tem culhões para a magia. Vocês acham que o Espírito Natalino é dar comida aos pobres e chorar diante de um comercial de televisão... Nada é mais poderoso do que o Espírito Natalino! Ele é a renovação em pleno Inverno, ainda que aqui seja Verão! É nascer quando outras coisas morrem, apesar de que outras coisas morrem, porque outras coisas morrem, por cima e às custas das coisas moribundas. É desfazer-se do que passou e renovar-se sem uma lágrima de pena, só gritos de júbilo. Por isso vocês choram, à cada Natal: vocês só tem olhos para o que deixaram para trás; o ano que passou; os dias que morreram, o medo, o monstro, o terror. E, bem feito: é só isso que vocês vêem.

Levantou-se, cuspiu ao lado dela e resmungou:

– Levante-se e pare de chorar. Eu ofereci, você pediu. Fique com a sua árvore de plástico.

Rosana viu os chinelos afastarem-se arrastando-se em direção à casinha, depois ouviu a porta bater com raiva. Quase no mesmo instante o frio começou a arrefecer e um som insistente e repetitivo encheu seus ouvidos. O jingle? Ela olhou para o lado: um boneco de plástico movia-se lentamente. Pura mecânica.

– Rosana! Meu Deus, você está bem?

Ela levantou os olhos e deu com Jorge que esforçava-se por levanta-la. Agarrou-se a ele, trêmula e sussurrou em seu ouvido.

– Biglon! Onde ele está?

Um curto silêncio. Além do ombro de Jorge, os atendentes das lojas formavam um círculo a uma distância respeitosa. Viu que Gilberto e aquele outro policial vinham abrindo caminho entre os demais.

– Não sei! Não posso compreender. A casinha... voltou ao que era... está vazia. Onde ele se meteu? – quis irritar-se Jorge. Só então Rosana teve coragem de voltar-se e contemplar o cenário.

Estava vazio. A casinha encolhera, voltara ao seu tamanho original. Rosana conseguiu levantar-se e observar o cenário com atenção. Logo, estremeceu.

Na parede da esquerda, presa com um percevejo, ainda tremula a notícia sobre a morte de uma menina supostamente devorada por cães.

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