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Rio,
17 de novembro de 2005
Hoje eu almocei comigo mesmo
Antonio Marcelo
Hoje
aconteceu um fato muito interessante: almocei comigo mesmo. Fui para o
pequeno bar do Moreira, um pé-sujo que vendia um bife acebolado, nota dez.
Eu sempre almoçava por lá e ia num horário que invariavelmente estava
sempre vazio. (e como sempre eu previa, estava assim, com o Moreira dormindo
no balcão). Cutuquei-o; ele acordou sobressaltado, resmungando e me
reconhecendo. Foi lá para dentro e voltou me servindo o prato do dia.
Deixou-me comendo e novamente caiu no sono. Lá pelas tantas uma pessoa
entrou e dirigiu-se a minha mesa em seguida.
Era
eu mesmo! Eu mesmo!
Na
realidade era um "eu" mais velho, mas maduro com um ar bem jovial.
Se apresentou, e sem perder tempo, se sentou a minha frente. Começou a
falar comigo e acordo com sua conversa viajara no tempo e vinha me visitar
para me orientar a respeito de minha linha de doutorado e me ajudar a
desenvolver a minha máquina do tempo.
Passado
o choque inicial de me encontrar, e ver que eu não estava sonhando,
começamos a falar, sobre o futuro de meu trabalho. Ele me contara que tinha
voltado no tempo para me ajudar, tentar diminuir a quantidade de problemas
que havia enfrentado. Falara que havia sido chamado de louco, visionário e
que tinha sido expulso da comunidade acadêmica, mas que graças a ajuda
dele mesmo daqui há vinte anos no futuro, tinha conseguido montar a sua
máquina.
De
acordo com ele, um outro "eu/ele" daqui a vinte anos no futuro,
tinha voltado para auxiliá-lo. Eles conversaram muito sobre a decisão de
me ajudarem, já que teoricamente eu estaria mudando o fluxo de tempo e
puxando os cordões da realidade. Depois de muito custo tomaram a decisão
de me encontrar e eu/ele daqui há dez anos resolveu me visitar.
Me
deu uma série de anotações, uma pasta cheia de papéis (papel no futuro!
fiquei decepcionado...) com todas as informações e pasmem, um documento
com resultado das loterias nos próximos anos. De acordo com
"eu/ele" dez anos no futuro, era para que eu pudesse ficar
obscenamente rico e tocar o projeto sozinho. Olhei ainda, meio que
incrédulo, todas aquelas coisas e em seguida perguntei :
–
Como será o mundo daqui há 10 anos?
Eu/Ele
me respondeu:
–
Não posso te dizer, senão mais coisas poderão mudar e você poderá
sofrer conseqüências...– Mas já
estamos vivendo um paradoxo, já que você está falando comigo e algo
deveria estar errado...
–
Eu sei – respondeu, "eu/ele" – mas estamos agora num limbo do
tempo, um horizonte de eventos, que chegou ao clímax, modificar mais seria
irresponsável.
–
É complicado. – Falei
"Eu"
estava bem para daqui há dez anos, uma aparência jovial e com bastante
saúde e poucos cabelos brancos. Foi quando outra pessoa entrou no
restaurante, era eu mesmo um pouco mais velho, mas careca e grisalho. Veio
para a nossa mesa e exclamou:
–
Parem vocês dois, ou eu mesmo, estamos cometendo um crime!
Fiquei
assustado, ainda bem que o restaurante ainda estava vazio e o Moreira
dormindo "de babar" no balcão. Olhamos e exclamamos
simultaneamente;
–
Como assim?
–
Sou vocês daqui há 50 anos e neste momento estamos balançando os pilares
da realidade!
–
Como é que é? Perguntou,"eu/ele" daqui há dez anos.
–
Estamos mudando o fluxo, era para eu descobrir a máquina daqui há 50 anos
somente e torná-la real, mas vocês estão adiantando tudo e as
conseqüências podem ser terríveis.
–
"Peraí" – disse, eu mesmo – foi "ele" que entrou
aqui e começou esta história!
–
"Peraí" – disse, "eu/ele" dez anos mais velho – foi
outra versão nossa 20 anos mais velha que voltou e me falou sobre a
importância deste encontro.
–
Nunca houve este encontro comigo – disse, "eu/ele" 50 anos mais
velho – eu nunca voltei para alertar vocês, só agora que resolvi vir,
pois algo estava mudando em meu mundo, estamos a beira de uma guerra global!
–
Quer dizer que este encontro nunca aconteceu e que no futuro haverá uma
guerra?
–
Nunca "deveríamos" estar aqui, "eu" foi vasculhando com
a máquina que cheguei neste momento. Acordei no meu mundo e de repente sem
mais nem menos estávamos em guerra. Resolvi então usar a máquina para ver
o que ocorrera e topei com vocês nesta "encruzilhada temporal"!
–
Parem todos!
Alguém
falou. Era "eu/ele" daqui a não sei quantos anos, entrara de
súbito no restaurante.
-
É, "eu/ele" daqui há vinte anos que falou comigo! Berrou
"eu/ele" daqui há dez anos.
–
Vamos parar, está errado é melhor voltarmos pra nossas épocas algo está
acontecendo e resolvi voltar para avisar! Exclamou "eu/ele" daqui
há vinte anos.
–
Como assim? Perguntamos todos a ele.
–
O mundo mudou daqui a dez anos e influenciou "minha" realidade.
Talvez isto "esteja" acontecendo por causa deste encontro, vamos
esquecer isto e voltarmos para nossas épocas.
–
Concordo – disse "eu/ele" daqui há 50 anos – vamos parar por
aqui!
–
É melhor – disse "eu/ele" daqui há 10 anos – se estamos
influenciando a realidade, é melhor pararmos mesmo "aqui". -
levantou-se – vamos embora!
–
Sim vamos todos! – Completou "eu/ele" daqui a vinte anos.
Levantaram-se
e despediram-se de mim levando a pasta e as anotações. Como entraram
saíram sem deixar rastros. Olhei por momentos as cadeiras vazias e o lugar
que "eu/ele" daqui a cinqüenta anos estivera parado. Cocei a
minha cabeça e pensei que aquilo tudo fora apenas um momento de devaneio,
ou sandice de minha parte. Acho que nada daquilo havia acontecido, fora
apenas um sonho, pesadelo. Sei lá. Acho que tenho de parar de comer carne
vermelha, ou será que a cebola estava com algum agrotóxico alucinógeno?
Deixei
o resto do almoço de lado e acordei Moreira, para pagar a conta, ele veio
até a mesa rindo e fazendo piadas, enquanto eu sacava a minha carteira do
bolso.
–
Moreira – perguntei – reparou se alguém entrou aqui?
–
Não, estava dormindo, por quê?
–
Por nada. – Disse.
Sem
querer deixei cair o dinheiro, e me abaixei para pegar, foi quando vi um
papel dobrado.
Entreguei
o dinheiro a ele e em seguida desdobrei e para minha surpresa, eram os
resultados da loteria. Já estava lá o resultado da semana que vem, e que
de acordo com a Loteria seria um prêmio recorde. Olhei pensativo e coloquei
cuidadosamente no bolso.
–
Tá aqui, seu troco – me entregou Moreira.
–
Sabe Moreira, estou com um pressentimento bom, vou passar ali na casa
lotérica e fazer uma aposta.
–
Ué tá supersticioso agora, você nunca foi disso?
–
Acho que hoje eu tive uma dica muito boa, e de repente quem sabe...
Ele
riu, enquanto eu me levantava e saia do restaurante. Sabe de uma coisa se
estes números realmente forem válidos, eu vou largar a faculdade e vou
viver de renda, esta história de máquina do tempo, está me deixando
perturbado...
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Antonio Marcelo - é
autor de 14 livros sobre Linux e mantenedor dos projeto HoneypotBR ( http://www.honeypot.com.br).
Ávido leitor de FC e tem como
autores preferidos : Philip K. Dick, Robert Silverberg, Robert Silverberg,
Robert Heinlein e Isaac Asimov. Além de adorar escrever, tem sua segunda
paixão, o mergulho, que descobriu recentemente. Aguarda a opinião de todos
sobre este singelo trabalho no email : amarcelo@plebe.com.br
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