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Rio,
16 de novembro de 2005
EU SEI O QUE VOCÊS VÃO
FAZER NO PRÓXIMO VERÃO
Miguel Carqueija
Restam-me
poucas providências a tomar. Devo ser minucioso, para não cometer falhas.
A essa altura, sem dúvida, Jacinto e Teresa já se convenceram de que a
hipotermia me vitimou, e que eles ganharam a sua guerra. Mas sei que a
guerra não terminou, e só espero agora o ato final.
É
claro que, no início, eu não achava aqueles meus sobrinhos tão
incompatíveis. Até gostava deles, pelo menos enquanto eram crianças.
Depois, passei longos anos sem vê-los. Depois que enviuvei sem filhos, e
ambos ficaram órfãos, resolveram me procurar em minha cidade, já eram
adultos, embora bastante jovens; e certamente estavam muito diferentes, mas
eu achei normais as modificações das personalidades. Afinal, haviam
crescido.
Não
tenho tempo, é claro, de detalhar, mas nesta gravação que faço por
auto-recreio (já que pretendo sobreviver), todas as melifluidades, as
hipocrisias, os jogos-de-cena que os dois irmãos vigaristas utilizaram para
me induzir a acolhê-los em minha então vazia residência, a introduzi-los
nos meus negócios e por fim, a favorecê-los no meu testamento.
Houve
quem me alertasse: o meu advogado. Para o Ornato eles não eram confiáveis
e suas atitudes eram suspeitíssimas. "Eles são frios como a geleira
que se espalhou pelo Brasil. Você não vê que são interesseiros?".
Não,
eu não via. O sangue falava mais forte que o bom senso. Entretanto, alguma
coisa no meu íntimo dizia-me para tomar cuidado, para andar com
precauções, que afinal eu tomava por via das dúvidas, em relação a
qualquer hipotética ameaça – não precisava vir deles.
Assim,
quando me sugeriram esquiar em Círio das Neves, onde fomos passar us dias
de férias, algum instinto misterioso levou-me a conduzir secretamente
alguns equipamentos pequenos, porém valiosos.
Os
dois pilantras seguramente já haviam sondado o trecho para o qual
ardilosamente me conduziram, e já não se deram mais ao trabalho de fingir,
quando me apontaram seus revólveres e ordenaram-me que caminhasse para uma
passagem onde a neve era pouco espessa, e na verdade ocultava um
bolsão...não houve diálogo possível, mas os xingamentos zombeteiros que
me dirigiram não deixaram lugar a dúvidas: eles não me queriam bem, só
lhes interessava a minha fortuna. E não teriam a paciência de esperar pela
minha morte natural.
Ainda
escutei aqueles risos sádicos, quando mergulhei pelo buraco oculto pela
neve, e a pequena avalanche resultante me sepultou...
Entretanto
eu tinha comigo os recursos para sobreviver mesmo em condições tão
rebarbativas. Em primeiro lugar o meu traje possuía características de
biotraje, com requintes que eu jamais revelara aos dois pequenos
conspiradores. No bolso interno de meu casaco de frio estava o regulador
termobiológico que comandava os capilares fibrosos espalhados pela roupa;
equipamento similar existia nas calças; bastava ativar o controle –
aliás, auto-ativável em caso de risco imediato de hipotermia – para que
as microagulhas inseridas no tecido injetassem os insumos que preservariam a
temperatura mínima para as funções vitais e induziriam ao sono hibernal,
economizando as gorduras e proteínas do organismo.
Isto
posto, bastou-me garantir um espaço mínimo com os conversores térmicos
ocultos nas minhas luvas de couro de búfalo, um nicho onde me acomodarei da
melhor maneira, em meio à temperatura de quinze graus negativos, à espera
do degelo de verão.
Um
degelo que virá, e cuja aproximação será monitorada pelo biotraje, cujo
sistema é altamente adaptável à situação e que me reanimará na hora
certa, quando as neves estiverem derretendo e a minha atual prisão, prestes
a se desfazer. Tenho poucos meses para hibernar, e ao despertar estarei com
as minhas armas prontas.
Sim,
porque eles terão que vir em busca do meu corpo. Pois já terão descoberto
que o holodisco com o testamento que os beneficia está comigo. Como diz num
documento, no cofre que a essa altura já abriram, eu só confio em mim
mesmo para certas coisas. Por isso sempre ando com o meu testamento.
E
estarei preparado para recebe-los, quando vierem para visitar o meu
cadáver.
Eu
sei o que vocês vão fazer no próximo verão.
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Miguel Carqueija - é carioca, atuando na ficção científica desde
1983. Já publicou sete livros individuais (Rocio, que é só poesia, A volta dos dinossauros, A caixa
lunar, A ancora dos Argonautas, A Esfinge Negra, A Rainha Secreta e As luzes de Alice) e
participou de aproximadamente vinte antologias, algumas de poesias ou variadas, mas a maior parte de FC, como Dinossauria
Tropicalia (GRD, 1994), Verde... verde... (ediçao independente, 1987 e 1988)
e Vinte anos no Hiperespaço (2003), colaborou em muitos fanzines e revistas, ultimamente na Perry
Rodhan.
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