Rio, 16 de novembro  de 2005

O Templo

João M. S. Silva

- Amanhã tens que te levantar cedo? -- perguntou ela, bocejando.

- Não. Amanhã estou de folga -- ele respondeu denotando uma imensidão de prazer.

O automóvel deslocava-se a não mais do que sessenta quilômetros horários -- ele estava ébrio. Os seus reflexos estavam reduzidos a cerca de oitenta por cento. Ele não estava preocupado com as horas a que chegariam a casa. Nem mesmo saturado com a condução, ignorando por completo a monotonia das estradas retilíneas e ladeadas por pinheiros. Para ele a Vida era aquele preciso momento e o Mundo limitava-se ao alcatrão tracejado que constituía a estrada. Pensou estar a adormecer de olhos abertos.

- O gajo estava mesmo um cacho -- ela ria baixinho porque não lhe restava ar nos pulmões para rir mais alto: estava prestes a adormecer.

- Hoje não tocaram nada de jeito, pois não -- disse ele, incapaz de entoar uma interrogação.

- Não -- ela respondeu ficando a pensar se ele a teria ouvido.

 

O veículo agora não ultrapassava os cinqüênta quilômetros por hora. Desde que haviam abandonado a vizinhança da discoteca, a velocidade a que viajavam vinha a decair lentamente. De súbito, e na faixa da esquerda, passou uma carrinha no mesmo sentido, ultrapassando largamente o limite superior de velocidade. Ele assustou-se e travou a fundo, o que fez com que ela fosse projetada para a frente e batesse com a cabeça no pára-brisas. O motor adormeceu.

- Põe o cinto -- avisou ele enquanto rodava a chave da ignição -- Põe o cinto, porra. Não sentiste?

- Já vai... -- ela rodou sobre si (aproveitando para se espreguiçar) e puxou a fivela. Ficou por momentos com ela encostada ao peito, de pálpebras semi-cerradas, pensativa, mas quando ouviu o motor tossir novamente completou o movimento.

Ele já tinha tentado arrancar mais de vinte vezes e o motor nem estava frio! Olhou para ela: dormia novamente. Pensou, embora lhe custasse, que ela nem sequer se devia ter apercebido do acontecido. Tentou mais uma vez... com sucesso.

Dez minutos depois o automóvel mantinha uma trajetória reta, embora muito lenta. Demasiado lenta mesmo. Por mais embriagado que estivesse, ele tinha consciência de que não podia continuar por muito mais tempo. Por vezes reconhecia ter percorrido vinte ou trinta metros de estrada de olhos fechados.

- Vou ter que parar -- pensou, como quem consente a sua morte clínica.

Tal não se confirmou. Cinqüênta metros adiante estavam dois segmentos de um tronco de árvore atravessados na estrada. Ele só deu por eles depois de lhes bater e arrojá-los durante alguns segundos, em que se sentiu atormentado por algo que lhe perturbava o estado de sonolência. Mas estes não passavam de matéria semimorta.

De trás das árvores mais próximas saíram, em simultâneo, doze homens vestidos de preto. Em menos de dez segundos ele fora posto fora do carro e ela ainda dormia. Quando ele conseguiu gritar pela primeira vez ela não pestanejou, mas quando os gemidos se intensificaram acordou sobressaltada nos braços de dois homens corpulentos, cujas faces brutalizadas pelo tempo a aterrorizavam. Quando uma manápula lhe abafou a boca e o clorofórmio lhe inundou os pulmões, ele deixou de gemer. Nesse momento ela tinha pensamentos como «estou morta!», «agora é que é», «já me safei muitas vezes, mas agora é que é», «o que é que eles me vão fazer?», «Deus!... porquê?», «porquê, meu Deus?», «porquê?!», «agora é que é»…

O grupo avançava pelo pinhal sem direção aparente, fragmentando-se, mas sem nunca se separar. Ela olhou para a estrada (da qual se distanciavam cada vez mais) quando ouviu o ruído do motor do automóvel -- um dos homens tinha ficado para trás e após três ou quatro tentativas tinha posto a máquina a funcionar. (A sorte há muito que os abandonara!) Passados quinze segundos já quase não se ouvia o roncar do motor. Ela via-o de vez em quando, através de lágrimas, nos intervalos de tempo em que não havia pinheiros pelo caminho. Ele era arrastado por dois brutamontes. Ela, por sua vez, sentia-se como que puxada pelos cabelos, mas assim não era. Um dos homens havia-a arrancado do carro e cingido o braço direito à volta do seu pescoço. Assim que ela esperneava ou tentava gritar bastava contrair o bicípite. O músculo aumentava tão violentamente que ela pensava não sobreviver. O que noutro caso poderia constituir elementos para um processo judicial, não passava agora de um mero apertão que ela quase não sentia.

Andaram, ou melhor, foram arrastados durante mais de trezentos metros. Por fim chegaram a uma minúscula clareira onde estacaram durante alguns segundos. Um dos homens adiantou-se alguns metros do grupo, de lanterna na mão, e baixou-se, metendo a mão entre a areia e a caruma. Depois de procurar por algum tempo encontrou-a. O homem deu dois puxões a uma corda grossíssima que desterrara. Largou-a e cobriu-a com a ajuda das botas.

Passados poucos segundos o chão começou a deslizar, como se se tratasse de uma raia pousada no fundo do mar, e abriu-se num buraco quadrado, com cerca de dois metros de lado. Os homens mandaram o par lá para dentro, para as trevas.

 

Ela estava consciente. Gritar seria pior. Ouviu novamente o ruído dos milhões de grãos de areia a fragmentarem-se contra a madeira que constituía agora o teto. A medo, tocou-lhe. Martelou-a com os nós dos dedos -- tinha de certeza mais de dez centímetros de espessura -- nunca conseguiria movê-la, nem com a ajuda dele. Isto é, se ele ainda não estivesse morto. Ela não o via, mas sabia que estava ali, algures adormecido, como preferia imaginar. Começou a tatear à sua procura, mas assustou-se quando sentiu uma porção de areia cair sobre o alçapão.

- Vão enterrar-nos, enterrar-nos vivos -- pensou. Mentira. Eles estavam somente a uniformizar o terreno. Durou apenas alguns segundos. Depois ouviu um berro, lá em cima. E sentiu-os abandonar o local.

A certa altura, quando não sabia se havia de chorar ou gritar, lembrou-se do isqueiro que ele trazia sempre no casaco. Quando se preparava para bracejar novamente na escuridão, à sua procura, a parede à frente dela deslizou subitamente alguns centímetros. A luz penetrou de um modo humilde naquele compartimento. Ouviu uma voz que a chamava lá de fora. Não conseguia ver praticamente nada devido aos feixes de luz, que a cegavam. Avançou a medo, esgueirando-se pela frincha. Puxaram-na para fora, algemando-a. A fonte luminosa era sem dúvida uma lanterna elétrica que lhe continuavam a apontar. Que máscaras horrorosas se ocultavam na escuridão? Começou a transpirar. Seria melhor nem pensar nisso.

- Ele não vem? Estará à espera de algum convite? - rugiu uma voz aterradora.

Ela fez força para que ele ainda estivesse vivo e lhes obedecesse. Mas em vão. Um dos indivíduos entrou no compartimento, depois de arrastar mais um pouco a porta. Segundos depois ele saía, arrastando-o. Ela tentou olhar para ele, para saber se estava bem, mas levou uma joelhada no abdômen com tamanha força que acabou por desmaiar. Fora melhor assim. Deste modo esquivou-se ao espetáculo de vê-lo ser arrancado do buraco, puxado pelos braços, como quem descalça uma bota alta. A princípio era a cabeça, grande demais, que estorvava. Um ligeiro toque com um pé e foi o que bastou para tudo ser mais fácil. Preferiam desentalá-lo à força do que alargar um pouco mais a entrada. Pareciam gostar do jogo. Um dos homens iria jurar que ouvira o externo dele a estalar, mas... que tinha ele a ver com isso, afinal?

Foram transportados por longos e curvos túneis, sob pouca visibilidade. Pelo que ele conseguia entrever (ele ainda não estava morto) as paredes e o teto dos subterrâneos haviam sido escorados de um modo bruto, mas muito seguro. Cada barra que sustentava uma trave não pesaria menos de duzentos quilogramas e havia-as de metro a metro, de cada lado. Quanto ao peso bruto do teto, estava suspenso por traves, igualmente distanciadas, onde estavam assentes tábuas quase invergáveis que revestiam o teto e as paredes. O piso era constituído por terra duramente batida. A exuberância de curvas e contracurvas daquele percurso era devida, certamente, à existência de grandes árvores cujas raízes principais obstruíam o caminho.

Chegaram então a um local mais amplo, mais arejado. Um local que os trazia de volta ao século vinte. Parecia uma casa de campo toda em madeira, como de resto era habitual por ali, mas debaixo de terra arenosa e úmida. Ele não fazia idéia a quantos metros de profundidade estariam. Por fim largaram-no contra o chão -- agora constituído por tábuas umedecidas.

- O quê, são estes dois? - perguntou de um modo assolador uma voz vinda de cima.

- Sim -- respondeu um dos que os haviam trazido até ali.

- Ela fica, mas ele vai. Está moribundo.

Dito isto ele foi arrastado para a esquerda, por outro túnel e ela seguiu em frente, ainda desmaiada.

O túnel da esquerda era muito estreito. Tratava-se de um cilindro constituído por secções de cimento armado, sobre os quais ele era arrastado. O único homem que o puxava provavelmente teria nascido ali. Poderia parecer um exagero, mas o modo rápido e seguro com que ele arrastava um corpo com mais de setenta quilogramas por um tubo com menos de um metro de diâmetro esclarecia tudo. Ele batia com a cara no chão, desfeita em sangue. A certa altura ouviu o homem (ou seria um monstro?), cuspir para o chão e segundos depois foi surpreendido pelo seu dejeto, que lhe ficou agarrado a uma orelha. Perdeu os sentidos.

Quando desembocaram num local circular, onde começava uma rampa muito pouco íngreme, ele estacou. Às escuras e sobre o pingar da água que nascia no teto, o monstro ajeitou-o e começou a tirar-lhe as roupas, rasgando-as. Feito isto e como um cão que anseia por um pedaço de carne, foi penetrando-o no ânus, ouvindo-se um grunhido efêmero. Se ele estivesse consciente talvez tivesse sentido o seu longo, mas fino pênis (ou o que quer que fosse) enterrar-se nele como se fosse um tronco. O monstro manteve-se assim por alguns minutos, naquele balançar ruidoso, para depois se debruçar sobre ele e lhe desferir uma dentada num ombro. Lambeu-lhe as costas e o cabelo enquanto o homem vomitava inconscientemente. Por fim parou. Ele começava a despertar, com as dores que sentia e sentiu-se de súbito novamente arrastado. Estava nu, tinha a sensação de sangrar do ânus e sentia a pele arder, pois raspava a uma velocidade estonteante por cima da areia. O monstro abriu um alçapão no fim da rampa e empurrou o corpo para fora. Voltou para trás, depois de fechar a porta.

Ouviram-se ruídos selvagens relacionados com desventrares.

Entretanto ela estava nua numa banheira de metal mal talhado. Duas crianças com pouco menos de dez anos tentavam dar-lhe banho. Ela ofereceu resistência da primeira vez que lhe tocaram e agora estava mesmo disposta a bater-lhes para a deixarem em paz. Levantou-se perante o olhar atônito e absorto das miúdas e tentou procurar a sua roupa, que os homens lhe haviam arrancado à força. Atrás de si, e com estrondo, abriu-se uma porta. Entraram duas mulheres com cerca de 35 anos, mal vestidas. Ela virou-se assustada:

- Não! Não! -- suplicava -- Por favor, não!

Elas nem abriram a boca, mas as suas carantonhas falavam por si. Contorciam-se num ódio tão grande quanto possível. As suas línguas dobradas e mordidas sangravam. Agarraram nela e atiraram-na para a banheira. A um canto, as crianças assistiam a tudo. Uma das mulheres interrompeu o serviço e olhou maldosamente para uma delas. Aproximou-se e agarrou-a pela mão. Levou-a até junto dum baú, que abriu e onde a tentou meter à força. A outra criança (gêmea da primeira?) tentou impedi-la. Um erro emocional. A mulher rodopiou os olhos estrábicos. Para contentamento, mas imediato pânico da que estava de fora, a mulher deixou a outra, trocando-a pela «sentimentalista». A que ficou de fora, radiante, cerrava os dentes enquanto ajudava a mulher a fechar lá a irmã. Era cem por cento inútil pontear o interior do baú -- dali não sairia tão cedo. A mulher voltou-se para a banheira, onde encontrou a colega num monólogo de beijos e carícias com a nua. Ignorou. Trataram de a molhar, afogando-a na água fria e bafienta. Engoliu um pouco dela. Uma das mulheres agarrou firmemente numa barra de sabão azul e começaram a esfregá-la pelas suas costas. Causavam-lhe nódoas negras na pele adjacente às vértebras da coluna. Empastaram-lhe o cabelo com aquilo. Quando chegaram à zona genital quase que lho enfiaram pelo útero acima. Uma esfregou-lhe um dedo ensaboado pelo ânus. Gritou. Por mais que implorasse nada adiantava. Lavaram-lhe o resto do corpo. No fim passaram-na toda por água. A mesma água, claro. Ela pensava que lhe iriam restar pedaços de sabão na vulva, mas não. Longe disso. Elas não se incomodavam com nada. Todos as zonas do seu corpo, mesmo as mais íntimas, haviam sido violadas.

Depois do banho o cabelo dela ficou hirto, hirsuto. A sua pele secara significativamente. Vestiram-na com roupas simples de sisal. Estava uma lástima, como ela própria diria. Guiaram-na aos empurrões até uma cela, na sala contígua, onde a fecharam.

A cela era nada mais nada menos que um grande caixote de madeira embutido na terra arenosa daqueles túneis. As tábuas que formavam as paredes, o chão e o teto, estavam cheias de musgo e água. A porta era um recorte mal feito na madeira, sem qualquer tipo de janela ou grades. Não se podia dizer que entrava luz pelas frinchas da porta, porque lá fora, no corredor que dava para mais cinco celas iguais àquela, também não havia luz. Estava-se a alguns metros debaixo do solo e mesmo que fosse o dia mais claro da História, ali tal não se verificaria. Ela ouvia apenas os gemidos abafados das outras prisioneiras (sim, pareciam ser só mulheres, a julgar pelo tom de voz). A certa altura lembrou-se que podia não estar sozinha, o que a assustou bastante, mas depois de reter a respiração, verificou quase com toda a certeza que estava sozinha. Mas não por muito tempo. Pensou na sua vida. Ia começar a chorar.

De repente ouviu o tilintar do que parecia ser um molho de chaves. Pôs-se à escuta. Vinha alguém aí. Abriram a porta. Um pedaço muito curto de vela iluminava o visitante. A sua sombra projetava-se debilmente na madeira. O seu coração parou... e em seguida bombeou o sangue com quanta força lhe restava. Quase não conseguia respirar, tão nervosa que estava. A «besta» que se apresentava à porta da sua cela não parecia um homem. Trincou entre os maxilares uma amêndoa, ao que parecia. Cuspiu a casca para o chão e puxou o miolo com a língua. Um pensamento por parte dela, assim como «se é assim que me queres excitar, podes tirar o cavalinho da chuva», seria indubitavelmente despropositado. Ele acabou por lançar ao chão a outra metade da casca e pousou a vela numa prateleira no corredor. Entrou e fechou a porta com força. Riu-se como um atrasado mental. Ela ficou histérica. Corria de um lado para o outro tentando fugir aos cutrunhos daquele animal. Guiando-se pela escassa luz que provinha lá de fora, da vela, conseguia dar-lhe (se bem que inconscientemente) as voltas. Os gritos (se assim lhe podemos chamar) que ela emitia pareciam por vezes gemidos de alegria. Se ela alguma vez escapasse dali demoraria muito tempo a curar-se... na melhor das hipóteses, é claro! Ele enervava-se nitidamente e desatou também a gritar. A cada rugido que emitia ela estremecia com um arrepio. Quando a vela, lá fora, se expirou, a cela ficou completamente às escuras. A «besta» deixou de gritar para passar a rir-se às gargalhadas, quando começou a arremessar o seu próprio corpo (uma massa de catorze quilogramas) contra as paredes, na tentativa de a atordoar como a uma mosca. Ela sentia toda aquela quantidade de movimento dirigir-se na sua direção. Os seus gritos prejudicavam-na, percebeu ela a custo. Tentou manter as cordas vocais inativas, mas era muito difícil. Cada vez que ouvia o estrondo da carne a embater na madeira, rangendo, soltava um gritinho infantil, quase inaudível. Mas isto não durou muito tempo. O gordo acabou por entalá-la contra as tábuas. Ela caiu ao chão com estrondo, inconsciente.

Ele calou-se abruptamente. Curvou-se, tateando à sua procura. Agarrou-a pelos braços (as suas mãos davam-lhe a volta completa). Ajeitou-a e arregaçou-lhe a saia de sisal. Não tinha cuecas. Afastou-lhe as pernas até quase lhe romper as virilhas. Por sua vez ele baixou as calças e descobriu o seu pênis em plena ereção. Cuspiu para a mão e passou-a na vulva dela. De seguida, penetrou-a de um só golpe.

Ela acordou cheia de dores na zona genital. Gritou. A primeira imagem que lhe veio à mente era a da monstruosa face da «besta». Em segundo lugar, chegou-lhe aos ouvidos o som do seu arfar e a da sua respiração via nasal obstruída, característica dos gordos. Ele tinha-lhe desfeito a vagina! Ela pensou se estaria a sangrar, pois sentia-se localmente anestesiada. Gritou novamente. De súbito ele agarrou-se aos seios dela e apertou. Apertou com força, gemendo infernalmente. Ao seu grito juntou-se o dela, a rasar o choro.

O homem levantou-se a pingar suor e esperma. Vestiu-se e abandonou a cela. Ela ficou semimorta, emitindo ligeiros ruídos agudos.

No dia seguinte, de manhã, todas as prisioneiras foram chamadas. Quando acordou, ela pensou estar em casa. Mas não. Logo lhe entrou uma mulher feia pela porta, envergando um tubo de ferro que investia contra as paredes e gritando. As seis mulheres foram transportadas acorrentadas até a um local amplo, onde ficaram na escuridão. O sangue tinha-se-lhe sedimentado nas pernas, como uma pintura índia. As outras companheiras possuíam um odor bizarro, característico de produtos farmacêuticos. Ficaram ali, de pé, até que uma delas se aproximou dela e lhe segredou ao ouvido:

- Pensas que ainda vives?

Uma porta abriu-se deixando entrar alguma luz e ela teve a oportunidade de olhar para o interior da divisão: um homem estava pendurado de cabeça para baixo e à volta dele estavam três anões nojentos, que o balouçavam circularmente. O homem devia estar ali há já muitas voltas, pois mostrava-se inconsciente, mas vomitava espuma como quem expele ar. A certa altura começou a sangrar do nariz e quando pareceu despertar, espirrou o que lhe pareceu ser um pedaço de cérebro, mas ela não queria acreditar. Entretanto, a conversa entre o homem (vestido de enfermeiro) que saíra dessa sala e uma das mulheres que as acompanhavam terminou. A mulher empurrou-as até ao que ela pensava ser uma pequena igreja. Ao fundo, no altar, ela viu dois homens vestidos de negro e um outro de vestes vermelhas. Este último, ela jurava que o já tinha visto num jornal.

Sentaram-nas em pequenos bancos suecos que estavam dispostos paralelamente ao comprimento do altar. Um rapaz que dava aspecto de ser o «sacristão» aproximou-se dela e ordenou-lhe em voz tênue:

- Escolhe uma delas -- e apontou com um sorriso macabro para as outras prisioneiras.

Ela não sabia quem havia de escolher. Qual seria o seu propósito? Começou a chorar. Levou uma bastonada com tanta força numa nádega que até lhe fez doer a cabeça. Trêmula, fechou os olhos e depois de balouçar o braço no ar apontou na direção de uma mulher loura com cerca de vinte e poucos anos. De seguida foi segura por detrás e obrigada a enfrentar a cara da escolhida. Ela não lhe lançava um olhar de ódio. Até pelo contrário. Parecia que lhe tinha cedido o seu lugar no céu. Ela pensou que a iriam libertar, mas não. Obrigaram-nas a beijarem-se na boca. A outra foi colocada em cima duma mesa de pedra, construída no centro do altar e despida. Ato contínuo, e sem mais rituais, a mulher foi aberta com um punhal desde a extremidade inferior do externo até ao ânus. Chiava como um porco. Quando abriu a boca ela apercebeu-se de que a outra não tinha língua. Do interior do seu organismo, e perante o olhar nulo das outras prisioneiras, foi-lhe retirado um pequeno organismo vivo -- um embrião humano. Ela ia começar a chorar quando recebeu uma cacetada na nuca. E depois mandaram-na ao chão. E cerca de catorze mulheres armadas lhe caíram em cima, espancando-a.

 

Depois do acontecimento ela foi colocada na sua cela, moribunda. Algumas horas depois, ela acordou com os sussurros das companheiras que comunicavam através das frinchas das paredes:

- A velha pariu -- informou uma.

- Como é que sabes? -- perguntou outra, mesmo na cela ao lado da sua.

- Ouvi o bebê chorar.

Entretanto a conversa foi abafada pelos passos de alguém que lá vinha. Preparavam-se para abrir a porta da sua cela quando uma voz rouca, lá fora, imperou:

- Essa não, já levou o bastante por hoje.

Ela ouviu as guardas entrarem em cada uma das celas e espancarem os corpos. Adormeceu ao som dos gemidos das companheiras.

Quando acordou estava numa outra sala muito bem iluminada. Quatro holofotes de 250 Watt estavam apontados para uma cama com rodas, coberta com um lençol verde. Por cima, o seu corpo nu. Tinha as pernas afastadas e sentia-se completamente dorida. As lâmpadas cegavam-na. Tentou elevar o braço para esfregar a nuca, onde tinha um pequeno formigueiro, mas não pôde. Os seus braços pendiam da marquesa, concluiu, há já algumas horas. Além da sua cor vermelha arroxeada, os tendões pareciam arame oxidado, que sob o mínimo esforço rompe. Só então se deu conta de que estava a ser examinada. Era óbvio que estava anestesiada localmente. Um homem de óculos de aros retangulares, escuros, orientava uma série de instrumentos no interior da sua vagina. Trabalhava sozinho. Suava como se tivesse na sauna e a sua maçã de Adão subia e descia frequentemente.

- Que me está a fazer? -- perguntou em voz embriagada.

- Já acordou? Nós vamos já tratar disso.

Ele virou-se abandonando o trabalho e abriu uma vitrina ao fundo da sala. Ela retirou uma sonda do interior do seu útero e pegou numa seringa com um líquido transparente no interior (ai!, como lhe doíam os braços) e escondeu-a na mão, por debaixo dos lençóis. Assim que ele regressou, de seringa esguichando na mão esquerda, ela teve um sobressalto. Antes que ele a injetasse, injetou-o ela a ele. Com toda a força e do lado esquerdo do tórax. Pressionou o êmbolo instantaneamente e a droga sumiu-se por entre a bata branca. O coração do homem acelerou de um modo trágico a pulsação e o homem não conseguia gritar. Cambaleou durante dois ou três segundos e caiu de costas. Ela olhou em redor, estupefata com a sua eficácia, e os seus olhos percorreram diversas prateleiras onde assentavam boiões. Ao que parecia continham embriões humanos e não só. Ela não sabia especificar se estavam vivos ou mortos. Por entre outros objetos, que ela nunca tinha visto em nenhum hospital, estavam pacotes de seringas. Ela abriu um deles e encheu seis delas com líquido proveniente de um boião. Líquido esse com a mesma cor que o que tinha usado no médico. Foi até junto da porta e escutou. Nada. Abriu-a e esgueirou a cabeça. Ao fundo do corredor mal iluminado viu o que parecia ser uma enfermeira. Era uma mulher gorda, assim como todas as outras guardas. Fechou a porta de mansinho.

- Já foste levar o almoço ao doutor? - inquiriu uma das cozinheiras que lavava a louça.

- Não. Onde é que está?

- Está aí atrás, dentro do armário.

A outra abriu a porta do armário e puxou cá para fora um tabuleiro com um copo de água e uma sandes de carne. Entrou uma terceira mulher, ou melhor, outro ser humano do sexo feminino que cumprimentou as outras.

- Vens em boa altura. Toma -- e estendeu-lhe o tabuleiro. -- Leva o almoço ao doutor.

- Está bem. Não é preciso mais nada? - perguntou já de saída.

Não obteve resposta. Ela vestia uma bata branca e segurava o tabuleiro, apoiado no estômago, como um autômato. Se não conhecesse bem o local já teria ido de encontro a uma parede. Os restos de vela que estavam colocados nos corredores quase não serviam de nada. Por fim chegou à sala onde iria entregar o tabuleiro.

A enfermeira bateu à porta e entrou anunciando-se. No momento em que reparou que o médico estava tombado a um canto já tinha uma seringa enfiada na pança. Ia largando o tabuleiro, mas a outra segurou-o mesmo a tempo, pousando-o no chão. A enfermeira sentiu líquido penetrar-lhe nos intestinos onde foi imediatamente absorvido. Caiu para a frente estupidamente e partiu a cana do nariz. Assim ficou. A atacante optou por vestir a bata do médico devido ao tamanho e saiu da divisão, com cuidado. Apalpou o bolso onde restavam mais cinco seringas. Decidiu-se por se dirigir para a esquerda.

Mais à frente o caminho dividia-se em dois. Um descia e o outro subia. Optou esperançada pelo segundo. Subia uma longa rampa com uma inclinação de cerca de cinco por cento. Quando bateu com a cabeça no teto já não via praticamente nada. Tateou de braços erguidos e encontrou um alçapão. Forçou-o. Nada. Nem o mínimo deslocamento. De súbito ouviu discutir. Olhou lá para baixo e viu duas figuras à luz de uma vela. Um deles era corcunda e nem parecia humano. Teria aproximadamente dois metros de envergadura, o que era monstruoso tendo em conta os seus cento e cinqüênta centímetros de altura. Este rosnou algo para o outro (ou outra) mais alto e esguio, de modo a que lhe saltou saliva da boca. Ela não sabia se a discussão se dava por sua causa. Era aterrador. Ficou ruborizada. Dali não a viam, disso estava ela certa. Começaram a acalmar e a partir daí falaram tão baixo que pareciam estar a velar um cadáver. Durante aqueles sussurros de morte ela começou a suar. Preparou uma seringa, por defesa. Por momentos o seu coração parou e o seu olhar ficou fixou no monstro quando este iniciou a subida da rampa, resmungando.

- Não vás -- ordenou o outro que se mantinha na mesma posição. -- Eu vou lá depois contigo. Agora vem. Vamos comer.

O outro desceu a rampa mais satisfeito. Ela expirou irregularmente. Tateou novamente o alçapão, agora com atenção redobrada. Por fim encontrou uma tranca, que fez deslizar cortando-se num pedaço de ferro ferrugento. Forçou novamente a porta sem se dar ao trabalho de examinar a ferida. Saiu para o exterior. Sim, encontrava-se agora novamente no pinhal. E era de noite. O seu dedo sangrava quando ela começou a correr. Mas para onde? Parou. Chorou de tristeza, mas também por felicidade. Mas ainda não estava safa. Tinha que chegar à estrada e pedir boleia a quem quer que por ali passasse. Olhou em seu redor. A escolha estava feita: à sua esquerda vinha alguém. Começou a correr levemente para a direita. As solas dos seus pés deviam estar pejadas de pedaços de caruma, pensou. Mas não havia tempo para parar. Tê-la-iam visto? Um ladrar lá atrás respondeu-lhe que sim. Começou a correr como nunca tinha feito. Os seus pés doíam-lhe tanto que já nem os sentia. Começou a chorar quando se interrogou se ele tinha morrido. Era triste. Ouviu novamente os cães a ladrar. Deviam ser uns três. Ouviu também os comentários atrozes dos donos. Correu mais ainda desviando-se desenfreadamente das árvores. Roçou uma coxa no tronco de um pinheiro. Sentiu-se quase a desmaiar devido à fome e à dor. Sentiu igualmente uma agulha espetar-se na sua anca. Pensou por momentos que tivesse sido atingida por algo, mas imediatamente se lembrou das seringas no bolso da bata. Tirou-as de lá antes que se injetasse. Algumas caíram, outras segurou-as na mão. Deixou de ouvir os cães. Olhou para trás -- não parecia ser perseguida. Quando se voltou para a frente assustou-se de morte com um pedaço de tronco que no pânico achou parecido com o vulto de um monstro. Por fim avistou a estrada. Qual? Não sabia. Mas desde que ali passassem carros que lhe dessem boleia...

Ouviu o som de um motor. Ainda devia vir longe. Chegou à estrada propriamente dita e assim que olhou para a esquerda foi cegada pelo acender dos faróis do automóvel que ela ouvira. Por qualquer razão o condutor viajava de luzes apagadas. Os setenta quilômetros por hora a que progredia foram fatais. O seu corpo rolou pelo ar e aterrou de cabeça no alcatrão. Antes de morrer clinicamente, no seu cérebro surgiu uma idéia: «quem é que me vai dar boleia nestas condições?». Ouviu ainda uma derrapagem e o chiar dos pneus.

Atropelo e fuga…

Esmoreceu.

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João Manuel Santos Silva - Nasceu em Lisboa a 9 de Janeiro de 1977 onde sempre viveu e frequentou o Ensino Público, tendo concluído o curso de Electrotecnia na Escola Secundária Marquês de Pombal.

Em 1995 ingressou no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, onde concluiu os cursos de Licenciaura e Mestrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores. É actualmente aluno de Doutoramento em Engenharia Electrotécnica e de Computadores no Instituto Superior Técnico, realizando o seu trabalho de investigação no grupo ALGOS (Algoritmos para Optimização e Simulação) do INESC ID Lisboa (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa).

Os seus interesses extra-curriculares são a Literatura, a Música, o Cinema e a Pintura, sendo que desenvolve alguma actividade criativa nas duas primeiras. Os seus géneros preferidos são Ficção Científica, Horror, Terror, Fantástico, Fantasia, Mistério, Crime e Suspense

Mais dados podem ser consultados em http://algos.inesc-id.pt/~jmss.

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