Rio, 16 de novembro  de 2005

O Assassino

Felipe Lisboa

Chamavam-no de "O Libertador".

O mundo havia acabado de passar por sua mais nova e pior guerra. Um evento extenso, que consumiu sessenta e sete anos da humanidade. É claro que no início ela não foi considerada como uma nova grande guerra, e sim mascarada pela mídia como pequenas guerrilhas isoladas, o que a história mostrou ser mentira.

Mas como disse, isso era história. Finalmente chegara o dia em que o ocidente pôde levantar suas bandeiras triunfantes, já que o bloco do dragão vermelho, liderado, obviamente, pela China, havia sido finalmente derrotado. Um triunfo, mesmo que para isso metade do ocidente houvesse sido destruído.

Restava agora para nós apenas a recuperação, a cura das feridas, por mais que ardesse o remédio. Foi por isso que no exato ano de 2077 nossa nação tupiniquim, agora colônia norte americana, decidiu que era a hora de devolver os sorrisos orgulhosos para os rostos de nosso povo, faze-los voltar à andar de cabeça erguida, não importava quantos tivessem que morrer para isso.

Assim, em uma sessão extraordinária da câmara dos deputados, foi votada e aprovada a lei Floyd, batizada dessa forma em homenagem ao excelentíssimo senhor Charles Floyd, seu planejador, presidente honorário da câmara e economista respeitado. A lei Floyd, baseada em teorias de pensadores antigos, pregava que as liberdades individuais deveriam ser sufocadas em favor de um bem maior, a restauração da sociedade como um todo.

É claro, a Lei Floyd não agradou à todos. Nesse mesmo ano começaram as passeatas e protestos contra a nova emenda. Por mais pacíficos que fossem esses manifestos (o que nem sempre eram) feriam diretamente o orgulho dos governantes, mutilando sua esperança de que o país voltasse à ser o que era. Por ocasião, o exército foi para as ruas e muitos dos protestantes começaram à ser presos ou até mesmo mortos.

Caso fossem presos, ninguém sabia exatamente para onde iam. Aparentemente para campos de concentração, onde trabalhariam na construção bélica, enquanto esperavam a sua soltura ou o dia de sua execução. Haviam também alguns boatos maldosos, um dos mais graves dizia que alguns prisioneiros se tornavam cobaias para experiências de fim militar.

Questionado sobre isso, Vauter Ferreira, na época secretário da saúde, respondeu apenas: "Esses boatos são infundados, além do mais nunca sabemos quando a sombra da guerra voltará à pousar sobre nossa nação".

Com boatos ou com verdades, o povo estava cada vez mais descontente com o governo. Logo uma pequena guerra civil teve inicio em algumas regiões. E é claro que os militares tomaram uma iniciativa para apaziguar a situação, gastassem quantas balas tivessem que gastar.

Quando parecia que a balança pesava mais para um lado, os rebeldes tiraram um coringa do baralho. Foi no dia dezessete de março de 2081 que um homem, mais tarde batizado pelo povo de "O Libertador", coordenou um ataque terrorista à sede do governo. Uma bomba foi explodida na entrada do palácio federal, matando diversos políticos, incluindo o próprio Floyd.

Depois desse ato, "O Libertador" se tornou extremamente popular. Seu nome podia ser encontrado em nove entre dez pixações, assim como histórias de sua façanha saindo animadamente das bocas de centenas de jovens. Um dia, uma foto de seu rosto foi divulgada. Aparentemente os militares pensavam que assim mobilizariam as pessoas na busca de seu inimigo. No dia seguinte porém, seu rosto estampava as camisetas distribuídas pelos rebeldes à toda a população.

Apesar de sua popularidade, pouco se sabia sobre sua origem. Diziam as lendas que ele era mais do que um homem comum, possuindo enorme força e uma agilidade incrível. Alguns atribuíam essa característica à supostas mutações pelas quais ele poderia ter passado servindo de cobaia nos campos de concentração. Outros diziam que parte de seu corpo era máquina. Havia até quem atribuísse suas qualidades à dons divinos. Por mais bizarras que fossem as teorias, cada grupo escolhia a sua, seguindo confiante os passos do revolucionário.

A confiança era tão grande que acabou criando a fé cega. Logo muitos começaram à se dispor à morrer pelo "Libertador", assim como matar indiscriminadamente. A situação, ao invés de melhorar, se tornava cada vez mais violenta. Vendo isso, "O Libertador" tentou acalmar os ânimos da população, unificando sua força. Assim fundou a organização "Liberdade Já", que não foi o suficiente para acabar com a violência, mas a fez seguir com um foco mais amplo.

Tempo depois, no dia 20 de dezembro de 2084, para ser mais exato, o presidente brasileiro, Ezequiel Carneiro, foi brutalmente assassinato pelo "Libertador" e sua equipe. Com o presidente também foram mortas quarenta e duas pessoas, entre funcionários, políticos e familiares.

A histeria tomou conta da parcela governista da população, enquanto a parcela rebelde comemorava extasiada. Nos dias que se passaram o número de soldados nas ruas triplicou, todos clamando pelo sangue do assassino e de seu grupo.

Bem, posso dizer que nem todos os membros da sociedade (ou "anti sociedade") torciam calorosamente pela aniquilação de seu grupo rival. Muitos não colocariam seus rostos à bater de maneira alguma.

E é aqui que eu entro na história. Pertenço à esse grupo, ou pelo menos pertencia antes.

Estou agora dentro de um quarto de hospital, ainda horrorizado pelos últimos acontecimentos de minha vida. Acontecimentos esses que irei partilhar com você, caro leitor. Não sei se esse texto chegará às mãos de alguém ou se eu mesmo o destruirei após escreve-lo, mas quero desabafar.

Ah, e o porque dessa minha pequena lição de história? Quem sabe? O passado é relativo, quero que você, meu desconhecido confidente, tenha total noção da época em que estou para entender minhas razões. Sei que muitos me considerarão errado, mas fiz o que fiz, não posso voltar atrás.

Tudo começou em uma noite comum, dia 21 de dezembro. Faltando quatro dias para o natal, passado um dia após o assassinato do presidente. Estava eu caminhando por entre as estreitas fileiras da loja de eletrodomésticos, procurando para mim um aparelho um tanto raro onde vivia, mas que encontraria facilmente naquela região. Infelizmente estava errado.

Resolvi deixar o local, querendo ansiosamente voltar para casa. Cruzei o enorme centro de compras, caminhando em direção ao estacionamento. Por meu caminho via os televisores exibindo retratos da paranóia pública. Era incrível como nem uma única emissora tinha outro assunto para discutir à não ser o "Massacre na Corte", como foi carinhosamente nomeado. Uma das imagens mais gravadas em minha mente foi a do reverendo albino distribuindo palavras de amor e coragem (como "ordinários assassinos que terão suas tripas espalhadas na lava do inferno") à população.

Eu, sinceramente, não me importava. Estava vivo? Sim, estava. Estava vivendo bem? Razoavelmente. Havia sido ferido pelo governo? Não diretamente, pelo menos era o que lembrava. Naquele momento não via o menor problema em ter minha privacidade invadida, nem tinha medo de sair de casa, não, nunca havia feito mal à ninguém, nada tinha à temer.

Lembro-me de cada detalhe do que aconteceu depois que entrei naquele estacionamento. Podia ver ao longe a cidade luminosa, já que o centro de compras ficava à beira da estrada. Estava distante de minha casa, mas os muitos quilômetros eram compensados pelos preços baixos. Caminhei até meu veículo, acenando com a cabeça para os soldados que passavam por mim.

Ah, como o adorava. Era um Mercedes 2078, carro antigo, mas veloz. Nunca fui um homem muito bonito, sempre "encorpado" demais, um tanto baixo, etc. Contudo a Mercedes sempre me ajudou à arrumar companhia feminina. Elas sempre haviam adorado aquele carro, pelo menos a maioria delas.

Tomei a estrada. Resolvi que hoje iria pela nova obra, um complexo elevado titânico, construção que ligava cinco estados, os cinco mais importantes do país. Geralmente estava lotada, mas não essa noite, já que muitos não saíram de suas casas temendo novas investidas.

Céus, como era fantástica aquela situação. O conforto, a sensação de liberdade, de poder. Naquele momento eu possuía a estrada, era um homem livre. Não importavam os problemas dos outros, eu tinha os meus próprios para me preocupar. Eles nunca me transformariam em um neurótico.

Só havia algo para tornar aquele momento mais perfeito: música. Liguei meu comunicador, rebaixado à condição de puro e simples rádio, palavra antiga, mas que estava sendo corretamente usada.

Infelizmente, assim como a televisão o rádio também estava mergulhado na paranóia. Sofri para achar uma estação que não atirasse sobre mim as últimas noticias ou textos incrivelmente longos sobre a "honra assassinada do presidente". Finalmente achei uma estação musical. Tudo bem, era a clássica, mas sempre achei a música do século vinte agradável.

Peguei o final de uma música, uma balada romântica, que eu conhecia apesar de não saber o nome. Quando essa acabou pensei por um momento que a estação também se entregaria à informação, mas logo outra música teve início. Essa era de meu conhecimento, sendo seu nome relacionado com a palavra "Sharona", talvez "My Sharona", "Your Sharona", algo do tipo.

Comecei à dançar com a cabeça, totalmente envolvido com o ritmo. Que se danasse o mundo do lado de fora do carro, eu estava satisfeito. Tinha um bom emprego, uma boa casa, uma boa vida sexual. Apenas não pensava que segundos depois tudo iria mudar, de um modo que nem o mais paranóico de meus compatriotas imaginaria.

Não sei dizer o que aconteceu. Talvez fosse minha distração graças à música, talvez pura e simples negligencia, talvez um golpe do destino. Sei apenas que algo grande e incrivelmente pesado voou em direção ao pára-brisa, se chocando à toda velocidade contra meu veículo. Rapidamente perdi o controle sobre o automóvel, sendo atirado para fora da estrada. Por sorte minha trajetória foi detida por uma enorme placa de concreto, senão poderia ter até mesmo capotado.

Deus do céu, o que eu havia atropelado? Com certeza era algo vivo, fato evidenciado pelo fino filete de sangue escorrendo em direção ao volante, mas o que seria aquilo? Um animal talvez? Possivelmente, mas a região em que eu estava era desprovida de vida selvagem, sendo muito mais fácil que se tratasse de um ser humano.

Fechei os olhos, ouvindo o barulho de uma explosão. Agora havia uma explicação. Talvez estivesse no meio de um conflito, atropelando um dos participantes. Sim, seria muito mais fácil eu ter entrado em uma zona de guerrilha do que em uma zona selvagem. Faltava apenas saber à qual facção pertencia o finado, e torcer para que essa perdesse.

Ao ouvir uma segunda explosão saí do carro, ainda de olhos fechados. Corri para o meio da estrada, pronto à me render para qual fosse o grupo. Pensando agora, depois da calmaria, vejo como a cena havia sido ridícula. Eu, homem crescido, correndo de olhos fechados e lagrimosos ao som de "Sei lá o que Sharona".

Bem, não houve mais som algum, à não ser o de fogo queimando. Resolvi abrir os olhos, não vendo nenhum soldado, rebelde ou arma, apenas um helicóptero militar caído.

Não imaginam a surpresa que tive. Sequei os olhos, rindo de minha covardia. Um helicóptero caído, sem ocupantes, pelo menos ocupantes vivos. Virei para trás, parando de rir ao lembrar que havia um cadáver esparramado sobre meu veículo.

Caminhei até ele. Era um homem, aparentemente jovem, de corpo atlético. Seu corpo era estranhamente contornado por metal, não sendo todo ele originado de meu automóvel. Ao que parecia o sujeito era uma espécie de soldado, trajado até mesmo com uma armadura, ou o que um dia havia sido uma armadura. Só nesse momento me dei conta de como estava indo rápido na estrada.

Seu braço esquerdo, agora encrostado no pára choque, estivera voltado para o chão. Com certeza o helicóptero foi atingido quando estava à poucas milhas do solo, assim como a queda tinha sido estudada. Penso apenas ele não havia calculado que naquele exato momento eu passaria sorridente dirigindo meu Mercedes. Uma fatalidade, com certeza.

O susto maior, porém, foi ao observar seu rosto. Puxei sua cabeça pelos cabelos loiros, agora vermelhos com o sangue. Seu rosto aliás, era uma das partes mais conservadas de seu corpo, sendo para mim assustadoramente familiar.

Meu choque ao ver a verdade foi tão grande que demorei alguns minutos até aceitar a idéia do que havia feito. Era aquele o tão popular rosto das camisetas. Eu, homem simples e ordinário, havia matado "O Libertador".

Sim, era ele, não havia discussão. O rosto, as luvas, o símbolo anarquista em seu ombro. Estava em frente à um dos maiores ícones do mundo moderno, para o bem ou para o mal. Estava em frente ao herói, ao demônio, ao assassino, ao "Libertador". Guerreiro viril, estrategista astuto, morto como um cachorro por um contador e seu carro importado.

Recostei-me no carro, pensando no que fazer. Os militares chegariam à qualquer minuto em busca do helicóptero, não havia como ficar sozinho por muito tempo. Na melhor das hipóteses seria agraciado com uma medalha, me tornaria um personagem importante da história do país, entrando para os livros. Meu maior medo, porém, era que o capítulo sobre mim terminasse contando minha morte pelas mãos dos membros do "Liberdade Já".

Sim, eles poderiam me caçar, assim como os militares haviam caçado o assassino de seu presidente. Eu, que nunca me meti em nenhum assunto dessa linha, que nunca me interessei por política nem por revolução, que nunca participei de nenhuma discussão relacionada à esse assunto, me via preso à essa responsabilidade. Poderia ter mudado a história naquele momento.

Olhei novamente para o cadáver, o ícone de uma geração. Resolvi guarda-lo no porta malas, depois decidiria seu destino. A primeira decisão que tomei antes de deixar o local à toda velocidade foi desligar o rádio.

Dirigi rapidamente para a estrada antiga. Se a rodoviária estava vazia, a estrada antiga estava abandonada. Lá teria a tranqüilidade para pensar no que fazer.

Talvez o mais sensato fosse mesmo entregar o corpo às autoridades. Seria difícil para mim, temeria à todo momento por minha segurança, mas estaria cumprindo meu dever de cidadão. Talvez até me arrumassem uma guarda particular, tudo que teria que fazer seria rezar para que não ocorresse uma revolução. Outra opção, essa mais marginal, seria procurar os membros de sua equipe, implorar perdão e o entregar para que um enterro decente fosse realizado. As duas opções eram bastante arriscadas, no momento não me entregaria à nenhuma.

É engraçado, quando estamos em crise pensamos em nossa vida, fazemos uma grande retrospectiva. Pensei em minha infância, a miséria na qual minha família vivia graças à guerra. Pensei em meus anos de colegial, da revolta que se apagou assim que me tornei adulto. Mas a principal imagem de meu álbum mental foi Vitória.

Vitória, uma mulher, não o sentido de vencer. Talvez um dos maiores amores da minha vida, com seu jeito delicado, sua beleza angelical. Sim, você pode perguntar o porquê de eu ter pensado em uma mulher numa hora daquelas. Simplesmente pela sua história trágica e porque eu havia acabado de matar seu ídolo.

Havia a conhecido no trabalho, me interessado (mesmo que inicialmente apenas fisicamente) por sua figura no instante em que bati os olhos. Hoje me sinto um tanto mal por falar dessa maneira, mas estou apenas sendo sincero.

Vitória, como soube em nosso primeiro encontro, era afiliada ao "Liberdade Já", sendo totalmente devota ao "Libertador" e seus princípios. Nunca esqueci de uma de nossas primeiras conversas:

- Mas como você pode pensar assim- dizia ela sorrindo, o tipo de dialogo, que apesar de ser totalmente sério, é dito em tom alegre- vivemos em uma sociedade completamente ditatorial. É esse o tipo de vida que quer deixar para os seus filhos?-

- Meu bem- respondi, também sorrindo- nunca balancei nenhuma bandeira, e não sei se posso mudar-

- Você pode mudar, se estiver disposto posso tentar abrir os seus olhos-

‘ - Você poderia tentar-

Naquela noite ela me mostrou tudo sobre a organização e sobre seu líder. Apenas ressalto à vocês que sua disposição era tanta que a expressão "olhos abertos" era, à primeira vista uma contradição. A mulher pendurava imagens do "Libertador" em seu quarto como se pendurasse pôsteres de um astro de Rock Esse exibicionismo dava um tom estranho à palavra revolução, embora não tirasse o sentido da luta.

Menti, quando no começo desse texto disse que nunca pertenci à nenhum grupo. Realmente, durante alguns dias quase me filiei ao "Liberdade Já", comparecendo até à uma de suas manifestações. Isso enquanto Vitória ainda não havia se tornado um vegetal.

Vegetal? Sim, estado vegetativo, coma. Sabe o que é ver o suposto amor de sua vida sendo arrancado de seu alcance e em seguida agredido inúmeras vezes por soldados? Eu sei. Foi, acreditem ou não, o pior dia de minha vida. Quer saber qual foi minha reação? Medo. Fiquei paralisado, vendo o sangue molhando seus cabelos castanhos.

Se eu fui visita-la? Sim, diversas vezes durante o primeiro mês. Depois me desanimei, tudo indicava que ela nunca mais acordaria. Minhas visitas passaram então à ser semanais, depois mensais, finalmente bimestrais, até cessarem completamente. Se me senti culpado? Angustiado, mas culpado não. O que eu havia amado (ou gostado muito) já não estava naquela cama, pelo menos era o que eu dizia para me consolar.

Depois fui esquecendo essa etapa de minha vida. Tentei afastar aquele dia traumático de minha memória, conseguindo relativo sucesso, mesmo que para isso tivesse que afastar Vitória e toda minha revolta de minha mente. Foi assim que me tornei indiferente, a indiferença era minha revolta. Nunca apoiaria os militares, os assassinos de minha amada. Também não correria atrás do "Liberdade Já", já que nem um membro havia levantado um único dedo por nós, agora números da estatística. Havia criado em mim uma figura neutra, cuja aparente alienação não era nada menos do que inconformismo total.

Voltei nesse momento à realidade, ainda havia um cadáver se decompondo em meu porta malas, fosse quem fosse. Liguei novamente o rádio, procurando alguma informação útil, e é lógico que encontrei, afinal o show da imprensa devia continuar.

Era noticiado que o exercito havia encurralado o "Libertador" à cerca de meia hora, mas que esse conseguira fugir capturando um helicóptero, que havia sido abatido. O repórter ainda dizia que ele aparentemente havia fugido para zona oeste (por sorte o lado oposto da estrada) graças às marcas de pneus encontradas (na verdade minhas marcas do momento em que perdi o controle).

A sorte estava ao meu lado, faltava saber em que lado eu estava. Senti um cheiro fétido tomar conta de meu carro. Seria possível que o corpo já estivesse se decompondo? Achava que não, faziam apenas poucos minutos que tudo acontecera. Não, não era o corpo, eu estava é passando ao lado da represa.

A represa era enorme, poluída, escura, perfeita. Não cabia à mim o poder de decisão, eu não era ninguém para decidir o rumo do país, destruir o sonho de milhares de jovens. Não podia trair o que um dia havia acreditado, o que Vitória havia acreditado. Decidi então o que iria fazer, manteria "O Libertador" vivo.

Eram várias as hipóteses do que aconteceria caso "O Libertador" fosse dado como morto. O senso de confiança dos revolucionários seria abalado, gerando mais violência, enquanto com o governo aconteceria o contrário, porém com o mesmo resultado. Só havia um modo de evitar que o caos imperasse: Mascarar a verdade.

Alinhei meu carro com o final da estrada. Desci, caminhando até o porta malas e em seguida empurrei o corpo para dentro da represa. Sentei então sobre o capô, admirando a ironia da imagem do mais temido e admirado ícone de nossa sociedade sendo engolido pela sujeira. Dificilmente encontrariam o corpo, mesmo se o achassem boiando não estranhariam, um cadáver boiando, infelizmente, era algo comum.

Entrei no carro, notando que a rádio tocava "The Show Must Go On", do "Queen", música totalmente digna para um enterro e própria para a situação. Era hora de voltar para casa, era hora das pessoas fazerem sua parte. Havia liberado aquele peso das costas do "Libertador".

Não é preciso dizer que a aparência do meu veículo causou um pouco de estranheza, fui parado por cinco soldados no caminho, contando à todos eles a mesma história de que havia fugido de alguns rebeldes, atropelando um deles na fuga. Graças ao meu histórico e ao modo ufanista como contei fui liberado.

Apesar do sucesso, não tive paz ao chegar em casa. As imagens não paravam de dançar em minha mente, principalmente o rosto de Vitória. Tomei então uma decisão, iria visita-la.

Fui na noite seguinte ao hospital, sendo recepcionado de modo frio pela enfermeira, que me deu uma dura pelo tempo que fiquei sem aparecer. Vitória estava internada na parte baixa do hospital, já que o modo pelo qual havia "ficado doente" não havia sido muito "Floydista". Temi ao pensar em como ela estaria agora, um ano depois da última vez que eu a havia visto, mas por sorte meus temores eram infundados.

Ela estava lá, dormindo, intocada pelo tempo. Fiquei alguns minutos apenas à contemplando, sua beleza fria, agredida. Depois decidi deitar ao seu lado, queria ficar lá o tempo que pudesse, queria me redimir por minha indiferença. Tomei o controle de cima da escrivaninha, ligando o aparelho televisivo à tanto desligado.

A primeira imagem que surgiu foi a de um sorridente repórter, que com orgulho anunciava:

- Boa noite. Hoje, à exatamente à meia hora, nossa nação mais uma vez triunfou soberana sobre nossos inimigos. Foi achado nas margens da represa do Ipiranga o corpo do homem conhecido como "O Libertador"-

Voltei meu corpo para frente, incrédulo do que ouvia.

- Junto ao corpo havia um mini comunicador, que levou o exercito até os subversivos terroristas do grupo "Liberdade Já"- continuava o jornalista, enquanto imagens de uma verdadeira chacina eram orgulhosamente exibidas. Corpos enfileirados, soldados que alegremente atiravam nas cabeças de pessoas ajoelhadas e muitos outros retratos de barbárie. O repórter prosseguiu:

- À pouco falamos com o General Mattos, que nos explicou o motivo da morte do terrorista. Aparentemente, ao ser arremessado do helicóptero, "Libertador" despencou em um rochedo, perdendo a consciência. Ao contrário do divulgado antes, o laudo oficial confirma que a morte ocorreu por afogamento, repetindo: por afogamento-

Desliguei o aparelho, ainda abalado pela terrível ironia da situação. Sentia que o mundo estava zombando diretamente comigo, como se estivesse se rindo de minha covardia.

Eu havia realmente matado "O Libertador", não por uma fatalidade, não por acidente. Não poderia chamar aquilo nem mesmo de negligência. Havia feito por egoísmo, por indiferença, por covardia. Podia tê-lo salvado, sei disso, tudo que teria que ter feito seria ter notado que ele ainda respirava.

Eu era o verdadeiro assassino, o pior deles, já que meu crime havia sido cometido não por um ideal, mas pela falta de um. Eu havia eliminado a esperança de milhões, eu havia entregado a vitória aos militares.

Me abracei à mulher desmaiada ao meu lado, tentando pensar no que dizer caso ela acordasse. Queria que isso acontecesse, queria desabafar, queria ter alguém à quem confiar meu crime, mas nada aconteceu. Ela continuaria dormindo, estava sozinho.

Por isso agora escrevo, quero deixar meu relato. Entre toda uma guerra, entre milhares de vidas desperdiçadas, fui indiretamente um genocida. Não matei um homem, matei centenas, matei um pensamento.

Sou afinal, o maior assassino.

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Felipe Lisboa, nascido em São Paulo, onde reside. Sempre teve interesse por ficção ciêntifica, escrevendo desde os dez anos. Atualmente trabalha em uma série de contos e desenvolve seu primeiro romance.

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