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Mars
TV
O peso de uma lua
Gabriel Bozano
Nota do autor: Os
acontecimentos aqui descritos ocorreram antes da entrevista "Encontro
com o senhor de Phobos" feita pelo repórter Kent Chavez com o
presidente da Tillian Mars Division, Rikan Tycoom Makillian e publicado no
site MarsTV Online.
Os
becos escuros de Chinatown não eram exatamente o lugar onde Gerard
Costagravas gostaria de estar naquela noite. Preferia estar em alguma
recepção da ONU para algum alto comissário extraterrestre, ou quem sabe
jantando no Tavern on the green com alguns amigos. Quando conseguiu o cargo
de assistente para assuntos de mídia do secretário geral do departamento
de comunicações da ONU, não esperava encontrar nenhum tipo de aventura, a
não ser analisando vídeos e dando palestras para embaixadores não
fotogênicos. Mas naquela noite, lá estava ele percorrendo alguns becos
escuros de Chinatown em direção a um estabelecimento ilegal de algum
alienígena corrupto acompanhado somente por seu assistente robótico Aidbot
X2, que ao contrário dele, caminhava sereno e despreocupado, talvez por
saber que sua estrutura de liga de carbono era resistente a um bom número
de armas proibidas.
-
Já estamos chegando ao nosso destino senhor. De acordo com as informações
passadas pelo sistema de localização, falta apenas um quarteirão. - Disse
o robô com sua voz protocolar.
Gerard
não prestava atenção. Haviam acabado de passar em frente a uma ruela
estreita e jurou ter visto um Fargal cabeça de martelo segurando um
Canisabre preso por uma coleira. O Fargal não era nenhuma novidade, depois
que vários emigraram para Nova Iorque nos últimos anos, mas um Canisabre,
(caso não o tenha imaginado ainda, segue a descrição) uma perfeita
mistura entre um Pastor alemão e um Tigre siberiano, só que do tamanho de
um Cavalo, era sim uma novidade um pouco assustadora. Gerard achou que
deveria ser um filhote, já que o animal era do tamanho de um São Bernardo.
Havia visto esse bicho no programa "Animals out of this world"
atacando e devorando a equipe de filmagem nativa.
-
Chegamos, senhor.
Gerard
voltou a si. A porta era pequena e mostrava uma escadaria tão íngreme que
parecia atravessar o teto. Engoliu em seco e entrou. No topo da escada, foi
barrado por outro Fargal, no caso, um da espécie cabeça espinhosa que
usava um terno Armani.
-
Onde pensa que vai? - disse o segurança com um sotaque latino.
-
Sou Gerard Costagravas. Acredito que o senhor Jark Na Ho Dim Kat De'Nor
está a minha espera.
O
fargal lhe apontou um Scanmax 3000, um dispositivo três-em-um que faz
análise genética, tira raio X e em alguns casos, ainda serve de porrete.
- Pode seguir. Terceira porta a direita. O robô fica.
Gerard
olhou desconfiado para o seu Aidbot X2.
-
Estarei lhe aguardando senhor. Enquanto isso poderei atualizar meus bancos
de dados de dialetos fargalianos. O Fargal bufou.
O
corredor possuía um estranho papel de parede avermelhado e brilhante, como
se um grupo de vampiros tivesse esquartejado milhares de inocentes e
respingado seu sangue na parede poucos minutos atrás. A terceira porta já
estava aberta quando Gerard chegou, mostrando o interior da sala, ainda mais
estranha que o corredor.
Gerard
entrou sem perceber que estava sendo observado pelo Psi'delikiano, que de
trás de sua mesa, vestia uma roupa tão parecida com a pintura das paredes
que se encontrava quase que completamente mimetizado com a paisagem.
-
Como vai Sr. Gerard?
Gerard
parou assustado olhando para frente sem conseguir ver ninguém. O
alienígena percebeu.
-
Com mil perdões Sr. Gerard, vou reduzir a intensidade da decoração.
Por
um instante, toda a sala, que mais parecia um louco caleidoscópio lilás,
adquiriu uma coloração mais sólida atingindo um tom salmão
desfragmentado. A figura do Psi'delikiano, um pouco acima do peso pelos
nossos padrões e vestindo suas roupas coloridas combinando com sua pele
pintada, ficou visível. Gerard se aproximou cumprimentando-o.
- Prazer em conhecê-lo senhor Jark Na Ho Dim Kat De'Nor.
-
Pode me chamar de Kat De'Nor.- respondeu o alienígena mostrando seu sorriso
dourado.
Gerard
concordou com a cabeça.
-
Por favor, sente-se Gerard. Posso lhe chamar de Gerard? Fique a vontade.
Deseja um drink? Tenho um excelente whisky escocês. Não lhe sirvo nada de
Psi'Delik que nossas bebidas não fazem muito bem aos humanos, e precisamos
conversar com sobriedade.
-
Pelo que soube, a principal bebida de Psi'Delik é uma espécie de lama
catarrenta. Passou no especial sobre seu planeta - disse Gerard tentando
esconder o nervosismo.
O
rosto colorido do Psi'delikiano abriu um sorriso dourado.
-
Sem dúvida. É terrível. Ainda bem que se trata de uma bebida ritual só
ingerida uma vez por ano. Mas lhe digo uma coisa. Deixa qualquer coisa de
pé.
Uma
porta ao lado abriu, de onde saiu uma Psi'Delikiana de beleza estonteante.
Parecia uma pintura art decô usando um vestido de cristais transparentes
refletindo um furta cor puxada para o roxo. Por debaixo da roupa, um corpo
de seios pequenos e curvas esguias, que poderiam lembrar um felino sem pelos
vestindo uma pele de seda rosa, exibia pelas pernas, tatuagens das mais
diversas formas e cores. Depois das equinianas, não existia beleza mais
surreal do que uma jovem de Psi'Delik. Gerard demorou para perceber (e ao
que parece o escritor também) que a jovem carregava uma bandeja com dois
copos cheios de whisky e gelo. Serviu os dois e se retirou, perseguida pelos
olhares dos dois machos.
-
Uma beleza não acha?
Gerard
estava ansioso. Não queria saber sobre as atividades proibidas de Kat De'Nor.
Queria de uma vez por todas tratar do assunto que o havia trazido até lá.
Os tais registros históricos.
-
Desculpe se pareço rude Kat De'Nor, mas gostaria de tratar logo do assunto
pelo qual fui chamado. Sua ligação foi bastante perturbadora.
-
Claro, claro. Tem razão senhor Gerard. Serei breve porque é um assunto
simples, mas como diria Nark Lo Hoy Far De'Lor "todo assunto simples
possui conseqüências complexas". - Ajeitou-se na cadeira tomando um
gole de whisky.
-
Não preciso lhe dizer que os Tillianos são obsessivos com a atividade de
registrar tudo, a todo instante, com suas naves-câmera.
-
Sim, sei disso.
-
Pois bem. A alguns milhares de anos atrás, mais precisamente três mil dos
seus anos, Psi'Delik era um triunvirato ditatorial e nossos três ditadores
eram as criaturas mais desconfiadas do universo. Por conta disso, todos os
programas e imagens transmitidas pelos Tillianos, eram analisadas, gravadas
e guardadas em um arquivo secreto. Isso foi feito por centenas de anos até
a queda do triunvirato e o início do Império de Lat de Mak. O que ocorreu
foi que cerca de um ano atrás, um destes arquivos secretos foi descoberto
por um jovem arqueodigitólogo, que passou a analisar as imagens dos antigos
programas, em busca de, digamos, tesouros digitais.
Gerard
fazia cara de que estava a par de todos os detalhes da história, mas não
estava. Kat De'Nor continuou.
-
O que o arqueodigitólogo constatou em alguns fragmentos, foi que existiam
imagens de um programa chamado "Civilizações Bárbaras" que
durante certo tempo, transmitiu imagens do seu mundo, antes da lei de
potencialidade comercial da informação ser criada.
Gerard
continuou calado. Não sabia se perguntava sobre as imagens ou que diabos
era essa tal lei de potencialidade comercial da informação. Deixou Kat De'Nor
terminar.
-
Enfim, talvez seja melhor lhe mostrar a mercadoria. Ele me enviou um
fragmento caso queira avaliar.
Gerard
nem piscou.
-
É claro.
Ouvindo
isso, Kat De'Nor apertou um botão que projetou uma imagem em uma das
paredes lilases de seu escritório. A princípio era uma filmagem aérea
estranha, distante, mas aos poucos a imagem foi se aproximando, mudando de
ângulo, ganhando mais luz e brilho. Para surpresa e deleite de Gerard, ele
distinguiu com facilidade que o que estava vendo era uma transmissão de
alta resolução e com qualidade digital, da construção da Pirâmide de
Queops. A grande construção, ainda pela metade, estava coberta de
trabalhadores arrastando pedras gigantes por uma rampa lateral.
-
Mas isso é fabuloso! - Exclamou.
A
imagem tornou-se preta e Kat De'Nor desligou o projetor.
-
Infelizmente é só isso que possuo aqui comigo, mas tenho em mão uma lista
de todo o material coletado pelo arqueodigitólogo.
Entregou
um tablete de dados para Gerard. Com o copo de whisky em uma mão e o
tablete na outra, a face de Gerard empalideceu. A lista incluía mais de 30
horas editadas com a construção das pirâmides. Um especial sobre a
construção da Esfinge. O funeral e a coroação de uma penca de faraós. E
não era só isso. A lista mudava para a Mesopotâmia, indicando três horas
de um programa sobre arquitetura Babilônica, com um episódio especial
dedicado aos jardins suspensos e terminava com uma série de 12 episódios
focando as principais civilizações antigas da Terra, em especial as
civilizações; Egípcia, Mesopotâmica, Cretense, e uma menção a outras
sociedades da Era do Bronze. Tudo isso com um pequeno detalhe. Eram imagens
reais, filmadas há mais de três mil anos, em loco, pelas naves-câmera
Tillianas. Gerard estava completamente mudo, mas não de todo fora do ar.
Devolveu o tablete ao Psi'delikiano enquanto tentava controlar a
excitação.
-
Caro senhor Kat De'Nor. No momento que entrei em seu escritório percebi que
estava tratando com um excelente comerciante, e minha presença aqui como
representante da ONU tem por objetivo exatamente analisar sua proposta
comercial. Em vista disso e sem mais delongas eu lhe pergunto. Quanto quer
por esses registros?
Kat
De'Nor sorriu.
-
Ah, como é bom tratar com você humanos. São tão práticos e diretos, mas
também sei que adoram barganhar. Por isso tenho certeza que minha proposta
vai ser de grande interesse. Os registros já foram comprados pelo
consórcio que represento e ao invés de repassá-las para vocês por um
custo exorbitante, decidimos lhes entregar o material de graça.
-
De graça?
-
Sim, de graça, com uma condição é claro.
-
E qual seria essa condição. - Perguntou um Gerard impaciente.
-
Que a ONU regulamentasse nossa atividade e estabelecimentos comerciais.
Gerard
bufou.
-
Em outras palavras. Permita que você e seus sócios explorem a
prostituição interplanetária na Terra de forma legalizada?
-
E com exclusividade. - ressaltou o Psi'Delikiano - O que excluiria os
estabelecimentos Equinianos.
Gerard
levantou-se com rapidez, o que assustou um pouco Kat De'Nor.
-
Por favor, não tive intenção de insultá-lo.
-
De forma alguma Kat De'Nor. Mas você entende que eu não tenho autoridade
para lhe dar uma resposta agora. Preciso conversar com meus superiores e
conseguir um consenso dos comissários.
O
alienígena acalmou-se.
-
Sem dúvida. Mas lhe peço discrição. O Tillianos tem ouvidos compridos.
Gerard
cumprimentou o alienígena.
-
Não precisa sair tão rápido Sr. Gerard. A segunda parte da minha proposta
está do outro lado daquela porta. Gostaria que conhecesse meu
estabelecimento e quem sabe, alguma das minhas funcionárias.
Da
porta ao lado, estrategicamente entreaberta, Gerard foi alvejado pelo olhar
lascivo de duas belas Psi'Delikianas.
-
Outro dia quem sabe. Voltando agora ainda terei tempo de conversar com meu
superior. Como posso contatá-lo?
-
Não gosto de conversas transmitidas por mais do que três metros de
distância. Muito fácil de rastrear. Quando tiver uma resposta, pode voltar
aqui que será bem recebido.
Gerard
despediu-se novamente e saiu. No corredor, viu seu Aidbot X2 conversando
animadamente com o segurança Fargal. Esse despediu-se com um sorriso e lhes
deu passagem. De volta a rua, apesar da hora, Gerard correu até a avenida
próxima e pegou um taxi. Pelo celular confirmou que seu chefe ainda se
encontrava no prédio da ONU e se dirigiu até lá. No banco de trás do
táxi, alheio a conversa entre o motorista robótico e seu assistente Aidbot
X2, percebeu que era o único ser humano a ter presenciado, mesmo que por um
instante, a construção das pirâmides.
***
O
rosto de espanto de Mark Lambert, chefe do departamento de comunicação da
ONU, nem chegou perto da expressão assustada no rosto do comissário geral
da ONU, Rashid Delane quando ouviu a história de Gerard e soube dos
registros históricos. Gerard havia chegado no edifício, indo direto para o
escritório de Mark, e nem havia acabado de contar seu encontro com o Psi'delikiano
subiu direto para a sala do comissário geral.
-
Tem certeza que são imagens verdadeiras? Não poderiam ser simulações
computadorizadas.- Perguntou Rashid.
-
Naquele momento senhor, as imagens eram tão estonteantes que essa
possibilidade nem me passou pela cabeça. Mas tenho certeza que poderíamos
negociar algum tipo de prova de autenticidade antes de fechar acordo.
-
Mas a condição imposta pelo Psi´Delikiano me preocupa Gerard. Passar uma
legislação desse tipo traria enormes complicações, inclusive de opinião
pública.
-
É possível senhor, mas podemos bem lembrar que, de posse desses registros
históricos, acho que a opinião pública vai ficar tão surpreendida com a
descoberta que nem vai se importar com uma lei qualquer, legalizando as
boates de Psi'Delik. Vão ser meses e meses de excitação com as imagens
das pirâmides, da Babilônia...
-
É possível, mas será difícil convencer os comissários das outras
nações? - Comentou Rashid
-
Tenho certeza que a liga árabe vai ser a primeira a aceitar. Vão dizer:
"Os ocidentais que gastem deu dinheiro com meretrizes espaciais.
Queremos ver nossa cultura resgatada." - Comentou Mark.
-
E isso não é nada - complementou Gerard - O conteúdo das fitas pode ser
ainda mais extenso. Os Psi'Delikianos não são peritos em história antiga
terrestre. O que mais podemos descobrir nesses registros sobre o berço da
civilização humana?
Rashid
estava pensativo. Suas rugas de preocupação eram aparentes.
-
Infelizmente não podemos tomar nenhuma decisão sem uma conversa com
autoridades Tillianas, principalmente da MarsTV. Não podemos correr o risco
de violar direitos autorais ou prejudicar nossa relação com eles.
-
Concordo Senhor, mas Kat De'Nor me disse para ter cuidado ao passar essa
informação aos Tillianos.
-
Sim, compreendo. Faremos o seguinte. Por coincidência, amanhã terei uma
reunião com Rikan Tycoom Makillian, o presidente da divisão responsável
pelo gerenciamento da MarsTV. Também quer discutir propostas comerciais
envolvendo problemas imobiliários de posse e propriedade de terras
marcianas. Quero vocês dois aqui comigo amanhã de manhã, para tirarmos a
limpo essa história de gravações do passado com ele.
Gerard
e Mark concordaram e saíram. Terminaram a noite bebendo em um bar do Soho e
Gerard teve de repetir mil vezes o que viu nas incríveis imagens da
construção das pirâmides e duas mil vezes como era a maravilhosa
aparência da jovem Psi'Delikiana que lhe serviu whisky.
***
No
dia seguinte, Gerard chegou sozinho ao edifício da ONU, indo direto para a
sala do secretário geral. Seu Aidbot X2 ficou varrendo a casa enquanto
repetia as novas palavras em dialeto Fargal cabeça de martelo, aprendida
com o segurança de Kat De'Nor.
Rashid
e Mark já estavam sentados tomando um cafezinho e Gerard os acompanhou
enquanto esperavam o Tillliano. Pontualmente as 9:00, Rikan Tycoom Makillian
chegou. Estava escoltado por outros dois Tillianos, tão baixos e
raquíticos quanto ele, mas vestindo uniformes de segurança. Já Makillian
vestia um elegante terno e ostentava um generoso sorriso tão típico e
artificial como o de qualquer outro Tilliano da galáxia.
-
Bom dia, senhores. Como vocês bem sabem, tempo é dinheiro, logo, gostaria
de ir direto ao ponto para que possamos voltar aos nossos afazeres
rotineiros. Não esperava companhia além do senhor secretário geral, mas o
que tenho a dizer não é sigiloso e o caro secretário de comunicações e
seu assistente podem ficar a vontade para participar.
Os
três o cumprimentaram e cada um sentou em seus respectivos lugares. O
Tilliano fez um sinal para que um dos seguranças colocasse um dispositivo
holográfico em cima da mesa. Ligou-se sozinho e gerou a imagem 3D de Marte
rodopiando como uma bola de basquete.
-
Bem senhores, estou aqui como presidente e representante dos acionistas da
Tillian Mars Division que como bem sabem, não só gerencia MarsTV, mas
transmite a nossa programação galáctica para todo esse quadrante. São
57.000 planetas associados sem contar luas e estações espaciais. O que
pretendo iniciar nessa reunião é a regularização dos diversos imóveis
que possuímos em território marciano, uma vez que quando foram, digamos,
adquiridos, vocês nem tinha uma sociedade civilizada, na verdade, pelo que
me lembro, nem mesmo tinham uma sociedade.
Os
três concordaram. Os Tillianos haviam ocupado Marte há dez mil anos e o
primeiro encontro deles com nossa sociedade da época, terminou com a morte
de um técnico Tilliano e um neandertal.
-
O que me preocupa senhor Makillian - falou Rashid. - É que o senhores
estão pedindo muita pressa nessas regulamentações, normas habitacionais
etc... e ainda nem começamos uma colonização efetiva em Marte. Já lhe
informei que contabilizar essas propriedades dispersas vai ser um pouco mais
complicado.
-
Eu sei disso secretário, mas é importante que vocês entendam que já
estamos sofrendo pressão imobiliária por parte de construtoras Terrestres,
que de um dia para o outro aparecem com documentos de posse por pedaços de
terra onde existem instalações Tillianas como domos subterrâneos de
funcionários da empresa. Outro dia mesmo, um executivo de grade quase foi
soterrado depois que uma dessas construtoras, sem aviso nenhum, começou a
fazer testes geológicos em busca de minérios.
-
Bem senhor Makillian, realmente não sei como podemos agilizar o processo.
Além do mais, como colocar um preço em territórios de um outro planeta?
Marte tem um excelente potencial. Fica difícil... -
Rashid
foi interrompido por Makillian.
-
E uma de suas luas?
-
Como assim?
A
imagem holográfica de marte deu lugar à outra, mostrando as duas luas em
órbita. Phobos e Deimos.
-
Quanto vale uma das luas de Marte? Não passam de pequenos asteróides. Ao
invés de perdermos todos esse tempo e dinheiro com as propriedades
marcianas, nós estaríamos dispostos a retirar todo nosso contingente,
inclusive minhas propriedades pessoais, e as transferir para Phobos. De
posse total da lua, não precisaríamos nos preocupar com normas,
regulamentações, ou burocracias desse tipo. Estaríamos dispostos a pagar
cerca de 500 milhões de créditos em ouro, que devo dizer, deve ser quase
equivalente ao seu peso em ouro.
Houve
um silêncio estranho na sala. Os três estavam impressionados com a
proposta Tilliana. Vender uma das luas de Marte? O projetor holográfico
colocou Phobos em foco.
-
Vamos lá senhores. Não estou falando em comprar a Lua da Terra. Phobos tem
cerca de 20 quilômetros de comprimento no lado maior. É um pedregulho
furado orbitando Marte sem valor para mineração. A única vantagem é que
possui uma órbita estável e uma das faces fica sempre voltada para Marte.
Sejamos práticos. O valor já está dado e a proposta assinalada. Estarei
esperando a resposta.
Makillian
levantou-se, mas foi surpreendido por Mark que finalmente abriu a boca.
-
Só um instante senhor Makillian. O motivo de eu e meu colega Gerard
estarmos nessa reunião é exatamente para discutirmos o valor dessa sua
proposta comercial. Vivemos em uma fase de novas descobertas, e existem
outras coisas além de dinheiro, que tenho certeza, iriam seduzir muito mais
alguns dos comissários.
Makillian
voltou a sentar-se.
-
Como o que, Sr. Mark?
Mark
olhou para Gerard, que tomou a palavra.
-
Bem senhor Makillian, o senhor bem sabe que no mundo de hoje, informações
é um commodity bastante valioso e interessante.
-
Estou ouvindo senhor...?
-
Gerard.
-
Sim, peço que vá direto ao ponto.
-
Claro. Sei que vocês vêm filmando a história da Terra a milênios e tem
negado o assunto. Tomei contato com imagens enviadas para um planeta da
federação e tenho certeza que um material desse tipo valeria não uma,
mais várias luas em nosso sistema.
Makillian
sorria.
-
E que planeta seria esse. Fargal, Eqüinos, Psi'delik?
-
Isso não importa senhor, mas tenho certeza que lhe vender a lua em troca
desses registros históricos seria garantia de negócio fechado. O que
precisamos é que o senhor nos confirme a existência desses registros para
que possamos levar ao conhecimento dos comissários e decidir sobre a melhor
forma de negociarmos.
Makillian
mantinha seu sorriso congelado.
-
Qual o nível de segurança e privacidade dessa sala? - Perguntou.
-
Classe A-1 - Respondeu o comissário.
Makillian
assentiu com a cabeça.
-
Bem senhores. Que isso não saia desta sala e logo vão entender porquê.
Sim, nós temos registros históricos da Terra, gravados desde que chegamos
em seu sistema solar, a cerca de dez mil anos. Possuímos imagens que vocês
nunca imaginaram que pudessem existir.
-
Então é verdade? Vocês transmitiam imagens da Terra para outros planetas.
-
Sim. Isso até cerca de três mil anos atrás, quando tivemos problemas com
o Tellianos e resolvemos criar a lei de potencialidade comercial da
informação.
-
E o que seria isso? - perguntaram em coro, Mark e Gerard.
-
Significa que quando uma civilização atinge um certo nível potencial para
transformar-se em futura membro da federação, esses registros históricos
passam a ser guardados para impedir futuras interferências em sua cultura.
-
Porque se fossem transmitidos, não valeriam um milionésimo do que valem
hoje, pois existiriam milhares de cópias espalhadas por aí. - Rebateu
Gerard.
-
Engana-se meu jovem. Podemos parecer mercantilistas demais aos seus olhos,
mas sempre nos preocupamos com a estabilidade dos planetas e culturas da
federação. Afinal você são nossos consumidores. Cometemos esse erro com
o Tellianos, o que acabou gerando enormes conseqüências incluindo a perda
de nosso retransmissor número 3.
-
Não acredito que esses registros possam ser assim tão perigosos. Pelo
contrário. Para nós seria magnífico poder assistir as grandes batalhas,
ver cenas das civilizações antigas. Quem sabe os segredos que vocês
guardam? - disse Rashid.
-
Pois querem ver um destes segredos? Um que mudaria muita coisa na Terra e
traria possíveis conseqüências bastante desagradáveis?
Os
três arregalaram os olhos.
Makillian
digitou alguns códigos no projetor holográfico. A lua de Deimos saiu,
dando lugar a um retângulo escuro bidimensional como a tela plana de uma
tv. Segundo depois, alguns caracteres Tillianos apareceram na tela seguidos
de uma imagem que aos poucos foi entrando em foco. O que Gerard e os demais
viam era uma vista noturna do que parecia ser a entrada de uma gruta. Estava
fechada por uma pedra circular e possuía um soldado romano (reconhecido
pelo elmo, lança e armadura) fazendo guarda. De repente, detrás das
sombras, dois homens vestindo túnicas apareceram. Andavam devagar na
direção do guarda, olhando para os lados e o interpelaram, iniciando uma
conversa sem som. Poucos segundos depois, Gerard e os demais viram o guarda
receber um saco de um dos homens. O guarda olhou dentro do saco, olhou para
os lados, largou a lança no chão e começou a ajudar os dois homens a
empurrarem a pedra circular. Enquanto eles entravam, ele manteve guarda.
Poucos minutos depois, os dois homens saíram, carregando um cadáver
enfaixado em panos brancos. Colocaram o cadáver no chão e após ajudarem o
guarda a recolocar a pedra circular no lugar, lacrando de novo a gruta,
pegaram o corpo e sumiram nas sombras. Por fim, os três viram o romano
pegar sua lança e começar a contar as moedas que retirava do saco. A
imagem se desvaneceu e sumiu, voltando a ficar um retângulo negro.
-
Essa cena foi retirada de um registro histórico feito no ano de 36 D.C. na
palestina.
Mark
e Reshid estavam paralisados. Gerard foi o primeiro a abrir a boca.
-
Você não quer nos convencer de que essa gravação seria do corpo de Jesus
Cristo, sendo roubado da gruta onde havia sido enterrado.
-
Exatamente isso Sr. Gerard. Dois dos chamados apóstolos de Jesus subornaram
o guarda romano e roubaram seu corpo para forjar a ressurreição. No dia
seguinte, para impedir suspeitas, ainda pagaram um salteador para matar o
guarda romano e impedir que ele falasse alguma coisa. Temos tudo gravado.
Agora me respondam. O que aconteceria com uma grande parcela de sua
sociedade se essa imagens fossem exibidas acidentalmente numa tarde de
domingo pela MarsTV. Confesso que não vejo nenhuma vantagem para minha
empresa ou para sua sociedade com tal incidente. Seríamos chamados de
farsantes, causaríamos transtorno para milhares de fiéis e instituições
seculares. E daí que Jesus nunca ressuscitou, e daí que Maomé nunca
conversou com o Anjo Gabriel, e daí que Moisés não dividiu o mar morto,
mas atravessou um banco de areia na maré baixa. Para mim, são apenas
registros históricos, mas para vocês, ah sim, para vocês isso significa
muito mais. O conhecimento é perigoso senhores, trás grande
responsabilidade e peso para costas frágeis.
O
que rebater depois de tal explanação. Os três não tinham nada a
declarar. Makillian fez um sinal para que seu segurança retirasse o
dispositivo da mesa e se levantou sorrindo.
-
500 milhões de créditos em ouro é um bom preço por um pedaço de pedra.
Esqueçam essa história de registros históricos. Quando for a hora certa,
entraremos em contato com vocês sobre tal assunto. Estarei esperando a
resposta sobre Phobos. Passar bem.
E
saiu escoltado por seus seguranças. Rashid foi o primeiro a quebrar o
silêncio.
-
É melhor deixar as coisas com estão Gerard. Avise o tal comerciante de Psi'Delik
que não estamos interessados nos registros que ele possui. Agora, se me
dão licença, preciso conversar com alguns colegas sobre a proposta de
compra dos Tillianos.
Gerard
se retirou da sala junto com Mark. No elevador, pediu o resto de dia de
folga. Mark apertava com força um chaveiro preso ao cinto, com um desenho
estilizado de um peixe.
-
Também vou para casa. - disse abatido.
Gerard
pegou um metrô para Chinatown. Apesar de estar sem seu Aidbot X2, lembrava
do caminho. Chegou no endereço certo, mas a porta estava fechada. Bateu.
Uma portinhola abriu, mostrando os olhos e a testa azulada do fargal.
-
Preciso falar com Kat De'Nor.
O
Fargal abriu a porta dando passagem a Gerard sem antes perguntar onde estava
seu amigo robótico. Ao responder que não o havia trazido, a expressão do
fargal foi de decepção. Não devia ter muitos amigos com quem conversar.
Alguns instantes depois e estava passando novamente pelo corredor de cor
sanguinolenta e entrando no escritório de Kat De'Nor. Estava ainda mais
psicodélico que antes, com luzes vermelhas, amarelas e azuis pulsando nas
paredes. Para não cometer o mesmo erro, Gerard já entrou falando para a
mesa.
- Como vai senhor Kat De'Nor. Sinto informar que não trago boas notícias.
-
Não? - respondeu Kat De'Nor entrando pela porta lateral com uma roupa
misturando dourado, vinho e lilás que aos poucos foi mudando para se
adaptar as cores de sua sala. Kat De'Nor cumprimentou Gerard e sentando-se
em sua mesa, reduziu a intensidade das cores nas paredes.
-
Para lhe falar a verdade senhor Gerard, também não tenho boas notícias.
-
O senhor primeiro Kat De'Nor.
-
Bem, ao que parece o jovem arqueodigitólogo que detinha os tais registros
recebeu uma proposta pra fazer vídeo-escavações no planeta Eqüinos, o
que convenhamos, é uma excelente oportunidade. Partiu sem mais
explicações. Os arquivos que ele deveria ter nos transmitido foram
confiscadas pelo nosso governo. Pelo menos o rapaz devolveu o dinheiro.
-
Entendo - respondeu Gerard. - Na verdade não há problema nenhum. Vim lhe
dizer que não estamos mais interessados. Na verdade tivemos uma conversa
com os Tillianos.
-
Ah - exclamou Kat De'Nor. - Isso explica tudo. Eu lhe disse para tomar
cuidado. Não só os ouvidos, mas os braços dos Tillianos são compridos.
Devem estar por trás desse confisco. Mas tudo bem, sem ressentimentos.
-
Agradeço a compreensão Kat De'Nor.
-
Você não me parece muito bem.
-
Desculpe, é que tive uma manhã dura.
-
Faremos o seguinte. Ontem a noite, antes de sumir, o tal arqueodigitólogo
me enviou uma gravação diferente caso você quisessem barganhar. Vou lhe
mostrar.
Mais
uma vez o telão apareceu no meio da parede. Uma cena ensolarada surgiu,
denunciando pelas vestimentas e adornos tratar-se novamente do Egito. O que
Gerard via era uma enorme procissão com jovens de belo bronzeado e cabelos
pretos largando pétalas de lótus por um caminho ladeado de colunas de
pedra enquanto andavam em direção a um templo. Atrás das jovens, seguia
uma liteira de papiro dourado carregada por fortes escravos núbios e
coberta por tecidos que escondiam seu interior. Atrás da liteira, um grupo
de sacerdotes também ornados com ouro e jóias, seguiam pelo mesmo caminho.
A câmera se afastou mostrando uma multidão de pessoas fora das
dependências do templo, observando a procissão. As jovens pararam em
frente à entrada do templo e de longe Gerard pode ver uma mulher de cabelos
negros e curtos, presos por uma tiara de ouro, sair da liteira. A câmera se
aproximou dando um close no belo rosto da mulher egípcia, pele morena,
nariz afilado, lábios finos e olhos cor de mel. A cena ficou congelada no
rosto da mulher.
- A gravação termina aí, com o close dessa mulher. Sabe quem se trata? O
arqueodigitólogo tinha uma suspeita...- foi interrompido por Gerard.
-
Nefertiti.
-
Isso, acho que foi esse nome que ele falou. Essa cena seria a coroação
dessa tal Nefertiti.
Gerard
nem sentiu a lágrima escorrer seus olhos úmidos. Tinha sido o primeiro ser
humano a ver um instante da construção das pirâmides, depois foi o
primeiro a ver o túmulo profanado de Cristo e agora, era apresentado ao
verdadeiro rosto de uma Rainha egípcia que reinou cerca de três mil anos
atrás. E como era linda. E como a realidade pesava em seu coração.
Kat
De'Nor também sorria emocionado, típica empatia Psi'delikiana. Pegou um
disco de dados de dentro de uma gaveta.
-
Coloquei neste disco os dois fragmentos de vídeo. Vou lhes dar
de
graça com uma condição.
Gerard
enxugou os olhos úmidos tentando disfarçar.
-
Qual a condição?
-
Que venha conhecer meu estabelecimento. - Disse Kat De'Nor sorrindo dourado.
Temos um fantástico bar e as mais lindas modelos de Psi'delik. Se isso não
tirar essa tristeza do seu rosto, nada tirará.
Gerard
esboçou um sorriso. Levantou-se cabisbaixo e foi surpreendido por duas
belas Psi'Delikianas que surgidas do nada, enroscaram-se em seus braços.
Entrou na porta lateral sentindo um enorme peso na consciência, talvez tão
grande quanto o peso em ouro a ser pago pela lua Marciana. Sentiu um
conforto momentâneo nos olhos prateados da jovem Psi'Delikiana e dando um
sorriso envelhecido, desapareceu por entre brilhos vermelhos, lilases e
dourados.
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