Mars TV
O peso de uma lua

Gabriel Bozano

Nota do autor: Os acontecimentos aqui descritos ocorreram antes da entrevista "Encontro com o senhor de Phobos" feita pelo repórter Kent Chavez com o presidente da Tillian Mars Division, Rikan Tycoom Makillian e publicado no site MarsTV Online.

Os becos escuros de Chinatown não eram exatamente o lugar onde Gerard Costagravas gostaria de estar naquela noite. Preferia estar em alguma recepção da ONU para algum alto comissário extraterrestre, ou quem sabe jantando no Tavern on the green com alguns amigos. Quando conseguiu o cargo de assistente para assuntos de mídia do secretário geral do departamento de comunicações da ONU, não esperava encontrar nenhum tipo de aventura, a não ser analisando vídeos e dando palestras para embaixadores não fotogênicos. Mas naquela noite, lá estava ele percorrendo alguns becos escuros de Chinatown em direção a um estabelecimento ilegal de algum alienígena corrupto acompanhado somente por seu assistente robótico Aidbot X2, que ao contrário dele, caminhava sereno e despreocupado, talvez por saber que sua estrutura de liga de carbono era resistente a um bom número de armas proibidas.

- Já estamos chegando ao nosso destino senhor. De acordo com as informações passadas pelo sistema de localização, falta apenas um quarteirão. - Disse o robô com sua voz protocolar.

Gerard não prestava atenção. Haviam acabado de passar em frente a uma ruela estreita e jurou ter visto um Fargal cabeça de martelo segurando um Canisabre preso por uma coleira. O Fargal não era nenhuma novidade, depois que vários emigraram para Nova Iorque nos últimos anos, mas um Canisabre, (caso não o tenha imaginado ainda, segue a descrição) uma perfeita mistura entre um Pastor alemão e um Tigre siberiano, só que do tamanho de um Cavalo, era sim uma novidade um pouco assustadora. Gerard achou que deveria ser um filhote, já que o animal era do tamanho de um São Bernardo. Havia visto esse bicho no programa "Animals out of this world" atacando e devorando a equipe de filmagem nativa.

- Chegamos, senhor.

Gerard voltou a si. A porta era pequena e mostrava uma escadaria tão íngreme que parecia atravessar o teto. Engoliu em seco e entrou. No topo da escada, foi barrado por outro Fargal, no caso, um da espécie cabeça espinhosa que usava um terno Armani.

- Onde pensa que vai? - disse o segurança com um sotaque latino.

- Sou Gerard Costagravas. Acredito que o senhor Jark Na Ho Dim Kat De'Nor está a minha espera.

O fargal lhe apontou um Scanmax 3000, um dispositivo três-em-um que faz análise genética, tira raio X e em alguns casos, ainda serve de porrete.
- Pode seguir. Terceira porta a direita. O robô fica.

Gerard olhou desconfiado para o seu Aidbot X2.

- Estarei lhe aguardando senhor. Enquanto isso poderei atualizar meus bancos de dados de dialetos fargalianos. O Fargal bufou.

O corredor possuía um estranho papel de parede avermelhado e brilhante, como se um grupo de vampiros tivesse esquartejado milhares de inocentes e respingado seu sangue na parede poucos minutos atrás. A terceira porta já estava aberta quando Gerard chegou, mostrando o interior da sala, ainda mais estranha que o corredor.

Gerard entrou sem perceber que estava sendo observado pelo Psi'delikiano, que de trás de sua mesa, vestia uma roupa tão parecida com a pintura das paredes que se encontrava quase que completamente mimetizado com a paisagem.

- Como vai Sr. Gerard?

Gerard parou assustado olhando para frente sem conseguir ver ninguém. O alienígena percebeu.

- Com mil perdões Sr. Gerard, vou reduzir a intensidade da decoração.

Por um instante, toda a sala, que mais parecia um louco caleidoscópio lilás, adquiriu uma coloração mais sólida atingindo um tom salmão desfragmentado. A figura do Psi'delikiano, um pouco acima do peso pelos nossos padrões e vestindo suas roupas coloridas combinando com sua pele pintada, ficou visível. Gerard se aproximou cumprimentando-o.
- Prazer em conhecê-lo senhor Jark Na Ho Dim Kat De'Nor.

- Pode me chamar de Kat De'Nor.- respondeu o alienígena mostrando seu sorriso dourado.

Gerard concordou com a cabeça.

- Por favor, sente-se Gerard. Posso lhe chamar de Gerard? Fique a vontade. Deseja um drink? Tenho um excelente whisky escocês. Não lhe sirvo nada de Psi'Delik que nossas bebidas não fazem muito bem aos humanos, e precisamos conversar com sobriedade.

- Pelo que soube, a principal bebida de Psi'Delik é uma espécie de lama catarrenta. Passou no especial sobre seu planeta - disse Gerard tentando esconder o nervosismo.

O rosto colorido do Psi'delikiano abriu um sorriso dourado.

- Sem dúvida. É terrível. Ainda bem que se trata de uma bebida ritual só ingerida uma vez por ano. Mas lhe digo uma coisa. Deixa qualquer coisa de pé.

Uma porta ao lado abriu, de onde saiu uma Psi'Delikiana de beleza estonteante. Parecia uma pintura art decô usando um vestido de cristais transparentes refletindo um furta cor puxada para o roxo. Por debaixo da roupa, um corpo de seios pequenos e curvas esguias, que poderiam lembrar um felino sem pelos vestindo uma pele de seda rosa, exibia pelas pernas, tatuagens das mais diversas formas e cores. Depois das equinianas, não existia beleza mais surreal do que uma jovem de Psi'Delik. Gerard demorou para perceber (e ao que parece o escritor também) que a jovem carregava uma bandeja com dois copos cheios de whisky e gelo. Serviu os dois e se retirou, perseguida pelos olhares dos dois machos.

- Uma beleza não acha?

Gerard estava ansioso. Não queria saber sobre as atividades proibidas de Kat De'Nor. Queria de uma vez por todas tratar do assunto que o havia trazido até lá. Os tais registros históricos.

- Desculpe se pareço rude Kat De'Nor, mas gostaria de tratar logo do assunto pelo qual fui chamado. Sua ligação foi bastante perturbadora.

- Claro, claro. Tem razão senhor Gerard. Serei breve porque é um assunto simples, mas como diria Nark Lo Hoy Far De'Lor "todo assunto simples possui conseqüências complexas". - Ajeitou-se na cadeira tomando um gole de whisky.

- Não preciso lhe dizer que os Tillianos são obsessivos com a atividade de registrar tudo, a todo instante, com suas naves-câmera.

- Sim, sei disso.

- Pois bem. A alguns milhares de anos atrás, mais precisamente três mil dos seus anos, Psi'Delik era um triunvirato ditatorial e nossos três ditadores eram as criaturas mais desconfiadas do universo. Por conta disso, todos os programas e imagens transmitidas pelos Tillianos, eram analisadas, gravadas e guardadas em um arquivo secreto. Isso foi feito por centenas de anos até a queda do triunvirato e o início do Império de Lat de Mak. O que ocorreu foi que cerca de um ano atrás, um destes arquivos secretos foi descoberto por um jovem arqueodigitólogo, que passou a analisar as imagens dos antigos programas, em busca de, digamos, tesouros digitais.

Gerard fazia cara de que estava a par de todos os detalhes da história, mas não estava. Kat De'Nor continuou.

- O que o arqueodigitólogo constatou em alguns fragmentos, foi que existiam imagens de um programa chamado "Civilizações Bárbaras" que durante certo tempo, transmitiu imagens do seu mundo, antes da lei de potencialidade comercial da informação ser criada.

Gerard continuou calado. Não sabia se perguntava sobre as imagens ou que diabos era essa tal lei de potencialidade comercial da informação. Deixou Kat De'Nor terminar.

- Enfim, talvez seja melhor lhe mostrar a mercadoria. Ele me enviou um fragmento caso queira avaliar.

Gerard nem piscou.

- É claro.

Ouvindo isso, Kat De'Nor apertou um botão que projetou uma imagem em uma das paredes lilases de seu escritório. A princípio era uma filmagem aérea estranha, distante, mas aos poucos a imagem foi se aproximando, mudando de ângulo, ganhando mais luz e brilho. Para surpresa e deleite de Gerard, ele distinguiu com facilidade que o que estava vendo era uma transmissão de alta resolução e com qualidade digital, da construção da Pirâmide de Queops. A grande construção, ainda pela metade, estava coberta de trabalhadores arrastando pedras gigantes por uma rampa lateral.

- Mas isso é fabuloso! - Exclamou.

A imagem tornou-se preta e Kat De'Nor desligou o projetor.

- Infelizmente é só isso que possuo aqui comigo, mas tenho em mão uma lista de todo o material coletado pelo arqueodigitólogo.

Entregou um tablete de dados para Gerard. Com o copo de whisky em uma mão e o tablete na outra, a face de Gerard empalideceu. A lista incluía mais de 30 horas editadas com a construção das pirâmides. Um especial sobre a construção da Esfinge. O funeral e a coroação de uma penca de faraós. E não era só isso. A lista mudava para a Mesopotâmia, indicando três horas de um programa sobre arquitetura Babilônica, com um episódio especial dedicado aos jardins suspensos e terminava com uma série de 12 episódios focando as principais civilizações antigas da Terra, em especial as civilizações; Egípcia, Mesopotâmica, Cretense, e uma menção a outras sociedades da Era do Bronze. Tudo isso com um pequeno detalhe. Eram imagens reais, filmadas há mais de três mil anos, em loco, pelas naves-câmera Tillianas. Gerard estava completamente mudo, mas não de todo fora do ar. Devolveu o tablete ao Psi'delikiano enquanto tentava controlar a excitação.

- Caro senhor Kat De'Nor. No momento que entrei em seu escritório percebi que estava tratando com um excelente comerciante, e minha presença aqui como representante da ONU tem por objetivo exatamente analisar sua proposta comercial. Em vista disso e sem mais delongas eu lhe pergunto. Quanto quer por esses registros?

Kat De'Nor sorriu.

- Ah, como é bom tratar com você humanos. São tão práticos e diretos, mas também sei que adoram barganhar. Por isso tenho certeza que minha proposta vai ser de grande interesse. Os registros já foram comprados pelo consórcio que represento e ao invés de repassá-las para vocês por um custo exorbitante, decidimos lhes entregar o material de graça.

- De graça?

- Sim, de graça, com uma condição é claro.

- E qual seria essa condição. - Perguntou um Gerard impaciente.

- Que a ONU regulamentasse nossa atividade e estabelecimentos comerciais.

Gerard bufou.

- Em outras palavras. Permita que você e seus sócios explorem a prostituição interplanetária na Terra de forma legalizada?

- E com exclusividade. - ressaltou o Psi'Delikiano - O que excluiria os estabelecimentos Equinianos.

Gerard levantou-se com rapidez, o que assustou um pouco Kat De'Nor.

- Por favor, não tive intenção de insultá-lo.

- De forma alguma Kat De'Nor. Mas você entende que eu não tenho autoridade para lhe dar uma resposta agora. Preciso conversar com meus superiores e conseguir um consenso dos comissários.

O alienígena acalmou-se.

- Sem dúvida. Mas lhe peço discrição. O Tillianos tem ouvidos compridos.

Gerard cumprimentou o alienígena.

- Não precisa sair tão rápido Sr. Gerard. A segunda parte da minha proposta está do outro lado daquela porta. Gostaria que conhecesse meu estabelecimento e quem sabe, alguma das minhas funcionárias.

Da porta ao lado, estrategicamente entreaberta, Gerard foi alvejado pelo olhar lascivo de duas belas Psi'Delikianas.

- Outro dia quem sabe. Voltando agora ainda terei tempo de conversar com meu superior. Como posso contatá-lo?

- Não gosto de conversas transmitidas por mais do que três metros de distância. Muito fácil de rastrear. Quando tiver uma resposta, pode voltar aqui que será bem recebido.

Gerard despediu-se novamente e saiu. No corredor, viu seu Aidbot X2 conversando animadamente com o segurança Fargal. Esse despediu-se com um sorriso e lhes deu passagem. De volta a rua, apesar da hora, Gerard correu até a avenida próxima e pegou um taxi. Pelo celular confirmou que seu chefe ainda se encontrava no prédio da ONU e se dirigiu até lá. No banco de trás do táxi, alheio a conversa entre o motorista robótico e seu assistente Aidbot X2, percebeu que era o único ser humano a ter presenciado, mesmo que por um instante, a construção das pirâmides.

***

O rosto de espanto de Mark Lambert, chefe do departamento de comunicação da ONU, nem chegou perto da expressão assustada no rosto do comissário geral da ONU, Rashid Delane quando ouviu a história de Gerard e soube dos registros históricos. Gerard havia chegado no edifício, indo direto para o escritório de Mark, e nem havia acabado de contar seu encontro com o Psi'delikiano subiu direto para a sala do comissário geral.

- Tem certeza que são imagens verdadeiras? Não poderiam ser simulações computadorizadas.- Perguntou Rashid.

- Naquele momento senhor, as imagens eram tão estonteantes que essa possibilidade nem me passou pela cabeça. Mas tenho certeza que poderíamos negociar algum tipo de prova de autenticidade antes de fechar acordo.

- Mas a condição imposta pelo Psi´Delikiano me preocupa Gerard. Passar uma legislação desse tipo traria enormes complicações, inclusive de opinião pública.

- É possível senhor, mas podemos bem lembrar que, de posse desses registros históricos, acho que a opinião pública vai ficar tão surpreendida com a descoberta que nem vai se importar com uma lei qualquer, legalizando as boates de Psi'Delik. Vão ser meses e meses de excitação com as imagens das pirâmides, da Babilônia...

- É possível, mas será difícil convencer os comissários das outras nações? - Comentou Rashid

- Tenho certeza que a liga árabe vai ser a primeira a aceitar. Vão dizer: "Os ocidentais que gastem deu dinheiro com meretrizes espaciais. Queremos ver nossa cultura resgatada." - Comentou Mark.

- E isso não é nada - complementou Gerard - O conteúdo das fitas pode ser ainda mais extenso. Os Psi'Delikianos não são peritos em história antiga terrestre. O que mais podemos descobrir nesses registros sobre o berço da civilização humana?

Rashid estava pensativo. Suas rugas de preocupação eram aparentes.

- Infelizmente não podemos tomar nenhuma decisão sem uma conversa com autoridades Tillianas, principalmente da MarsTV. Não podemos correr o risco de violar direitos autorais ou prejudicar nossa relação com eles.

- Concordo Senhor, mas Kat De'Nor me disse para ter cuidado ao passar essa informação aos Tillianos.

- Sim, compreendo. Faremos o seguinte. Por coincidência, amanhã terei uma reunião com Rikan Tycoom Makillian, o presidente da divisão responsável pelo gerenciamento da MarsTV. Também quer discutir propostas comerciais envolvendo problemas imobiliários de posse e propriedade de terras marcianas. Quero vocês dois aqui comigo amanhã de manhã, para tirarmos a limpo essa história de gravações do passado com ele.

Gerard e Mark concordaram e saíram. Terminaram a noite bebendo em um bar do Soho e Gerard teve de repetir mil vezes o que viu nas incríveis imagens da construção das pirâmides e duas mil vezes como era a maravilhosa aparência da jovem Psi'Delikiana que lhe serviu whisky.

***

No dia seguinte, Gerard chegou sozinho ao edifício da ONU, indo direto para a sala do secretário geral. Seu Aidbot X2 ficou varrendo a casa enquanto repetia as novas palavras em dialeto Fargal cabeça de martelo, aprendida com o segurança de Kat De'Nor.

Rashid e Mark já estavam sentados tomando um cafezinho e Gerard os acompanhou enquanto esperavam o Tillliano. Pontualmente as 9:00, Rikan Tycoom Makillian chegou. Estava escoltado por outros dois Tillianos, tão baixos e raquíticos quanto ele, mas vestindo uniformes de segurança. Já Makillian vestia um elegante terno e ostentava um generoso sorriso tão típico e artificial como o de qualquer outro Tilliano da galáxia.

- Bom dia, senhores. Como vocês bem sabem, tempo é dinheiro, logo, gostaria de ir direto ao ponto para que possamos voltar aos nossos afazeres rotineiros. Não esperava companhia além do senhor secretário geral, mas o que tenho a dizer não é sigiloso e o caro secretário de comunicações e seu assistente podem ficar a vontade para participar.

Os três o cumprimentaram e cada um sentou em seus respectivos lugares. O Tilliano fez um sinal para que um dos seguranças colocasse um dispositivo holográfico em cima da mesa. Ligou-se sozinho e gerou a imagem 3D de Marte rodopiando como uma bola de basquete.

- Bem senhores, estou aqui como presidente e representante dos acionistas da Tillian Mars Division que como bem sabem, não só gerencia MarsTV, mas transmite a nossa programação galáctica para todo esse quadrante. São 57.000 planetas associados sem contar luas e estações espaciais. O que pretendo iniciar nessa reunião é a regularização dos diversos imóveis que possuímos em território marciano, uma vez que quando foram, digamos, adquiridos, vocês nem tinha uma sociedade civilizada, na verdade, pelo que me lembro, nem mesmo tinham uma sociedade.

Os três concordaram. Os Tillianos haviam ocupado Marte há dez mil anos e o primeiro encontro deles com nossa sociedade da época, terminou com a morte de um técnico Tilliano e um neandertal.

- O que me preocupa senhor Makillian - falou Rashid. - É que o senhores estão pedindo muita pressa nessas regulamentações, normas habitacionais etc... e ainda nem começamos uma colonização efetiva em Marte. Já lhe informei que contabilizar essas propriedades dispersas vai ser um pouco mais complicado.

- Eu sei disso secretário, mas é importante que vocês entendam que já estamos sofrendo pressão imobiliária por parte de construtoras Terrestres, que de um dia para o outro aparecem com documentos de posse por pedaços de terra onde existem instalações Tillianas como domos subterrâneos de funcionários da empresa. Outro dia mesmo, um executivo de grade quase foi soterrado depois que uma dessas construtoras, sem aviso nenhum, começou a fazer testes geológicos em busca de minérios.

- Bem senhor Makillian, realmente não sei como podemos agilizar o processo. Além do mais, como colocar um preço em territórios de um outro planeta? Marte tem um excelente potencial. Fica difícil... -

Rashid foi interrompido por Makillian.

- E uma de suas luas?

- Como assim?

A imagem holográfica de marte deu lugar à outra, mostrando as duas luas em órbita. Phobos e Deimos.

- Quanto vale uma das luas de Marte? Não passam de pequenos asteróides. Ao invés de perdermos todos esse tempo e dinheiro com as propriedades marcianas, nós estaríamos dispostos a retirar todo nosso contingente, inclusive minhas propriedades pessoais, e as transferir para Phobos. De posse total da lua, não precisaríamos nos preocupar com normas, regulamentações, ou burocracias desse tipo. Estaríamos dispostos a pagar cerca de 500 milhões de créditos em ouro, que devo dizer, deve ser quase equivalente ao seu peso em ouro.

Houve um silêncio estranho na sala. Os três estavam impressionados com a proposta Tilliana. Vender uma das luas de Marte? O projetor holográfico colocou Phobos em foco.

- Vamos lá senhores. Não estou falando em comprar a Lua da Terra. Phobos tem cerca de 20 quilômetros de comprimento no lado maior. É um pedregulho furado orbitando Marte sem valor para mineração. A única vantagem é que possui uma órbita estável e uma das faces fica sempre voltada para Marte. Sejamos práticos. O valor já está dado e a proposta assinalada. Estarei esperando a resposta.

Makillian levantou-se, mas foi surpreendido por Mark que finalmente abriu a boca.

- Só um instante senhor Makillian. O motivo de eu e meu colega Gerard estarmos nessa reunião é exatamente para discutirmos o valor dessa sua proposta comercial. Vivemos em uma fase de novas descobertas, e existem outras coisas além de dinheiro, que tenho certeza, iriam seduzir muito mais alguns dos comissários.

Makillian voltou a sentar-se.

- Como o que, Sr. Mark?

Mark olhou para Gerard, que tomou a palavra.

- Bem senhor Makillian, o senhor bem sabe que no mundo de hoje, informações é um commodity bastante valioso e interessante.

- Estou ouvindo senhor...?

- Gerard.

- Sim, peço que vá direto ao ponto.

- Claro. Sei que vocês vêm filmando a história da Terra a milênios e tem negado o assunto. Tomei contato com imagens enviadas para um planeta da federação e tenho certeza que um material desse tipo valeria não uma, mais várias luas em nosso sistema.

Makillian sorria.

- E que planeta seria esse. Fargal, Eqüinos, Psi'delik?

- Isso não importa senhor, mas tenho certeza que lhe vender a lua em troca desses registros históricos seria garantia de negócio fechado. O que precisamos é que o senhor nos confirme a existência desses registros para que possamos levar ao conhecimento dos comissários e decidir sobre a melhor forma de negociarmos.

Makillian mantinha seu sorriso congelado.

- Qual o nível de segurança e privacidade dessa sala? - Perguntou.

- Classe A-1 - Respondeu o comissário.

Makillian assentiu com a cabeça.

- Bem senhores. Que isso não saia desta sala e logo vão entender porquê. Sim, nós temos registros históricos da Terra, gravados desde que chegamos em seu sistema solar, a cerca de dez mil anos. Possuímos imagens que vocês nunca imaginaram que pudessem existir.

- Então é verdade? Vocês transmitiam imagens da Terra para outros planetas.

- Sim. Isso até cerca de três mil anos atrás, quando tivemos problemas com o Tellianos e resolvemos criar a lei de potencialidade comercial da informação.

- E o que seria isso? - perguntaram em coro, Mark e Gerard.

- Significa que quando uma civilização atinge um certo nível potencial para transformar-se em futura membro da federação, esses registros históricos passam a ser guardados para impedir futuras interferências em sua cultura.

- Porque se fossem transmitidos, não valeriam um milionésimo do que valem hoje, pois existiriam milhares de cópias espalhadas por aí. - Rebateu Gerard.

- Engana-se meu jovem. Podemos parecer mercantilistas demais aos seus olhos, mas sempre nos preocupamos com a estabilidade dos planetas e culturas da federação. Afinal você são nossos consumidores. Cometemos esse erro com o Tellianos, o que acabou gerando enormes conseqüências incluindo a perda de nosso retransmissor número 3.

- Não acredito que esses registros possam ser assim tão perigosos. Pelo contrário. Para nós seria magnífico poder assistir as grandes batalhas, ver cenas das civilizações antigas. Quem sabe os segredos que vocês guardam? - disse Rashid.

- Pois querem ver um destes segredos? Um que mudaria muita coisa na Terra e traria possíveis conseqüências bastante desagradáveis?

Os três arregalaram os olhos.

Makillian digitou alguns códigos no projetor holográfico. A lua de Deimos saiu, dando lugar a um retângulo escuro bidimensional como a tela plana de uma tv. Segundo depois, alguns caracteres Tillianos apareceram na tela seguidos de uma imagem que aos poucos foi entrando em foco. O que Gerard e os demais viam era uma vista noturna do que parecia ser a entrada de uma gruta. Estava fechada por uma pedra circular e possuía um soldado romano (reconhecido pelo elmo, lança e armadura) fazendo guarda. De repente, detrás das sombras, dois homens vestindo túnicas apareceram. Andavam devagar na direção do guarda, olhando para os lados e o interpelaram, iniciando uma conversa sem som. Poucos segundos depois, Gerard e os demais viram o guarda receber um saco de um dos homens. O guarda olhou dentro do saco, olhou para os lados, largou a lança no chão e começou a ajudar os dois homens a empurrarem a pedra circular. Enquanto eles entravam, ele manteve guarda. Poucos minutos depois, os dois homens saíram, carregando um cadáver enfaixado em panos brancos. Colocaram o cadáver no chão e após ajudarem o guarda a recolocar a pedra circular no lugar, lacrando de novo a gruta, pegaram o corpo e sumiram nas sombras. Por fim, os três viram o romano pegar sua lança e começar a contar as moedas que retirava do saco. A imagem se desvaneceu e sumiu, voltando a ficar um retângulo negro.

- Essa cena foi retirada de um registro histórico feito no ano de 36 D.C. na palestina.

Mark e Reshid estavam paralisados. Gerard foi o primeiro a abrir a boca.

- Você não quer nos convencer de que essa gravação seria do corpo de Jesus Cristo, sendo roubado da gruta onde havia sido enterrado.

- Exatamente isso Sr. Gerard. Dois dos chamados apóstolos de Jesus subornaram o guarda romano e roubaram seu corpo para forjar a ressurreição. No dia seguinte, para impedir suspeitas, ainda pagaram um salteador para matar o guarda romano e impedir que ele falasse alguma coisa. Temos tudo gravado. Agora me respondam. O que aconteceria com uma grande parcela de sua sociedade se essa imagens fossem exibidas acidentalmente numa tarde de domingo pela MarsTV. Confesso que não vejo nenhuma vantagem para minha empresa ou para sua sociedade com tal incidente. Seríamos chamados de farsantes, causaríamos transtorno para milhares de fiéis e instituições seculares. E daí que Jesus nunca ressuscitou, e daí que Maomé nunca conversou com o Anjo Gabriel, e daí que Moisés não dividiu o mar morto, mas atravessou um banco de areia na maré baixa. Para mim, são apenas registros históricos, mas para vocês, ah sim, para vocês isso significa muito mais. O conhecimento é perigoso senhores, trás grande responsabilidade e peso para costas frágeis.

O que rebater depois de tal explanação. Os três não tinham nada a declarar. Makillian fez um sinal para que seu segurança retirasse o dispositivo da mesa e se levantou sorrindo.

- 500 milhões de créditos em ouro é um bom preço por um pedaço de pedra. Esqueçam essa história de registros históricos. Quando for a hora certa, entraremos em contato com vocês sobre tal assunto. Estarei esperando a resposta sobre Phobos. Passar bem.

E saiu escoltado por seus seguranças. Rashid foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- É melhor deixar as coisas com estão Gerard. Avise o tal comerciante de Psi'Delik que não estamos interessados nos registros que ele possui. Agora, se me dão licença, preciso conversar com alguns colegas sobre a proposta de compra dos Tillianos.

Gerard se retirou da sala junto com Mark. No elevador, pediu o resto de dia de folga. Mark apertava com força um chaveiro preso ao cinto, com um desenho estilizado de um peixe.

- Também vou para casa. - disse abatido.

Gerard pegou um metrô para Chinatown. Apesar de estar sem seu Aidbot X2, lembrava do caminho. Chegou no endereço certo, mas a porta estava fechada. Bateu. Uma portinhola abriu, mostrando os olhos e a testa azulada do fargal.

- Preciso falar com Kat De'Nor.

O Fargal abriu a porta dando passagem a Gerard sem antes perguntar onde estava seu amigo robótico. Ao responder que não o havia trazido, a expressão do fargal foi de decepção. Não devia ter muitos amigos com quem conversar. Alguns instantes depois e estava passando novamente pelo corredor de cor sanguinolenta e entrando no escritório de Kat De'Nor. Estava ainda mais psicodélico que antes, com luzes vermelhas, amarelas e azuis pulsando nas paredes. Para não cometer o mesmo erro, Gerard já entrou falando para a mesa.
- Como vai senhor Kat De'Nor. Sinto informar que não trago boas notícias.

- Não? - respondeu Kat De'Nor entrando pela porta lateral com uma roupa misturando dourado, vinho e lilás que aos poucos foi mudando para se adaptar as cores de sua sala. Kat De'Nor cumprimentou Gerard e sentando-se em sua mesa, reduziu a intensidade das cores nas paredes.

- Para lhe falar a verdade senhor Gerard, também não tenho boas notícias.

- O senhor primeiro Kat De'Nor.

- Bem, ao que parece o jovem arqueodigitólogo que detinha os tais registros recebeu uma proposta pra fazer vídeo-escavações no planeta Eqüinos, o que convenhamos, é uma excelente oportunidade. Partiu sem mais explicações. Os arquivos que ele deveria ter nos transmitido foram confiscadas pelo nosso governo. Pelo menos o rapaz devolveu o dinheiro.

- Entendo - respondeu Gerard. - Na verdade não há problema nenhum. Vim lhe dizer que não estamos mais interessados. Na verdade tivemos uma conversa com os Tillianos.

- Ah - exclamou Kat De'Nor. - Isso explica tudo. Eu lhe disse para tomar cuidado. Não só os ouvidos, mas os braços dos Tillianos são compridos. Devem estar por trás desse confisco. Mas tudo bem, sem ressentimentos.

- Agradeço a compreensão Kat De'Nor.

- Você não me parece muito bem.

- Desculpe, é que tive uma manhã dura.

- Faremos o seguinte. Ontem a noite, antes de sumir, o tal arqueodigitólogo me enviou uma gravação diferente caso você quisessem barganhar. Vou lhe mostrar.

Mais uma vez o telão apareceu no meio da parede. Uma cena ensolarada surgiu, denunciando pelas vestimentas e adornos tratar-se novamente do Egito. O que Gerard via era uma enorme procissão com jovens de belo bronzeado e cabelos pretos largando pétalas de lótus por um caminho ladeado de colunas de pedra enquanto andavam em direção a um templo. Atrás das jovens, seguia uma liteira de papiro dourado carregada por fortes escravos núbios e coberta por tecidos que escondiam seu interior. Atrás da liteira, um grupo de sacerdotes também ornados com ouro e jóias, seguiam pelo mesmo caminho. A câmera se afastou mostrando uma multidão de pessoas fora das dependências do templo, observando a procissão. As jovens pararam em frente à entrada do templo e de longe Gerard pode ver uma mulher de cabelos negros e curtos, presos por uma tiara de ouro, sair da liteira. A câmera se aproximou dando um close no belo rosto da mulher egípcia, pele morena, nariz afilado, lábios finos e olhos cor de mel. A cena ficou congelada no rosto da mulher.
- A gravação termina aí, com o close dessa mulher. Sabe quem se trata? O arqueodigitólogo tinha uma suspeita...- foi interrompido por Gerard.

- Nefertiti.

- Isso, acho que foi esse nome que ele falou. Essa cena seria a coroação dessa tal Nefertiti.

Gerard nem sentiu a lágrima escorrer seus olhos úmidos. Tinha sido o primeiro ser humano a ver um instante da construção das pirâmides, depois foi o primeiro a ver o túmulo profanado de Cristo e agora, era apresentado ao verdadeiro rosto de uma Rainha egípcia que reinou cerca de três mil anos atrás. E como era linda. E como a realidade pesava em seu coração.

Kat De'Nor também sorria emocionado, típica empatia Psi'delikiana. Pegou um disco de dados de dentro de uma gaveta.

- Coloquei neste disco os dois fragmentos de vídeo. Vou lhes dar

de graça com uma condição.

Gerard enxugou os olhos úmidos tentando disfarçar.

- Qual a condição?

- Que venha conhecer meu estabelecimento. - Disse Kat De'Nor sorrindo dourado. Temos um fantástico bar e as mais lindas modelos de Psi'delik. Se isso não tirar essa tristeza do seu rosto, nada tirará.

Gerard esboçou um sorriso. Levantou-se cabisbaixo e foi surpreendido por duas belas Psi'Delikianas que surgidas do nada, enroscaram-se em seus braços. Entrou na porta lateral sentindo um enorme peso na consciência, talvez tão grande quanto o peso em ouro a ser pago pela lua Marciana. Sentiu um conforto momentâneo nos olhos prateados da jovem Psi'Delikiana e dando um sorriso envelhecido, desapareceu por entre brilhos vermelhos, lilases e dourados.

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