O
oficial Klaun, veterano da Guerra de Taullos, foi destacado para efetuar
reconhecimento de uma pequena vila colonial humana, logo após o rio, para
onde a maior parte da tropa terráquea havia se retirado.
Os
soldados de Klaun estavam escondidos às margens do rio.
Haviam-no atravessado durante a noite.
Klaun mandara Tell bater o terreno após uma pequena colina, a uns
seiscentos metros rio à cima.
Tell,
negro como a noite de um mundo sem lua, fora comandante da tomada de
Dragin em Taullos, um velho conhecedor dos humanos.
—
Tell está demorando — comentou o oficial.
—
Provavelmente farejou alguma coisa. Ele
é bom nisso! — completou Fran. —
Lá vem ele! — murmurou.
Um
vulto negro arrastava-se rápido por entre os arbustos.
E, de repente, diante deles, surgiu Tell.
Grande e majestoso!
—
Então? — perguntou Klaun.
—
Nada Senhor. Nem um sinal de
tropas. Depois da colina há
abrigos humanos. Parecem-me
abandonados.
—
Mas nenhum sinal dos terráqueos? — perguntou Fran.
—
Nenhum. Mas devem estar se
reunindo em algum lugar.
—
Com certeza! — exclamou o
oficial.
—
Oh, sim! Devem estar cuidando
de suas crias frágeis —
Fran falou com desdém.
—
Podemos alcançar os abrigos sem sermos pressentidos? — indagou o
oficial.
—
Sim senhor. Eles não possuem
nosso faro e nem nossa visão noturna — respondeu Tell.
—
Não quero esperar a noite para irmos até lá.
—
Depois da colina, antes dos abrigos, há uma vegetação que os humanos
usam como comida — disse Tell, apontando para a colina — nos servirá
de cobertura.
Subiram
e desceram a colina. Rastejaram
pelo milharal que terminava num largo descampado onde o grupo deparou com
sete abrigos abandonados.
—
Nenhum sinal de vida — disse Fran, farejando o ar.
—
Tell, dê uma olhada — pediu Klaun.
Não podemos arriscar, esses humanos são muito inteligentes.
—
Sim senhor — cheirou o ar e
se arrastou por entre os abrigos. Parecia ter percebido algo.
Entrou em um dos abrigos.
Os
companheiros ouviram barulhos estranhos e depois um gemido.
Klaun ordenou aos soldados para prepararem as armas.
Mas Tell retornou com as roupas manchadas de sangue.
—
O que houve? — perguntou Klaun.
—
Tudo vazio. Encontrei um
animal que os humanos domesticam; um cachorro, sangrei o bicho.
Sua carne é bastante boa para nós.
Klaun
mandou Fran cortar o animal e distribuir os pedaços aos soldados
famintos. Há dias que não
viam comida!
—
Este Tell é tinhoso — murmurou Fran,
cortando o animal.
Penetraram
nos abrigos em forma de domos e revistaram-nos um a um.
Deveriam ter sido abandonados apressadamente, a mobília parecia
intocadas. Havia um ar de
cidade fantasma.
Os
soldados já estavam para se retirar, quando Tell sentiu um cheiro no ar.
—
Humanos! Dois...
Três! É dali,
Oficial Klaun — disse Tell feliz com a descoberta.
Klaun
fez um sinal aos soldados. Acercou-se
de uma árvore. Era uma
macieira, uma das espécimes trazidas pelos colonos humanos.
Olhou para cima, a arma apontada para o alto.
Ordenou aos soldados derrubarem-na.
Despencaram junto duas humanas adultas e uma criança de colo.
Klaun perguntou-lhes alguma coisa.
As mulheres apenas olharam amedrontadas.
Nada podiam responder, não conheciam a língua.
A rapariga mais jovem, de uns doze anos, era morena, cabelos
castanhos cortados rente à nuca. Tinha
uma pele cheirosa que ouriçou os pêlos de Klaun.
Os soldados olhavam ora para as mulheres ora para o oficial.
O cheiro delas os entorpecia.
Klaun
pegou a humana mais jovem pelos cabelos e disse:
—
Esta é minha!
Os
soldados fixaram-se na outra mulher.
A criança começou a chorar.
A mulher a embalançou nos braços para que se calasse.
Como continuou a chorar, sentou-se no chão e puxou um seio do
interior da roupa sintética, colocando o bico na boca da filha.
Ela já não era jovem, seus olhos tinham marcas de velhice.
Os soldados não afastavam os olhares felinos da mãe.
A criança sugava o seio e não chorava mais.
—
Os humanos são parecidos conosco! — exclamou Fran.
— São mamíferos! E tem o sexo no mesmo lugar que nós — riu
com a observação.
—
Gostaria de saber o motivo para abandonarem elas? — perguntou Tell.
— Os humanos não
costumam fazer isso! —
estranhou.
—
Deixem que termine de dar leite à criança — odenou Klaun.
— Depois podem ficar com ela.
—
A criança pode ser só minha? — Pediu Tell.
—
Tudo bem! A criança é do
Tell. Fran escolha a
guarda... — Klaun dava as
ordens, sem largar os cabelos da jovem.
A rapariga não se debatia, havia uma calma indecifrável.
— Tell, aguarde até que ela termine de mamar. — Arrastou a
menina para dentro de um abrigo.
À
noite, os soldados satisfeitos com carne da mãe, sorriam e brincavam
chupando os ossos que restavam.
Fran
havia observado alguns vultos no escuro.
Saiu para procurar Tell, provavelmente já havia devorado a criança.
Não o encontrou. Reuniu
três soldados e entraram no abrigo para chamar o oficial.
Chamaram-no à porta. Não
houve resposta. Fran empurrou
a porta e penetrou no domo.
O
corpo estava estendido no chão. A
menina havia desaparecido. Klaun
tinha o pescoço cortado por garras afiadas.
Tell
atravessou o rio. Na outra margem entregou o bebe humano à menina.
Desapareceu na escuridão depois de um miado agudo e forte.