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Resenha de Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros.
Edição e apresentação de Braulio Tavares. Ilustrações de Romero
Cavalcanti. Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2003, 167 páginas.
Dois
mil e cinco foi um bom ano para o escritor Braulio Tavares. Embora ele
não tenha publicado um livro de ficção, compareceu ao mercado
editorial com nada menos que quatro títulos, dois deles ligados à
ficção científica e ao fantástico. O Rasgão no Real, um
ensaio sobre a noção de realidade do ponto de vista da ficção
científica (pela editora Marca de Fantasia) e a edição e
organização da já celebrada antologia Contos Fantásticos no
Labirinto de Borges, com ênfase em autores que seriam apreciados
pelo mestre argentino.
Antes
desta antologia, contudo, Braulio editou e organizou outra, há três
anos. Trata-se da antologia Páginas de Sombra: Contos Fantásticos
Brasileiros, ambas publicadas pela editora carioca Casa da Palavra,
em 2003. Na verdade as duas antologias são um projeto acalentado há
anos que, entre uma atividade artística e outra, entre uma dificuldade
aqui e acolá de publicação, finalmente apareceram para o encanto e
deleite dos fãs de literatura fantástica.
Nesta
oportunidade, comentaria o primeiro destes dois ótimos livros,
especialmente importante por reunir autores brasileiros. Assim sendo, ao
pegar o volume de Páginas de Sombra, já se percebe que o livro
é especial. Não só pelos escritores selecionados, mas também pelo
projeto gráfico bonito e arejado, enriquecido por ótimas ilustrações
internas para cada história por Romero Cavalcanti.
O
livro começa com um ensaio crítico chamado "Nas periferias do
real ou O fantástico e seus arredores", didático e ao
mesmo tempo pessoal, apresentando alguns dos elementos centrais da
chamada literatura fantástica, enriquecidas com uma interpretação
própria do aqui crítico Braulio Tavares. Busca uma definição básica
do fantástico, narra um pouco da trajetória e de algumas
características do fantástico brasileiro, relacionando em seguida com
o Horror e seus próprios pilares, como os fantasmas e o gótico. Para
concluir com uma breve, mas instigante reflexão sobre a ausência de
florescimento de uma literatura fantástica no Brasil, embora ela seja
bem mais praticada em comparação com a ficção científica, por
exemplo.
Ele
argumenta que talvez seja porque a literatura brasileira ainda seja
jovem – como o próprio país, aliás –, e que ela ainda está mais
afeita por explicações calcadas no realismo, do que no fantástico,
dada a urgência de problemas a serem resolvidos em nossa sociedade. É
uma explicação pertinente mas que talvez seja insuficiente,
especialmente se considerarmos como o Brasil vem mudando nestes últimos
25 anos, com uma profunda mudança em sua estrutura industrial e
socioeconômica sem, contudo, alterar seu quadro de desigualdade social.
E isto trouxe, será por coincidência?, em seu rastro, uma Segunda Onda
da ficção científica, que tem sido a mais militante, produtiva e de
melhor qualidade em comparação com qualquer outro momento histórico
em nossa literatura, ainda que de alcance restrito no conjunto das
letras nacionais.
De
qualquer forma, uma antologia como esta ajuda a contextualizar o
cenário histórico e recuperar algumas jóias esquecidas (ou pior) não
conhecidas pelos fãs mais jovens de ficção científica e literatura
fantástica.
Assim,
este livro traz 16 histórias que vão de 1884 a 1995, cobrindo
praticamente um século de produção. Obviamente, toda escolha é
arbitrária mas o organizador Braulio Tavares procurou, até onde foi
possível, equilibrar o gosto pessoal com a representatividade de uma
história ou de seu autor. E estas duas características ficam
explícitas na pequena introdução a cada história, onde o organizador
já apresenta o autor e sua relação com o fantástico, bem como em que
a sua literatura em geral dá mostra, ainda que implicitamente, de insights
e especulações nada realistas.
O
poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade abre a antologia com a
despretenciosa "Flor, Telefone, Moça", de 1951. Tem uma
narrativa bela, melancólica e surpreendentemente sobrenatural, no
relato de uma moça que retira uma flor de um jazigo e passa a receber
estranhos telefonemas. O produtor e antologista da TV americana Rod
Serling (1925-1975) certamente ficaria interessado em filmar o conto
para uma de suas séries – Além da Imaginação ou Galeria
do Terror – caso viesse a ler a história.
O
conto a seguir é "A Podridão Viva", de autoria de Amândio
Sobral, um dos escritores esquecidos que são recuperados neste livro. A
história, publicada originalmente em 1934, tem um clima bem
construído, situando a ação no interior profundo de uma inexplorada e
distante floresta africana. Uma das regiões mais exóticas do planeta
– naquela época – e ainda hoje. O impacto dos detalhes da
expedição e da aparição são muito reforçados pela
adjetivação e pelo choque emocional sofrido pelo protagonista.
"Teleco,
o Coelhinho" é o conto seguinte, assinado por um dos grandes
fantasistas brasileiros, Murilo Rubião. Nesta história de 1965, uma
fantasia em estilo clássico, muito bem narrada, com vívida
imaginação e sentido alegórico. A situação absurda que se insere no
cotidiano e passa a com ele conviver tem aqui um relato dramático e
triste, mostrando personagens solitários em busca de compreensão e
amizade.
Já
o conto seguinte é de Berilo Neves, um escritor best-seller da
literatura brasileira dos anos 30, hoje também relegado ao pó das
estantes e à leitura eventual de um pesquisador mais dedicado. Um
deles, o escritor Roberto de Sousa Causo contribuiu para dirimir um
pouco este ocaso, publicando uma edição temática sobre ele no seu
fanzine Papêra Uirandê, há alguns anos. Em todo caso, "A
Última Eva" é mais um esforço de recuperação de um autor
realmente curioso. Sua ficção científica não é mais do que sátiras
relativamente superficiais sobre casais apaixonados em suas andanças
pelos planetas do Sistema Solar.
Porém
a esta aparente ingenuidade se insere uma temática extremamente
machista e misógina, tal como mostrado neste conto, onde uma misteriosa
epidemia varre as mulheres do mundo, num tema relativamente freqüente
na ficção científica como, por exemplo, no instigante e irregular
romance O Planeta Esparta, do americano A. Bertram Chandler,
publicado no Brasil nos anos 70, pela editora Nosso Tempo. No fim das
contas, a presença de Berilo Neves se justifica mais por sua
representatividade histórica do que por sua qualidade temática ou
literária, exemplificado neste conto com um enredo forçado tanto no
humor, quanto no desdobramento das situações.
Lília
Aparecida Pereira da Silva é outra autora relativamente esquecida que
dá as caras no livro com o curtíssimo "A Máquina de Ler
Pensamentos". Não muito mais do que uma espécie de variação
feminina para o monstro de Frankeinstein, com semelhantes descrições
do que Braulio Tavares chama de ‘ciência gótica’ para textos deste
tipo. Bizarro e com boa ambientação, não vai além da intenção de
ser uma história efetiva, sendo verdadeiramente nada mais do que uma
vinheta.
O
que não é o caso, absolutamente, da história a seguir. Simplesmente
"A Escuridão", o maior clássico da ficção científica
brasileira. André Carneiro consegue, com este texto de 1963, se ombrear
com o que de melhor já se fez neste gênero em um nível internacional
– tanto que é o seu texto mais publicado mundo afora.
Repentinamente
as luzes desaparecem e a civilização mergulha nas trevas. Wladas
procura primeiro entender o absurdo, para aos poucos lutar
desesperadamente para superá-lo. Como aponta Braulio Tavares, o estilo
distanciado e atemporal só acentua a estranheza da narrativa, bem como
sua intensidade humana e dramática. A história tem uma fluidez
demorada, outra peculiaridade que transmite uma sensação de angústia
não só aos personagens, mas também ao próprio leitor. Um texto
realmente bem escrito, em seus detalhes, primoroso no tratamento dos
personagens e com um final inesquecível. Disparada a melhor história
deste volume.
O
maranhense Coelho Neto foi colocado depois da obra-prima de Carneiro, o
que dificulta uma boa avaliação de sua história – aliás, como
seria com qualquer outra das histórias desta antologia. Em todo caso,
Coelho Neto é um dos mais notórios esquecidos da literatura
brasileira, extremamente influente entre seus pares e prolixo em seu
tempo, da segunda metade do século XIX até as três primeiras décadas
do século passado.
Seu
romance A Esfinge (em 1908 a primeira aparição. A edição que
eu tenho é da editora Lello & Irmão, Porto, 1925), deveria ser
procurado e lido, pois é uma história forte e interessante, sobre um
homem que recebe o transplante da cabeça de uma mulher, numa variação
curiosa da chamada ‘ciência gótica’ à lá Frankeinstein. Para
esta antologia, Braulio selecionou o conto "A Casa ‘Sem Sono’",
uma narrativa bem escrita e de tema misterioso, numa especulação
diferente ao tema da casa assombrada. Poderia render mais, se tivesse
explorado mais as situações apresentadas.
"A
Gargalhada", de Orígenes Lessa, mostra como uma situação banal
se transforma de forma inexplicável e surpreendente em fantástica.
Uma risada gereralizada, ininterrupta e coletiva acaba por se
transformar num inusitado horror. Vale conhecer, ainda que como
referência para a ficção científica, sua novela A Desintegração
da Morte (1948, publicado, entre outras edições, pela Futurâmica,
número 568), seja o seu texto principal e conhecido.
Adelpho
Monjardim, outro autor pouco lembrado nos dias que correm, é ‘redescoberto’
neste livro com "O Satanás de Iglawaburg’, um conto que lembra
bem o estilo das weird fictions publicadas nas pulp magazines
norte-americanas dos anos 30 e 40 do século XX. O conto tem um
estrutura gótica assumida, com resquícios reconhecíveis de Edgar
Allan Poe e seu clássico "A Queda da Casa de Usher".
Obviamente, a qualidade literária do autor capixaba fica a anos-luz do
norte-americano de Boston, mas o mais importante neste caso, é que a
narrativa tem um bom nível de entretenimento, envolvendo o leitor e
mostrando um horror que se assume muito mais no plano psicológico do
que no sobrenatural.
Uma
situação semelhante ocorre no conto seguinte, "As Academias de
Sião", de Machado de Assis. Só que aqui o fantástico explícito
se traveste de situações alegóricas, um recurso muito usado pelo
autor em suas intermitentes incursões ao fantástico. A intenção
inicial, no caso, é satirizar as acadêmicas literárias e
científicas, tão em voga em fins do século XIX, mas o conto acaba
tendo mais efetividade na situação prática vivida pelos dois
personagens principais. Pois eles resolvem ‘trocar’ se sexo: um rei
passa a ser mulher e uma rainha assume o papel masculino dentro da
trama. Contudo, ainda que seja interessante pelo fato de ser de Machado
de Assis, a história não consegue ser nada além de chata e mal
concatenada em seus objetivos temáticos.
O
que não é o caso do texto de Rubens Figueiredo, a noveleta "O
Caminho do Poço Verde". Partindo de uma premissa simples, temos o
choque civilizatório do ‘interior profundo’, na experiência de uma
mochileira. A história é rica em seus detalhes, como a descrição da
natureza, das pessoas do meio rural e seus costumes rudes, sua linguagem
peculiar – que por vezes, beira a dialetos nesse ‘brazilsão'
interminável e desconhecido –, sua interação quase mágica com
crenças oriundas do imaginário da natureza. É interessante também o
fato de que todas os personagens ativos são mulheres: da
viajante Diana às ‘bruxas’ do mato. E o tal do Aruê, é um mal que
não se anuncia, mas se pressente, em meio a uma atmosfera sobrenatural
que se acentua paulatinamente. E para fechar, temos o tal do ‘poço
verde, como um lugar mítico, onde o mal pode ser derrotado.
Publicado
originalmente em 1994 na coletânea O Livro dos Lobos –
conforme é informado na introdução da história –, poderia ter
disputado fortemente o então Prêmio Nova. Dado o desconhecimento do fandom,
a história só agora nos chega e se coloca como uma das melhores
histórias curtas do gênero fantástico publicadas no Brasil em 2003.
Depois
de uma travessia intensa e surpreendente com a noveleta de Figueiredo, a
próxima história – como já havia ocorrido com o conto que sucedeu a
obra-prima de André Carneiro –, de saída sai prejudicada. Mas
desconfio que neste caso nada poderia ajudar a melhorar a condição de
"Íblis", de Heloísa Seixas. Contando basicamente a história
de uma pesquisadora vítima de uma maldição, o texto peca pela
chatisse e empolação. Seixas sabe escrever, mas transmite um
pedantismo e uma futilidade à flor da pele, de tal forma que passei a
torcer pelo destino funesto da personagem. A história mais fraca de
todo o livro.
Justamente
(quase) o oposto do conto de Lygia Fagundes Telles, "As
Formigas". Um conto muito bem construído em sua trama e
desenvolvimento, bem como na ambigüidade entre o real e o irreal que
transmite, gerando uma situação de indeterminação, tanto no leitor,
como nos próprios personagens. O mistério propriamente dito está por
se insinuar – e recua –, para depois se insinuar de novo, de forma
mais sutil e efetiva, especialmente no trecho final da história.
Competente.
Já
a palavra para definir de saída o conto seguinte é sofisticação. Num
texto muito bem trabalhado, tanto na forma, como nas imagens que
transmite, o "Luvibórix", de Carlos Emílio Corrêa Lima, tem
uma narrativa que provoca estranhamento não apenas pelo tema em si, mas
pela prosa intrincada e caprichada que estrutura a história. Mesmo
assim, do ponto de vista de uma narrativa mais fluente e que pede uma
certa linearidade causal, o texto não consegue se completar, ficando a
sensação conclusiva de uma prosa sofisticada sim, mas sem um objetivo
temático claro.
Humberto
de Campos é outro autor recuperado pelo organizador da antologia, e que
era, em seu tempo, possivelmente o mais popular e produtivo escritor
brasileiro. Em "Os Olhos que Comiam Carne", estamos diante de
um tema muito bem explorado por um cineasta igualmente produtivo, o
americano Roger Corman que produziu e dirigiu em 1963, o clássico B, O
Homem dos Olhos de Raio X, numa interpretação classe A de Ray
Milland. Se você já viu este filme, poderá esperar do conto de Campos
uma temática e – principalmente –, um desfecho parecido. Mesmo
sendo um motivo a menos para se surpreender, o texto vale uma lida pela
maneira própria e singular que o autor brasileiro concebe uma
interpretação para a história.
E
fecha a antologia um clássico do horror brasileiro,
"Demônios", de Aluísio Azevedo. De um escritor que é
considerado um dos principais expoentes do Naturalismo li, nos tempos do
Segundo Grau, dois de seus principais livros dentro desta vertente, O
Mulato (1881) e O Cortiço (1890). E depois de tantos anos,
me recordo do quanto fiquei impressionado especialmente d’O Cortiço,
pela verossimilhança dos personagens e pelo esforço bem-sucedido de
ambientação social realizada pelo autor.
Já
neste conto, temos a inversão desta lógica naturalista. Os caminhos
aqui se esvaem de explicações cartesianas, vislumbrando um ambiente
sombrio, nada aprazível. Numa narrativa carregada fortemente de
dramaticidade, temos a construção de um complexo e profundo pesadelo,
com a inevitável – porém descartável –, ‘pegadinha’ no fim.
De novo, aqui – e bem antes do ponto de vista histórico, diga-se –,
temos mais uma variação do ‘mundo da escuridão’, onde se dá
total e inexplicável ausência de luz. E há momentos marcantes, como a
seqüência das transformações físicas, impressionando e causando um
eficaz sense of horror.
Páginas
de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros é uma antologia da
melhor qualidade em seu conjunto, fazendo frente a uma dos mais
difíceis desafios a toda antologia: equilibrar a qualidade média das
histórias. Goste-se mais ou menos de um texto, mais ou menos de um
autor, a concepção da obra atinge seus objetivos de passar uma idéia
geral da história e das principais características do chamado ‘fantástico’
feito no Brasil.
Contudo,
dois tipos de ausência chamam a atenção. Embora a seleção dos
autores tenha sido, em geral, bastante criteriosa, causa espanto que
dois autores maiúsculos da literatura brasileira não apareçam: José
J. Veiga e Guimarães Rosa. Quero crer que Braulio Tavares os
selecionou, o problema deve ter sido com os direitos autorais. Veiga é
um prosador e contista do mais alto nível – e diretamente voltado ao
fantástico – e Rosa, além de ser um dos grandes nomes da literatura
brasileira de qualquer época, também exprimiu-se em histórias
fantásticas a certa altura de sua carreira. Aliás, o próprio Braulio
tem se encarregado de divulgar esta temática do autor, publicando
ensaios em jornais e fanzines sobre o assunto.
A
outra ausência é a de nenhum escritor do chamado fandom
literário de ficção científica destes últimos 20 anos. Braulio
Tavares até justificou, dizendo que inicialmente havia pensado em
incluir um ou outro autor. Poderia, até para evitar o equívoco de
incluir um conto ruim como "Íblis", por exemplo. Duas boas
histórias fantásticas que não fariam feio neste livro:
"Aprendizado" (1993), de Carlos Orsi Martinho e "A
Nuvem" (1993), de Ricardo Teixeira. Isso para não recomendar
histórias do próprio Braulio, que ele já publicou ou poderia
escrever. Fica para uma outra oportunidade uma nova versão desta
antologia, que inclua os autores brasileiros contemporâneos voltados
especificamente à ficção científica ou – de uma forma que soe
melhor aos sensíveis ouvidos do mainstream – ao fantástico.
ooOoo
Marcello Simão Branco é jornalista e editor. É
um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica,
com a versão de 2004 em circulação. Editou entre 1988 e 2004 o
premiado fanzine Megalon, é autor do livro de crítica e
referência Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (Edições
Hiperespaço, 2004) e editou o livro de contos Outras Copas, Outros
Mundos (editora Ano-Luz, 1998). Contatos através do e-mail marcellobranco@ig.com.br.
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