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Resenha de Tudo é eventual, de Stephen King. Editora Objetiva,
Rio de Janeiro, 2003, 467 páginas.
Depois
de uma série de romances, King voltou à forma original com a qual
iniciou sua carreira: o conto. Inclusive, no prefácio: "Em busca
da arte (quase) perdida", ele faz uma reflexão sobre esta forma
narrativa. Com a exceção do romance, outras manifestações como o
conto, a poesia, o modelo teatral shakespeareano e as peças de rádio,
estariam todas em processo de extinção. O momento seria de transição
para outras formas narrativas, mais visuais e mesmo virtuais, como ele
mesmo experimentou com histórias publicadas na internet, como The
plant e "Andando na bala" – esta última presente neste
livro.
Para
King o conto ainda não é uma arte perdida, mas com o encolhimento do
mercado editorial para esta forma narrativa, sua sobrevivência estaria
ameaçada. Revistas populares voltadas à forma curta e a baixa vendagem
de coletâneas e antologias, justificariam, do ponto de vista
econômico, a presença cada vez mais esparsa do conto na produção de
escritores importantes.
O
irônico é que por gerações a principal porta de entrada de
escritores iniciantes para a carreira literária foi o conto. O próprio
King é um destes casos. E retomar a forma curta e até usar de seu
prestígio para publicar é uma maneira de manter a arte viva. Além de,
antes de mais nada, mantê-la viva no seu próprio ofício. Pois para o
autor de O cemitério:
"Se
alguém quer escrever contos, não basta pensar em escrevê-los. Não é
como andar de bicicleta. É mais como exercitar-se numa academia: a
opção é usar o corpo ou perdê-lo. (...) [Pois] continuei a escrever
contos ao longo dos anos em parte porque as idéias ainda me ocorrem de
tempos em tempos e, em parte, porque é o modo de confirmar, ao menos para
mim mesmo, que não me ‘vendi’, pouco importa o que pensem os
críticos menos amáveis".
Temos,
então, dois motivos para o exercício do conto, por parte de Stephen
King. 1) O prazer de escrevê-los e, desta forma, manter viva sua própria
capacidade de executá-los e 2) Uma espécie de intenção militante, em
busca de um ideal para que esta forma narrativa continue viva.
E
o que se pode dizer após a leitura desta volumosa coletânea, é que King
não perdeu o viço e continua a produzir algumas histórias absolutamente
arrebatadoras, tanto pela história em si, como por ser criada dentro da
forma específica do conto, que procura combinar de forma virtuosa, drama
e síntese.
O
livro contém 14 histórias, todas com algum elemento de horror, seja mais
explícito ou de cunho psicológico. Embora King tenha escrito um
prefácio contundente em defesa do exercício e publicação do conto e um
livro com histórias curtas, se formos rigorosos, há muitos poucos contos
no livro. A maioria das histórias são noveletas, um conto longo demais
para a forma curta e curto demais para uma novela. Talvez, no fim, King
tenha mesmo perdido um pouco da arte de sintetizar idéias ou ações
dramáticas em uma forma eminentemente curta. Em todo caso, o que vale
mesmo é o conteúdo, o que podemos tirar de prazer da leitura das
histórias, independentemente de sua classificação formal ou
mercadológica.
A
história de abertura é "Sala de autópsia 4", no qual um homem
dado como morto está prestes a ser autopsiado, após sofrer uma picada de
uma cobra venenosa. Por mais da metade do texto, acompanhamos os
preparativos para uma operação post mortem. Tanto do ponto de
vista dos procedimentos médicos, como do próprio comportamento dos
profissionais. Isso soa de uma forma muito crua, realista. Chega a
incomodar, mas a intenção é provocar este efeito mesmo. Só que as
coisas não são exatamente como pareciam no início, dando uma completa
reviravolta no desenrolar da trama.
Se
a primeira história é boa, a segunda é das melhores do livro. "O
Homem de terno preto" é narrado por um velho, que conta um fato que
lhe ocorreu na infância e jamais o abandonou. É uma história simples e
muito pessoal, que poderia perfeitamente ter acontecido com qualquer
pessoa. A não ser pelo elemento sobrenatural inserido com maestria pelo
autor e que provoca arrepio e angústia com o desfecho da história. King
disse que o conto é uma espécie de homenagem a um semelhante, de
Nathaniel Hawtorne. Neste e no de King, para sermos claros, estamos
falando da presença súbita e terrível do Diabo. Que surge, se mostra
simpático e depois, de forma dissimulada, procura cercar e destruir sua
vítima. No fundo, o que marca esta noveleta é a discussão subjacente de
alguns daqueles medos que temos na infância. Crescemos, viramos adultos.
Mas no fundo de nossa intimidade, estes mesmos medos não nos abandonaram.
King cria uma atmosfera de terror no velho-menino absolutamente
convincente e, por isso mesmo, muito realista.
A
seguir, somos apresentados a um representante comercial em profunda
depressão. Está em um motel de beira de estrada no interior dos Estados
Unidos, prestes a cometer suicídio. "Tudo o que você ama lhe será
arrebatado" é uma história daquelas cotidianas, que acontecem todos
os dias e depois lemos nas páginas da seção policial do jornal. Alfie
era um cara relativamente bem-sucedido, casado e com filhos. Mas chegando
à meia-idade, sem perspectiva de mudança em sua vida. Intui-se que este
quadro seja o motivador da ação, mas o mais curioso é que não ficamos
sabendo exatamente a razão de Alfie querer dar cabo de sua própria vida.
E o final acentua ainda mais a dúvida, pois King deixa em aberto o
destino do infortunado personagem.
O
conto seguinte é "A morte de Jack Hamilton", e King escreve um
segundo conto no estilo de homenagem. Aqui não a um autor em especial,
mas às histórias policiais pulp dos anos 30, recheadas de
foras-da-lei muito carismáticos e bem mais interessantes que os
comportados homens-da-lei. Este conto mostra a fuga da gang de Jack
Hamilton, num texto que consegue ir um pouco além da mera homenagem,
devido as qualidades do próprio King, principalmente com relação à
construção de personagens. Algo que ele sabe melhor do que a maioria dos
escritores.
Já
na "Câmara da morte" é uma história curiosa pelo tema: uma
narrativa política situada em algum país do Caribe. Um opositor
político é preso e torturado em um país que vive em uma ditadura. Isso
não é familiar? Na maior parte do conto somos expostos ao
interrogatório e às torturas em si. Ou seja: não é propriamente
agradável embora, infelizmente, bastante familiar a qualquer brasileiro
acima dos 40 anos. Ou cubano nos dias de hoje. Mas, o texto apela para uma
solução absolutamente inverossímil de fuga do prisioneiro. Mas King
assume isso, quando diz no comentário que fez ao final do conto que,
"Em
tais histórias, o interrogado geralmente termina cuspindo tudo e depois
sendo morto (ou enlouquecendo). Quis escrever uma com final feliz, por
mais irreal que fosse. E aí está."
Pois
é. Mas não convence. Se quisesse mesmo uma solução deste tipo – que
é totalmente legítima –, deveria se esforçar mais, criar situações
mais convincentes e não forçadas só para chegar ao seu desejo
intencional.
A
história seguinte volta a elevar de forma significativa a qualidade do
livro. Refiro-me a "As irmãzinhas de Eluria". É uma espécie
de variação sobre um tema, no caso o universo ficcional de A Torre
negra. Isso porque esta história foi escrita fora da série, por
encomenda a uma antologia de fantasia.
King
resolveu, então, explorar um aspecto particular da série, no caso uma
passagem da vida de um dos protagonistas, Roland. E o melhor é que não
é necessário um conhecimento prévio da série. Esta história vale por
si mesma. É das coisas de terror mais intensas que acompanhei nos
últimos anos.
Em
um mundo desolado, o viajante solitário Roland chega a uma cidade
deserta, abandonada, fantasma. E é surpreendido por uns mutantes
estranhos, esverdeados. Ele é capturado e levado até um hospital onde é
cuidado por enfermeiras. Até aí, nada de muito aterrador. Mas o fato é
que os doentes lá hospedados somem misteriosamente, um a um. E Roland
percebe do que se trata o lugar e que na verdade estas enfermeiras são
malignas, cruéis, enfermeiras da morte.
Morte
também está presente na próxima história, a que dá título ao livro,
"Tudo é eventual". Um rapaz descobre, meio por acaso, que tem
poderes especiais. Tem a capacidade de influir na vida alheia, seja de uma
pessoa ou de um animal. Basta que mentalize ou realize alguma tarefa
indireta para que seu desejo se cumpra por completo ou em parte.
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Também
de forma misteriosa ele, sem saber ao certo, é recrutado por uma
organização muito esquisita e secreta. Reúne ‘talentos’ com
maneiras incomuns de influir na vida alheia, em benefício de um grupo
oculto que os sustenta financeiramente.
Esta
é uma narrativa com uma premissa interessante, sombria, que me provocou
duas sensações: 1) um desconforto pelo personagem principal, que não
me empolgou. Ao invés de provocar alguma empatia, me soou o contrário;
2) fiquei com a impressão que a história terminou de forma
precipitada, abrupta, pois as situações ficaram abertas, não há uma
conclusão ou desfecho claro.
E
o tal ‘tudo é eventual’, passa aqui como uma ironia. Que trágicas
‘ironias’, ou eventualidades marcam coisas ruins, estúpidas,
inexplicáveis na vida de pessoas (ou animais) – geralmente aquelas
que consideramos como boas. Enfim, King nos coloca diante de uma
explicação nada eventual sobre a razão de coisas absurdas e más
acontecerem o tempo todo. Há uma explicação mas, curiosamente,
procura desconstruir exatamente a noção de que ‘tudo é eventual’,
como se houvesse um conserto oculto, maligno, conspiratório permeando a
vida de cada um. Sinistro, sim, mas sem grande sustentação racional,
mesmo para os parâmetros obviamente fantasiosos que a história
postula. E de qualquer forma, a sucessão de ‘tudo é eventual’, sem
qualquer conotação oculta ou fantástica é a mais desconcertante e
perturbadora. A que provavelmente rege o universo em que vivemos.
Na
próxima história somos confrontados novamente sobre porque algumas
coisas horríveis acontecem. Em "A teoria de L.T. sobre animais de
estimação", uma mulher abandona o marido e leva junto o cachorro
de estimação do casal. O cara passa boa parte da história remoendo a
razão do abandono e sai à sua procura. É uma noveleta de emoções e
surpresas, pois ela começa em um tom cômico e vai, gradativamente,
mudando em direção ao terror e à tristeza.
O
relato seguinte é batido no horror como um todo e recorrente também na
carreira de King. O tema do quadro que muda, a cada nova olhada de um
observador. Neste "O vírus da estrada vai para o norte",
contudo, o autor está inspirado e somos levados a acompanhar a
história nada feliz de um escritor que ao voltar de uma conferência
literária, depara com um quadro de aspecto estranho, em uma daquelas
liquidações, "família vende tudo". Aqui nota-se outra
recorrência de King: o terror que ronda a atividade de um escritor, já
visto em vários contos e romances como, por exemplo, Angústia
(1987), A metade negra (1989) e "Janela secreta, secreto
jardim (1989).
A sucessão de mudanças no
quadro é muito bem narrada. King imprime um ritmo forte e convincente.
Espera-se que, no fim das contas, tudo seja alguma paranóia ou algum
truque deste tipo. Mas só posso adiantar que a intensidade da solução
assusta e mesmo surpreende pelo seu vigor.
O que já não é o caso de
"Almoço no Café Ghotam". Um casal em litígio marca um
almoço em um restaurante, no qual acertam, na presença dos seus
respectivos advogados, um processo de separação amigável, depois do
abandono da mulher. Aqui temos a segunda abordagem de King neste livro
sobre este assunto.
Contudo, o que é
surpreendente e desestruturador na história é a figura de um mâitre
psicótico e assassino, que começa a cortar e matar sem piedade com uma
grande faca – sem motivo aparente – os fregueses do local. E o casal
é surpreendido e tem de procurar se defender para poder sobreviver à
sangrenta loucura estabelecida.
Já a próxima narrativa é
muito interessante. Em "Você só pode dizer o nome daquela
sensação em francês", estamos falando no deja vù. Quando
ao vivenciarmos um fato, temos a nítida impressão de já o termos
vivenciado antes, mas sem saber como nem porquê. O conto é ainda
narrado de uma maneira propositalmente estranha, ao transmitir a
sensação de que os acontecimentos não são claramente percebidos,
não parecem reais. Mas eles se insinuam e, mais que isso, se repetem,
condenando o casal da história a fazer a mesma coisa de forma repetida.
Como se presos a um inferno, como define o próprio King, em seus
comentários sobre o conto, ao seu final. Um dos grandes momentos do
livro.
Assim como a história
seguinte. O aterrador "1.408". Segundo King, a sua versão de
uma ‘sala fantasma em um hotel’. Um escritor quer passar uma noite
em um hotel de Nova York que está fechado há décadas por ter fama de
mal assombrado. Pessoas teriam sido queimadas, teriam enlouquecido e
cometido suicídio e assassinato no tal quarto 1.408. O gerente do hotel
tenta de todas as formas possíveis, dissuadir o escritor a levar à
frente seu intento. Mas ele é irredutível e terá a sua noite no
1.408.
É uma história excelente de
cômodo assombrado. Lembra O iluminado, na relação do hotel com
o escritor Jack Torrance. E é bom lembrar que aqui também King retoma
a questão sob o prisma dos escritores. Talvez para expiar, extravasar
seus próprios sentimentos ao lidar com temas tão incomuns,
perturbadores e assustadores, como o desta história puramente de
horror.
"Andando na bala"
vem a seguir. A badalada história que teve sucesso comercial ao ser
publicada na internet e fez King virar capa da Time. No prefácio
ele se disse desapontado, porque tanto a revista como a maioria das
pessoas só lhe perguntavam o quanto estava ganhando com a história.
Não lhe contavam o quê, afinal, tinham achado da história. Talvez
porque não a tenham lido. Talvez porque tenham lido e não gostado.
Talvez porque a história, embora muito boa – e é –, toque em um
tema muito sensível, ao qual as pessoas não gostam de falar: a morte
de entes queridos.
Fico com a primeira
hipótese. Mas "Andando na bala" é uma história de emoções
muito fortes e humanas com uma verossimilhança para além da qualidade
do autor. Se insere no terreno de sua própria autobiografia, conforme
ele mesmo anuncia no pequeno prefácio que escreve à história.
Temos aqui King em seu melhor
momento, equilibrando de forma virtuosa, os mistérios da realidade e da
imaginação, numa premissa clássica do sujeito que carona à beira da
estrada e pode se dar mal, para falar de uma coisa básica, inescapável
e profunda, como a morte em família. Ao final desta história tocante,
dá para entender também porque King ficou tão contrariado por só
elogiarem o êxito financeiro da história. Ele estava contando uma
história dele, muito íntima. Quando nos expomos desta maneira,
queremos, de uma forma ou de outra, alguma espécie de solidariedade.
Depois destas três
histórias de alto nível, o livro termina de forma meio sem graça, com
um conto que poderia ter sido limado. Refiro-me à "A moeda da
sorte". Uma variação sobre a tentação perigosa e gananciosa do
jogo. Nada mais do que uma fantasia simpática – porque, afinal, a
intenção da mãe era louvável, pois tinha um filho deficiente –,
mas com um desfecho um tanto moralista, o que acaba por destoar um pouco
do ambiente geral do livro.
Reza a sabedoria convencional
que numa coletânea – ou antologia – temos histórias boas e ruins.
Não é possível agradar a todos com todas as histórias. O que dizer
deste Tudo é eventual? Tudo bem, há histórias menos boas sim,
mas temos algumas excepcionais, o que perfaz um conjunto altamente
positivo e encorajador. Stephen King mostra que, embora esteja
escrevendo romances cada vez mais volumosos, não perdeu o jeito para
textos mais curtos – embora não muito curtos, como já frisado –,
uma preocupação que ele mesmo demonstrava em seu prefácio. Pois como
ele mesmo afirma em certa passagem do livro, ao comentar uma das
histórias, os "contos são como artefatos: não coisas feitas,
criadas por nós (e pelas quais possamos receber créditos), mas objetos
preexistentes que desencavamos".
Esta declaração até pode
ser verdadeira do ponto de vista dele. E para seus pares escritores. Mas
o fato é que nem todos tem essa capacidade ‘preexistente’, um tipo
de, digamos, instinto natural. Não só para conceber uma idéia mas,
principalmente, torná-la literariamente interessante, fazê-la ganhar
vida como uma história bem contada. Talento de alguns poucos, entre os
quais o próprio King.
ooOoo
Marcello
Simão Branco é jornalista e editor. É um dos editores do Anuário
Brasileiro de Literatura Fantástica, com a versão de 2004 já
disponível. Editou entre 1988 e 2004 o premiado fanzine Megalon, é
autor do livro de crítica e referência Os Mundos Abertos de Robert
Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004) e editou o livro de contos
Outras Copas, Outros Mundos (editora Ano-Luz, 1998). Contatos através
do e-mail marcellobranco@ig.com.br.
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