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Sombras à Espreita nº 11
18/12/2005

Surpresas e Terrores em Contos de Stephen King
Marcello Simão Branco

* Resenha de Tudo é eventual, de Stephen King. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2003, 467 páginas.

Depois de uma série de romances, King voltou à forma original com a qual iniciou sua carreira: o conto. Inclusive, no prefácio: "Em busca da arte (quase) perdida", ele faz uma reflexão sobre esta forma narrativa. Com a exceção do romance, outras manifestações como o conto, a poesia, o modelo teatral shakespeareano e as peças de rádio, estariam todas em processo de extinção. O momento seria de transição para outras formas narrativas, mais visuais e mesmo virtuais, como ele mesmo experimentou com histórias publicadas na internet, como The plant e "Andando na bala" – esta última presente neste livro.

Para King o conto ainda não é uma arte perdida, mas com o encolhimento do mercado editorial para esta forma narrativa, sua sobrevivência estaria ameaçada. Revistas populares voltadas à forma curta e a baixa vendagem de coletâneas e antologias, justificariam, do ponto de vista econômico, a presença cada vez mais esparsa do conto na produção de escritores importantes.

O irônico é que por gerações a principal porta de entrada de escritores iniciantes para a carreira literária foi o conto. O próprio King é um destes casos. E retomar a forma curta e até usar de seu prestígio para publicar é uma maneira de manter a arte viva. Além de, antes de mais nada, mantê-la viva no seu próprio ofício. Pois para o autor de O cemitério:

"Se alguém quer escrever contos, não basta pensar em escrevê-los. Não é como andar de bicicleta. É mais como exercitar-se numa academia: a opção é usar o corpo ou perdê-lo. (...) [Pois] continuei a escrever contos ao longo dos anos em parte porque as idéias ainda me ocorrem de tempos em tempos e, em parte, porque é o modo de confirmar, ao menos para mim mesmo, que não me ‘vendi’, pouco importa o que pensem os críticos menos amáveis".

Temos, então, dois motivos para o exercício do conto, por parte de Stephen King. 1) O prazer de escrevê-los e, desta forma, manter viva sua própria capacidade de executá-los e 2) Uma espécie de intenção militante, em busca de um ideal para que esta forma narrativa continue viva.

E o que se pode dizer após a leitura desta volumosa coletânea, é que King não perdeu o viço e continua a produzir algumas histórias absolutamente arrebatadoras, tanto pela história em si, como por ser criada dentro da forma específica do conto, que procura combinar de forma virtuosa, drama e síntese.

O livro contém 14 histórias, todas com algum elemento de horror, seja mais explícito ou de cunho psicológico. Embora King tenha escrito um prefácio contundente em defesa do exercício e publicação do conto e um livro com histórias curtas, se formos rigorosos, há muitos poucos contos no livro. A maioria das histórias são noveletas, um conto longo demais para a forma curta e curto demais para uma novela. Talvez, no fim, King tenha mesmo perdido um pouco da arte de sintetizar idéias ou ações dramáticas em uma forma eminentemente curta. Em todo caso, o que vale mesmo é o conteúdo, o que podemos tirar de prazer da leitura das histórias, independentemente de sua classificação formal ou mercadológica.

A história de abertura é "Sala de autópsia 4", no qual um homem dado como morto está prestes a ser autopsiado, após sofrer uma picada de uma cobra venenosa. Por mais da metade do texto, acompanhamos os preparativos para uma operação post mortem. Tanto do ponto de vista dos procedimentos médicos, como do próprio comportamento dos profissionais. Isso soa de uma forma muito crua, realista. Chega a incomodar, mas a intenção é provocar este efeito mesmo. Só que as coisas não são exatamente como pareciam no início, dando uma completa reviravolta no desenrolar da trama.

Se a primeira história é boa, a segunda é das melhores do livro. "O Homem de terno preto" é narrado por um velho, que conta um fato que lhe ocorreu na infância e jamais o abandonou. É uma história simples e muito pessoal, que poderia perfeitamente ter acontecido com qualquer pessoa. A não ser pelo elemento sobrenatural inserido com maestria pelo autor e que provoca arrepio e angústia com o desfecho da história. King disse que o conto é uma espécie de homenagem a um semelhante, de Nathaniel Hawtorne. Neste e no de King, para sermos claros, estamos falando da presença súbita e terrível do Diabo. Que surge, se mostra simpático e depois, de forma dissimulada, procura cercar e destruir sua vítima. No fundo, o que marca esta noveleta é a discussão subjacente de alguns daqueles medos que temos na infância. Crescemos, viramos adultos. Mas no fundo de nossa intimidade, estes mesmos medos não nos abandonaram. King cria uma atmosfera de terror no velho-menino absolutamente convincente e, por isso mesmo, muito realista.

A seguir, somos apresentados a um representante comercial em profunda depressão. Está em um motel de beira de estrada no interior dos Estados Unidos, prestes a cometer suicídio. "Tudo o que você ama lhe será arrebatado" é uma história daquelas cotidianas, que acontecem todos os dias e depois lemos nas páginas da seção policial do jornal. Alfie era um cara relativamente bem-sucedido, casado e com filhos. Mas chegando à meia-idade, sem perspectiva de mudança em sua vida. Intui-se que este quadro seja o motivador da ação, mas o mais curioso é que não ficamos sabendo exatamente a razão de Alfie querer dar cabo de sua própria vida. E o final acentua ainda mais a dúvida, pois King deixa em aberto o destino do infortunado personagem.

O conto seguinte é "A morte de Jack Hamilton", e King escreve um segundo conto no estilo de homenagem. Aqui não a um autor em especial, mas às histórias policiais pulp dos anos 30, recheadas de foras-da-lei muito carismáticos e bem mais interessantes que os comportados homens-da-lei. Este conto mostra a fuga da gang de Jack Hamilton, num texto que consegue ir um pouco além da mera homenagem, devido as qualidades do próprio King, principalmente com relação à construção de personagens. Algo que ele sabe melhor do que a maioria dos escritores.

Já na "Câmara da morte" é uma história curiosa pelo tema: uma narrativa política situada em algum país do Caribe. Um opositor político é preso e torturado em um país que vive em uma ditadura. Isso não é familiar? Na maior parte do conto somos expostos ao interrogatório e às torturas em si. Ou seja: não é propriamente agradável embora, infelizmente, bastante familiar a qualquer brasileiro acima dos 40 anos. Ou cubano nos dias de hoje. Mas, o texto apela para uma solução absolutamente inverossímil de fuga do prisioneiro. Mas King assume isso, quando diz no comentário que fez ao final do conto que,

"Em tais histórias, o interrogado geralmente termina cuspindo tudo e depois sendo morto (ou enlouquecendo). Quis escrever uma com final feliz, por mais irreal que fosse. E aí está."

Pois é. Mas não convence. Se quisesse mesmo uma solução deste tipo – que é totalmente legítima –, deveria se esforçar mais, criar situações mais convincentes e não forçadas só para chegar ao seu desejo intencional.

A história seguinte volta a elevar de forma significativa a qualidade do livro. Refiro-me a "As irmãzinhas de Eluria". É uma espécie de variação sobre um tema, no caso o universo ficcional de A Torre negra. Isso porque esta história foi escrita fora da série, por encomenda a uma antologia de fantasia.

King resolveu, então, explorar um aspecto particular da série, no caso uma passagem da vida de um dos protagonistas, Roland. E o melhor é que não é necessário um conhecimento prévio da série. Esta história vale por si mesma. É das coisas de terror mais intensas que acompanhei nos últimos anos.

Em um mundo desolado, o viajante solitário Roland chega a uma cidade deserta, abandonada, fantasma. E é surpreendido por uns mutantes estranhos, esverdeados. Ele é capturado e levado até um hospital onde é cuidado por enfermeiras. Até aí, nada de muito aterrador. Mas o fato é que os doentes lá hospedados somem misteriosamente, um a um. E Roland percebe do que se trata o lugar e que na verdade estas enfermeiras são malignas, cruéis, enfermeiras da morte.

Morte também está presente na próxima história, a que dá título ao livro, "Tudo é eventual". Um rapaz descobre, meio por acaso, que tem poderes especiais. Tem a capacidade de influir na vida alheia, seja de uma pessoa ou de um animal. Basta que mentalize ou realize alguma tarefa indireta para que seu desejo se cumpra por completo ou em parte.

Também de forma misteriosa ele, sem saber ao certo, é recrutado por uma organização muito esquisita e secreta. Reúne ‘talentos’ com maneiras incomuns de influir na vida alheia, em benefício de um grupo oculto que os sustenta financeiramente.

Esta é uma narrativa com uma premissa interessante, sombria, que me provocou duas sensações: 1) um desconforto pelo personagem principal, que não me empolgou. Ao invés de provocar alguma empatia, me soou o contrário; 2) fiquei com a impressão que a história terminou de forma precipitada, abrupta, pois as situações ficaram abertas, não há uma conclusão ou desfecho claro.

E o tal ‘tudo é eventual’, passa aqui como uma ironia. Que trágicas ‘ironias’, ou eventualidades marcam coisas ruins, estúpidas, inexplicáveis na vida de pessoas (ou animais) – geralmente aquelas que consideramos como boas. Enfim, King nos coloca diante de uma explicação nada eventual sobre a razão de coisas absurdas e más acontecerem o tempo todo. Há uma explicação mas, curiosamente, procura desconstruir exatamente a noção de que ‘tudo é eventual’, como se houvesse um conserto oculto, maligno, conspiratório permeando a vida de cada um. Sinistro, sim, mas sem grande sustentação racional, mesmo para os parâmetros obviamente fantasiosos que a história postula. E de qualquer forma, a sucessão de ‘tudo é eventual’, sem qualquer conotação oculta ou fantástica é a mais desconcertante e perturbadora. A que provavelmente rege o universo em que vivemos.

Na próxima história somos confrontados novamente sobre porque algumas coisas horríveis acontecem. Em "A teoria de L.T. sobre animais de estimação", uma mulher abandona o marido e leva junto o cachorro de estimação do casal. O cara passa boa parte da história remoendo a razão do abandono e sai à sua procura. É uma noveleta de emoções e surpresas, pois ela começa em um tom cômico e vai, gradativamente, mudando em direção ao terror e à tristeza.

O relato seguinte é batido no horror como um todo e recorrente também na carreira de King. O tema do quadro que muda, a cada nova olhada de um observador. Neste "O vírus da estrada vai para o norte", contudo, o autor está inspirado e somos levados a acompanhar a história nada feliz de um escritor que ao voltar de uma conferência literária, depara com um quadro de aspecto estranho, em uma daquelas liquidações, "família vende tudo". Aqui nota-se outra recorrência de King: o terror que ronda a atividade de um escritor, já visto em vários contos e romances como, por exemplo, Angústia (1987), A metade negra (1989) e "Janela secreta, secreto jardim (1989).

A sucessão de mudanças no quadro é muito bem narrada. King imprime um ritmo forte e convincente. Espera-se que, no fim das contas, tudo seja alguma paranóia ou algum truque deste tipo. Mas só posso adiantar que a intensidade da solução assusta e mesmo surpreende pelo seu vigor.

O que já não é o caso de "Almoço no Café Ghotam". Um casal em litígio marca um almoço em um restaurante, no qual acertam, na presença dos seus respectivos advogados, um processo de separação amigável, depois do abandono da mulher. Aqui temos a segunda abordagem de King neste livro sobre este assunto.

Contudo, o que é surpreendente e desestruturador na história é a figura de um mâitre psicótico e assassino, que começa a cortar e matar sem piedade com uma grande faca – sem motivo aparente – os fregueses do local. E o casal é surpreendido e tem de procurar se defender para poder sobreviver à sangrenta loucura estabelecida.

Já a próxima narrativa é muito interessante. Em "Você só pode dizer o nome daquela sensação em francês", estamos falando no deja vù. Quando ao vivenciarmos um fato, temos a nítida impressão de já o termos vivenciado antes, mas sem saber como nem porquê. O conto é ainda narrado de uma maneira propositalmente estranha, ao transmitir a sensação de que os acontecimentos não são claramente percebidos, não parecem reais. Mas eles se insinuam e, mais que isso, se repetem, condenando o casal da história a fazer a mesma coisa de forma repetida. Como se presos a um inferno, como define o próprio King, em seus comentários sobre o conto, ao seu final. Um dos grandes momentos do livro.

Assim como a história seguinte. O aterrador "1.408". Segundo King, a sua versão de uma ‘sala fantasma em um hotel’. Um escritor quer passar uma noite em um hotel de Nova York que está fechado há décadas por ter fama de mal assombrado. Pessoas teriam sido queimadas, teriam enlouquecido e cometido suicídio e assassinato no tal quarto 1.408. O gerente do hotel tenta de todas as formas possíveis, dissuadir o escritor a levar à frente seu intento. Mas ele é irredutível e terá a sua noite no 1.408.

É uma história excelente de cômodo assombrado. Lembra O iluminado, na relação do hotel com o escritor Jack Torrance. E é bom lembrar que aqui também King retoma a questão sob o prisma dos escritores. Talvez para expiar, extravasar seus próprios sentimentos ao lidar com temas tão incomuns, perturbadores e assustadores, como o desta história puramente de horror.

"Andando na bala" vem a seguir. A badalada história que teve sucesso comercial ao ser publicada na internet e fez King virar capa da Time. No prefácio ele se disse desapontado, porque tanto a revista como a maioria das pessoas só lhe perguntavam o quanto estava ganhando com a história. Não lhe contavam o quê, afinal, tinham achado da história. Talvez porque não a tenham lido. Talvez porque tenham lido e não gostado. Talvez porque a história, embora muito boa – e é –, toque em um tema muito sensível, ao qual as pessoas não gostam de falar: a morte de entes queridos.

Fico com a primeira hipótese. Mas "Andando na bala" é uma história de emoções muito fortes e humanas com uma verossimilhança para além da qualidade do autor. Se insere no terreno de sua própria autobiografia, conforme ele mesmo anuncia no pequeno prefácio que escreve à história.

Temos aqui King em seu melhor momento, equilibrando de forma virtuosa, os mistérios da realidade e da imaginação, numa premissa clássica do sujeito que carona à beira da estrada e pode se dar mal, para falar de uma coisa básica, inescapável e profunda, como a morte em família. Ao final desta história tocante, dá para entender também porque King ficou tão contrariado por só elogiarem o êxito financeiro da história. Ele estava contando uma história dele, muito íntima. Quando nos expomos desta maneira, queremos, de uma forma ou de outra, alguma espécie de solidariedade.

Depois destas três histórias de alto nível, o livro termina de forma meio sem graça, com um conto que poderia ter sido limado. Refiro-me à "A moeda da sorte". Uma variação sobre a tentação perigosa e gananciosa do jogo. Nada mais do que uma fantasia simpática – porque, afinal, a intenção da mãe era louvável, pois tinha um filho deficiente –, mas com um desfecho um tanto moralista, o que acaba por destoar um pouco do ambiente geral do livro.

Reza a sabedoria convencional que numa coletânea – ou antologia – temos histórias boas e ruins. Não é possível agradar a todos com todas as histórias. O que dizer deste Tudo é eventual? Tudo bem, há histórias menos boas sim, mas temos algumas excepcionais, o que perfaz um conjunto altamente positivo e encorajador. Stephen King mostra que, embora esteja escrevendo romances cada vez mais volumosos, não perdeu o jeito para textos mais curtos – embora não muito curtos, como já frisado –, uma preocupação que ele mesmo demonstrava em seu prefácio. Pois como ele mesmo afirma em certa passagem do livro, ao comentar uma das histórias, os "contos são como artefatos: não coisas feitas, criadas por nós (e pelas quais possamos receber créditos), mas objetos preexistentes que desencavamos".

Esta declaração até pode ser verdadeira do ponto de vista dele. E para seus pares escritores. Mas o fato é que nem todos tem essa capacidade ‘preexistente’, um tipo de, digamos, instinto natural. Não só para conceber uma idéia mas, principalmente, torná-la literariamente interessante, fazê-la ganhar vida como uma história bem contada. Talento de alguns poucos, entre os quais o próprio King.

 

ooOoo

 

Marcello Simão Branco é jornalista e editor. É um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, com a versão de 2004 já disponível. Editou entre 1988 e 2004 o premiado fanzine Megalon, é autor do livro de crítica e referência Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004) e editou o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos (editora Ano-Luz, 1998). Contatos através do e-mail marcellobranco@ig.com.br.

 

 

 

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