{OptionalArea}

Leia Também...

 

Para conhecer o premiado fanzine
Megalon

Scarium Home Page
Sombras à Espreita nº 8
01/09/2004

O Sétimo Selo
Marcello Simão Branco

Esteve em cartaz em novembro de 2004 na cidade de São Paulo, o filme O Sétimo Selo (1956), do diretor sueco Ingmar Bergman. Não perdi tempo, pois só estava sendo reprisado em uma única sala e em um único horário no recentemente reformado cinema Belas Artes, um dos mais tradicionais da capital paulista. Já havia visto o filme há uns cinco anos, e desde então esta obra tem sido recorrente em minha mente, especialmente em momentos de alguma reflexão existencial.

O dramaturgo e cineasta Ingmar Bergman, nascido em 1918, em Uppsala, Suécia, é mundialmente reconhecido como um dos mais influentes cineastas já surgidos. Destaca-se como tema recorrente de sua obra uma busca transcendente, metafísica, sobre as razões da existência humana e sua eventual ligação com algo além, Divino. Pois bem. Em O Sétimo Selo, esta questão básica da vida é colocada de uma forma frontal, crua e perturbadora, como poucas vezes vista no cinema. E, para inserir e justificar o comentário desta obra dentro do gênero Horror, o fato é que Bergman, em primeiro lugar, trata de um tema que é horror em estado puro: a morte que espreita cada um de nós. E em segundo, de uma forma mais direta, pois cobre a narrativa com elementos fantásticos. Não o fantástico por si mesmo, mas como um eficiente recurso de parábola alegórica, conferindo uma forte impressão às questões refletidas. E chama a atenção também, o fato deste filme ser um dos poucos de sua filmografia a abrir mão de um tratamento essencialmente realista para os temas transcendentes que aborda.

Filmada em belíssimo preto e branco, a história se passa na Idade Média, contando a trajetória de regresso de um cavaleiro, Antonius Block (numa interpretação marcante de Max von Sydow) e seu escudeiro Jons, das Cruzadas, onde pela lâmina de suas espadas haviam subjugado ‘infiéis’ em nome do Deus cristão. Deprimidos e cansados, apreendem a inutilidade de suas ações, buscando algum sentido para toda aquela matança e para o mundo sombrio que testemunhavam. Uma época de perseguições religiosas, com pessoas sendo rotineiramente queimadas vivas em praças públicas, além da terrível chegada da Peste Negra (a peste bulbônica, transmitida por ratos contaminados por pulgas infectadas).

Assim, o mundo estava imerso no medo, na superstição e na presença cotidiana da morte, que a todos poderia levar de uma hora para outra. A peste matava de maneira rápida e dolorida e ceifou nesta época simplesmente um terço da população da Europa. Em termos percentuais foi a maior tragédia da história humana até os dias de hoje.

Bergman foi fundo no tema da procura de um sentido para a vida, em um ambiente tão sombrio e macabro. O cineasta afirmou certa vez em uma entrevista que "neste filme, o cavaleiro regressa da cruzada como, em nossos dias, um soldado volta da guerra. Na Idade Média, os homens viviam sob o terror da peste. Hoje vivem sob o terror da bomba." Estava-se, então, em plena Guerra Fria, sob o possível holocausto nuclear. Desta maneira, O Sétimo Selo pode ser interpretado como uma alegoria do século XX e do mundo que ainda vivemos, em forma de lenda medieval. "O tema é bastante simples" – completa o diretor –, "o homem e sua procura eterna de Deus, tendo apenas a morte como única certeza."

Participando das Cruzadas e testemunhando aquele mundo intolerante e degradado, o cavaleiro Block quer uma explicação, seja qual for, para entender que tudo aquilo que fez e que está presenciando não é uma completa perda de tempo. Em suma, ele deseja saber, e não crer.

Numa das seqüências explicitamente fantásticas – que irá se repetir por todo o filme –, Block encontra a Morte, à beira de uma praia deserta. Com rosto cadavérico, sob uma longa túnica negra e carregando a temível foice em uma das mãos, Ela se anuncia para levá-lo deste mundo. Mais surpreso por poder vê-la do que pelo que isso significa, Block propõe um acordo: um jogo de xadrez. Caso ele vença, a Morte lhe daria mais alguns anos de vida. A proposta é aceita e eles vão, por todo o filme, travando um insólito duelo. Mesmo com toda a bagagem de espectador de filmes de horror, esta presença da Morte, personificada de uma maneira tão verdadeira, em um mundo tão incerto e dilacerado, realmente me impressionou, não pelo medo em si, mas pelas implicações do que a Morte realmente representa na vida de cada um de nós.

 

De retorno à Suécia medieval, os dois viajantes travam contatos com diferentes figuras ao longo de sua jornada, como uma jovem muda prestes a ser estuprada por um ladrão barato, uma  procissão liderada por uma seita religiosa composta por homens com roupas negras com capuzes, conduzindo uma outra jovem para a fogueira sob a acusação de bruxaria, acompanhados por leprosos amarrados, também à espera de sua ‘purificação’. Esta cena é um dos pontos mais altos do filme, aqui pelo grau de realidade histórica do que realmente aconteceu naquela época.

À luz de fatos como estes, Block e Jons tornam-se cada vez mais céticos e desesperançados e a partida de xadrez começa a pender para o lado da Morte, não porque o cavaleiro jogue mal, mas porque sua esperança sobre um sentido divino para a vida vai se esvaindo. Antes de pender para o niilismo total, porém, ele encontra um jovem casal de recém-casados com seu bebê, artistas itinerantes que se apresentam em tavernas e praças públicas. E por meio da felicidade, da simplicidade do amor exemplificada pelo casal, Block passa a vislumbrar o único sentido que a vida pode apresentar: o amor entre as pessoas.

Cada vez mais presente, a Morte vai fazendo vítimas à vista de Block. Ele sabe que sua hora está por chegar, desiste da partida de xadrez e procura partilhar os últimos momentos de sua vida, ao lado de pessoas que compartilhem alguma solidariedade em um mundo tão sombrio e sem futuro como este.

Este filme, que não é de horror em termos estritos, é muito efetivo no sentido de despertar no espectador sentimentos centrais e incômodos: como a dúvida sobre a razão da vida e a inevitabilidade da morte. Onde Deus entra nisso? Conforme o próprio Block descobre, não há uma resposta definitiva. Ao invés, apenas o aumento da dúvida, da angústia, especialmente em três momentos. Primeiro, quando ele se aproxima da jovem ‘bruxa’ que será queimada e lhe interroga, esperando encontrar Deus através do Diabo, mas no olhar da torturada não vê nada além do medo. Depois, quando descobre que um dos principais fundamentos da religião é a semeadura do medo. Um homem contaminado pela peste pergunta a Jons se ele, de alguma forma, pode aliviar sua dor. Em tom áspero, o escudeiro diz que se o homem sente medo, deve correr para os braços dos padres. "Talvez eles possam ter alguma explicação." Mas esta suposta explicação é definitivamente desconsiderada, quando Block – numa cena antológica, de tantas –, pergunta à própria Morte, qual o sentido da vida. "Onde está Deus?" Para o seu choque, a Morte diz nada saber. Fria como uma máquina, apenas está ali para executar seu trabalho: retirá-lo do mundo. Bergman nos coloca aí diante da temível condição do "nada".

Este é um dos filmes mais profundos que já assisti. E suas discussões existenciais são ainda emolduradas por um estilo brilhante, com a intensidade dramática já inerente ao tema, sendo ampliada pela interpretação dos atores, pelo roteiro enxuto e cortante, pela cenografia fiel à época, nas composições e tomadas de câmara experimentais, além da música ora sussurrante, ora impactante que pontua as diferentes situações da obra.

Mas o filme não termina como uma reflexão pessimista da condição humana, que a nada restaria a não ser se corroer de dúvida ante a fatalidade da morte. Isso porque, uma espécie de esperança é vislumbrada, na presença do jovem casal de artistas e seu bebê. O amor partilhado e a valorização de fatos simples e solidários, conferem, assim, uma espécie de significado concreto à nossa curta passagem pela Terra. E se na primeira vez que vi o filme, deixei a sala cheio de dúvidas e melancolia, ao vê-lo de novo, me senti existencialmente mais reconfortado, ao compreender um pouco melhor a réstia de esperança concreta que Bergman transmite, especialmente na ambígua e até lírica cena final desta obra-prima.

 

O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), Suécia, 1956, 102 minutos. Direção e roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça Pintura Sobre Madeira (1954). Produção: Allan Ekelund para Svensk Filmindustri. Elenco: Max von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Pope, Bibi Andersson, Inga Gill, Erik Strandmark, Gunnel Lindblom, Anders Ek, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson e Inga Landgre. Fotografia em preto e branco: Gunnat Fisher. Música: Erik Nordgren. Montagem: Lennart Wallen. Cenografia: P.A. Lundgren. Coreografia: Else Fisher. Continental, VHS e DVD.

Marcello Simão Branco é jornalista e editor. Publica o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988. É autor do livro de ensaio literário Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004) e editou o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos (editora Ano-Luz, 1998). Contatos através do e-mail marcellobranco@ig.com.br.

 

voltar para artigos | voltar para a capa

 

Todos os direitos reservados
©2004 Scarium Megazine