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01/09/2004

Dez Anos sem o Cavalheiro do Horror
Marcello Simão Branco

Há exatamente uma década, em 11 de agosto de 1994, falecia o ator inglês Peter Cushing, um dos ícones do cinema de horror. Uma das características mais curiosas de sua carreira foi ter atuado em vários filmes do gênero sem quase nunca ter sido o vilão principal. Este papel coube na maioria das vezes ao seu amigo e parceiro Christopher Lee. Ao "cavalheiro do horror" ficou a terefa de combater monstros, lobisomens, alienígenas e principalmente vampiros. Tudo à sua maneira, é claro, pois ele não era o tipo galã que provocava suspiros na platéia: apesar de lutar contra o mal, era um intelectual emocionalmente reprimido, excêntrico, circunspecto e, acima de tudo, britânico.

Nascido em 26 de maio de 1913 na cidadezinha de Kenley, Inglaterra, Cushing estudou teatro nas melhores escolas, atuou como assistente de direção durante alguns anos até sua estréia em 1935 na peça The Middle Watch. Já à época era um fã dos filmes de horror americanos da Universal Pictures, e então atravessou o Atlântico e foi tentar a sorte em Hollywood. Sua experiência não foi das mais bem sucedidas, atuando em papéis coadjuvantes em algumas comédias da dupla O Gordo e o Magro.

Sua estréia no cinema aconteceu em 1941 no filme The Man in the Iron Mask. No mesmo ano, estreou em Hollywood na produção de Vigil in the Night. Mas rolava a Segunda Guerra Mundial e ele acabou recrutado para atuar numa série de curta-metragens pró-aliados como parte do esforço de guerra.

Pelo fim dos anos 40 Cushing voltou aos palcos londrinos, mas foi no filme de Sir Lawrence Olivier que ele se destacou como um dos personagens de Hamlet, de Shakespeare. A seguir atuou em algumas produções inglesas sempre com papéis cada vez mais complexos. Até que em 1954 foi aclamado por sua atuação como o atormentado Winston Smith, na adaptação da TV inglesa do romance 1984 de George Orwell.

 

Glória na Hammer

Por essa época estava nascendo na Inglaterra uma nova escola de cinema de horror, a Hammer Films. Apesar de produções modestas, remodelou o gênero bastante desgastado com as produções da Universal dos anos 30 e 40. Entre suas principais virtudes e inovações, havia a ênfase na fotografia excessivamente colorida, quase berrante, a música tocada ao som de órgãos e outros instrumentos pouco usuais, recontando velhos clássicos de uma maneira mais violenta, sensual e com um clima gótico muito eficiente. Mas foi, sobretudo, com atores carismáticos que a Hammer fez história. Houve um grupo deles, mesmo os coadjuvantes, mas os dois astros foram o vilão Christopher Lee e o cavalheiro Peter Cushing. Parceiros de atuação e antagonistas nas histórias, um completava o outro, com charme, talento e alguma dose de ironia, de não levar totalmente a sério os papéis que desempenhavam. A eles merece igual destaque o diretor Terence Fisher, o grande artesão e estilista da maneira Hammer de contar uma história de horror.

E foram vários os sucessos da produtora, a começar com A Maldição de Frankenstein (1957), O Vampiro da Noite (1958), O Cão dos Baskervilles (1959), A Múmia (1959), A Górgona (1964), Ela (1965) – este último estrelado pela suprema bondgirl Ursula Andrews, como uma estranha e poderosa mulher de uma ilha esquecida, baseada num romance do criador de Tarzan, Edgar Rice Burroughs – e outros verdadeiros clássicos do cinema de horror.

Assim, coube a Cushing interpretar o Barão Victor Frankenstein, o caçador de vampiros Van Helsing, um arqueólogo idealista às voltas com a maldição da múmia e até Sherlock Holmes. Sempre mantendo intactas suas peculiaridades exóticas, aristocráticas, soturnas. Características parecidas com sua própria pessoa.

Peter Cushing é muito lembrado também como o cientista louco de dois filmes para o cinema da série de ficção científica inglesa da BBC, A Guerra dos Daleks, uma série de TV que não foi até hoje exibida no Brasil. Trata-se de uma legenda da TV inglesa sendo exibida por mais de dez anos ininterruptos. O longa-metragem é de 1965 e nessa época Cushing ainda interpretava vários papéis para a Hammer. Além de sua longa interpretação como Dr. Who, é bom ressaltar que atuou também em dezenas de telefilmes, com especial destaque para a produção The Caves of Steel (1964) – raríssima –, uma adaptação do bom romance Caça aos Robôs, de Issac Asimov. Cushing interpretou o protagonista, o investigador Elijah Baley.

No início dos anos 70, ele mudou de produtora. Com a decadência da Hammer, foi para a rival (e não tão brilhante) Amicus e emprestou seu talento a bons filmes, como A Casa que Pingava Sangue (1970) – quatro histórias curtas, baseadas em contos de Robert Bloch – , O Expresso do Horror (1972) e A Essência da Maldade (1973). Estes dois últimos falando, coincidentemente, de monstros há muito esquecidos das estepes siberianas e de ilhas indonésias. Todos, ao lado do parceiro e vilão Lee, que também mudou de produtora.

Armadilhas

Da mesma maneira que a fórmula de filmes de horror foi usada à exaustão pela Universal Pictures, o mesmo fez a Hammer. Resultado: filmes cada vez piores, bilheterias menores, cancelamento de novas produções, desemprego para a maioria dos atores. E Cushing atuou em ‘pérolas’, algumas curiosas até pelo título, como por exemplo, Drácula no Tempo da Mini-Saia, de 1972.

Desta forma, a exemplo dos astros Bela Lugosi e Boris Karloff, que pagaram um alto preço nos anos 50 e 60 por trabalharem em várias produções de horror de má qualidade, caminho parecido seguiram os ídolos ingleses Peter Cushing e Christopher Lee, atuando em vários filmes ruins no início dos anos 70, para em seguida verem minguar os convites para atuarem em produções de melhor qualidade.

 

 

 

Afora a queda dos bons personagens para interpretar, Cushing sofreu um duro golpe em 1971, quando morreu sua mulher Helen Cushing. O ator era muito apegado a ela, a amava de uma maneira intensa, e o declínio de sua carreira também pode ter sido motivado pela perda da esposa.

Mesmo assim, corria o ano de 1977 e um jovem cineasta hollywoodiano, deu o último papel digno a Cushing. O diretor era George Lucas, que foi filmar na Inglaterra (pois os cachês eram mais baratos) e fazer história com a space-opera Guerra nas Estrelas. Cushing interpretou o personagem malígno de Grand Moff Tarkin, comandante de Darth Vader nas forças do Império.

No conjunto de sua filmografia, Peter Cushing brilhou no clássico de Lucas e é saudado como o Dr. Who pelos fanáticos fãs desta série inglesa. Mas dez anos após sua morte o que melhor representa sua carreira são os personagens que fez para a Hammer. Sherlock Holmes, o Barão Victor Frankenstein e, sobretudo, o Professor Van Helsing, são as principais facetas daquele que está justamente imortalizado como o gentleman of horror.

Os Principais Filmes de Peter Cushing:

O ator teve uma carreira bastante longa de 47 anos, onde atuou em 133 produções, entre cinema e TV. Segue uma listagem básica, com 50 dos seus filmes.

— The Man in the Iron Mask, de 1939

— Vigil in the Night, de 1940

— Hamlet (Hamlet), de 1948

— 1984 (1984), de 1954

— Alexander the Great (Alexandre, o Grande), de 1956

— The Curse of Frankenstein (A Maldição de Frankenstein), de 1957

— The Abominable Snowman (O Monstro do Himalaia), de 1957

— Horror of Dracula (O Vampiro da Noite), de 1958

— Revenge of Frankenstein (A Vingança de Frankenstein) , de 1958

— The Hound of the Baskervilles (O Cão dos Baskervilles), de 1959

— The Mummy (A Múmia), de 1959

— The Flesh and the Fiends (A Carne e o Diabo), de 1959

— The Brides of Dracula (As Noivas de Drácula), de 1960

— The Man who Finally Died, de 1962

— The Evil of Frankenstein (O Monstro de Frankenstein), de 1964

— The Caves of Steel, de 1964

— The Gorgon (A Górgona), de 1964

— Dr. Terror’s House of Horrors (As Profecias do Dr. Terror), de 1965

— She (Ela) , de 1965

— The Skull, de 1965

— Dr. Who and the Daleks (A Guerra dos Daleks), de 1965

— Frankenstein Created Woman (E Frankenstein Criou a Mulher), de 1967

— Torture Garden (As Torturas do Dr. Diábolo), de 1967

— Frankenstein Must Be Destroyed (Frankenstein Tem de Ser Destruído), de 1969

— Scream and Scream Again (Grite, Grite Outra Vez), de 1969

— The Vampire Lovers (Carmilla, a Vampira de Karnstein), de 1970

— The House that Dripped Blood (A Casa que Pingava Sangue), de 1970

— I, Monster (O Soro Maldito), de 1971

— Twins of Evil (As Filhas de Drácula), de 1971

— Tales From the Crypt (Contos do Além), de 1972

— Fear in the Night (Um Grito Dentro da Noite), de 1972

— Nothing But the Night (Terror na Penumbra), de 1972

— Dr. Phibes Raises Again (A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes), de 1972

— Asylum (Asilo Sinistro), de 1972

— Dracula A.D. (Drácula no Mundo da Mini-Saia), de 1972

— And Now the Screaming Starts! (Os Gritos que Aterrorizam), de 1973

— The Creeping Flesh (A Essência da Maldade) , de 1973

— Horror Express (O Expresso do Horror), de 1973

— From Beyond the Grave (Vozes do Além), de 1973

— The Satanic Rites of Dracula (Os Ritos Satânicos de Dracula), de 1974

— Madhouse (A Casa do Terror), de 1974

— The Legend of the Golden Vampires (A Lenda dos Sete Vampiros), de 1974

— The Beast Must Die (A Fera Deve Morrer), de 1974

— The Ghoul (O Carniçal), de 1975

— At the Earth’s Core (No Coração da Terra), de 1976

— The Uncanny (Trama Sinistra), de 1977

— Star Wars (Guerra nas Estrelas) , de 1977

— The Mystery of Monster Island (O Mistério da Ilha dos Monstros), de 1980

— House of the Long Shadows (A Mansão da Meia-Noite), de 1983

— Adventures in Time, de 1986

Agradeço a Renato Rosatti pela indicação de alguns filmes e a checagem dos títulos em português.

Marcello Simão Branco é jornalista e editor. Publica o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988. Editou e organizou o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos, pela editora Ano-Luz em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.

 

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