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Ao
largo deste pequeno, mas efetivo boom de lançamentos de livros de e
sobre horror verificados nos últimos dois ou três anos no Brasil, um
autor, em princípio, tem passado desapercebido. E quem perde com isso
são os leitores, especialmente a boa parte que vem consumindo e lendo
estes livros mais recentemente. Quem é ele? Seu nome é Carlos Orsi
Martinho. Jornalista, natural de Jundiaí, interior de São Paulo, tem
escrito e publicado dezenas de contos de horror e ficção científica
há pouco mais de dez anos. Seus veículos principais de exposição
são os fanzines, tais como o Juvenatrix, o Megalon e o Somnium. Mas
não só: alguns de seus notáveis trabalhos foram publicados em
antologias temáticas, como Outras Copas, Outros Mundos (1998) e
Phantastica Brasiliana (2000), ambos pela editora Ano-Luz. Também teve
um pequeno livro em versão amadora publicado também pela Ano-Luz em
2000, a coletânea O Mal de Um Homem, com quatro de suas histórias mais
representativas.
Martinho
vem se notabilizando como um escritor com bom domínio da técnica em
contar uma boa história e competente em criar um clima sombrio,
opressivo e, por vezes, chocante, em suas histórias. Muito prolífico,
escreve contos com rapidez e facilidade, sem perda de criatividade e um
texto mais apurado do ponto de vista do estilo e da gramática. Na
coluna deste mês, em vez de explanar teoricamente sobre suas virtudes,
melhor é comentar algumas de suas histórias mais características, que
foram reunidas na coletânea Medo, Mistério e Morte, lançado na Bienal
do Livro de São Paulo, em 1996, pela editora Didática Paulista,
voltada ao mercado de livros infanto-juvenis para escolas.
São
seis histórias, entremeadas por uma prosa na melhor tradição do
horror cósmico do 'maldito' autor americano H.P. Lovecraft (1890-1937)
- um cara que vivia no porão de sua casa na companhia de dezenas de
gatos e escreveu histórias em que uma antiga raça de monstros do
espaço teria habitado a Terra. Expulsos, estariam preparando sua
vingança para se apossar de nosso planeta novamente. Martinho é o
primeiro a reconhecer a influência de seu mestre em sua arte. Tanto que
das seis narrativas, quatro se ambientam no mesmo universo ficcional.
Exemplo
maior vem com a história que abre a coletânea: "A Maldição do
Ang Mbai-Aiba". A atmosfera criada nas páginas do texto é de
arrepiar e o autor não se inibe em mostrar cenas chocantes, que nada
devem aos filmes splatter atuais. Em plena Serra do Japi (próximo à
sua Jundiaí), se esconde mistérios inomináveis, levados a termo por
um certo professor Friedreich Spinnen, pesquisador de ocultismo e
antropologia. Experiências horripilantes são realizadas em sua
mansão, inspiradas num livro sagrado tupi-guarani. A referência ao
clássico proscrito inventado por Lovecraft, o Necronomicon, é patente.
Na
mesma linha segue outra boa história, "A Fábrica" -
vencedora do Prêmio Nova em 1995. Aqui os enigmas mortais se escondem
nos ângulos impossíveis, não euclidianos, das quinas dos cômodos de
fábricas e casas antigas. Há o cenário no interior do Brasil,
referências a livros ocultos, relação aluno-professor, que é outra
característica de suas histórias, sempre ambientadas em ambientes
acadêmicos, também indo de encontro a Lovecraft - se você leu o
clássico "Nas Montanhas da Loucura" sabe do que estou
falando.
"As
Noites de Sanhaim" recebe um tratamento mais explícito e sensual.
Aqui o sexo ganha o primeiro plano no relato de um sujeito que vinga a
morte da irmã traída pelo namorado. As imagens finais são delirantes
e fantásticas, embora fique um gosto de quero mais no ar. Aliás, este
é um dos poucos problemas da prosa de Martinho: não saber encerrar na
hora certa (ou da maneira certa) uma história. Ele costuma cortá-la
quase que no clímax. Isto
volta a acontecer com sua história mais elaborada, inventiva — e que
foge da influência de Lovecraft — “Aprendizado”. Numa Terra
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alternativa,
os continentes tem outra distribuição e tamanho. Bem à moda do imaginário
medieval europeu, não se conhece o planeta por inteiro. Lendas e
superstições dominam o ‘além da montanha’. Até que uma expedição
resolve tirar isso a limpo. Ele leva a história com competência, só
que dilui o impacto final de forma abrupta.
"Projeto
Cassandra" e "Estranhos no Ninho" são as duas histórias
escritas especialmente para o livro, pois não foram publicadas em
fanzines. Estão no mesmo nível das anteriores. A primeira é uma
incursão à histórias de OVNIs, bem ao estilo de séries de TV como Os
Invasores ou Arquivo X. Aqui ele não supera a influência em que se
baseou, não inovando em nada uma temática já bem desgastada. Mais
sorte ele consegue ao voltar ao mundo neo-lovecraftiano. "Um
Estranho no Ninho" mostra a fascinante história dos strix, seres
imemoriais, simbiose entre vampiro-coruja-homem. Para dar um toque
nacional, a história se passa numa paradisíaca ilha do litoral baiano.
Medo
Mistério e Morte, já passados sete anos de sua publicação original,
ainda é um bom exemplo da prosa do autor e de suas motivações
temáticas. Como já dito, é forte a influência do seu
autor-inspiração H.P. Lovecraft, mesmo com contos que dão uma leitura
brasileira para as características temáticas do autor americano,
conseguindo desta forma, escapar de um mero pastiche. Contudo, o melhor
da prosa de Martinho, nestes últimos anos, têm sido nas histórias
onde ele procura dar uma voz própria aos seus trabalhos. Ou seja:
libertar-se da influência lovecraftiana. Assim é, por exemplo, com
textos de primeira categoria, como "A Engrenagem Vulgar",
"Questão de Sobrevivência", "Planeta dos Mortos" e
"Estes 15 Minutos".
Esta
tendência ainda não está plenamente consolidada, mas acredito que é
apenas uma questão de mais amadurecimento literário, para que Martinho
possa ser reconhecido apenas e tão somente pelo estilo e temas de suas
histórias. Ainda que seus textos influenciados por Lovecraft ou outros
universos ficcionais sejam divertidos e criativos o bastante para valer
também uma leitura própria.
Sem
querer forçar uma barra, Martinho me lembra o caso do autor americano
Robert Bloch (1917-1994), autor de Psicose (1959) - romance que deu
origem ao filme clássico de Hitchcock -, que começou sua carreira
influenciado por Lovecraft. Tal como Martinho, já mostrava um talento
além do mero pastiche. E ao se desenvolver, deixou Lovecraft para
trás, se tornando um escritor prestigiado dentro do horror psicológico
e sobrenatural, ao criar temas e estilos próprios. Poderá Martinho ser
um Bloch brasileiro?
Por
essas e outras possibilidades é que ele deve ser mais conhecido por
parte dos leitores, pois suas histórias são melhores do que as que vem
sendo publicadas em dezenas de livros pelas editoras brasileiras, sempre
tão incompetentes e preguiçosas em descobrir novos talentos.
Medo,
Mistério e Morte, livro de Carlos Orsi Martinho. Editora Didática
Paulista, Coleção "Novos Caminhos", 165 páginas. Para
comprar peça diretamente ao autor: Rua Zacaria de Goes, 404 - Ap. 92 -
CEP 13200-170 Jundiaí, SP. E-mail: carlos.martinho@terra.com.br.
Marcello
Simão Branco é jornalista e cientista político. Edita o fanzine de
ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser
sócio da Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de
contos Outras Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e
sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu
e-mail: marcellobranco@ig.com.br.
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