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Sombras à Espreita
20/10/2003

Um Horror de Lovecraft ao Tupiniquim
Marcello Simão Branco

Ao largo deste pequeno, mas efetivo boom de lançamentos de livros de e sobre horror verificados nos últimos dois ou três anos no Brasil, um autor, em princípio, tem passado desapercebido. E quem perde com isso são os leitores, especialmente a boa parte que vem consumindo e lendo estes livros mais recentemente. Quem é ele? Seu nome é Carlos Orsi Martinho. Jornalista, natural de Jundiaí, interior de São Paulo, tem escrito e publicado dezenas de contos de horror e ficção científica há pouco mais de dez anos. Seus veículos principais de exposição são os fanzines, tais como o Juvenatrix, o Megalon e o Somnium. Mas não só: alguns de seus notáveis trabalhos foram publicados em antologias temáticas, como Outras Copas, Outros Mundos (1998) e Phantastica Brasiliana (2000), ambos pela editora Ano-Luz. Também teve um pequeno livro em versão amadora publicado também pela Ano-Luz em 2000, a coletânea O Mal de Um Homem, com quatro de suas histórias mais representativas.

Martinho vem se notabilizando como um escritor com bom domínio da técnica em contar uma boa história e competente em criar um clima sombrio, opressivo e, por vezes, chocante, em suas histórias. Muito prolífico, escreve contos com rapidez e facilidade, sem perda de criatividade e um texto mais apurado do ponto de vista do estilo e da gramática. Na coluna deste mês, em vez de explanar teoricamente sobre suas virtudes, melhor é comentar algumas de suas histórias mais características, que foram reunidas na coletânea Medo, Mistério e Morte, lançado na Bienal do Livro de São Paulo, em 1996, pela editora Didática Paulista, voltada ao mercado de livros infanto-juvenis para escolas.

São seis histórias, entremeadas por uma prosa na melhor tradição do horror cósmico do 'maldito' autor americano H.P. Lovecraft (1890-1937) - um cara que vivia no porão de sua casa na companhia de dezenas de gatos e escreveu histórias em que uma antiga raça de monstros do espaço teria habitado a Terra. Expulsos, estariam preparando sua vingança para se apossar de nosso planeta novamente. Martinho é o primeiro a reconhecer a influência de seu mestre em sua arte. Tanto que das seis narrativas, quatro se ambientam no mesmo universo ficcional.

Exemplo maior vem com a história que abre a coletânea: "A Maldição do Ang Mbai-Aiba". A atmosfera criada nas páginas do texto é de arrepiar e o autor não se inibe em mostrar cenas chocantes, que nada devem aos filmes splatter atuais. Em plena Serra do Japi (próximo à sua Jundiaí), se esconde mistérios inomináveis, levados a termo por um certo professor Friedreich Spinnen, pesquisador de ocultismo e antropologia. Experiências horripilantes são realizadas em sua mansão, inspiradas num livro sagrado tupi-guarani. A referência ao clássico proscrito inventado por Lovecraft, o Necronomicon, é patente.

Na mesma linha segue outra boa história, "A Fábrica" - vencedora do Prêmio Nova em 1995. Aqui os enigmas mortais se escondem nos ângulos impossíveis, não euclidianos, das quinas dos cômodos de fábricas e casas antigas. Há o cenário no interior do Brasil, referências a livros ocultos, relação aluno-professor, que é outra característica de suas histórias, sempre ambientadas em ambientes acadêmicos, também indo de encontro a Lovecraft - se você leu o clássico "Nas Montanhas da Loucura" sabe do que estou falando.

"As Noites de Sanhaim" recebe um tratamento mais explícito e sensual. Aqui o sexo ganha o primeiro plano no relato de um sujeito que vinga a morte da irmã traída pelo namorado. As imagens finais são delirantes e fantásticas, embora fique um gosto de quero mais no ar. Aliás, este é um dos poucos problemas da prosa de Martinho: não saber encerrar na hora certa (ou da maneira certa) uma história. Ele costuma cortá-la quase que no clímax. Isto volta a acontecer com sua história mais elaborada, inventiva — e que foge da influência de Lovecraft — “Aprendizado”. Numa Terra 

alternativa, os continentes tem outra distribuição e tamanho. Bem à moda do imaginário medieval europeu, não se conhece o planeta por inteiro. Lendas e superstições dominam o ‘além da montanha’. Até que uma expedição resolve tirar isso a limpo. Ele leva a história com competência, só que dilui o impacto final de forma abrupta.

"Projeto Cassandra" e "Estranhos no Ninho" são as duas histórias escritas especialmente para o livro, pois não foram publicadas em fanzines. Estão no mesmo nível das anteriores. A primeira é uma incursão à histórias de OVNIs, bem ao estilo de séries de TV como Os Invasores ou Arquivo X. Aqui ele não supera a influência em que se baseou, não inovando em nada uma temática já bem desgastada. Mais sorte ele consegue ao voltar ao mundo neo-lovecraftiano. "Um Estranho no Ninho" mostra a fascinante história dos strix, seres imemoriais, simbiose entre vampiro-coruja-homem. Para dar um toque nacional, a história se passa numa paradisíaca ilha do litoral baiano.

Medo Mistério e Morte, já passados sete anos de sua publicação original, ainda é um bom exemplo da prosa do autor e de suas motivações temáticas. Como já dito, é forte a influência do seu autor-inspiração H.P. Lovecraft, mesmo com contos que dão uma leitura brasileira para as características temáticas do autor americano, conseguindo desta forma, escapar de um mero pastiche. Contudo, o melhor da prosa de Martinho, nestes últimos anos, têm sido nas histórias onde ele procura dar uma voz própria aos seus trabalhos. Ou seja: libertar-se da influência lovecraftiana. Assim é, por exemplo, com textos de primeira categoria, como "A Engrenagem Vulgar", "Questão de Sobrevivência", "Planeta dos Mortos" e "Estes 15 Minutos".

Esta tendência ainda não está plenamente consolidada, mas acredito que é apenas uma questão de mais amadurecimento literário, para que Martinho possa ser reconhecido apenas e tão somente pelo estilo e temas de suas histórias. Ainda que seus textos influenciados por Lovecraft ou outros universos ficcionais sejam divertidos e criativos o bastante para valer também uma leitura própria.

Sem querer forçar uma barra, Martinho me lembra o caso do autor americano Robert Bloch (1917-1994), autor de Psicose (1959) - romance que deu origem ao filme clássico de Hitchcock -, que começou sua carreira influenciado por Lovecraft. Tal como Martinho, já mostrava um talento além do mero pastiche. E ao se desenvolver, deixou Lovecraft para trás, se tornando um escritor prestigiado dentro do horror psicológico e sobrenatural, ao criar temas e estilos próprios. Poderá Martinho ser um Bloch brasileiro?

Por essas e outras possibilidades é que ele deve ser mais conhecido por parte dos leitores, pois suas histórias são melhores do que as que vem sendo publicadas em dezenas de livros pelas editoras brasileiras, sempre tão incompetentes e preguiçosas em descobrir novos talentos.

Medo, Mistério e Morte, livro de Carlos Orsi Martinho. Editora Didática Paulista, Coleção "Novos Caminhos", 165 páginas. Para comprar peça diretamente ao autor: Rua Zacaria de Goes, 404 - Ap. 92 - CEP 13200-170 Jundiaí, SP. E-mail: carlos.martinho@terra.com.br.

Marcello Simão Branco é jornalista e cientista político. Edita o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser sócio da Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.

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